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| Vila Flor - 1951 |
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 9
Tomás Rodrigues Pereira. Nasceu em Vila Flor por 1605 e
faleceu em Amesterdão em 1699. Depois de casar com Beatriz Gomes, o casal
deixou Vila Flor e foi para Madrid. Em Espanha começou por trabalhar no negócio
da distribuição do sal e nos anos 30 tornou-se conhecido como exportador de lãs
para França. Em tais negócios usava o pseudónimo de Francisco de Gurre, o que
deixa adivinhar alguma margem de ilegalidade ou fuga aos impostos. Por 1640,
seguiu com a mulher, os filhos e a sogra para Amesterdão, abraçando claramente
o judaísmo e tomando o nome de Abraão Israel, ao circuncidar-se, naturalmente.
Mercador abastado e influente no seio da comunidade, conseguiu autorização para
instalar uma refinaria de açúcar, a primeira que houve em Amesterdão. O tempo
era de angústia para os sefarditas, com o “auto de fé” de Toulouse, em França e
a Inglaterra a abrir-se aos católicos. Tomás Rodrigues Pereira não podia ficar
indiferente e colocou-se desde logo ao lado de Guilherme III na luta contra o
rei de Inglaterra Jaime II, tomando o encargo do abastecimento das tropas,
juntamente com Álvaro machado. Esta operação terá sido coordenada pelo seu
filho Jacob e terá envolvido 28 padeiros, 700 a 800 cavalos e 300 a 400 vagões.
Não era coisa fácil dar de comer a exércitos estacionados, quanto mais em
manobras de invasão de um país estranho. Para além de mercador, Tomás era
também banqueiro e foi um doa 20 fundadores do Banco de Hamburgo, o primeiro
que existiu. E era também um homem de letras e o seu nome está ligado à
fundação do primeiro jornal impresso a nível mundial – a Gazeta de Amesterdão.
Tal como aparece entre os fundadores da célebre Academia dos Floridos, cujo
membro mais brilhante foi Oróbio de Castro. Quando em 1666 chegou a Amesterdão
a notícia de que o Messias havia aparecido e estava na Terra Santa, pronto a
tomar a liderança da nação hebreia, Tomás meteu-se logo a caminho da Palestina
ao encontro do Messias. Descobriu-se o logro quando Tomás Pereira ia já em
Veneza e terá sofrido uma tremenda desilusão. Mas isso não o fez esmorecer na
fé mosaica e não impediu que ele custeasse a criação de uma escola talmúdica,
espécie de seminário, em hebron, na Terra Santa. E quando faleceu, deixou 46
000 florins à Talmud Totah de Amesterdão. De entre os seus escritos religiosos,
destacam-se dois livros: Certeza del Camiño e Espejo de la vanidad del Mundo.
Será que nas escolas de Vila Flor o nome deste grande sefardita foi alguma vez
citado, como exemplo para as gerações mais novas?
António Júlio Andrade
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
Descendentes de Francisco Rodrigues Brandão Faro entre Viseu e Londres
por: António
J. Andrade
Maria F. Guimarães
Maria F. Guimarães
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| MONCORVO .1974 |
No dia 26 de Maio de 1779, na
cidade de Londres, fazia seu testamento um indivíduo que se identificava como
mercador, natural de Viseu e se assinava Joshua Rodrigues Brandão. Anos antes,
em 25.1.1768, na mesma cidade, um outro mercador, chamado Abraham Rodrigues
Brandão tinha feito testamento semelhante. Para além da identificação, do
expresso desejo de ser sepultado no cemitério dos Portugueses, das disposições
sobre a herança dos bens, Abraham deixava 20 libras/ano para a sua irmã
Mariana, casada com Mateus Oróbio Furtado, residente em Viseu. E contemplava
ainda seus sobrinhos, filhos de sua irmã Isabel, casada com João Pereira Dias,
residente em França.
Sem dúvida que os nomes judaicos
de Abraham e Joshua não foram os recebidos no baptismo cristão feito em
Portugal, antes foram adoptados depois da fuga para o estrangeiro e ingresso na
comunidade judaica, porventura no acto da sua circuncisão. Sabemos, porém, que
Abraham e Joshua eram irmãos e ambos deixaram descendência directa. Alguns de
seus descendentes continuaram vivendo em Inglaterra e outros emigraram para o
continente americano, ganharam notoriedade e são bem conhecidos.
E foi a seu pedido que nós
partimos à procura dos ascendentes de Mariana, Abraham, Joshua e outros seus
parentes. Naturalmente que, por se tratar de gente cristã-nova, a procura
começou pelos arquivos da Inquisição Portuguesa. E logo verificámos que Mariana
e seus 7 irmãos foram quase todos hóspedes daquele tribunal, como, aliás,
muitos mais parentes seus. Possivelmente também o terão sido Joshua e Abraham
que então teriam os nomes de João e Lopo Rodrigues Brandão, segundo pensamos,
se bem que não tenhamos ainda provas concretas desta identidade. Mas temos a
certeza de que ambos eram filhos de Francisco Rodrigues Brandão Faro e de
Guiomar Rodrigues Portelo, estes nascidos por 1662 e que também conheceram as
masmorras do Santo Ofício.
Fiquemos então em Viseu, na Rua
Nova, na morada de Francisco e Guiomar, ao início do mês de Novembro de 1698,
quando a Inquisição o foi prender. Antes de mais, diga-se que ele suspeitava
que poderia ser preso já que, antecipadamente ele tratara de enviar uma pequena
fortuna (quase de 3 contos de réis, em “250 ducatões de ouro”!) para Londres. E,
no próprio dia da prisão, entrando ele em casa, uma criada lhe dissera que fora
ali procurado pelo padre António Chaves, vizinho da Rua Nova, que até entrou no
seu escritório e se pôs a mexer-lhe nos papéis. E ao ouvir isto, Francisco foi
direito aos papéis, ripou da folha comprovativa do envio dos 250 ducatões para
Londres e rasgou-a atirando os pedacinhos pela janela para a rua. Só que o
mesmo padre estava de vigia e mandou um rapazito apanhar os pedaços de papel e
reconstituiu a folha. Era realmente um conhecimento (tipo nota de recibo) da
remessa daquele dinheiro, uma prova de que ele estava colocando no estrangeiro
os seus recursos financeiros e talvez preparando a fuga.
Bom, vejamos agora a situação
económica do casal. Antes de mais, diga-se a casa onde moravam era muito boa
pois foi avaliada em 250 mil réis. O casal era ainda proprietário de uma casa
sita numa das 4 esquinas da mesma rua, vendida por 140 mil réis, de 2 outras na
mesma rua que serviam de tulha para recolha do cereal e mais uma pegada às
tulhas, que arrematara um ano antes por 120 mil réis no Juízo do Fisco. Em
Viseu ainda, na Rua da Carvoeira, era co-proprietário de mais 2 casas. Do seu
património imobiliário constava ainda uma casa sita em Lisboa, junto à igreja
de Santa Engrácia, a qual era dotada de uma atafona que, pensamos, serviria
para moer os fardos de tabaco vindos do Brasil. Aliás, a casa e atafona tinham
o formidável valor de 750 mil réis!
E vale bem a pena dizer que o
imóvel pertencera em tempos ao chantre da Sé de Viseu, o licenciado João
Saraiva de Carvalho. Foi dada como hipoteca de uma dívida de 600 mil réis a um
seu parente que morava no Brasil – Francisco Rodrigues, o Temeroso, de alcunha
– e, talvez por não ter filhos, chegou ás mãos de Brandão Faro e de sua tia por
afinidade, Leonor Mendes, viúva de João Rodrigues Portelo.
E estes são 3 elementos da rede
familiar de negócios de Francisco Brandão Faro. E se do Brasil recebia fardos
de tabaco e caixas de açúcar descarregadas em Lisboa, para aquela colónia,
enviava em troca remessas de vinho, tecidos, ferramentas… A título de exemplo,
diremos que, tempo antes da prisão, ele remetera para o Brasil 35 almudes de
aguardente, carregados no Porto por seu primo Diogo Vaz Faro que, por sua vez,
recebia 3 arrobas de “pau cravo”. A aguardente, porém, era fabricada na
Sabugosa, termo de Tondela, onde Francisco tinha montado um alambique de cobre.
E ali tinha também um celeiro onde recolhia o cereal proveniente das rendas que
trazia arrematadas à Mitra de Viseu.
Mas, se no Porto era Diogo Vaz
que tratava dos negócios de Francisco com o Brasil, já com a praça de Londres
era Rodrigo Álvares da Fonseca o intermediário privilegiado. Por suas mãos
transitaram os 250 ducatões, como transitavam as pipas de vinho, os açúcares ou
os tabacos. E em Londres o parceiro comercial de Francisco era o seu parente
Luís de Castro, que antes em Portugal se chamava Nuno Rodrigo Portelo e que, em
troca, lhe despachava predominantemente tecidos. E não era só a cidade do Porto
o palco dos negócios entre Luís de Castro e Brandão Faro. Não, que os ovos não
devem meter-se todos no mesmo cesto. Por uma questão de segurança, algumas
operações de embarque / desembarque de mercadorias negociadas eram efectuadas
no porto de Viana do Castelo, por exemplo, onde o seu representante era um tal
João Reimaste, estrangeiro.
Por esclarecer estará ainda a
questão do nome Faro, mas que terá sido acrescentado ao apelido por alguma
ligação à cidade capital do Algarve e por ali passariam certamente alguns de
seus negócios.
Na rede comercial de Brandão Faro
entrariam provavelmente muitas mais pessoas, geralmente ligadas por laços
familiares, como era o caso de seu cunhado Domingos Pereira, marido de Isabel
Gomes Brandoa, em Bayonne, França, país de onde importava muitos coiros de vaca
para solas. E também haveria alguns outros parentes e amigos que asseguravam as
parcerias comerciais em praças de mais negócio, como Amesterdão na Holanda,
Livorno em Itália e outras.
Mas não se pense que o mundo
empresarial de Brandão Faro girava apenas em volta da cobrança de rendas e dos
grandes negócios de importação / exportação. Não: ele deitava a mão a tudo,
como se depreende do inventário de seus bens, onde aparece quantidade de
objectos de ouro e prata (avaliados em 235 500 réis), muito linho e algodão, em
rama ou fiado, muitas dívidas de pão fornecido ou dinheiro emprestado a juros,
de solas vendidas a sapateiros, pipas de vinho fornecidas a vendeiros.
E também ia a Bragança cobrar dívidas
da mão do abade de Rossas e negociar sedas com o “industrial” Tomás Rodrigues
da Silva ou na real fábrica que existia na cidade. De igual modo se metia no
monopólio das “cartas de jogar e solimão”, em parceria com Luís Rodrigues
Ferreira, da cidade da Guarda.
Voltemos ao momento da prisão de
Francisco para dizer que, em casa, em dinheiro vivo, ele tinha a extraordinária
quantia de 3 contos, 50 e tantos mil réis metidos “em um caixotinho fechado com
um cadeado, metido numa arca e outro pouco de dinheiro em dois taleigos…” Sinal
de vitalidade e força empresarial? Ou mais uma prova de que ele se preparava
para abandonar o país e estabelecer em terra alheia a sede da sua empresa?
A verdade é que, metido a ferros
nas masmorras da Inquisição de Coimbra, Francisco Brandão Faro, desde logo se
declarou culpado de práticas de judaísmo e delas pedia misericórdia e perdão.
Aliás, confessou que desde há meio ano que andava pensando vir apresentar-se de
livre e espontânea vontade e se o não fez foi porque João Lopes da Mesquita e
seu irmão Francisco Lopes da Mesquita lhe disseram que não se admitiam
apresentações. Este último, aliás, sendo seu compadre e pessoa de grande
intimidade é que o terá induzido no erro e doutrinado, uns 15 anos atrás. Este
seu compadre dizia-se mesmo judeu, tal como um outro irmão, o dr. António Lopes
da Mesquita, médico de profissão. Para além destes e entre muitas outras
pessoas denunciadas por Francisco Brandão Faro como seus cúmplices em práticas
de judaísmo, fixemos o nome de seu primo Francisco Marcos Ferro, advogado,
natural de Torre de Moncorvo, morador em Viseu e que, dois anos antes,
transferiu a sua residência para o Porto. Daquele médico e deste advogado
haveremos de falar em outra ocasião.
Resta agora dizer que o processo
levou dois anos a ser despachado, acabando o réu por ser condenado em hábito e
penas espirituais, saindo no auto-de-fé de 18 de Dezembro de 1701. Em Agosto
seguinte seria autorizado a despir o sambenito que remeteu para Coimbra,
juntamente com 3 vinténs. E terminamos transcrevendo uma pequena oração que
Francisco Brandão Faro rezava “para os mortos, a qual dizia sexta-feira ou
sábado, por estarem as almas em folgança”:
Folgança composta
Assentamento de altura,
Dá Senhor claridade dos céus
Para a vida em o mundo virá,
Venha sobre a alma do meu pai
E da minha mãe. (Ou da pessoa de quem se
pedir – acrescentou).
Fonte – IANTT, Inquisição de
Coimbra, processo nº 8867, de Francisco Rodrigues Brandão Faro.
NOTA – Este trabalho foi
publicado no jornal Terra Quente
sábado, 13 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 8
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| Real Filatório de Chacim .Foto: Carla A. Gonçalves |
Jacob Rodrigues Pereira. Nasceu em Espanha, depois que seus
pais foram presos em Cádiz quando iam fugidos de Chacim, terra do actual
concelho de Macedo de Cavaleiros, perseguidos pela inquisição. Nenhum português
despertou mais atenção e mereceu mais elogios que ele por parte dos
enciclopedistas e dos membros da Academia das Ciências de França e até chegou a
ser contemplado com o estatuto de representante de toda a nação sefardita. Mas
esqueceram-se dele os dicionaristas dos ilustres Trasmontanos e creio que nem
uma placa tem a lembrá-lo na sua terra. O prestígio alcançado deriva do facto de
ter sido o primeiro grande investigador na área das ciências de educação dos
surdos-mudos. Da descendência de Jacob Rodrigues Pereira devemos citar dois
netos (Jacob Emílio pereira e Isaac Pereira) que ganharam lugar na história da
França e da Europa, por mérito próprio e são referidos como “Les Frères
Pereire”. Na verdade eles formaram uma dupla empresarial que deu cartas, nos
mais diversos ramos de actividade. A começar pelos caminhos de ferro, pois que
eles foram os maiores construtores de linhas no interior de França e também de
linhas transeuropeias. Com os pés bem assentes na terra, eles investiram
igualmente nos transportes marítimos, chegando a ter uma frota de 21 barcos
navegando nos mares. Ainda no domínio dos transportes, eles criaram uma “Companhia
Geral de Omnibus” e outra de “Entrepostos e Armazéns Gerais”. Esta, para além
de assegurar o transporte, carga, descarga e armazenagem de mercadorias, tinha
também uma secção de Seguros. E para garantir disponibilidade financeira das
empresas do grupo, os irmão pereira criaram a “Sociedade Geral de Crédito”, uma
espécie de banco popular onde cabiam também os pequenos investidores. O tempo
destes homens não era já o tempo da clandestinidade religiosa, mas o da
revolução industrial e do progresso, com o afluxo de multidões de camponeses às
cidades. E para responder à procura, os netos de Jacob Rodrigues Pereira
meteram-se a fundo na construção civil criando a “Companhia Imobiliária de
Paris” responsável pela construção de inúmeros blocos de apartamentos, vivendas
e hotéis e pela abertura de múltiplos arruamentos. E lançaram empresas
absolutamente inovadoras para a época: a “Companhia Parisiense de Iluminação,
Aquecimento e Gás” e a “Sociedade de Lavagens industriais”, que chegou a dispor
de 45 máquinas de lavar e 30 de lixiviar. Por 1870, “Lés Frères Pereire” eram
proprietários de 2 castelos, 21 hotéis, 55 boutiques, 314 apartamentos e 26
estrebarias – um verdadeiro império. Dizem-nos que actualmente existem mais de
400 descendentes directos desta família originária de Chacim, concelho de
Macedo de Cavaleiros. Será possível estabelecer contacto com alguns deles e
mostrar-lhes que a actual geração de filhos de Chacim se orgulha daqueles para
quem, em outras eras, a terra foi madrasta?
António Júlio Andrade
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 7
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| Pavillon Du Chateau Raba |
Abraão Raba. A história dos Raba, de Quintela de
Lampaças, Vila Franca e Bragança na inquisição é mais comprida que a linha do
comboio. Os últimos a serem penitenciados foi no auto de fé de Coimbra de 1751,
posto o que a família abalou para França, dirigida pela matriarca e pelo filho mais
velho, José Henriques Nunes. Aportados a Bordéus aderiram abertamente ao
judaísmo, tomando José o nome de Abraão. Com eles seguiu a prima Catarina que,
desde criança fora destinada a casar com José. O casamento realizou-se pouco
depois da chegada a França, por 1763. 4 anos depois Abraão Raba era já um homem
respeitado e influente, a ponto de ser eleito síndico da comunidade. Nessa
qualidade, em 22 .3.1768 convocou uma assembleia dos notáveis destinada a
desfazer equívocos e mexericos sobre o seu casamento, pois corria o boato de
que ele não pagara o imposto sobre o dote recebido da noiva. Ele então mostrou
o contrato de casamento e provou que nada recebeu em dote, pelo que não tinha
qualquer taxa ou imposto a pagar. Estranhou, porém, que aos seus pares não
bastasse a sua palavra honrada e fosse preciso chegar a esta devassa da sua
vida. E anunciou com toda a solenidade que decidira fazer uma oferta aos pobres
da comuna, depositando, acto contínuo, 90 libras nas mãos do adjunto do
síndico. Se antes era já um homem respeitado e influente, mais ficou sendo e
seus negócios e de seus irmãos, que todos trabalhavam em rede, cresceram
rapidamente, girando em volta do comércio marítimo, para o que adquiriram uma
frota de barcos e da importação de açúcar das Antilhas. Aliás, dois dos irmãos
foram fixar-se naquelas paragens, abrindo uma sucursal da firma Raba em
Port-au-Prince. Na cidade de Bordéus moravam em um palacete na Rue des Fossés
mas, à moda da época, em sinal de riqueza e prestígio, os Raba construíram em Talence,
arredores de Bordéus “uma das mais belas casas de campo existentes em França” –
como era apresentada no famoso guia turístico de Mr Bernadau. Nele se descrevem
com inusitado pormenor, os salões do palácio e o jardim povoado de estátuas e
inscrições, onde se davam famosos concertos musicais e promoviam elegantes
recepções, frequentadas por personalidades da primeira linhada aristocracia de
França, como foi o caso de Beaumarchais e mesmo de Napoleão Bonaparte. Conta-se
que as tropas de Napoleão quando invadiram Portugal pelo Norte não seguiram o
caminho mais direito entrando por Bragança, antes foram dar uma volta bastante
grande e entraram por Chaves, exactamente porque os Raba terão pedido ao
imperador e à imperatriz Josephine, que estavam hospedados no seu palácio, que
poupassem a sua terra natal. Creio que existem descendentes directos dos Raba,
mantendo este sobrenome. Não sei é se o palácio de Talence, hoje transformado
em hotel de 4 estrelas ainda se mantém na posse da família. Bem gostaria de ir
lá em viagem de turismo cultural. E também não sei se os Brigantinos e
Trasmontanos ainda iremos a tempo de saldar uma dívida de gratidão a sefarditas
que bem prestigiaram a terra que lhes foi madrasta, mas que foi a terra onde
viram a luz.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 6
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| Sambade -2012 |
António Júlio Andrade
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 5
Luís de Carvajal de la Cueva. Porventura nenhum português, para além de Cristóvão Colombo, é mais conhecido prestigiado na região do Texas e Nordeste do México do que “El Conquistador”. A ponto de ter uma estátua equestre plantada na mais nobre avenida da cidade mexicana de Monterrey e de os Americanos terem celebrado o V centenário da sua morte com a composição de uma ópera, interpretada pela orquestra de S. Diego. Em Mogadouro, sua terra natal, não passa de um ilustre desconhecido, sem qualquer sinal de sua memória. Ocupava o cargo de Governador do Novo Reino de Leão quando foi preso pelo tribunal da inquisição do México. Ele e todos os membros da numerosa família e numerosos amigos que o acompanharam na colonização daquela parte do mundo, cerca de 100 famílias, muitas delas recrutadas entre os marranos de Trás-os-Montes. Um sobrinho, também chamado Luís de Carvajal, é considerado um dos mártires do judaísmo, pois morreu afirmando a sua fé mosaica enquanto as chamas crepitavam, no célebre auto de fé da Cruz Verde, em 8 de Dezembro de 1596.
António Júlio Andrade
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos, Sefarditas e marranos - 4
Baltasar Oróbio de
Castro. Terá nascido
em Bragança em 1617. Por 1622, foi levado para Espanha, fixando-se a família em
Málaga. Seus pais eram pobres e foi sob a protecção de um tio materno que ele
foi estudar para a medíocre universidade de Osuna, transitando em 1635 para a
de Alacala de Henares, esta sim, de prestígio. Na primavera de 1640, ao ter
notícia da prisão do tio e dos pais, ele desapareceu, sem ter concluído o curso
de medicina. Não sabemos que voltas deu mas, ao findar de 1642, Baltasar
Álvares de Oróbio aparece nomeado professor de medicina na universidade de
Sevilha, certamente com falso diploma e com a intervenção do poderoso duque de
Medicaceli, em cuja casa servia. Em 1651 casou em Cadiz, com Isabel de Pena,
filha de um rico mercador, acompanhada de largo dote. Mas nem o poderoso duque
impediu que Baltasar fosse preso pela inquisição de Sevilha, saindo
penitenciado em 1656. Rumou de seguida para Bayonne e depois para Tolouse, em
cuja universidade foi admitido como professor de medicina. Apresentou um
diploma supostamente passado pela universidade de Alcala. Em Janeiro de 1663
estaria já em Amesterdão, usando o nome de Isaac Oróbio de Castro. Ali ganhou
fama de polemista, empenhando-se com “denodo farisaico” no combate às ideias
menos ortodoxas em relação ao judaísmo vigente expressas por João do Prado (seu
colega em A. Henares) e baruch Espinosa. Faleceu em 1687. O seu nome foi
justamente perpetuado na toponímia de Bragança e constitui um activo do
património cultural da cidade.
António Júlio Andrade
domingo, 7 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos – 3
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| Rembrandt, oil sketch for etched portrait of the Amsterdam Jewish physician Ephraim Bueno, 1647 Amsterdam, Rijksmuseum |
António Júlio Andrade
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 2
| Palácio de Schönbrunn |
Fernando Montesinhos.
Nasceu em Vila Flor em 1589 e faleceu em Antuérpia em 1659. Foi um dos chamados "Banqueiros do Rei" Filipe de Espanha e Portugal. Iniciando a vida no comércio de tecidos, especializou-se como "asientista", ou seja, contratador de serviços da casa real, como fosse a cobrança das rendas das salinas e comércio do sal ou o abastecimento de géneros às tropas. estacionadas no Norte de África. Tendo abandonado a terra por causa da inquisição portuguesa, acabou prisioneiro da inquisição espanhola de cujas cadeias saiu contra o pagamento da formidável quantia de 10 000 cruzados.
O Barão de Aguilar.
O Barão de Aguilar.
Liberto das masmorras da inquisição de Coimbra, Francisco Lopes Pereira e a mulher, Maria Dias, meteram-se a caminho de Espanha. Ali fizeram fortuna, no negócio do tabaco. Um dos descendentes chamou-se Manuel e passaria à história com o título de Barão de Aguilar. Aquando da Gueera da Sucessão de Espanha, empenhou-se totalmente na cauda do Arquiduque Carlos que depois viria a reinar na Áustria. E para ali foi também o Barão de Aguilar, convidado a organizar a distribuição do tabaco no país, sob a forma de monopólio, recebendo a garantia de que lá podia professar abertamente o judaísmo. E por 16 anos ele deteve o monopólio da venda daquele produto. Amigo e conselheiro da imperatriz Maria Teresa, adiantou do seu bolso, a título de oferta à imperatriz, uns 300 000 florins para a construção do Palácio de Schöenbrunn, hoje classificado património da humanidade. O barão de Aguilar acabaria por mudar-se para Londres e ali faleceu em 1759 com 60 anos de idade. Quem o recorda em Mogadouro?
António Júlio Andrade
António Júlio Andrade
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
MOISES MENDES PEREIRA – baptizado em Bragança e circuncidado em Londres
Por: António
J. Andrade
Maria F. Guimarães
Maria F. Guimarães
José Rodrigues foi notificado por
João Gonçalves, familiar do Santo Ofício para se apresentar novamente em
Coimbra até ao dia 24 de Abril de 1728. A ordem foi cumprida e ele foi recebido
em mais uma audiência. Confirmou as declarações quer antes fizera e acrescentou
mais algumas denúncias, nada de importante para o desfecho do processo.
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| Domus Municipalis |
E foi um dos 79 penitenciados no
auto-de-fé celebrado no Terreiro de S. Miguel, em 9 de Maio seguinte. Neste
auto não houve gente condenada à morte, como aliás não havia desde há uns 10
anos em Coimbra. Apenas em Lisboa se decidiam então os processos considerados
mais graves.
O tecelão brigantino foi condenado
em penas espirituais e no confisco de todos os seus bens. Entre esses bens
incluía-se uma parte de uma casa da Rua Direita, onde moravam seus pais e
irmãos, como consta do inventário.
Regressou a Bragança e… a vida
não seria fácil, complicando-se o seu relacionamento não apenas com os
cristãos-velhos mas também com os cristãos-novos, nomeadamente com os seus
amigos e familiares. Com efeito, ninguém sabia ao certo as denúncias que ele
teria feito na Inquisição e as desconfianças avolumavam-se.
Ele bem tentaria normalizar a sua
vida e nada melhor do que sair de Bragança a negociar por essas terras afora,
em vez de ficar ali a lamber as feridas e remoer as mágoas…
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 1
A generosidade é para mim uma das características mais vincadas dos Trasmontanos. Talvez esteja relacionado com a vida dura aquém dos montes. E por toda a parte onde os Trasmontanos chegam, eles estabelecem relações de boa vizinhança, baseadas naquela generosidade.
Porém, a generosidade que temos com estranhos e deles nos faz próximos falta muitas vezes nas relações entre nós e dos nossos nos afasta. Até parece que de generosos passamos a mesquinhos, no trato comunitário.
| Cortiços -Foto de Luís Coelho |
Exemplar, a este respeito, é o que se passa com os Trasmontanos Sefarditas e Marranos. Alguns deles ganharam relevo a nível mundial e têm os seus nomes inscritos em enciclopédias de âmbito mundial mas são esquecidos dos nossos dicionaristas e afastados da toponímia das nossas terras. Vou apresentar alguns exemplos:
Manuel Cortiços. Tendo embora nascido em Madrid, em 1603, os seus pais eram Trasmontanos fugidos da inquisição. A sociedade e a família perpetuariam no sobrenome, que ainda hoje conservam descendentes seus, a terra de sua origem - Cortiços - no actual concelho de Macedo de Cavaleiros. Manuel Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos, onde até eu, pequeno escriba, já tomei lugar, por mão alheia.
José Cortiços. Nascido em Antuérpia em 1656 e falecido em Londres
em 1742, foi outro dos membros da mesma família fugida de Trás-os-Montes.
Virado para o abastecimento das tropas, durante a Guerra da Sucessão de
Espanha, eles colocou-se do lado do Arquiduque Carlos, futuro imperador da
Alemanha. Depois da guerra, a viver já em Londres,, José Cortiços queixar-se-ia
de que a Inglaterra lhe ficou devendo 25 000 libras (de géneros fornecidos aos
militares estacionados em Gibraltar) e Portugal 70 000, de provimentos ao exército
do Marquês das Minas. Também o seu nome não consta das listas publicadas de
notáveis Trasmontanos e nenhuma lembrança tem na terra de seus ascendentes
Trasmontanos.
António Júlio Andrade
Miranda do Douro : Diogo (Isaac) Rodrigues Marques c. 1635 – Londres c. 1675.
Por: António J.
Andrade
Maria F. Guimarães
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| Rua da Costanilha (1951) |
Diogo Rodrigues Marques nasceu em Miranda
do Douro, em uma casa da rua da Costanilha, pelo ano de 1635. Cedo ficaria
órfão de pai (Francisco Rodrigues) que, entretanto, fora estabelecer-se em
Lisboa, abrindo uma pequena loja de mercador na rua Nova.
Depois da morte do pai, Diogo e o irmão
ficaram entregues aos cuidados de seu tio paterno, António Rodrigues Mogadouro,
líder de um dos grandes empórios comerciais portugueses daquele tempo. A mãe de
Diogo, Maria Lopes, terá então viajado para a Itália onde tinha vasta
parentela, nomeadamente o seu irmão Jorge Lopes Henriques, que fora morador em
Carção e fugira para Livorno, depois que se viu processado pela Inquisição de
Coimbra, em 1638. Para esta decisão de fuga tomada por Maria Lopes terá também
contribuído o castigo infligido a sua mãe, Beatriz Henriques – queimada pela
inquisição.
Naturalmente que Diogo teve a sua formação
profissional nas empresas do tio Mogadouro e nelas se foi enredando e
associando. E chegada a altura apropriada, foi ajustado o seu casamento com sua
prima, filha do tio Mogadouro, chamada Marquesa Rodrigues, nome que herdou da
avó paterna. Aliás, também o Diogo herdou o sobrenome do avô, marido daquela, a
quem chamavam, por alcunha, o marquês.
O casamento de Marquesa e Diogo ter-se-á
realizado ao findar da década de 50 e em 1660 nasceu a primeira filha do casal,
a que deram o nome de Isabel Henriques, certamente em homenagem à avó materna,
irmã do célebre embaixador do rei D. João IV, Manuel Fernandes Vila Real.
Por essa altura, contando apenas 25 anos de
idade, Diogo Rodrigues Marques teria já a sua própria empresa e nome feito na
praça comercial lisboeta. Sabemos, por exemplo, que em Março daquele mesmo ano,
ao Poço da Foteia, em um armazém foram descarregadas 134 pipas de vinho por ele
adquiridas em Gogim, Lamego, a um filho de Gaspar Gomes da Fonseca, certamente
destinadas à exportação para o Brasil onde então se encontrava o seu irmão
António dirigindo os negócios da família.
Também a situação política do país seria
favorável ao desenvolvimento dos negócios dos Mogadouro que muito lucrariam com
o fornecimento de géneros aos militares empenhados em Trás-os-Montes na guerra
que por 18 anos se desenrolou com a Espanha e ao esforço da reconquista de
terras e feitorias comerciais do Ultramar português que espanhóis, franceses,
holandeses e outros cobiçavam. E também ajudaria a ligação dos Mogadouro a D.
Guiomar de Távora e ao Conde de Castelo Melhor que então era “o grande senhor
da política portuguesa” – na expressão de José Hermano Saraiva.
Porém, no horizonte político do país
adivinhava-se borrasca, com a inquisição a estender os seus tentáculos a todos
os meandros da sociedade e uma distribuição de títulos de Familiares pelos
membros da nobreza como nunca se vira. E também os Mogadouro e Diogo Rodrigues
Marques seriam atingidos em suas vidas e negócios.
Tudo começou em Fevereiro de 1670, quando 2
escravos negros que os Marques tinham em casa no serviço doméstico se dirigiram
à inquisição de Lisboa a contar que 4 meses antes, ao início de Outubro, o
António, o Diogo, a Marquesa e 2 filhos do casal se apresentaram em certo dia
da semana, todos com vestidos novos e os não quiseram lá em casa a eles a
servir o jantar, como era costume, suspeitando os escravos que “naquele dia
festejavam o seu santo serviço, que era fazerem cerimónias de judeus”. E que à
noite, também vestidos de fatos domingueiros, foram juntar-se a eles, na mesma
casa, os restantes membros do clã, nomeadamente o velho Mogadouro e os filhos.
Sabemos que Diogo Rodrigues Marques ainda
se encontrava em Lisboa com a mulher e os filhos em Março de 1673, 9 meses
depois que António Mogadouro e os 2 filhos mais velhos foram presos, pois que,
juntamente com seu irmão António Marques e seu primo Pantaleão Rodrigues
assinou uma exposição dirigida aos senhores inquisidores, em defesa dos ditos
prisioneiros, tentando provar que foram denunciados injustamente e por inimizades
pessoais.
Mas, ao contrário dos primos e das primas,
filhos do Mogadouro, que ficaram por Lisboa e todos acabaram presos, Diogo
Marques pegou na mulher e nos filhos e fugiu para Inglaterra. E se em Lisboa os
seus negócios prosperavam, em Londres, ganharam outra dimensão, uma dimensão
planetária e capitalista. Na verdade bastaram dois ou três anos para que Diogo
Marques ganhasse um lugar próprio na City, que nos permite considerá-lo como um
judeu novo e um dos tais construtores do mundo moderno e do sistema
capitalista.
Em simultâneo, a família de Diogo ascendia
na escala social, frequentando círculos de amigos ligados mesmo à casa da
rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança. Nesse movimento de promoção
social da família Rodrigues Marques, certamente foi decisivo o casamento da sua
filha mais velha, D. Isabel Henriques Marques com o Dr. Fernando Mendes, médico
pessoal da rainha. Esta viria inclusivamente a ser a madrinha da neta primogénita
de Diogo Marques, nascida em 1678, a qual recebeu dela o nome cristão de
Catarina, se bem que posteriormente, com a sua educação e adesão ao judaísmo,
passasse a usar o nome de Rachel. Diogo, aliás, Isaac Marques era já falecido e
não viveu este acontecimento.
Mas se a filha mais velha era o orgulho da
família e a honrava, o mesmo não pode dizer-se do filho mais velho que, em
1662, em Lisboa, no baptismo, recebeu o nome de Francisco e depois de
circuncidado adoptou o de Isaac Rodrigues Marques. Dele se queixava o pai “pelo
motivo da sua extravagância, porque me tem sido sempre desobediente”.
Em Lisboa terá ainda nascido um outro filho
(José, aliás, Jacob Marques) em 1669 e outra filha (Ana Marques), em 1671.
Depois da fuga para Londres, o casal teve
mais um filho, Moisés Marques, e uma fila, Ribka Marques.
A última notícia que temos de Diogo
Rodrigues Marques data de Novembro de 1675. Trata-se do seu testamento,
começado a escrever em 10 daquele mês. É um documento bem extenso, em letra
miudinha, extremamente importante para o estudo da família e da rede de negócios
que a envolvia e se estendia por vários continentes e diversos ramos de
actividade, com destaque para a marinha mercante e o negócio de diamantes.
Apresentá-lo-emos no próximo número.
Nota –
Este artigo foi publicado no jornal
Terra Quente de 1 de Outubro de 2012.
domingo, 30 de setembro de 2012
CHACIM ANOS DE 1620
O PROCESSO DE ANTÓNIO LOPES REDONDO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA
Maria Fernanda Guimarães
Era um dia de Outubro, do ano de 1620, a horas do meio dia. Vindo da aldeia de Lagoa, onde residia, Pêro de Matos tinha acabado de entrar na vila de Chacim, pela rua dos Sapateiros, a seguir á ponte, montado em cima de um macho. De repente, por detrás, caíram-lhe fortes estocadas na cabeça e no ombro, que o lançaram por terra e o deixaram a sangrar. Reconheceu o agressor, que até era seu primo, e pôs-se a gritar:
- Aqui d´el-rei! Acudam que me mata! Em nome da santa Inquisição, ajudem-me!
![]() |
| Foto de Marta |
- Ah! Cão! Ainda te atreves a vir aqui! Vou-te matar, cão nojento!
Acudiram pessoas e os comentários eram unânimes: António Lopes jurou que se vingaria do Matos por este ter denunciado seu pai na Inquisição de Coimbra, onde então se encontrava preso.
Pêro de Matos, por seu turno, saíra meses antes da mesma cadeia e estava cumprindo a penitência que lhe fora imposta. E como penitente, estava, de certo modo, protegido pelo Santo Ofício. Fazer-lhe mal, por motivos relacionados com a sua passagem pelo tribunal da fé, era o mesmo que afrontar aquela sagrada instituição.
Embora ferido e a sangrar, Pêro de Matos dirigiu-se para casa do juiz da vila de Chacim, João da Mesquita, mas ele não estava, segundo respondeu sua mulher. E como ele não estava, o queixoso rumou a casa do padre Manuel Mendes, que morava em frente, a quem “requereu publicamente fizesse autos” dizendo que António Lopes o agredira “por se dizer que ele culpara a seu pai no santo ofício”.
Claro que o padre, na falta do juiz, deveria atender à solicitação do queixoso, ou encaminhá-lo, pois que ninguém podia escusar-se a colaborar, em matéria relacionada com a Inquisição. Era crime. Além disso… parece que este padre não morria de amores pela família Redondo, antes pelo contrário. E o padre e o ferido se dirigiram a casa do tabelião Francisco Borges, que era pessoa indicada para escrever e autenticar o auto que, em seguida, o padre se encarregaria de enviar para Coimbra.
Enquanto isso também o António Lopes se mexeu, dirigindo-se a casa de um outro tabelião, Diogo Machado, para que autuasse as suas declarações, dizendo que fora o Matos que o provocara e se gabava de ter denunciado o seu pai na Inquisição e ele apenas tratou de se defender. Era uma acusação muito grave. A ser provada significaria que Pêro Matos violou o juramento que fizera de nada contar sobre o que aconteceu e o que dissera, vira e ouvira dentro do sagrado tribunal da Inquisição. Certamente pensando nisso, o tabelião ter-se-á escusado de autuar as declarações de A. Lopes.
Não sabemos que mais informações e outros documentos chegariam a Coimbra e que diligências se fizeram. Sabemos é que, em 20 de Março de 1621, os inquisidores mandaram um António Dias, familiar do Santo Ofício, que fosse a Chacim e levasse preso o Redondo, com cama, cozinha e roupa necessária para estadiar na cadeia, bem como 30 mil réis para a compra de alimentos.
Em simultâneo escreveram para o comissário regional da Inquisição, o dr. Gaspar de Morais, abade da igreja de Sendas, do vizinho concelho de Bragança, que foi a Chacim a inquirir as testemunhas, nomeadamente o juiz e a mulher, o tabelião Francisco Borges e o padre António Mendes. Todos eles testemunharam contra António Lopes, sendo o mais vigoroso depoimento prestado pelo juiz ordinário, João da Mesquita.
Claro que em Coimbra o prisioneiro contou a história como se de uma simples briga se tratasse, pois que eram inimigos de há muito tempo, mas nada que envolvesse matérias relacionadas com a Inquisição. Naturalmente que isso contradizia os testemunhos referindo que a causa da briga foi por ter o outro denunciado seu pai como judaizante. E o que era grave era a fuga de informação! Trataram, por isso os inquisidores de saber como João Lopes tivera tal informação. E ele respondeu:
- Que lho dissera o juiz João da Mesquita quando prenderam Pêro de Matos pelo Santo Ofício havia ameaçado o pai dele confidente.
Certamente que os inquisidores não acreditaram nisso, se bem que o prisioneiro apresentou contraditas tentando justificar que as testemunhas eram suas inimigas e por isso não mereciam crédito. E estando ele preso e tendo o seu pai saído já em liberdade e voltado a Chacim, enviou para Coimbra uma carta do teor seguinte:
- Diz João Lopes que (…) estando preso nesses cárceres dessa cidade de Coimbra, prenderam a seu filho António Lopes Redondo por culpas que devia ter ao tempo de sua prisão. Que o prendeu o padre Manuel Mendes e o padre Domingos Fernandes, desta vila, e por ser o dito padre Manuel Mendes inimigo capital dele João Lopes e de seu filho e é público e notório fizera um auto de resistência do dito seu filho, não sendo assim, chamando as testemunhas e mandando-lhe assinar um papel sem lho ler nem dizer o que era, nem o dito padre Domingos Fernandes fazer o tal auto nem ser sabedor, pede a Vs Senhorias mandem perguntar ao dito padre Domingos Fernandes se lhe fez a tal resistência e a Belchior Rodrigues, o Mostarda, e a Martim Nunes que declarem a verdade de como os mandou assinar sem lho ler…
Não terá este requerimento influenciado o desenrolar do processo de António Lopes que, depois de submetido a tormento, levando um “trato esperto e outro corrido” acabou por ouvir sua sentença no auto de fé realizado em Coimbra em 4 de Maio de 1625, abjurando de leve, com uma vela acesa na mão e “pelo excesso de atrevimento que cometeu contra o respeito do santo ofício no ferimento que fez, seja açoitado pelas ruas públicas desta cidade e seja degredado por 3 anos para as galés, onde servirá ao remo, sem soldo”.
Antes de ser levado pelas ruas e açoitado, António Lopes interpôs recurso da sentença, nos seguintes moldes:
- Conforme direito e ordenação do Reino, os juízes e vereadores de qualquer cidade ou vila estão escusados de haver e se lhes dar pena alguma vil como é de galés e açoites (…) e isso mesmo seus pais e avós que tiveram servido os tais cargos são escusados do mesmo privilégio os ditos seus filhos e netos…
Queria isto dizer que, provando-se o exercício do cargo de juiz ou vereador pelo réu ou por seu pai ou avô, ele não poderia ser açoitado pelas ruas da cidade e a servir nas galés.
Do recurso constava ainda um outro argumento, de acordo com o qual os mercadores que anualmente pagassem imposto nas alfândegas do Reino mais de 200 mil réis de mercadorias importadas ou exportadas estariam igualmente abrangidos por uma lei que os protegia das tais penas vis dos açoites e galés.
A primeira parte do recurso foi aceite, a segunda não, pois a ordenação régia contemplava apenas os mercadores com rendas e contratos fixos e registados na fazenda real e não os importadores / exportadores ocasionais.
Aceite o recurso, tratou-se de proceder à inquirição de testemunhas em prova de que o pai e o avô tinham sido vereadores na câmara de Chacim, processo que foi conduzido pelo já referido abade de Sendas e se provou ser verdade.
E dessa inquirição transcrevemos parte de um depoimento onde se refere a actividade mercantil de António Lopes Redondo, filho de João Lopes, o Rico:
- Disse que tratava para Castela em lenços finos e linha fina e seda em rama que tratava e tomava em pagamento de suas dívidas e no dia em que o embargante foi preso, levava 6 cargas de lenço para Castela pela alfândega de Miranda e de Castela trazia sedas para o Reino onde as vendia…
Conseguiu o Redondo livrar-se dos açoites e das galés, regressando a Chacim ao cabo de 5 anos de cadeia.
Breve abandonariam Chacim e o Reino indo refazer suas vidas em Madrid.
FONTES:
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5405, de João Lopes, o Rico; processo 4071, de António Lopes Redondo.
MARkUS SCHREIBER, Marranen in Madrid 1600 – 1670.
Nota: Este texto foi publicado no jornal Terra Quente
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Judeus Novos de Trás-os-Montes na Construção do Mundo Moderno
António J. Andrade
Maria F. Guimarães
Chamava-se Francisco Rodrigues, mas era conhecido pela alcunha de marquês, certamente por ser filho de Marquesa Rodrigues. Nasceu em Miranda do Douro e aí casou com Maria Lopes e nesta cidade, na rua da Costanilha, residiram e tiveram dois filhos machos. O mais novo, nascido por 1637, recebeu o nome de António Rodrigues Marques.
Francisco Rodrigues que, entretanto rumara a Lisboa onde abrira uma loja comercial, faleceu pouco tempo depois. Não sabemos se, nessa ocasião, Maria Lopes e os dois filhos ainda estavam em Miranda do Douro ou residiam em Lisboa. Como quer que fosse, a partir dessa altura, os órfãos ficaram sob a protecção de António Rodrigues Mogadouro, irmão do falecido, cujos negócios prosperavam. Sobre Maria Lopes deixamos de ter notícias. Acreditamos, porém, que tivesse emigrado, tal como seu irmão Jorge Henriques que foi para Livorno, Itália. Encontrá-la-emos mais tarde em Londres.
![]() |
| Porta da Costanilha (1949) |
- A pessoa que lhe ensinou a crença na lei
de Moisés foi António Rodrigues Marques, cristão novo, homem de negócio, primo
e cunhado dele confidente, viúvo de sua irmã Leonor Rodrigues (…) haverá 14
anos, na cidade de S. Salvador, estado do Brasil, em sua própria casa, onde ele
confidente também assistia…
Regressou a
Lisboa uns 6 anos depois e esposou a prima Leonor, que logo veio a falecer, sem
deixar descendência. António nunca mais casou, ficando a viver em casa do irmão
e da cunhada, que todos trabalhavam nas empresas Mogadouro que então se
constituíam num forte grupo comercial organizado em rede familiar, pelos quatro
cantos no mundo.
Em 19 de Julho
de 1672, a roda da fortuna mudou, quando a inquisição de Lisboa prendeu António
Mogadouro e os seus dois filhos mais velhos. Curiosamente as primeiras denúncias
e essenciais para estas prisões, foram feitas por 2 escravos negros que serviam
na casa de António R. Marques e este era incluído nas mesmas, como o mais
culpado. E outras denúncias contra ele foram feitas, nomeadamente por Jorge
Coelho Henriques que, em 29.11.1673, disse aos inquisidores que 9 anos e 4
meses atrás, em Lisboa, na rua Nova, António Rodrigues Marques, contratador,
casado com uma filha do Mogadouro, se tinha com ele declarado judeu.
A prisão dos
Mogadouro não seria isolada, antes estaria enquadrada num esquema bem montado
pelos inquisidores de decapitação das empresas que, em seu entender, protegiam
os judeus. Na verdade, nunca em Portugal a luta política entre o “partido da
inquisição” e o “partido dos judeus” seria tão intensa como naquela época. E
António Rodrigues Marques assumiu-se como um dos rostos da contestação aos
métodos e ao poder da inquisição. A ponto de, juntamente com Pedro Álvares
Caldas e D. José de Castro (outros grandes capitalistas) “contratarem” os
serviços do padre Francisco de Azevedo, da Companhia de Jesus para em Roma,
negociar com a Santa Sé um perdão geral para os que estavam prisioneiros da
inquisição. Naturalmente que o “embaixador” Francisco de Azevedo começou
exactamente por conseguir salvos condutos para os 3 homens, assim se explicando
porque António Rodrigues Marques não foi preso com o tio, os primos e as primas.
Nos arquivos da Torre do Tombo, colecção Armário Jesuítico (maço 4, nº 19),
encontra-se uma carta escrita e assinada por aqueles três homens, dando conta
daquelas negociações e garantindo o pagamento de 6 mil escudos de despesas
feitas pelo “embaixador” com “prendas” a dignitários da Santa Sé.
Um homem que
levava e trazia as cartas de Roma era conhecido e parente afastado, originário
de Mogadouro, chamado Gaspar Lopes Pereira. Acabou também por ser preso e
queimado na fogueira pela mesma inquisição.
Acerca destas
negociações e das notícias de abusos escandalosos da inquisição portuguesa que
chegavam a Roma, deve dizer-se que não foi conseguido o perdão geral pretendido
mas tão só se conseguiu que a inquisição estivesse parada durante 5 anos, entre
1676 e 1681, não se efectuando novas prisões nem autos de fé, nem sequer
diligências burocráticas relacionadas com os processos dos presos. Estes
continuaram presos, numa espera que se tornaria angustiante.
Enquanto em Roma
se negociava, também por Lisboa promovia António Marques outras diligências
visando colher informações sobre os parentes presos e ajudá-los na sua defesa e
libertação. Para isso conseguiu “comprar” os serviços do alcaide da cadeia, de
modo a este deixar passar cartas e escritos entre ele e o primo Diogo Rodrigues
Henriques (o filho mais velho do Mogadouro e líder das empresas) e também
dinheiro, essencial para corromper o alcaide e os guardas.
De Roma não
vinha o perdão e em Lisboa os inquisidores descobriram o crime do alcaide.
António Marques terá feito embarcar para Inglaterra os membros da família que
ainda não estavam presos, nomeadamente a sua mãe, o
irmão, a cunhada e os filhos destes. E terá diligenciado a transferência de
todos os valores possíveis, especialmente dinheiro e diamantes. Ele ficou por
Lisboa, munido do salvo-conduto, pegando as pontas dos negócios que restavam
das empresas dos Marques/Mogadouro. Inclusivamente há notícia de duas idas dele
à sala da inquisição, na qualidade de testemunha, por causa da corrupção do
alcaide e da morte de um preso na cadeia, com um tiro que lhe deram, suspeitando-se
que os mandantes foram “judeus” por ele ser um traidor e denunciante.
Gorado o perdão
geral e entrando de novo a funcionar a inquisição, António Rodrigues Marques
sentiu que a sua vida corria perigo e nada havia já que o protegesse, pelo que
fugiu para Inglaterra. Documentada está a sua presença em Lisboa em 22 de
Fevereiro de 1681 quando assinou a carta de que atrás se falou para o padre
Francisco de Azevedo. E sabemos que em 4 de Janeiro do ano seguinte, quando a
inquisição foi procurá-lo (a ele e aos 2 escravos referidos), já se encontrava
em Londres.
E em Londres
estava ainda em 2 de Janeiro de 1688 “na cama doente, mas de perfeito juízo” a
fazer seu testamento. E este é uma verdadeira janela que se abre sobre as
vivências deste homem. Nele deixa como herdeira e administradora de seus bens a
sua mãe, Sara Henriques, encarregando-a de fazer diversas ofertas, a começar
pela Congregação Hebraica de Londres. Mas entre as ofertas destacamos duas que
bem revelam o ânimo deste “judeu novo”, renascido como a Fénix:
* Deixava 200
libras esterlinas ao dr. Fernando Mendes para comprar uma jóia para a sua filha
Catarina. Deve aqui dizer-se que o dr. Fernando Mendes era médico da rainha de
Inglaterra, D. Catarina de Bragança e era casado com uma sobrinha de António
Marques. Exactamente porque a rainha de Inglaterra foi madrinha da filha do dr.
Fernando Mendes é que esta recebeu também o nome de Catarina. E isto mostra
como os irmãos Marques, nascidos em Miranda do Douro, se movimentavam pela
Corte de Inglaterra. Eles pertenciam à poderosa classe dos “judeus novos”
construtores do mundo moderno capitalista.
* Outro legado
era para um segundo filho do mesmo, ainda pequeno. Mas nisso impunha o testador
uma condição essencial: - Pretendo que o dr. Fernando Mendes dê o meu nome ao
filho e dentro de 2 anos deve estar circuncidado. Se isto não acontecer, excluo
o dr. Fernando Mendes e seu filho da minha herança. E do mesmo modo, fez
questão de incluir cláusulas semelhantes em legados para outros sobrinhos
netos, filhos de David de Medina e Samuel Ximenes, que apenas seriam entregues
se tivessem o nome de Marques.
Fontes
A.N.T.T.
Inquisição de Lisboa, processos 5412,
8447, 11262.
A.N.T.T. Armário
Jesuítico 2.ª caixa n.º 82 maço4 n.º 19
The National Archives – Public Record
Office – Catalogue Reference: Prob/11/394 –Image Reference 548.
domingo, 19 de agosto de 2012
Inquisição em Miranda do Douro e a ponte sobre o rio Sabor na Portela,por Antonio Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Várias vezes temos dito que os
processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso
povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles
pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das
pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas
surpreendentes.Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Uma casa de morada na Rua da Costanilha em Miranda do Douro por 1640
Por: Antonio Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães
Por ser terra de
fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade
populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios,
tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios
visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa
judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1)
Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que,
existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a
marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em
meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas
pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da
Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro
Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os
marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso”
interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão
próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.
No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.
Maria Fernanda Guimarães
Por ser terra de
fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade
populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios,
tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios
visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa
judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1) Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que,
existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a
marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em
meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas
pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da
Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro
Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os
marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso”
interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão
próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Presos em Miranda do Douro em 1556 quando cozinhavam uma panela de carne.
21 de Fevereiro de 1556. Caiu
nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o
provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu
Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de
judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da
cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se
fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da
Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a
praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão
funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos
sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham
ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já
estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Façamos aqui uma pausa para
apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como
uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a
sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se
juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as
escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito
prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em
Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns
quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um
pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos
da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram
lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por
um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo
tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava
registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o
testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484.
Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Fotografias da Fonte dos Canos e da Ponte de S.Luzía (1957).Enviadas por Arnaldo Firmino
A casa de Lopo era na rua da
Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a
praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão
funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos
sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham
ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já
estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e
ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte
cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E
logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e
António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo
ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e
decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar
com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e
aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e
tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de
vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade
e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6
irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para
apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como
uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a
sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se
juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as
escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito
prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em
Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns
quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um
pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos
da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram
lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por
um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo
tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava
registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o
testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484.
Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi
também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé
realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda
do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André
Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por
David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias
prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com
todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com
efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho
de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel
e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6
homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto
em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi
declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição
espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e
publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos
“baptizados em pé”.
Voltemos agora a Miranda do Douro
onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de
Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a
sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao
deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro
no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela
da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da
Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao
local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma
procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava
o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela
Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram
encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho
(antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho
geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais
foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da
cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A
fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram
novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo
explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e
que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam
com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos
de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este.
Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e
sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da
Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos
inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556,
foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe
parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa
Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de
Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina
de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da
Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer
carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser
o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de
nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os
crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus
crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como
judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e
que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E
então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por
muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação
à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída
pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho
tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu
Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não
podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e
irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro
de 1557, juntamente com os respectivos processos.
E se em Miranda do Douro ele tudo negava e
nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de
confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas
confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do
ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro
e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no
auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi
mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa,
processo 2181, de Lopo de Leão.
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