terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 9

Vila Flor - 1951
Tomás Rodrigues Pereira. Nasceu em Vila Flor por 1605 e faleceu em Amesterdão em 1699. Depois de casar com Beatriz Gomes, o casal deixou Vila Flor e foi para Madrid. Em Espanha começou por trabalhar no negócio da distribuição do sal e nos anos 30 tornou-se conhecido como exportador de lãs para França. Em tais negócios usava o pseudónimo de Francisco de Gurre, o que deixa adivinhar alguma margem de ilegalidade ou fuga aos impostos. Por 1640, seguiu com a mulher, os filhos e a sogra para Amesterdão, abraçando claramente o judaísmo e tomando o nome de Abraão Israel, ao circuncidar-se, naturalmente. Mercador abastado e influente no seio da comunidade, conseguiu autorização para instalar uma refinaria de açúcar, a primeira que houve em Amesterdão. O tempo era de angústia para os sefarditas, com o “auto de fé” de Toulouse, em França e a Inglaterra a abrir-se aos católicos. Tomás Rodrigues Pereira não podia ficar indiferente e colocou-se desde logo ao lado de Guilherme III na luta contra o rei de Inglaterra Jaime II, tomando o encargo do abastecimento das tropas, juntamente com Álvaro machado. Esta operação terá sido coordenada pelo seu filho Jacob e terá envolvido 28 padeiros, 700 a 800 cavalos e 300 a 400 vagões. Não era coisa fácil dar de comer a exércitos estacionados, quanto mais em manobras de invasão de um país estranho. Para além de mercador, Tomás era também banqueiro e foi um doa 20 fundadores do Banco de Hamburgo, o primeiro que existiu. E era também um homem de letras e o seu nome está ligado à fundação do primeiro jornal impresso a nível mundial – a Gazeta de Amesterdão. Tal como aparece entre os fundadores da célebre Academia dos Floridos, cujo membro mais brilhante foi Oróbio de Castro. Quando em 1666 chegou a Amesterdão a notícia de que o Messias havia aparecido e estava na Terra Santa, pronto a tomar a liderança da nação hebreia, Tomás meteu-se logo a caminho da Palestina ao encontro do Messias. Descobriu-se o logro quando Tomás Pereira ia já em Veneza e terá sofrido uma tremenda desilusão. Mas isso não o fez esmorecer na fé mosaica e não impediu que ele custeasse a criação de uma escola talmúdica, espécie de seminário, em hebron, na Terra Santa. E quando faleceu, deixou 46 000 florins à Talmud Totah de Amesterdão. De entre os seus escritos religiosos, destacam-se dois livros: Certeza del Camiño e Espejo de la vanidad del Mundo. Será que nas escolas de Vila Flor o nome deste grande sefardita foi alguma vez citado, como exemplo para as gerações mais novas?
António Júlio Andrade

domingo, 14 de outubro de 2012

Descendentes de Francisco Rodrigues Brandão Faro entre Viseu e Londres

por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães
MONCORVO .1974

No dia 26 de Maio de 1779, na cidade de Londres, fazia seu testamento um indivíduo que se identificava como mercador, natural de Viseu e se assinava Joshua Rodrigues Brandão. Anos antes, em 25.1.1768, na mesma cidade, um outro mercador, chamado Abraham Rodrigues Brandão tinha feito testamento semelhante. Para além da identificação, do expresso desejo de ser sepultado no cemitério dos Portugueses, das disposições sobre a herança dos bens, Abraham deixava 20 libras/ano para a sua irmã Mariana, casada com Mateus Oróbio Furtado, residente em Viseu. E contemplava ainda seus sobrinhos, filhos de sua irmã Isabel, casada com João Pereira Dias, residente em França. 
Sem dúvida que os nomes judaicos de Abraham e Joshua não foram os recebidos no baptismo cristão feito em Portugal, antes foram adoptados depois da fuga para o estrangeiro e ingresso na comunidade judaica, porventura no acto da sua circuncisão. Sabemos, porém, que Abraham e Joshua eram irmãos e ambos deixaram descendência directa. Alguns de seus descendentes continuaram vivendo em Inglaterra e outros emigraram para o continente americano, ganharam notoriedade e são bem conhecidos.
E foi a seu pedido que nós partimos à procura dos ascendentes de Mariana, Abraham, Joshua e outros seus parentes. Naturalmente que, por se tratar de gente cristã-nova, a procura começou pelos arquivos da Inquisição Portuguesa. E logo verificámos que Mariana e seus 7 irmãos foram quase todos hóspedes daquele tribunal, como, aliás, muitos mais parentes seus. Possivelmente também o terão sido Joshua e Abraham que então teriam os nomes de João e Lopo Rodrigues Brandão, segundo pensamos, se bem que não tenhamos ainda provas concretas desta identidade. Mas temos a certeza de que ambos eram filhos de Francisco Rodrigues Brandão Faro e de Guiomar Rodrigues Portelo, estes nascidos por 1662 e que também conheceram as masmorras do Santo Ofício.
Fiquemos então em Viseu, na Rua Nova, na morada de Francisco e Guiomar, ao início do mês de Novembro de 1698, quando a Inquisição o foi prender. Antes de mais, diga-se que ele suspeitava que poderia ser preso já que, antecipadamente ele tratara de enviar uma pequena fortuna (quase de 3 contos de réis, em “250 ducatões de ouro”!) para Londres. E, no próprio dia da prisão, entrando ele em casa, uma criada lhe dissera que fora ali procurado pelo padre António Chaves, vizinho da Rua Nova, que até entrou no seu escritório e se pôs a mexer-lhe nos papéis. E ao ouvir isto, Francisco foi direito aos papéis, ripou da folha comprovativa do envio dos 250 ducatões para Londres e rasgou-a atirando os pedacinhos pela janela para a rua. Só que o mesmo padre estava de vigia e mandou um rapazito apanhar os pedaços de papel e reconstituiu a folha. Era realmente um conhecimento (tipo nota de recibo) da remessa daquele dinheiro, uma prova de que ele estava colocando no estrangeiro os seus recursos financeiros e talvez preparando a fuga.
Bom, vejamos agora a situação económica do casal. Antes de mais, diga-se a casa onde moravam era muito boa pois foi avaliada em 250 mil réis. O casal era ainda proprietário de uma casa sita numa das 4 esquinas da mesma rua, vendida por 140 mil réis, de 2 outras na mesma rua que serviam de tulha para recolha do cereal e mais uma pegada às tulhas, que arrematara um ano antes por 120 mil réis no Juízo do Fisco. Em Viseu ainda, na Rua da Carvoeira, era co-proprietário de mais 2 casas. Do seu património imobiliário constava ainda uma casa sita em Lisboa, junto à igreja de Santa Engrácia, a qual era dotada de uma atafona que, pensamos, serviria para moer os fardos de tabaco vindos do Brasil. Aliás, a casa e atafona tinham o formidável valor de 750 mil réis!
E vale bem a pena dizer que o imóvel pertencera em tempos ao chantre da Sé de Viseu, o licenciado João Saraiva de Carvalho. Foi dada como hipoteca de uma dívida de 600 mil réis a um seu parente que morava no Brasil – Francisco Rodrigues, o Temeroso, de alcunha – e, talvez por não ter filhos, chegou ás mãos de Brandão Faro e de sua tia por afinidade, Leonor Mendes, viúva de João Rodrigues Portelo.
E estes são 3 elementos da rede familiar de negócios de Francisco Brandão Faro. E se do Brasil recebia fardos de tabaco e caixas de açúcar descarregadas em Lisboa, para aquela colónia, enviava em troca remessas de vinho, tecidos, ferramentas… A título de exemplo, diremos que, tempo antes da prisão, ele remetera para o Brasil 35 almudes de aguardente, carregados no Porto por seu primo Diogo Vaz Faro que, por sua vez, recebia 3 arrobas de “pau cravo”. A aguardente, porém, era fabricada na Sabugosa, termo de Tondela, onde Francisco tinha montado um alambique de cobre. E ali tinha também um celeiro onde recolhia o cereal proveniente das rendas que trazia arrematadas à Mitra de Viseu.
Mas, se no Porto era Diogo Vaz que tratava dos negócios de Francisco com o Brasil, já com a praça de Londres era Rodrigo Álvares da Fonseca o intermediário privilegiado. Por suas mãos transitaram os 250 ducatões, como transitavam as pipas de vinho, os açúcares ou os tabacos. E em Londres o parceiro comercial de Francisco era o seu parente Luís de Castro, que antes em Portugal se chamava Nuno Rodrigo Portelo e que, em troca, lhe despachava predominantemente tecidos. E não era só a cidade do Porto o palco dos negócios entre Luís de Castro e Brandão Faro. Não, que os ovos não devem meter-se todos no mesmo cesto. Por uma questão de segurança, algumas operações de embarque / desembarque de mercadorias negociadas eram efectuadas no porto de Viana do Castelo, por exemplo, onde o seu representante era um tal João Reimaste, estrangeiro.
Por esclarecer estará ainda a questão do nome Faro, mas que terá sido acrescentado ao apelido por alguma ligação à cidade capital do Algarve e por ali passariam certamente alguns de seus negócios.
Na rede comercial de Brandão Faro entrariam provavelmente muitas mais pessoas, geralmente ligadas por laços familiares, como era o caso de seu cunhado Domingos Pereira, marido de Isabel Gomes Brandoa, em Bayonne, França, país de onde importava muitos coiros de vaca para solas. E também haveria alguns outros parentes e amigos que asseguravam as parcerias comerciais em praças de mais negócio, como Amesterdão na Holanda, Livorno em Itália e outras.
Mas não se pense que o mundo empresarial de Brandão Faro girava apenas em volta da cobrança de rendas e dos grandes negócios de importação / exportação. Não: ele deitava a mão a tudo, como se depreende do inventário de seus bens, onde aparece quantidade de objectos de ouro e prata (avaliados em 235 500 réis), muito linho e algodão, em rama ou fiado, muitas dívidas de pão fornecido ou dinheiro emprestado a juros, de solas vendidas a sapateiros, pipas de vinho fornecidas a vendeiros.
E também ia a Bragança cobrar dívidas da mão do abade de Rossas e negociar sedas com o “industrial” Tomás Rodrigues da Silva ou na real fábrica que existia na cidade. De igual modo se metia no monopólio das “cartas de jogar e solimão”, em parceria com Luís Rodrigues Ferreira, da cidade da Guarda.
Voltemos ao momento da prisão de Francisco para dizer que, em casa, em dinheiro vivo, ele tinha a extraordinária quantia de 3 contos, 50 e tantos mil réis metidos “em um caixotinho fechado com um cadeado, metido numa arca e outro pouco de dinheiro em dois taleigos…” Sinal de vitalidade e força empresarial? Ou mais uma prova de que ele se preparava para abandonar o país e estabelecer em terra alheia a sede da sua empresa?
A verdade é que, metido a ferros nas masmorras da Inquisição de Coimbra, Francisco Brandão Faro, desde logo se declarou culpado de práticas de judaísmo e delas pedia misericórdia e perdão. Aliás, confessou que desde há meio ano que andava pensando vir apresentar-se de livre e espontânea vontade e se o não fez foi porque João Lopes da Mesquita e seu irmão Francisco Lopes da Mesquita lhe disseram que não se admitiam apresentações. Este último, aliás, sendo seu compadre e pessoa de grande intimidade é que o terá induzido no erro e doutrinado, uns 15 anos atrás. Este seu compadre dizia-se mesmo judeu, tal como um outro irmão, o dr. António Lopes da Mesquita, médico de profissão. Para além destes e entre muitas outras pessoas denunciadas por Francisco Brandão Faro como seus cúmplices em práticas de judaísmo, fixemos o nome de seu primo Francisco Marcos Ferro, advogado, natural de Torre de Moncorvo, morador em Viseu e que, dois anos antes, transferiu a sua residência para o Porto. Daquele médico e deste advogado haveremos de falar em outra ocasião.
Resta agora dizer que o processo levou dois anos a ser despachado, acabando o réu por ser condenado em hábito e penas espirituais, saindo no auto-de-fé de 18 de Dezembro de 1701. Em Agosto seguinte seria autorizado a despir o sambenito que remeteu para Coimbra, juntamente com 3 vinténs. E terminamos transcrevendo uma pequena oração que Francisco Brandão Faro rezava “para os mortos, a qual dizia sexta-feira ou sábado, por estarem as almas em folgança”:
Folgança composta
Assentamento de altura,
Dá Senhor claridade dos céus
Para a vida em o mundo virá,
Venha sobre a alma do meu pai
E da minha mãe. (Ou da pessoa de quem se pedir – acrescentou).
Fonte – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 8867, de Francisco Rodrigues Brandão Faro.
NOTA – Este trabalho foi publicado no jornal Terra Quente

MARRANOS - Orações


                                           In OS MARRANOS EM TRÁS- OS- MONTES
                                                 de Amílcar Paulo

sábado, 13 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 8

Real Filatório de Chacim .Foto: Carla A. Gonçalves
Jacob Rodrigues Pereira. Nasceu em Espanha, depois que seus pais foram presos em Cádiz quando iam fugidos de Chacim, terra do actual concelho de Macedo de Cavaleiros, perseguidos pela inquisição. Nenhum português despertou mais atenção e mereceu mais elogios que ele por parte dos enciclopedistas e dos membros da Academia das Ciências de França e até chegou a ser contemplado com o estatuto de representante de toda a nação sefardita. Mas esqueceram-se dele os dicionaristas dos ilustres Trasmontanos e creio que nem uma placa tem a lembrá-lo na sua terra. O prestígio alcançado deriva do facto de ter sido o primeiro grande investigador na área das ciências de educação dos surdos-mudos. Da descendência de Jacob Rodrigues Pereira devemos citar dois netos (Jacob Emílio pereira e Isaac Pereira) que ganharam lugar na história da França e da Europa, por mérito próprio e são referidos como “Les Frères Pereire”. Na verdade eles formaram uma dupla empresarial que deu cartas, nos mais diversos ramos de actividade. A começar pelos caminhos de ferro, pois que eles foram os maiores construtores de linhas no interior de França e também de linhas transeuropeias. Com os pés bem assentes na terra, eles investiram igualmente nos transportes marítimos, chegando a ter uma frota de 21 barcos navegando nos mares. Ainda no domínio dos transportes, eles criaram uma “Companhia Geral de Omnibus” e outra de “Entrepostos e Armazéns Gerais”. Esta, para além de assegurar o transporte, carga, descarga e armazenagem de mercadorias, tinha também uma secção de Seguros. E para garantir disponibilidade financeira das empresas do grupo, os irmão pereira criaram a “Sociedade Geral de Crédito”, uma espécie de banco popular onde cabiam também os pequenos investidores. O tempo destes homens não era já o tempo da clandestinidade religiosa, mas o da revolução industrial e do progresso, com o afluxo de multidões de camponeses às cidades. E para responder à procura, os netos de Jacob Rodrigues Pereira meteram-se a fundo na construção civil criando a “Companhia Imobiliária de Paris” responsável pela construção de inúmeros blocos de apartamentos, vivendas e hotéis e pela abertura de múltiplos arruamentos. E lançaram empresas absolutamente inovadoras para a época: a “Companhia Parisiense de Iluminação, Aquecimento e Gás” e a “Sociedade de Lavagens industriais”, que chegou a dispor de 45 máquinas de lavar e 30 de lixiviar. Por 1870, “Lés Frères Pereire” eram proprietários de 2 castelos, 21 hotéis, 55 boutiques, 314 apartamentos e 26 estrebarias – um verdadeiro império. Dizem-nos que actualmente existem mais de 400 descendentes directos desta família originária de Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros. Será possível estabelecer contacto com alguns deles e mostrar-lhes que a actual geração de filhos de Chacim se orgulha daqueles para quem, em outras eras, a terra foi madrasta?
António Júlio Andrade

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 7

Pavillon Du Chateau Raba
Abraão Raba. A história dos Raba, de Quintela de Lampaças, Vila Franca e Bragança na inquisição é mais comprida que a linha do comboio. Os últimos a serem penitenciados foi no auto de fé de Coimbra de 1751, posto o que a família abalou para França, dirigida pela matriarca e pelo filho mais velho, José Henriques Nunes. Aportados a Bordéus aderiram abertamente ao judaísmo, tomando José o nome de Abraão. Com eles seguiu a prima Catarina que, desde criança fora destinada a casar com José. O casamento realizou-se pouco depois da chegada a França, por 1763. 4 anos depois Abraão Raba era já um homem respeitado e influente, a ponto de ser eleito síndico da comunidade. Nessa qualidade, em 22 .3.1768 convocou uma assembleia dos notáveis destinada a desfazer equívocos e mexericos sobre o seu casamento, pois corria o boato de que ele não pagara o imposto sobre o dote recebido da noiva. Ele então mostrou o contrato de casamento e provou que nada recebeu em dote, pelo que não tinha qualquer taxa ou imposto a pagar. Estranhou, porém, que aos seus pares não bastasse a sua palavra honrada e fosse preciso chegar a esta devassa da sua vida. E anunciou com toda a solenidade que decidira fazer uma oferta aos pobres da comuna, depositando, acto contínuo, 90 libras nas mãos do adjunto do síndico. Se antes era já um homem respeitado e influente, mais ficou sendo e seus negócios e de seus irmãos, que todos trabalhavam em rede, cresceram rapidamente, girando em volta do comércio marítimo, para o que adquiriram uma frota de barcos e da importação de açúcar das Antilhas. Aliás, dois dos irmãos foram fixar-se naquelas paragens, abrindo uma sucursal da firma Raba em Port-au-Prince. Na cidade de Bordéus moravam em um palacete na Rue des Fossés mas, à moda da época, em sinal de riqueza e prestígio, os Raba construíram em Talence, arredores de Bordéus “uma das mais belas casas de campo existentes em França” – como era apresentada no famoso guia turístico de Mr Bernadau. Nele se descrevem com inusitado pormenor, os salões do palácio e o jardim povoado de estátuas e inscrições, onde se davam famosos concertos musicais e promoviam elegantes recepções, frequentadas por personalidades da primeira linhada aristocracia de França, como foi o caso de Beaumarchais e mesmo de Napoleão Bonaparte. Conta-se que as tropas de Napoleão quando invadiram Portugal pelo Norte não seguiram o caminho mais direito entrando por Bragança, antes foram dar uma volta bastante grande e entraram por Chaves, exactamente porque os Raba terão pedido ao imperador e à imperatriz Josephine, que estavam hospedados no seu palácio, que poupassem a sua terra natal. Creio que existem descendentes directos dos Raba, mantendo este sobrenome. Não sei é se o palácio de Talence, hoje transformado em hotel de 4 estrelas ainda se mantém na posse da família. Bem gostaria de ir lá em viagem de turismo cultural. E também não sei se os Brigantinos e Trasmontanos ainda iremos a tempo de saldar uma dívida de gratidão a sefarditas que bem prestigiaram a terra que lhes foi madrasta, mas que foi a terra onde viram a luz.

 António Júlio Andrade

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 6

Sambade -2012
Roque de Leão. No dia 14 de Abril de 1685, a Corte de França, atendendo à súplica do Conselho Municipal da cidade de Toulouse, proferiu uma estranha sentença ordenando que 18 pessoas de origem portuguesa, mercadores ali estabelecidos e que estavam presos, acusados de práticas de judaísmo, fossem conduzidos pelas ruas da cidade em cima de uma carroça com uma corda ao pescoço até à praça de S. George e ali, sobre uma pira de lenha, fossem queimados vivos e as suas cinzas espalhadas ao vento. Desde há mais de 300 anos que tal coisa não se via na pátria do rei-sol e das luzes da sabedoria. Este episódio deixou em estado de choque todo o mundo civilizado. Já nem as inquisições de Portugal e Espanha agiam com tanta crueldade. Em simultâneo, em Inglaterra, a mais conceituada instituição de ensino, o Magdalene College foi entregue aos Jesuítas pelo rei Jaime II que o transformaram em seminário católico. Os dois factos, acrescentados a muitos outros de natureza semelhante, fizeram os Sefarditas e Anglicanos e Asquenazes e os governantes da Holanda, Alemanha, Suécia e outros países no Norte pensar que havia uma aliança entre a França e a Inglaterra e um dos pontos do programa comum era estabelecer a inquisição nos dois países. E todo o mundo sefardita e a finança internacional se mobilizou e a Inglaterra foi invadida e o rei apeado e substituído por Guilherme de Orange, enquanto o rei sol entrava em declínio, com a França a apagar-se na cena internacional e o império inglês a expandir-se. Voltando a Toulouse, diremos que aquele verdadeiro auto de fé se realizou dois dias depois mas em vez das pessoas foram queimados 18 bonecos de palha. É que, quase misteriosamente, eles conseguiram fugir para Amesterdão. À cabeça deste grupo de 18 condenados à morte encontrava-se Roque de Leão, juntamente com a mulher e um filho. Roque era acusado de ser o Rabi dos judeus de Toulouse e a sua casa de ser a sinagoga. As origens de Roque de Leão eram de Sambade, no concelho de Alfândega da Fé. Não sabemos se ele nasceu na cadeia, quando a sua mãe, Francisca Lopes, foi presa, ou se nasceu depois de ela sair da cadeia e regressar a Sambade. Ou mesmo se nasceu quando os pais se encontravam a morar na Galiza, antes de rumar a Madrid e a França. De qualquer modo a sua memória deve ser perpetuada em Sambade. Não vou aqui falar mais deste grande trasmontano e sefardita. Breve contamos que sairá um livro sobre os Marranos de Sambade, da minha autoria e da investigadora da cátedra de estudos sefarditas Alberto Benveniste da universidade de Lisboa, Maria Fernanda Guimarães, editado pela câmara municipal de Alfândega da Fé. Aí o leitor poderá ver muitas mais coisas da grande epopeia desta gente, de cujo sangue todos nós teremos uma gota e disso devemos orgulhar-nos.
António Júlio Andrade

 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 5

Luís de Carvajal de la Cueva. Porventura nenhum português, para além de Cristóvão Colombo, é mais conhecido prestigiado na região do Texas e Nordeste do México do que “El Conquistador”. A ponto de ter uma estátua equestre plantada na mais nobre avenida da cidade mexicana de Monterrey e de os Americanos terem celebrado o V centenário da sua morte com a composição de uma ópera, interpretada pela orquestra de S. Diego. Em Mogadouro, sua terra natal, não passa de um ilustre desconhecido, sem qualquer sinal de sua memória. Ocupava o cargo de Governador do Novo Reino de Leão quando foi preso pelo tribunal da inquisição do México. Ele e todos os membros da numerosa família e numerosos amigos que o acompanharam na colonização daquela parte do mundo, cerca de 100 famílias, muitas delas recrutadas entre os marranos de Trás-os-Montes. Um sobrinho, também chamado Luís de Carvajal, é considerado um dos mártires do judaísmo, pois morreu afirmando a sua fé mosaica enquanto as chamas crepitavam, no célebre auto de fé da Cruz Verde, em 8 de Dezembro de 1596.
 
António Júlio Andrade

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos, Sefarditas e marranos - 4

Baltasar Oróbio de Castro. Terá nascido em Bragança em 1617. Por 1622, foi levado para Espanha, fixando-se a família em Málaga. Seus pais eram pobres e foi sob a protecção de um tio materno que ele foi estudar para a medíocre universidade de Osuna, transitando em 1635 para a de Alacala de Henares, esta sim, de prestígio. Na primavera de 1640, ao ter notícia da prisão do tio e dos pais, ele desapareceu, sem ter concluído o curso de medicina. Não sabemos que voltas deu mas, ao findar de 1642, Baltasar Álvares de Oróbio aparece nomeado professor de medicina na universidade de Sevilha, certamente com falso diploma e com a intervenção do poderoso duque de Medicaceli, em cuja casa servia. Em 1651 casou em Cadiz, com Isabel de Pena, filha de um rico mercador, acompanhada de largo dote. Mas nem o poderoso duque impediu que Baltasar fosse preso pela inquisição de Sevilha, saindo penitenciado em 1656. Rumou de seguida para Bayonne e depois para Tolouse, em cuja universidade foi admitido como professor de medicina. Apresentou um diploma supostamente passado pela universidade de Alcala. Em Janeiro de 1663 estaria já em Amesterdão, usando o nome de Isaac Oróbio de Castro. Ali ganhou fama de polemista, empenhando-se com “denodo farisaico” no combate às ideias menos ortodoxas em relação ao judaísmo vigente expressas por João do Prado (seu colega em A. Henares) e baruch Espinosa. Faleceu em 1687. O seu nome foi justamente perpetuado na toponímia de Bragança e constitui um activo do património cultural da cidade.
António Júlio Andrade

domingo, 7 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos – 3

Rembrandt, oil sketch for etched portrait of
the Amsterdam Jewish physician Ephraim Bueno, 1647
Amsterdam, Rijksmuseum
Dr. Afraim Bueno da Mesquita. José Boino deixou Vila Flor ao início do século de 600, depois de uma tremenda vaga de prisões que assolou a terra, vaga iniciada pelo Abade da igreja matriz, inquisidor de Évora, Jerónimo de Sousa, indo estabelecer-se em França. A família integrava uma criança nascida em 1599, que na diáspora tomaria o nome de Efraim Bueno da Mesquita. Este estudou em Bordéus e formou-se em medicina. Como em França não podia publicamente seguir a sua religião, emigrou para Amesterdão, pelos anos de 1640. Na “Jerusalém do Norte” o Dr. Bueno ganhou tal notoriedade que mereceu ser retratado por Rembrandt. E em Vila Flor, alguma lembrança deste ilustre Trasmontano?


António Júlio Andrade

MAPA DAS JUDIARIAS (Séculos XIV e XV)

In"História de Portugal",coordenada por Rui Ramos

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 2

Palácio de Schönbrunn
Fernando Montesinhos.
 Nasceu em Vila Flor em 1589 e faleceu em Antuérpia em 1659. Foi um dos chamados "Banqueiros do Rei" Filipe de Espanha e Portugal. Iniciando a vida no comércio de tecidos, especializou-se como "asientista", ou seja, contratador de serviços da casa real, como fosse a cobrança das rendas das salinas e comércio do sal ou o abastecimento de géneros às tropas. estacionadas no Norte de África. Tendo abandonado a terra por causa da inquisição portuguesa, acabou prisioneiro da inquisição espanhola de cujas cadeias saiu contra o pagamento da formidável quantia de 10 000 cruzados.

O Barão de Aguilar.
 Liberto das masmorras da inquisição de Coimbra, Francisco Lopes Pereira e a mulher, Maria Dias, meteram-se a caminho de Espanha. Ali fizeram fortuna, no negócio do tabaco. Um dos descendentes chamou-se Manuel e passaria à história com o título de Barão de Aguilar. Aquando da Gueera da Sucessão de Espanha, empenhou-se totalmente na cauda do Arquiduque Carlos que depois viria a reinar na Áustria. E para ali foi também o Barão de Aguilar, convidado a organizar a distribuição do tabaco no país, sob a forma de monopólio, recebendo a garantia de que lá podia professar abertamente o judaísmo. E por 16 anos ele deteve o monopólio da venda daquele produto. Amigo e conselheiro da imperatriz Maria Teresa, adiantou do seu bolso, a título de oferta à imperatriz, uns 300 000 florins para a construção do Palácio de Schöenbrunn, hoje classificado património da humanidade. O barão de Aguilar acabaria por mudar-se para Londres e ali faleceu em 1759 com 60 anos de idade. Quem o recorda em Mogadouro?

António Júlio Andrade

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

MOISES MENDES PEREIRA – baptizado em Bragança e circuncidado em Londres

Por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães


José Rodrigues foi notificado por João Gonçalves, familiar do Santo Ofício para se apresentar novamente em Coimbra até ao dia 24 de Abril de 1728. A ordem foi cumprida e ele foi recebido em mais uma audiência. Confirmou as declarações quer antes fizera e acrescentou mais algumas denúncias, nada de importante para o desfecho do processo.
Domus Municipalis
E foi um dos 79 penitenciados no auto-de-fé celebrado no Terreiro de S. Miguel, em 9 de Maio seguinte. Neste auto não houve gente condenada à morte, como aliás não havia desde há uns 10 anos em Coimbra. Apenas em Lisboa se decidiam então os processos considerados mais graves.
O tecelão brigantino foi condenado em penas espirituais e no confisco de todos os seus bens. Entre esses bens incluía-se uma parte de uma casa da Rua Direita, onde moravam seus pais e irmãos, como consta do inventário.
Regressou a Bragança e… a vida não seria fácil, complicando-se o seu relacionamento não apenas com os cristãos-velhos mas também com os cristãos-novos, nomeadamente com os seus amigos e familiares. Com efeito, ninguém sabia ao certo as denúncias que ele teria feito na Inquisição e as desconfianças avolumavam-se.
Ele bem tentaria normalizar a sua vida e nada melhor do que sair de Bragança a negociar por essas terras afora, em vez de ficar ali a lamber as feridas e remoer as mágoas…

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 1


A generosidade é para mim uma das características mais vincadas dos Trasmontanos. Talvez esteja relacionado com a vida dura aquém dos montes. E por toda a parte onde os Trasmontanos chegam, eles estabelecem relações de boa vizinhança, baseadas naquela generosidade.
Porém, a generosidade que temos com estranhos e deles nos faz próximos falta muitas vezes nas relações entre nós e dos nossos nos afasta. Até parece que de generosos passamos a mesquinhos, no trato comunitário.
Cortiços -Foto de Luís Coelho
E isto acontece também quando lidamos com a história. Há Trasmontanos que foram grandes e são considerados em todo o mundo, mas completamente desprezados por nós, ignorados pelos que entre nós escrevem a nossa história e pelos que nos governam e têm obrigação de defender e valorizar o nosso património. Sim, este património, o património humano é bem mais importante que o património arqueológico, arquitectónico e etnográfico.
Exemplar, a este respeito, é o que se passa com os Trasmontanos Sefarditas e Marranos. Alguns deles ganharam relevo a nível mundial e têm os seus nomes inscritos em enciclopédias de âmbito mundial mas são esquecidos dos nossos dicionaristas e afastados da toponímia das nossas terras. Vou apresentar alguns exemplos:

Manuel Cortiços. Tendo embora nascido em Madrid, em 1603, os seus pais eram Trasmontanos fugidos da inquisição. A sociedade e a família perpetuariam no sobrenome, que ainda hoje conservam descendentes seus, a terra de sua origem - Cortiços - no actual concelho de Macedo de Cavaleiros. Manuel Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos, onde até eu, pequeno escriba, já tomei lugar, por mão alheia.

José Cortiços. Nascido em Antuérpia em 1656 e falecido em Londres em 1742, foi outro dos membros da mesma família fugida de Trás-os-Montes. Virado para o abastecimento das tropas, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, eles colocou-se do lado do Arquiduque Carlos, futuro imperador da Alemanha. Depois da guerra, a viver já em Londres,, José Cortiços queixar-se-ia de que a Inglaterra lhe ficou devendo 25 000 libras (de géneros fornecidos aos militares estacionados em Gibraltar) e Portugal 70 000, de provimentos ao exército do Marquês das Minas. Também o seu nome não consta das listas publicadas de notáveis Trasmontanos e nenhuma lembrança tem na terra de seus ascendentes Trasmontanos.


António Júlio Andrade

 

Miranda do Douro : Diogo (Isaac) Rodrigues Marques c. 1635 – Londres c. 1675.

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
Rua da Costanilha (1951)
Diogo Rodrigues Marques nasceu em Miranda do Douro, em uma casa da rua da Costanilha, pelo ano de 1635. Cedo ficaria órfão de pai (Francisco Rodrigues) que, entretanto, fora estabelecer-se em Lisboa, abrindo uma pequena loja de mercador na rua Nova.
Depois da morte do pai, Diogo e o irmão ficaram entregues aos cuidados de seu tio paterno, António Rodrigues Mogadouro, líder de um dos grandes empórios comerciais portugueses daquele tempo. A mãe de Diogo, Maria Lopes, terá então viajado para a Itália onde tinha vasta parentela, nomeadamente o seu irmão Jorge Lopes Henriques, que fora morador em Carção e fugira para Livorno, depois que se viu processado pela Inquisição de Coimbra, em 1638. Para esta decisão de fuga tomada por Maria Lopes terá também contribuído o castigo infligido a sua mãe, Beatriz Henriques – queimada pela inquisição.
Naturalmente que Diogo teve a sua formação profissional nas empresas do tio Mogadouro e nelas se foi enredando e associando. E chegada a altura apropriada, foi ajustado o seu casamento com sua prima, filha do tio Mogadouro, chamada Marquesa Rodrigues, nome que herdou da avó paterna. Aliás, também o Diogo herdou o sobrenome do avô, marido daquela, a quem chamavam, por alcunha, o marquês.
O casamento de Marquesa e Diogo ter-se-á realizado ao findar da década de 50 e em 1660 nasceu a primeira filha do casal, a que deram o nome de Isabel Henriques, certamente em homenagem à avó materna, irmã do célebre embaixador do rei D. João IV, Manuel Fernandes Vila Real.
Por essa altura, contando apenas 25 anos de idade, Diogo Rodrigues Marques teria já a sua própria empresa e nome feito na praça comercial lisboeta. Sabemos, por exemplo, que em Março daquele mesmo ano, ao Poço da Foteia, em um armazém foram descarregadas 134 pipas de vinho por ele adquiridas em Gogim, Lamego, a um filho de Gaspar Gomes da Fonseca, certamente destinadas à exportação para o Brasil onde então se encontrava o seu irmão António dirigindo os negócios da família.
Também a situação política do país seria favorável ao desenvolvimento dos negócios dos Mogadouro que muito lucrariam com o fornecimento de géneros aos militares empenhados em Trás-os-Montes na guerra que por 18 anos se desenrolou com a Espanha e ao esforço da reconquista de terras e feitorias comerciais do Ultramar português que espanhóis, franceses, holandeses e outros cobiçavam. E também ajudaria a ligação dos Mogadouro a D. Guiomar de Távora e ao Conde de Castelo Melhor que então era “o grande senhor da política portuguesa” – na expressão de José Hermano Saraiva.
Porém, no horizonte político do país adivinhava-se borrasca, com a inquisição a estender os seus tentáculos a todos os meandros da sociedade e uma distribuição de títulos de Familiares pelos membros da nobreza como nunca se vira. E também os Mogadouro e Diogo Rodrigues Marques seriam atingidos em suas vidas e negócios.
Tudo começou em Fevereiro de 1670, quando 2 escravos negros que os Marques tinham em casa no serviço doméstico se dirigiram à inquisição de Lisboa a contar que 4 meses antes, ao início de Outubro, o António, o Diogo, a Marquesa e 2 filhos do casal se apresentaram em certo dia da semana, todos com vestidos novos e os não quiseram lá em casa a eles a servir o jantar, como era costume, suspeitando os escravos que “naquele dia festejavam o seu santo serviço, que era fazerem cerimónias de judeus”. E que à noite, também vestidos de fatos domingueiros, foram juntar-se a eles, na mesma casa, os restantes membros do clã, nomeadamente o velho Mogadouro e os filhos.
Sabemos que Diogo Rodrigues Marques ainda se encontrava em Lisboa com a mulher e os filhos em Março de 1673, 9 meses depois que António Mogadouro e os 2 filhos mais velhos foram presos, pois que, juntamente com seu irmão António Marques e seu primo Pantaleão Rodrigues assinou uma exposição dirigida aos senhores inquisidores, em defesa dos ditos prisioneiros, tentando provar que foram denunciados injustamente e por inimizades pessoais.
Mas, ao contrário dos primos e das primas, filhos do Mogadouro, que ficaram por Lisboa e todos acabaram presos, Diogo Marques pegou na mulher e nos filhos e fugiu para Inglaterra. E se em Lisboa os seus negócios prosperavam, em Londres, ganharam outra dimensão, uma dimensão planetária e capitalista. Na verdade bastaram dois ou três anos para que Diogo Marques ganhasse um lugar próprio na City, que nos permite considerá-lo como um judeu novo e um dos tais construtores do mundo moderno e do sistema capitalista.
Em simultâneo, a família de Diogo ascendia na escala social, frequentando círculos de amigos ligados mesmo à casa da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança. Nesse movimento de promoção social da família Rodrigues Marques, certamente foi decisivo o casamento da sua filha mais velha, D. Isabel Henriques Marques com o Dr. Fernando Mendes, médico pessoal da rainha. Esta viria inclusivamente a ser a madrinha da neta primogénita de Diogo Marques, nascida em 1678, a qual recebeu dela o nome cristão de Catarina, se bem que posteriormente, com a sua educação e adesão ao judaísmo, passasse a usar o nome de Rachel. Diogo, aliás, Isaac Marques era já falecido e não viveu este acontecimento.
Mas se a filha mais velha era o orgulho da família e a honrava, o mesmo não pode dizer-se do filho mais velho que, em 1662, em Lisboa, no baptismo, recebeu o nome de Francisco e depois de circuncidado adoptou o de Isaac Rodrigues Marques. Dele se queixava o pai “pelo motivo da sua extravagância, porque me tem sido sempre desobediente”.
Em Lisboa terá ainda nascido um outro filho (José, aliás, Jacob Marques) em 1669 e outra filha (Ana Marques), em 1671.
Depois da fuga para Londres, o casal teve mais um filho, Moisés Marques, e uma fila, Ribka Marques.
A última notícia que temos de Diogo Rodrigues Marques data de Novembro de 1675. Trata-se do seu testamento, começado a escrever em 10 daquele mês. É um documento bem extenso, em letra miudinha, extremamente importante para o estudo da família e da rede de negócios que a envolvia e se estendia por vários continentes e diversos ramos de actividade, com destaque para a marinha mercante e o negócio de diamantes. Apresentá-lo-emos no próximo número.
Nota –
 Este artigo foi publicado no jornal Terra Quente de 1 de Outubro de 2012.
 

domingo, 30 de setembro de 2012

CHACIM ANOS DE 1620


O PROCESSO DE ANTÓNIO LOPES REDONDO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA
 
Por: António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães


Era um dia de Outubro, do ano de 1620, a horas do meio dia. Vindo da aldeia de Lagoa, onde residia, Pêro de Matos tinha acabado de entrar na vila de Chacim, pela rua dos Sapateiros, a seguir á ponte, montado em cima de um macho. De repente, por detrás, caíram-lhe fortes estocadas na cabeça e no ombro, que o lançaram por terra e o deixaram a sangrar. Reconheceu o agressor, que até era seu primo, e pôs-se a gritar:
- Aqui d´el-rei! Acudam que me mata! Em nome da santa Inquisição, ajudem-me!

Foto de Marta
António Lopes, o Redondo, de alcunha, se chamava o agressor. Enquanto batia, este soltava injúrias:
- Ah! Cão! Ainda te atreves a vir aqui! Vou-te matar, cão nojento!
Acudiram pessoas e os comentários eram unânimes: António Lopes jurou que se vingaria do Matos por este ter denunciado seu pai na Inquisição de Coimbra, onde então se encontrava preso.
Pêro de Matos, por seu turno, saíra meses antes da mesma cadeia e estava cumprindo a penitência que lhe fora imposta. E como penitente, estava, de certo modo, protegido pelo Santo Ofício. Fazer-lhe mal, por motivos relacionados com a sua passagem pelo tribunal da fé, era o mesmo que afrontar aquela sagrada instituição.
Embora ferido e a sangrar, Pêro de Matos dirigiu-se para casa do juiz da vila de Chacim, João da Mesquita, mas ele não estava, segundo respondeu sua mulher. E como ele não estava, o queixoso rumou a casa do padre Manuel Mendes, que morava em frente, a quem “requereu publicamente fizesse autos” dizendo que António Lopes o agredira “por se dizer que ele culpara a seu pai no santo ofício”.
Claro que o padre, na falta do juiz, deveria atender à solicitação do queixoso, ou encaminhá-lo, pois que ninguém podia escusar-se a colaborar, em matéria relacionada com a Inquisição. Era crime. Além disso… parece que este padre não morria de amores pela família Redondo, antes pelo contrário. E o padre e o ferido se dirigiram a casa do tabelião Francisco Borges, que era pessoa indicada para escrever e autenticar o auto que, em seguida, o padre se encarregaria de enviar para Coimbra.
Enquanto isso também o António Lopes se mexeu, dirigindo-se a casa de um outro tabelião, Diogo Machado, para que autuasse as suas declarações, dizendo que fora o Matos que o provocara e se gabava de ter denunciado o seu pai na Inquisição e ele apenas tratou de se defender. Era uma acusação muito grave. A ser provada significaria que Pêro Matos violou o juramento que fizera de nada contar sobre o que aconteceu e o que dissera, vira e ouvira dentro do sagrado tribunal da Inquisição. Certamente pensando nisso, o tabelião ter-se-á escusado de autuar as declarações de A. Lopes.
Não sabemos que mais informações e outros documentos chegariam a Coimbra e que diligências se fizeram. Sabemos é que, em 20 de Março de 1621, os inquisidores mandaram um António Dias, familiar do Santo Ofício, que fosse a Chacim e levasse preso o Redondo, com cama, cozinha e roupa necessária para estadiar na cadeia, bem como 30 mil réis para a compra de alimentos.
Em simultâneo escreveram para o comissário regional da Inquisição, o dr. Gaspar de Morais, abade da igreja de Sendas, do vizinho concelho de Bragança, que foi a Chacim a inquirir as testemunhas, nomeadamente o juiz e a mulher, o tabelião Francisco Borges e o padre António Mendes. Todos eles testemunharam contra António Lopes, sendo o mais vigoroso depoimento prestado pelo juiz ordinário, João da Mesquita.
Claro que em Coimbra o prisioneiro contou a história como se de uma simples briga se tratasse, pois que eram inimigos de há muito tempo, mas nada que envolvesse matérias relacionadas com a Inquisição. Naturalmente que isso contradizia os testemunhos referindo que a causa da briga foi por ter o outro denunciado seu pai como judaizante. E o que era grave era a fuga de informação! Trataram, por isso os inquisidores de saber como João Lopes tivera tal informação. E ele respondeu:
- Que lho dissera o juiz João da Mesquita quando prenderam Pêro de Matos pelo Santo Ofício havia ameaçado o pai dele confidente.
Certamente que os inquisidores não acreditaram nisso, se bem que o prisioneiro apresentou contraditas tentando justificar que as testemunhas eram suas inimigas e por isso não mereciam crédito. E estando ele preso e tendo o seu pai saído já em liberdade e voltado a Chacim, enviou para Coimbra uma carta do teor seguinte:
- Diz João Lopes que (…) estando preso nesses cárceres dessa cidade de Coimbra, prenderam a seu filho António Lopes Redondo por culpas que devia ter ao tempo de sua prisão. Que o prendeu o padre Manuel Mendes e o padre Domingos Fernandes, desta vila, e por ser o dito padre Manuel Mendes inimigo capital dele João Lopes e de seu filho e é público e notório fizera um auto de resistência do dito seu filho, não sendo assim, chamando as testemunhas e mandando-lhe assinar um papel sem lho ler nem dizer o que era, nem o dito padre Domingos Fernandes fazer o tal auto nem ser sabedor, pede a Vs Senhorias mandem perguntar ao dito padre Domingos Fernandes se lhe fez a tal resistência e a Belchior Rodrigues, o Mostarda, e a Martim Nunes que declarem a verdade de como os mandou assinar sem lho ler…
Não terá este requerimento influenciado o desenrolar do processo de António Lopes que, depois de submetido a tormento, levando um “trato esperto e outro corrido” acabou por ouvir sua sentença no auto de fé realizado em Coimbra em 4 de Maio de 1625, abjurando de leve, com uma vela acesa na mão e “pelo excesso de atrevimento que cometeu contra o respeito do santo ofício no ferimento que fez, seja açoitado pelas ruas públicas desta cidade e seja degredado por 3 anos para as galés, onde servirá ao remo, sem soldo”.
Antes de ser levado pelas ruas e açoitado, António Lopes interpôs recurso da sentença, nos seguintes moldes:
- Conforme direito e ordenação do Reino, os juízes e vereadores de qualquer cidade ou vila estão escusados de haver e se lhes dar pena alguma vil como é de galés e açoites (…) e isso mesmo seus pais e avós que tiveram servido os tais cargos são escusados do mesmo privilégio os ditos seus filhos e netos…
Queria isto dizer que, provando-se o exercício do cargo de juiz ou vereador pelo réu ou por seu pai ou avô, ele não poderia ser açoitado pelas ruas da cidade e a servir nas galés.
Do recurso constava ainda um outro argumento, de acordo com o qual os mercadores que anualmente pagassem imposto nas alfândegas do Reino mais de 200 mil réis de mercadorias importadas ou exportadas estariam igualmente abrangidos por uma lei que os protegia das tais penas vis dos açoites e galés.
A primeira parte do recurso foi aceite, a segunda não, pois a ordenação régia contemplava apenas os mercadores com rendas e contratos fixos e registados na fazenda real e não os importadores / exportadores ocasionais.
Aceite o recurso, tratou-se de proceder à inquirição de testemunhas em prova de que o pai e o avô tinham sido vereadores na câmara de Chacim, processo que foi conduzido pelo já referido abade de Sendas e se provou ser verdade.
E dessa inquirição transcrevemos parte de um depoimento onde se refere a actividade mercantil de António Lopes Redondo, filho de João Lopes, o Rico:
- Disse que tratava para Castela em lenços finos e linha fina e seda em rama que tratava e tomava em pagamento de suas dívidas e no dia em que o embargante foi preso, levava 6 cargas de lenço para Castela pela alfândega de Miranda e de Castela trazia sedas para o Reino onde as vendia…
Conseguiu o Redondo livrar-se dos açoites e das galés, regressando a Chacim ao cabo de 5 anos de cadeia.
Breve abandonariam Chacim e o Reino indo refazer suas vidas em Madrid.
FONTES:
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5405, de João Lopes, o Rico; processo 4071, de António Lopes Redondo.
MARkUS  SCHREIBER, Marranen in Madrid 1600 – 1670.
Nota: Este texto foi publicado no jornal Terra Quente

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Judeus Novos de Trás-os-Montes na Construção do Mundo Moderno


 António Rodrigues Marques - (Miranda do Douro c.1637 – Londres – 1688)
António J. Andrade
Maria F. Guimarães

Chamava-se Francisco Rodrigues, mas era conhecido pela alcunha de marquês, certamente por ser filho de Marquesa Rodrigues. Nasceu em Miranda do Douro e aí casou com Maria Lopes e nesta cidade, na rua da Costanilha, residiram e tiveram dois filhos machos. O mais novo, nascido por 1637, recebeu o nome de António Rodrigues Marques.
Francisco Rodrigues que, entretanto rumara a Lisboa onde abrira uma loja comercial, faleceu pouco tempo depois. Não sabemos se, nessa ocasião, Maria Lopes e os dois filhos ainda estavam em Miranda do Douro ou residiam em Lisboa. Como quer que fosse, a partir dessa altura, os órfãos ficaram sob a protecção de António Rodrigues Mogadouro, irmão do falecido, cujos negócios prosperavam. Sobre Maria Lopes deixamos de ter notícias. Acreditamos, porém, que tivesse emigrado, tal como seu irmão Jorge Henriques que foi para Livorno, Itália. Encontrá-la-emos mais tarde em Londres.
Porta da Costanilha (1949)
Chegados os anos da juventude e da entrada na vida activa, António foi pelo tio enviado para a cidade da Baía, no Brasil, como agente comercial da firma. E com ele foi também o primo Francisco Rodrigues Mogadouro que, anos mais tarde, no tribunal da inquisição de Lisboa, haveria de confessar:

- A pessoa que lhe ensinou a crença na lei de Moisés foi António Rodrigues Marques, cristão novo, homem de negócio, primo e cunhado dele confidente, viúvo de sua irmã Leonor Rodrigues (…) haverá 14 anos, na cidade de S. Salvador, estado do Brasil, em sua própria casa, onde ele confidente também assistia…

Regressou a Lisboa uns 6 anos depois e esposou a prima Leonor, que logo veio a falecer, sem deixar descendência. António nunca mais casou, ficando a viver em casa do irmão e da cunhada, que todos trabalhavam nas empresas Mogadouro que então se constituíam num forte grupo comercial organizado em rede familiar, pelos quatro cantos no mundo.

Em 19 de Julho de 1672, a roda da fortuna mudou, quando a inquisição de Lisboa prendeu António Mogadouro e os seus dois filhos mais velhos. Curiosamente as primeiras denúncias e essenciais para estas prisões, foram feitas por 2 escravos negros que serviam na casa de António R. Marques e este era incluído nas mesmas, como o mais culpado. E outras denúncias contra ele foram feitas, nomeadamente por Jorge Coelho Henriques que, em 29.11.1673, disse aos inquisidores que 9 anos e 4 meses atrás, em Lisboa, na rua Nova, António Rodrigues Marques, contratador, casado com uma filha do Mogadouro, se tinha com ele declarado judeu.

A prisão dos Mogadouro não seria isolada, antes estaria enquadrada num esquema bem montado pelos inquisidores de decapitação das empresas que, em seu entender, protegiam os judeus. Na verdade, nunca em Portugal a luta política entre o “partido da inquisição” e o “partido dos judeus” seria tão intensa como naquela época. E António Rodrigues Marques assumiu-se como um dos rostos da contestação aos métodos e ao poder da inquisição. A ponto de, juntamente com Pedro Álvares Caldas e D. José de Castro (outros grandes capitalistas) “contratarem” os serviços do padre Francisco de Azevedo, da Companhia de Jesus para em Roma, negociar com a Santa Sé um perdão geral para os que estavam prisioneiros da inquisição. Naturalmente que o “embaixador” Francisco de Azevedo começou exactamente por conseguir salvos condutos para os 3 homens, assim se explicando porque António Rodrigues Marques não foi preso com o tio, os primos e as primas. Nos arquivos da Torre do Tombo, colecção Armário Jesuítico (maço 4, nº 19), encontra-se uma carta escrita e assinada por aqueles três homens, dando conta daquelas negociações e garantindo o pagamento de 6 mil escudos de despesas feitas pelo “embaixador” com “prendas” a dignitários da Santa Sé.

Um homem que levava e trazia as cartas de Roma era conhecido e parente afastado, originário de Mogadouro, chamado Gaspar Lopes Pereira. Acabou também por ser preso e queimado na fogueira pela mesma inquisição.

Acerca destas negociações e das notícias de abusos escandalosos da inquisição portuguesa que chegavam a Roma, deve dizer-se que não foi conseguido o perdão geral pretendido mas tão só se conseguiu que a inquisição estivesse parada durante 5 anos, entre 1676 e 1681, não se efectuando novas prisões nem autos de fé, nem sequer diligências burocráticas relacionadas com os processos dos presos. Estes continuaram presos, numa espera que se tornaria angustiante.

Enquanto em Roma se negociava, também por Lisboa promovia António Marques outras diligências visando colher informações sobre os parentes presos e ajudá-los na sua defesa e libertação. Para isso conseguiu “comprar” os serviços do alcaide da cadeia, de modo a este deixar passar cartas e escritos entre ele e o primo Diogo Rodrigues Henriques (o filho mais velho do Mogadouro e líder das empresas) e também dinheiro, essencial para corromper o alcaide e os guardas.

De Roma não vinha o perdão e em Lisboa os inquisidores descobriram o crime do alcaide. António Marques terá feito embarcar para Inglaterra os membros da família que ainda não estavam presos, nomeadamente a sua mãe, o irmão, a cunhada e os filhos destes. E terá diligenciado a transferência de todos os valores possíveis, especialmente dinheiro e diamantes. Ele ficou por Lisboa, munido do salvo-conduto, pegando as pontas dos negócios que restavam das empresas dos Marques/Mogadouro. Inclusivamente há notícia de duas idas dele à sala da inquisição, na qualidade de testemunha, por causa da corrupção do alcaide e da morte de um preso na cadeia, com um tiro que lhe deram, suspeitando-se que os mandantes foram “judeus” por ele ser um traidor e denunciante.

Gorado o perdão geral e entrando de novo a funcionar a inquisição, António Rodrigues Marques sentiu que a sua vida corria perigo e nada havia já que o protegesse, pelo que fugiu para Inglaterra. Documentada está a sua presença em Lisboa em 22 de Fevereiro de 1681 quando assinou a carta de que atrás se falou para o padre Francisco de Azevedo. E sabemos que em 4 de Janeiro do ano seguinte, quando a inquisição foi procurá-lo (a ele e aos 2 escravos referidos), já se encontrava em Londres.

E em Londres estava ainda em 2 de Janeiro de 1688 “na cama doente, mas de perfeito juízo” a fazer seu testamento. E este é uma verdadeira janela que se abre sobre as vivências deste homem. Nele deixa como herdeira e administradora de seus bens a sua mãe, Sara Henriques, encarregando-a de fazer diversas ofertas, a começar pela Congregação Hebraica de Londres. Mas entre as ofertas destacamos duas que bem revelam o ânimo deste “judeu novo”, renascido como a Fénix:

* Deixava 200 libras esterlinas ao dr. Fernando Mendes para comprar uma jóia para a sua filha Catarina. Deve aqui dizer-se que o dr. Fernando Mendes era médico da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança e era casado com uma sobrinha de António Marques. Exactamente porque a rainha de Inglaterra foi madrinha da filha do dr. Fernando Mendes é que esta recebeu também o nome de Catarina. E isto mostra como os irmãos Marques, nascidos em Miranda do Douro, se movimentavam pela Corte de Inglaterra. Eles pertenciam à poderosa classe dos “judeus novos” construtores do mundo moderno capitalista.

* Outro legado era para um segundo filho do mesmo, ainda pequeno. Mas nisso impunha o testador uma condição essencial: - Pretendo que o dr. Fernando Mendes dê o meu nome ao filho e dentro de 2 anos deve estar circuncidado. Se isto não acontecer, excluo o dr. Fernando Mendes e seu filho da minha herança. E do mesmo modo, fez questão de incluir cláusulas semelhantes em legados para outros sobrinhos netos, filhos de David de Medina e Samuel Ximenes, que apenas seriam entregues se tivessem o nome de Marques.  

 

Fontes

A.N.T.T. Inquisição de Lisboa, processos 5412,  8447, 11262.

A.N.T.T. Armário Jesuítico 2.ª caixa n.º 82 maço4  n.º 19

The National Archives – Public Record Office – Catalogue Reference: Prob/11/394 –Image Reference 548.

 

 

 

domingo, 19 de agosto de 2012

Inquisição em Miranda do Douro e a ponte sobre o rio Sabor na Portela,por Antonio Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães

Várias vezes temos dito que os processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas surpreendentes.
Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma casa de morada na Rua da Costanilha em Miranda do Douro por 1640

Por: Antonio Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães

Por ser terra de fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios, tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1)
Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que, existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso” interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.
No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Presos em Miranda do Douro em 1556 quando cozinhavam uma panela de carne.

21 de Fevereiro de 1556. Caiu nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6 irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484. Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6 homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos “baptizados em pé”.
Voltemos agora a Miranda do Douro onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho (antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este. Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556, foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro de 1557, juntamente com os respectivos processos.
 E se em Miranda do Douro ele tudo negava e nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão.

Fotografias da Fonte dos Canos e da Ponte de S.Luzía (1957).Enviadas por Arnaldo Firmino