segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos, Sefarditas e marranos - 4
Baltasar Oróbio de
Castro. Terá nascido
em Bragança em 1617. Por 1622, foi levado para Espanha, fixando-se a família em
Málaga. Seus pais eram pobres e foi sob a protecção de um tio materno que ele
foi estudar para a medíocre universidade de Osuna, transitando em 1635 para a
de Alacala de Henares, esta sim, de prestígio. Na primavera de 1640, ao ter
notícia da prisão do tio e dos pais, ele desapareceu, sem ter concluído o curso
de medicina. Não sabemos que voltas deu mas, ao findar de 1642, Baltasar
Álvares de Oróbio aparece nomeado professor de medicina na universidade de
Sevilha, certamente com falso diploma e com a intervenção do poderoso duque de
Medicaceli, em cuja casa servia. Em 1651 casou em Cadiz, com Isabel de Pena,
filha de um rico mercador, acompanhada de largo dote. Mas nem o poderoso duque
impediu que Baltasar fosse preso pela inquisição de Sevilha, saindo
penitenciado em 1656. Rumou de seguida para Bayonne e depois para Tolouse, em
cuja universidade foi admitido como professor de medicina. Apresentou um
diploma supostamente passado pela universidade de Alcala. Em Janeiro de 1663
estaria já em Amesterdão, usando o nome de Isaac Oróbio de Castro. Ali ganhou
fama de polemista, empenhando-se com “denodo farisaico” no combate às ideias
menos ortodoxas em relação ao judaísmo vigente expressas por João do Prado (seu
colega em A. Henares) e baruch Espinosa. Faleceu em 1687. O seu nome foi
justamente perpetuado na toponímia de Bragança e constitui um activo do
património cultural da cidade.
António Júlio Andrade
domingo, 7 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos – 3
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| Rembrandt, oil sketch for etched portrait of the Amsterdam Jewish physician Ephraim Bueno, 1647 Amsterdam, Rijksmuseum |
António Júlio Andrade
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 2
| Palácio de Schönbrunn |
Fernando Montesinhos.
Nasceu em Vila Flor em 1589 e faleceu em Antuérpia em 1659. Foi um dos chamados "Banqueiros do Rei" Filipe de Espanha e Portugal. Iniciando a vida no comércio de tecidos, especializou-se como "asientista", ou seja, contratador de serviços da casa real, como fosse a cobrança das rendas das salinas e comércio do sal ou o abastecimento de géneros às tropas. estacionadas no Norte de África. Tendo abandonado a terra por causa da inquisição portuguesa, acabou prisioneiro da inquisição espanhola de cujas cadeias saiu contra o pagamento da formidável quantia de 10 000 cruzados.
O Barão de Aguilar.
O Barão de Aguilar.
Liberto das masmorras da inquisição de Coimbra, Francisco Lopes Pereira e a mulher, Maria Dias, meteram-se a caminho de Espanha. Ali fizeram fortuna, no negócio do tabaco. Um dos descendentes chamou-se Manuel e passaria à história com o título de Barão de Aguilar. Aquando da Gueera da Sucessão de Espanha, empenhou-se totalmente na cauda do Arquiduque Carlos que depois viria a reinar na Áustria. E para ali foi também o Barão de Aguilar, convidado a organizar a distribuição do tabaco no país, sob a forma de monopólio, recebendo a garantia de que lá podia professar abertamente o judaísmo. E por 16 anos ele deteve o monopólio da venda daquele produto. Amigo e conselheiro da imperatriz Maria Teresa, adiantou do seu bolso, a título de oferta à imperatriz, uns 300 000 florins para a construção do Palácio de Schöenbrunn, hoje classificado património da humanidade. O barão de Aguilar acabaria por mudar-se para Londres e ali faleceu em 1759 com 60 anos de idade. Quem o recorda em Mogadouro?
António Júlio Andrade
António Júlio Andrade
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
MOISES MENDES PEREIRA – baptizado em Bragança e circuncidado em Londres
Por: António
J. Andrade
Maria F. Guimarães
Maria F. Guimarães
José Rodrigues foi notificado por
João Gonçalves, familiar do Santo Ofício para se apresentar novamente em
Coimbra até ao dia 24 de Abril de 1728. A ordem foi cumprida e ele foi recebido
em mais uma audiência. Confirmou as declarações quer antes fizera e acrescentou
mais algumas denúncias, nada de importante para o desfecho do processo.
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| Domus Municipalis |
E foi um dos 79 penitenciados no
auto-de-fé celebrado no Terreiro de S. Miguel, em 9 de Maio seguinte. Neste
auto não houve gente condenada à morte, como aliás não havia desde há uns 10
anos em Coimbra. Apenas em Lisboa se decidiam então os processos considerados
mais graves.
O tecelão brigantino foi condenado
em penas espirituais e no confisco de todos os seus bens. Entre esses bens
incluía-se uma parte de uma casa da Rua Direita, onde moravam seus pais e
irmãos, como consta do inventário.
Regressou a Bragança e… a vida
não seria fácil, complicando-se o seu relacionamento não apenas com os
cristãos-velhos mas também com os cristãos-novos, nomeadamente com os seus
amigos e familiares. Com efeito, ninguém sabia ao certo as denúncias que ele
teria feito na Inquisição e as desconfianças avolumavam-se.
Ele bem tentaria normalizar a sua
vida e nada melhor do que sair de Bragança a negociar por essas terras afora,
em vez de ficar ali a lamber as feridas e remoer as mágoas…
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 1
A generosidade é para mim uma das características mais vincadas dos Trasmontanos. Talvez esteja relacionado com a vida dura aquém dos montes. E por toda a parte onde os Trasmontanos chegam, eles estabelecem relações de boa vizinhança, baseadas naquela generosidade.
Porém, a generosidade que temos com estranhos e deles nos faz próximos falta muitas vezes nas relações entre nós e dos nossos nos afasta. Até parece que de generosos passamos a mesquinhos, no trato comunitário.
| Cortiços -Foto de Luís Coelho |
Exemplar, a este respeito, é o que se passa com os Trasmontanos Sefarditas e Marranos. Alguns deles ganharam relevo a nível mundial e têm os seus nomes inscritos em enciclopédias de âmbito mundial mas são esquecidos dos nossos dicionaristas e afastados da toponímia das nossas terras. Vou apresentar alguns exemplos:
Manuel Cortiços. Tendo embora nascido em Madrid, em 1603, os seus pais eram Trasmontanos fugidos da inquisição. A sociedade e a família perpetuariam no sobrenome, que ainda hoje conservam descendentes seus, a terra de sua origem - Cortiços - no actual concelho de Macedo de Cavaleiros. Manuel Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos, onde até eu, pequeno escriba, já tomei lugar, por mão alheia.
José Cortiços. Nascido em Antuérpia em 1656 e falecido em Londres
em 1742, foi outro dos membros da mesma família fugida de Trás-os-Montes.
Virado para o abastecimento das tropas, durante a Guerra da Sucessão de
Espanha, eles colocou-se do lado do Arquiduque Carlos, futuro imperador da
Alemanha. Depois da guerra, a viver já em Londres,, José Cortiços queixar-se-ia
de que a Inglaterra lhe ficou devendo 25 000 libras (de géneros fornecidos aos
militares estacionados em Gibraltar) e Portugal 70 000, de provimentos ao exército
do Marquês das Minas. Também o seu nome não consta das listas publicadas de
notáveis Trasmontanos e nenhuma lembrança tem na terra de seus ascendentes
Trasmontanos.
António Júlio Andrade
Miranda do Douro : Diogo (Isaac) Rodrigues Marques c. 1635 – Londres c. 1675.
Por: António J.
Andrade
Maria F. Guimarães
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| Rua da Costanilha (1951) |
Diogo Rodrigues Marques nasceu em Miranda
do Douro, em uma casa da rua da Costanilha, pelo ano de 1635. Cedo ficaria
órfão de pai (Francisco Rodrigues) que, entretanto, fora estabelecer-se em
Lisboa, abrindo uma pequena loja de mercador na rua Nova.
Depois da morte do pai, Diogo e o irmão
ficaram entregues aos cuidados de seu tio paterno, António Rodrigues Mogadouro,
líder de um dos grandes empórios comerciais portugueses daquele tempo. A mãe de
Diogo, Maria Lopes, terá então viajado para a Itália onde tinha vasta
parentela, nomeadamente o seu irmão Jorge Lopes Henriques, que fora morador em
Carção e fugira para Livorno, depois que se viu processado pela Inquisição de
Coimbra, em 1638. Para esta decisão de fuga tomada por Maria Lopes terá também
contribuído o castigo infligido a sua mãe, Beatriz Henriques – queimada pela
inquisição.
Naturalmente que Diogo teve a sua formação
profissional nas empresas do tio Mogadouro e nelas se foi enredando e
associando. E chegada a altura apropriada, foi ajustado o seu casamento com sua
prima, filha do tio Mogadouro, chamada Marquesa Rodrigues, nome que herdou da
avó paterna. Aliás, também o Diogo herdou o sobrenome do avô, marido daquela, a
quem chamavam, por alcunha, o marquês.
O casamento de Marquesa e Diogo ter-se-á
realizado ao findar da década de 50 e em 1660 nasceu a primeira filha do casal,
a que deram o nome de Isabel Henriques, certamente em homenagem à avó materna,
irmã do célebre embaixador do rei D. João IV, Manuel Fernandes Vila Real.
Por essa altura, contando apenas 25 anos de
idade, Diogo Rodrigues Marques teria já a sua própria empresa e nome feito na
praça comercial lisboeta. Sabemos, por exemplo, que em Março daquele mesmo ano,
ao Poço da Foteia, em um armazém foram descarregadas 134 pipas de vinho por ele
adquiridas em Gogim, Lamego, a um filho de Gaspar Gomes da Fonseca, certamente
destinadas à exportação para o Brasil onde então se encontrava o seu irmão
António dirigindo os negócios da família.
Também a situação política do país seria
favorável ao desenvolvimento dos negócios dos Mogadouro que muito lucrariam com
o fornecimento de géneros aos militares empenhados em Trás-os-Montes na guerra
que por 18 anos se desenrolou com a Espanha e ao esforço da reconquista de
terras e feitorias comerciais do Ultramar português que espanhóis, franceses,
holandeses e outros cobiçavam. E também ajudaria a ligação dos Mogadouro a D.
Guiomar de Távora e ao Conde de Castelo Melhor que então era “o grande senhor
da política portuguesa” – na expressão de José Hermano Saraiva.
Porém, no horizonte político do país
adivinhava-se borrasca, com a inquisição a estender os seus tentáculos a todos
os meandros da sociedade e uma distribuição de títulos de Familiares pelos
membros da nobreza como nunca se vira. E também os Mogadouro e Diogo Rodrigues
Marques seriam atingidos em suas vidas e negócios.
Tudo começou em Fevereiro de 1670, quando 2
escravos negros que os Marques tinham em casa no serviço doméstico se dirigiram
à inquisição de Lisboa a contar que 4 meses antes, ao início de Outubro, o
António, o Diogo, a Marquesa e 2 filhos do casal se apresentaram em certo dia
da semana, todos com vestidos novos e os não quiseram lá em casa a eles a
servir o jantar, como era costume, suspeitando os escravos que “naquele dia
festejavam o seu santo serviço, que era fazerem cerimónias de judeus”. E que à
noite, também vestidos de fatos domingueiros, foram juntar-se a eles, na mesma
casa, os restantes membros do clã, nomeadamente o velho Mogadouro e os filhos.
Sabemos que Diogo Rodrigues Marques ainda
se encontrava em Lisboa com a mulher e os filhos em Março de 1673, 9 meses
depois que António Mogadouro e os 2 filhos mais velhos foram presos, pois que,
juntamente com seu irmão António Marques e seu primo Pantaleão Rodrigues
assinou uma exposição dirigida aos senhores inquisidores, em defesa dos ditos
prisioneiros, tentando provar que foram denunciados injustamente e por inimizades
pessoais.
Mas, ao contrário dos primos e das primas,
filhos do Mogadouro, que ficaram por Lisboa e todos acabaram presos, Diogo
Marques pegou na mulher e nos filhos e fugiu para Inglaterra. E se em Lisboa os
seus negócios prosperavam, em Londres, ganharam outra dimensão, uma dimensão
planetária e capitalista. Na verdade bastaram dois ou três anos para que Diogo
Marques ganhasse um lugar próprio na City, que nos permite considerá-lo como um
judeu novo e um dos tais construtores do mundo moderno e do sistema
capitalista.
Em simultâneo, a família de Diogo ascendia
na escala social, frequentando círculos de amigos ligados mesmo à casa da
rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança. Nesse movimento de promoção
social da família Rodrigues Marques, certamente foi decisivo o casamento da sua
filha mais velha, D. Isabel Henriques Marques com o Dr. Fernando Mendes, médico
pessoal da rainha. Esta viria inclusivamente a ser a madrinha da neta primogénita
de Diogo Marques, nascida em 1678, a qual recebeu dela o nome cristão de
Catarina, se bem que posteriormente, com a sua educação e adesão ao judaísmo,
passasse a usar o nome de Rachel. Diogo, aliás, Isaac Marques era já falecido e
não viveu este acontecimento.
Mas se a filha mais velha era o orgulho da
família e a honrava, o mesmo não pode dizer-se do filho mais velho que, em
1662, em Lisboa, no baptismo, recebeu o nome de Francisco e depois de
circuncidado adoptou o de Isaac Rodrigues Marques. Dele se queixava o pai “pelo
motivo da sua extravagância, porque me tem sido sempre desobediente”.
Em Lisboa terá ainda nascido um outro filho
(José, aliás, Jacob Marques) em 1669 e outra filha (Ana Marques), em 1671.
Depois da fuga para Londres, o casal teve
mais um filho, Moisés Marques, e uma fila, Ribka Marques.
A última notícia que temos de Diogo
Rodrigues Marques data de Novembro de 1675. Trata-se do seu testamento,
começado a escrever em 10 daquele mês. É um documento bem extenso, em letra
miudinha, extremamente importante para o estudo da família e da rede de negócios
que a envolvia e se estendia por vários continentes e diversos ramos de
actividade, com destaque para a marinha mercante e o negócio de diamantes.
Apresentá-lo-emos no próximo número.
Nota –
Este artigo foi publicado no jornal
Terra Quente de 1 de Outubro de 2012.
domingo, 30 de setembro de 2012
CHACIM ANOS DE 1620
O PROCESSO DE ANTÓNIO LOPES REDONDO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA
Maria Fernanda Guimarães
Era um dia de Outubro, do ano de 1620, a horas do meio dia. Vindo da aldeia de Lagoa, onde residia, Pêro de Matos tinha acabado de entrar na vila de Chacim, pela rua dos Sapateiros, a seguir á ponte, montado em cima de um macho. De repente, por detrás, caíram-lhe fortes estocadas na cabeça e no ombro, que o lançaram por terra e o deixaram a sangrar. Reconheceu o agressor, que até era seu primo, e pôs-se a gritar:
- Aqui d´el-rei! Acudam que me mata! Em nome da santa Inquisição, ajudem-me!
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| Foto de Marta |
- Ah! Cão! Ainda te atreves a vir aqui! Vou-te matar, cão nojento!
Acudiram pessoas e os comentários eram unânimes: António Lopes jurou que se vingaria do Matos por este ter denunciado seu pai na Inquisição de Coimbra, onde então se encontrava preso.
Pêro de Matos, por seu turno, saíra meses antes da mesma cadeia e estava cumprindo a penitência que lhe fora imposta. E como penitente, estava, de certo modo, protegido pelo Santo Ofício. Fazer-lhe mal, por motivos relacionados com a sua passagem pelo tribunal da fé, era o mesmo que afrontar aquela sagrada instituição.
Embora ferido e a sangrar, Pêro de Matos dirigiu-se para casa do juiz da vila de Chacim, João da Mesquita, mas ele não estava, segundo respondeu sua mulher. E como ele não estava, o queixoso rumou a casa do padre Manuel Mendes, que morava em frente, a quem “requereu publicamente fizesse autos” dizendo que António Lopes o agredira “por se dizer que ele culpara a seu pai no santo ofício”.
Claro que o padre, na falta do juiz, deveria atender à solicitação do queixoso, ou encaminhá-lo, pois que ninguém podia escusar-se a colaborar, em matéria relacionada com a Inquisição. Era crime. Além disso… parece que este padre não morria de amores pela família Redondo, antes pelo contrário. E o padre e o ferido se dirigiram a casa do tabelião Francisco Borges, que era pessoa indicada para escrever e autenticar o auto que, em seguida, o padre se encarregaria de enviar para Coimbra.
Enquanto isso também o António Lopes se mexeu, dirigindo-se a casa de um outro tabelião, Diogo Machado, para que autuasse as suas declarações, dizendo que fora o Matos que o provocara e se gabava de ter denunciado o seu pai na Inquisição e ele apenas tratou de se defender. Era uma acusação muito grave. A ser provada significaria que Pêro Matos violou o juramento que fizera de nada contar sobre o que aconteceu e o que dissera, vira e ouvira dentro do sagrado tribunal da Inquisição. Certamente pensando nisso, o tabelião ter-se-á escusado de autuar as declarações de A. Lopes.
Não sabemos que mais informações e outros documentos chegariam a Coimbra e que diligências se fizeram. Sabemos é que, em 20 de Março de 1621, os inquisidores mandaram um António Dias, familiar do Santo Ofício, que fosse a Chacim e levasse preso o Redondo, com cama, cozinha e roupa necessária para estadiar na cadeia, bem como 30 mil réis para a compra de alimentos.
Em simultâneo escreveram para o comissário regional da Inquisição, o dr. Gaspar de Morais, abade da igreja de Sendas, do vizinho concelho de Bragança, que foi a Chacim a inquirir as testemunhas, nomeadamente o juiz e a mulher, o tabelião Francisco Borges e o padre António Mendes. Todos eles testemunharam contra António Lopes, sendo o mais vigoroso depoimento prestado pelo juiz ordinário, João da Mesquita.
Claro que em Coimbra o prisioneiro contou a história como se de uma simples briga se tratasse, pois que eram inimigos de há muito tempo, mas nada que envolvesse matérias relacionadas com a Inquisição. Naturalmente que isso contradizia os testemunhos referindo que a causa da briga foi por ter o outro denunciado seu pai como judaizante. E o que era grave era a fuga de informação! Trataram, por isso os inquisidores de saber como João Lopes tivera tal informação. E ele respondeu:
- Que lho dissera o juiz João da Mesquita quando prenderam Pêro de Matos pelo Santo Ofício havia ameaçado o pai dele confidente.
Certamente que os inquisidores não acreditaram nisso, se bem que o prisioneiro apresentou contraditas tentando justificar que as testemunhas eram suas inimigas e por isso não mereciam crédito. E estando ele preso e tendo o seu pai saído já em liberdade e voltado a Chacim, enviou para Coimbra uma carta do teor seguinte:
- Diz João Lopes que (…) estando preso nesses cárceres dessa cidade de Coimbra, prenderam a seu filho António Lopes Redondo por culpas que devia ter ao tempo de sua prisão. Que o prendeu o padre Manuel Mendes e o padre Domingos Fernandes, desta vila, e por ser o dito padre Manuel Mendes inimigo capital dele João Lopes e de seu filho e é público e notório fizera um auto de resistência do dito seu filho, não sendo assim, chamando as testemunhas e mandando-lhe assinar um papel sem lho ler nem dizer o que era, nem o dito padre Domingos Fernandes fazer o tal auto nem ser sabedor, pede a Vs Senhorias mandem perguntar ao dito padre Domingos Fernandes se lhe fez a tal resistência e a Belchior Rodrigues, o Mostarda, e a Martim Nunes que declarem a verdade de como os mandou assinar sem lho ler…
Não terá este requerimento influenciado o desenrolar do processo de António Lopes que, depois de submetido a tormento, levando um “trato esperto e outro corrido” acabou por ouvir sua sentença no auto de fé realizado em Coimbra em 4 de Maio de 1625, abjurando de leve, com uma vela acesa na mão e “pelo excesso de atrevimento que cometeu contra o respeito do santo ofício no ferimento que fez, seja açoitado pelas ruas públicas desta cidade e seja degredado por 3 anos para as galés, onde servirá ao remo, sem soldo”.
Antes de ser levado pelas ruas e açoitado, António Lopes interpôs recurso da sentença, nos seguintes moldes:
- Conforme direito e ordenação do Reino, os juízes e vereadores de qualquer cidade ou vila estão escusados de haver e se lhes dar pena alguma vil como é de galés e açoites (…) e isso mesmo seus pais e avós que tiveram servido os tais cargos são escusados do mesmo privilégio os ditos seus filhos e netos…
Queria isto dizer que, provando-se o exercício do cargo de juiz ou vereador pelo réu ou por seu pai ou avô, ele não poderia ser açoitado pelas ruas da cidade e a servir nas galés.
Do recurso constava ainda um outro argumento, de acordo com o qual os mercadores que anualmente pagassem imposto nas alfândegas do Reino mais de 200 mil réis de mercadorias importadas ou exportadas estariam igualmente abrangidos por uma lei que os protegia das tais penas vis dos açoites e galés.
A primeira parte do recurso foi aceite, a segunda não, pois a ordenação régia contemplava apenas os mercadores com rendas e contratos fixos e registados na fazenda real e não os importadores / exportadores ocasionais.
Aceite o recurso, tratou-se de proceder à inquirição de testemunhas em prova de que o pai e o avô tinham sido vereadores na câmara de Chacim, processo que foi conduzido pelo já referido abade de Sendas e se provou ser verdade.
E dessa inquirição transcrevemos parte de um depoimento onde se refere a actividade mercantil de António Lopes Redondo, filho de João Lopes, o Rico:
- Disse que tratava para Castela em lenços finos e linha fina e seda em rama que tratava e tomava em pagamento de suas dívidas e no dia em que o embargante foi preso, levava 6 cargas de lenço para Castela pela alfândega de Miranda e de Castela trazia sedas para o Reino onde as vendia…
Conseguiu o Redondo livrar-se dos açoites e das galés, regressando a Chacim ao cabo de 5 anos de cadeia.
Breve abandonariam Chacim e o Reino indo refazer suas vidas em Madrid.
FONTES:
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5405, de João Lopes, o Rico; processo 4071, de António Lopes Redondo.
MARkUS SCHREIBER, Marranen in Madrid 1600 – 1670.
Nota: Este texto foi publicado no jornal Terra Quente
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Judeus Novos de Trás-os-Montes na Construção do Mundo Moderno
António J. Andrade
Maria F. Guimarães
Chamava-se Francisco Rodrigues, mas era conhecido pela alcunha de marquês, certamente por ser filho de Marquesa Rodrigues. Nasceu em Miranda do Douro e aí casou com Maria Lopes e nesta cidade, na rua da Costanilha, residiram e tiveram dois filhos machos. O mais novo, nascido por 1637, recebeu o nome de António Rodrigues Marques.
Francisco Rodrigues que, entretanto rumara a Lisboa onde abrira uma loja comercial, faleceu pouco tempo depois. Não sabemos se, nessa ocasião, Maria Lopes e os dois filhos ainda estavam em Miranda do Douro ou residiam em Lisboa. Como quer que fosse, a partir dessa altura, os órfãos ficaram sob a protecção de António Rodrigues Mogadouro, irmão do falecido, cujos negócios prosperavam. Sobre Maria Lopes deixamos de ter notícias. Acreditamos, porém, que tivesse emigrado, tal como seu irmão Jorge Henriques que foi para Livorno, Itália. Encontrá-la-emos mais tarde em Londres.
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| Porta da Costanilha (1949) |
- A pessoa que lhe ensinou a crença na lei
de Moisés foi António Rodrigues Marques, cristão novo, homem de negócio, primo
e cunhado dele confidente, viúvo de sua irmã Leonor Rodrigues (…) haverá 14
anos, na cidade de S. Salvador, estado do Brasil, em sua própria casa, onde ele
confidente também assistia…
Regressou a
Lisboa uns 6 anos depois e esposou a prima Leonor, que logo veio a falecer, sem
deixar descendência. António nunca mais casou, ficando a viver em casa do irmão
e da cunhada, que todos trabalhavam nas empresas Mogadouro que então se
constituíam num forte grupo comercial organizado em rede familiar, pelos quatro
cantos no mundo.
Em 19 de Julho
de 1672, a roda da fortuna mudou, quando a inquisição de Lisboa prendeu António
Mogadouro e os seus dois filhos mais velhos. Curiosamente as primeiras denúncias
e essenciais para estas prisões, foram feitas por 2 escravos negros que serviam
na casa de António R. Marques e este era incluído nas mesmas, como o mais
culpado. E outras denúncias contra ele foram feitas, nomeadamente por Jorge
Coelho Henriques que, em 29.11.1673, disse aos inquisidores que 9 anos e 4
meses atrás, em Lisboa, na rua Nova, António Rodrigues Marques, contratador,
casado com uma filha do Mogadouro, se tinha com ele declarado judeu.
A prisão dos
Mogadouro não seria isolada, antes estaria enquadrada num esquema bem montado
pelos inquisidores de decapitação das empresas que, em seu entender, protegiam
os judeus. Na verdade, nunca em Portugal a luta política entre o “partido da
inquisição” e o “partido dos judeus” seria tão intensa como naquela época. E
António Rodrigues Marques assumiu-se como um dos rostos da contestação aos
métodos e ao poder da inquisição. A ponto de, juntamente com Pedro Álvares
Caldas e D. José de Castro (outros grandes capitalistas) “contratarem” os
serviços do padre Francisco de Azevedo, da Companhia de Jesus para em Roma,
negociar com a Santa Sé um perdão geral para os que estavam prisioneiros da
inquisição. Naturalmente que o “embaixador” Francisco de Azevedo começou
exactamente por conseguir salvos condutos para os 3 homens, assim se explicando
porque António Rodrigues Marques não foi preso com o tio, os primos e as primas.
Nos arquivos da Torre do Tombo, colecção Armário Jesuítico (maço 4, nº 19),
encontra-se uma carta escrita e assinada por aqueles três homens, dando conta
daquelas negociações e garantindo o pagamento de 6 mil escudos de despesas
feitas pelo “embaixador” com “prendas” a dignitários da Santa Sé.
Um homem que
levava e trazia as cartas de Roma era conhecido e parente afastado, originário
de Mogadouro, chamado Gaspar Lopes Pereira. Acabou também por ser preso e
queimado na fogueira pela mesma inquisição.
Acerca destas
negociações e das notícias de abusos escandalosos da inquisição portuguesa que
chegavam a Roma, deve dizer-se que não foi conseguido o perdão geral pretendido
mas tão só se conseguiu que a inquisição estivesse parada durante 5 anos, entre
1676 e 1681, não se efectuando novas prisões nem autos de fé, nem sequer
diligências burocráticas relacionadas com os processos dos presos. Estes
continuaram presos, numa espera que se tornaria angustiante.
Enquanto em Roma
se negociava, também por Lisboa promovia António Marques outras diligências
visando colher informações sobre os parentes presos e ajudá-los na sua defesa e
libertação. Para isso conseguiu “comprar” os serviços do alcaide da cadeia, de
modo a este deixar passar cartas e escritos entre ele e o primo Diogo Rodrigues
Henriques (o filho mais velho do Mogadouro e líder das empresas) e também
dinheiro, essencial para corromper o alcaide e os guardas.
De Roma não
vinha o perdão e em Lisboa os inquisidores descobriram o crime do alcaide.
António Marques terá feito embarcar para Inglaterra os membros da família que
ainda não estavam presos, nomeadamente a sua mãe, o
irmão, a cunhada e os filhos destes. E terá diligenciado a transferência de
todos os valores possíveis, especialmente dinheiro e diamantes. Ele ficou por
Lisboa, munido do salvo-conduto, pegando as pontas dos negócios que restavam
das empresas dos Marques/Mogadouro. Inclusivamente há notícia de duas idas dele
à sala da inquisição, na qualidade de testemunha, por causa da corrupção do
alcaide e da morte de um preso na cadeia, com um tiro que lhe deram, suspeitando-se
que os mandantes foram “judeus” por ele ser um traidor e denunciante.
Gorado o perdão
geral e entrando de novo a funcionar a inquisição, António Rodrigues Marques
sentiu que a sua vida corria perigo e nada havia já que o protegesse, pelo que
fugiu para Inglaterra. Documentada está a sua presença em Lisboa em 22 de
Fevereiro de 1681 quando assinou a carta de que atrás se falou para o padre
Francisco de Azevedo. E sabemos que em 4 de Janeiro do ano seguinte, quando a
inquisição foi procurá-lo (a ele e aos 2 escravos referidos), já se encontrava
em Londres.
E em Londres
estava ainda em 2 de Janeiro de 1688 “na cama doente, mas de perfeito juízo” a
fazer seu testamento. E este é uma verdadeira janela que se abre sobre as
vivências deste homem. Nele deixa como herdeira e administradora de seus bens a
sua mãe, Sara Henriques, encarregando-a de fazer diversas ofertas, a começar
pela Congregação Hebraica de Londres. Mas entre as ofertas destacamos duas que
bem revelam o ânimo deste “judeu novo”, renascido como a Fénix:
* Deixava 200
libras esterlinas ao dr. Fernando Mendes para comprar uma jóia para a sua filha
Catarina. Deve aqui dizer-se que o dr. Fernando Mendes era médico da rainha de
Inglaterra, D. Catarina de Bragança e era casado com uma sobrinha de António
Marques. Exactamente porque a rainha de Inglaterra foi madrinha da filha do dr.
Fernando Mendes é que esta recebeu também o nome de Catarina. E isto mostra
como os irmãos Marques, nascidos em Miranda do Douro, se movimentavam pela
Corte de Inglaterra. Eles pertenciam à poderosa classe dos “judeus novos”
construtores do mundo moderno capitalista.
* Outro legado
era para um segundo filho do mesmo, ainda pequeno. Mas nisso impunha o testador
uma condição essencial: - Pretendo que o dr. Fernando Mendes dê o meu nome ao
filho e dentro de 2 anos deve estar circuncidado. Se isto não acontecer, excluo
o dr. Fernando Mendes e seu filho da minha herança. E do mesmo modo, fez
questão de incluir cláusulas semelhantes em legados para outros sobrinhos
netos, filhos de David de Medina e Samuel Ximenes, que apenas seriam entregues
se tivessem o nome de Marques.
Fontes
A.N.T.T.
Inquisição de Lisboa, processos 5412,
8447, 11262.
A.N.T.T. Armário
Jesuítico 2.ª caixa n.º 82 maço4 n.º 19
The National Archives – Public Record
Office – Catalogue Reference: Prob/11/394 –Image Reference 548.
domingo, 19 de agosto de 2012
Inquisição em Miranda do Douro e a ponte sobre o rio Sabor na Portela,por Antonio Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Várias vezes temos dito que os
processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso
povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles
pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das
pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas
surpreendentes.Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Uma casa de morada na Rua da Costanilha em Miranda do Douro por 1640
Por: Antonio Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães
Por ser terra de
fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade
populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios,
tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios
visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa
judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1)
Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que,
existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a
marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em
meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas
pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da
Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro
Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os
marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso”
interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão
próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.
No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.
Maria Fernanda Guimarães
Por ser terra de
fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade
populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios,
tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios
visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa
judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1) Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que,
existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a
marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em
meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas
pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da
Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro
Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os
marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso”
interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão
próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Presos em Miranda do Douro em 1556 quando cozinhavam uma panela de carne.
21 de Fevereiro de 1556. Caiu
nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o
provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu
Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de
judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da
cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se
fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da
Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a
praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão
funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos
sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham
ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já
estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Façamos aqui uma pausa para
apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como
uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a
sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se
juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as
escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito
prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em
Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns
quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um
pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos
da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram
lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por
um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo
tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava
registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o
testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484.
Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Fotografias da Fonte dos Canos e da Ponte de S.Luzía (1957).Enviadas por Arnaldo Firmino
A casa de Lopo era na rua da
Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a
praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão
funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos
sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham
ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já
estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e
ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte
cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E
logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e
António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo
ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e
decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar
com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e
aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e
tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de
vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade
e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6
irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para
apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como
uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a
sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se
juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as
escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito
prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em
Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns
quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um
pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos
da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram
lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por
um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo
tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava
registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o
testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484.
Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi
também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé
realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda
do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André
Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por
David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias
prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com
todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com
efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho
de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel
e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6
homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto
em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi
declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição
espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e
publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos
“baptizados em pé”.
Voltemos agora a Miranda do Douro
onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de
Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a
sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao
deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro
no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela
da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da
Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao
local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma
procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava
o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela
Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram
encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho
(antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho
geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais
foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da
cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A
fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram
novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo
explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e
que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam
com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos
de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este.
Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e
sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da
Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos
inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556,
foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe
parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa
Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de
Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina
de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da
Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer
carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser
o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de
nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os
crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus
crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como
judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e
que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E
então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por
muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação
à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída
pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho
tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu
Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não
podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e
irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro
de 1557, juntamente com os respectivos processos.
E se em Miranda do Douro ele tudo negava e
nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de
confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas
confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do
ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro
e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no
auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi
mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa,
processo 2181, de Lopo de Leão. quarta-feira, 18 de julho de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
MIRANDA DO DOURO - MARRANOS
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sábado, 14 de julho de 2012
RODRIGO VAZ DE LEÃO – MERCADOR DE VILA REAL
Rodrigo Vaz de Leão nasceu em Vila Real, por 1629. Seu pai
era originário de Sambade, Alfândega da Fé e sua mãe, nascida já em Vila Real,
provinha de Lamego. Não sabemos em que data seus pais o mandaram para Lamego,
para casa de sua tia Gracia Lopes, casada com o mercador Simão Lopes,
certamente para estes o introduzirem nos segredos da Lei mosaica e no mundo dos
negócios, como era bastante usual entre os cristãos-novos.
Também não sabemos em que data, mas terá sido por 1649, ele
foi casar a Vila Flor, com Isabel Henriques, 3 anos mais velha do que ele,
filha do médico Pêro Dias da Mesquita, natural de Lebução e casado na família
Henriques, acaso a mais poderosa da comunidade cristã-nova local.
Por volta de 1655, Rodrigo e Isabel deixaram Vila Flor e foram estabelecer-se em Lisboa, na Rua Nova, com uma loja de venda de tecidos. Mas ele não se ficava pelas vendas na loja, antes frequentava muitas feiras e a longas distâncias, de Norte e Sul do País.
No último dia de Agosto de 1663, Rodrigo de Leão foi preso pela Inquisição de Lisboa e, pouco depois, aconteceu o mesmo à sua mulher. Nessa altura tinham já 3 filhas e com eles morava também um primo de Rodrigo, filho dos tios que o educaram em Lamego, certamente enviado para Lisboa para ser, de igual modo, iniciado na Lei mosaica e no mundo empresarial e destinado, porventura, a casar com alguma das suas filhas.
Quando o prenderam, Rodrigo “vinha das feiras do Alentejo”. E, vejam só o que com ele trazia e lhe foi apreendido:
* Mais de dois mil cruzados em dinheiro, “mas não pode dizer ao certo, porque o não tinha ainda contado”. - Para o leitor fazer uma ideia, refira-se que o cruzado valia 400 reis, perfazendo-se assim 800 000, ou seja: quase um conto de reis! Atente-se que por essa altura o orçamento da câmara de Lisboa andava nos 9 contos, ou que a jorna de um trabalhador era de 100 reis!
* Das mesmas “feiras do Alentejo” trazia mais duas saquetas de dinheiro, metidas em uma canastra, “que eram de António Godinho, mercador de massaria, que lhe pediu a ele declarante que lhe acomodasse as ditas duas saquetas por não ter comodidade para as trazer”. – Qual é o negociante que no final de uma feira não tem comodidade para levar o dinheiro?!
* E trazia ainda uma outra saqueta de dinheiro que disse pertencer a Manuel Pereira Rebelo, também mercador de Lisboa, que lha mandou das mesmas feiras “um sobrinho que ficou doente no Alentejo”.
Será que estas saquetas de dinheiro eram mesmo das referidas pessoas? Ou seriam também de Rodrigo de Leão que, com aqueles estaria concertado e esta seria uma forma de salvar parte do dinheiro?
De resto, o inventário dos seus bens não é mais do que uma extensa lista de pessoas a quem ele dizia dever dinheiro, pois “que não tinha bens de raiz, nem peças de ouro ou prata”. Apenas a sua loja “que constava de sedas, milanesas, baetas, serafinas e duquesas”.
Mas vale a pena espreitar a sua lista de credores, a qual nos permite fazer uma ideia da extensão do seu mundo empresarial. Assim:
* Tinha dívidas com os seguintes mercadores ingleses, derivadas de mercadorias fornecidas: Rogério Bradil, Guilherme Clarck, Samuel Butre, João Polisfin, João Vicent, Lazaro Brandana.
* Devia a Gaspar Paulo e a Abraão Vasnilher, mercadores holandeses “o procedido de 25 peças de milanesas de lã, à razão de 4 600 reis a peça e 24 peças de milanesas de seda, à razão de 7 600 reis a peça”.
* A João Vanciter, hamburguês, devia 14 ou 15 peças de sarja, à razão de 9384 reis a peça e mais 3 peças e meia de macaia “de que ainda não tinha passado escrito”.
* Tinha contas grossas com Lazaro Grandona, mercador italiano, procedidas de “uma partida de chamelotes que não sabe quanto importou” e “setenta e tantos mil reis procedidos de meias de seda de mulher que lhe comprou”. Mas também aquele lhe devia uns “206 mil e tantos reis”.
* A Henrique Pedro, “mercador estrangeiro” devia 14 ou 16 peças de bombazinas que lhe comprou.
* Idem aos ingleses Guilherme Marques, João Robinson, Joseph Ardenque; aos franceses Abraão Sarau, David Godfroy, Pedro Verdet e outros mais.
Refira-se que todos estes estrangeiros tinham escritório e residência em Lisboa e isso dá ideia do cosmopolita mundo empresarial lisboeta em que se movia Rodrigo de Leão.
Não menos sonantes são os nomes dos mercadores portugueses e cristãos-novos presentes no rol de suas dívidas, tais como:
* Henrique Paz Pinto a quem devia um chamelote e umas safiras.
* Diogo Rodrigues Marques (genro de António Rodrigues Mogadouro) a quem devia perto de mil cruzados (400 000 Reis!) de milanesas e tafetás.
* Sebastião Nunes que, entre outras mercadorias, lhe creditara 14 ou 15 peças de milanesas negras, à razão de 7 200 reis a peça.
* Jorge Dias Brandão, do fornecimento de 10 peças de “chamelote de seda de França” e de uns quantos tafetás.
* Francisco Carlos, Jerónimo Gomes Ramos, Jerónimo da Fonseca de Miranda e outros mais constam igualmente do rol.
Por sua vez, olhando a pequena lista de pessoas que lhe devem, vemos que todos são mercadores da província, nomeadamente de Coimbra, Trancoso e Lamego, a quem remetia mercadorias. Funcionaria, assim a sua loja como distribuidora de tecidos a vendedores retalhistas.
Naquele mundo empresarial, avulta o papel desempenhado pelos corretores, pois tudo girava com papéis de crédito. Vejamos dois exemplos:
* Ao corretor Manuel Rodrigues de Sampaio devia 135 000 reis “procedidos do rebate de um escrito que ele declarante tinha feito a Pedro Belismen, inglês”.
* Devia a Pedro Verdet, mercador francês, “uma partida de estremenhas que lhe comprou para a sua loja, não está lembrado de quanto importou, mas constará do escrito dele declarante que lhe passou ao tempo desta venda, a qual se fez com a intervenção do corretor António Lopes”.
Como se vê, o dinheiro de plástico dos nossos dias e os cartões de crédito não são tão originais quanto parece, pois já nesse tempo os mercadores usavam procedimentos semelhantes. Repare-se, por outro lado, neste exemplo, retirado do processo, de relações comerciais extremamente personalizadas e assentes na confiança mútua:
- Indo ele declarante desta cidade para o Alentejo para uma feira, que entende que era a que se faz pelo São Tiago, na vila de Estremoz, lhe pediram Abraão Esvilet e Gaspar Payel, mercadores de Hamburgo, ou de Holanda, que lhes levasse ele declarante, com sua fazenda, duas peças de chamelote de prata cor de cana finos e assim mais outras duas peças de chamelote branco de prata falsa, para lhos vender na mesma feira e ele declarante, em razão da amizade que tinha com os ditos mercadores, aceitou e levou à dita feira e deles se não gastou nem um só côvado e as tornara a trazer a esta cidade assim e na forma que as recebeu e em um mafamede que havia na sua loja se achariam…
E este outro exemplo de como funcionavam as relações dos mercadores cristãos-novos com o poder:
- Um mês antes de ele declarante ser preso por esta Inquisição, foi à sua loja Agostinho Nunes, que servia de solicitador a Sebastião Nunes Chaves e agora entende que assiste em casa do Conde de Castelo melhor (então chefe do governo) e ia em companhia de Domingos Soares, mercador da Rua Nova e levaram da loja dele declarante uma peça de tafetá cor de ouro, dizendo que era para se fazer um gibão de panos e que do Tesouro se havia de pagar e importou a peça em 36 mil e tantos reis; e que ele declarante ficou entendendo que estes tafetás eram para o serviço de el-rei, mas ainda se lhe não pagaram…
Não se pense, porém, que Rodrigo Vaz negociava apenas em panos. Não, como qualquer homem da nação, ele deitava mão ao que podia. Vejam este negócio:
- A Sebastião Nunes Chaves vendeu 50 moios de trigo (41 400 litros) à razão de 9 vinténs o alqueire e 5 moios de centeio à razão de 7 vinténs por alqueire, posto tudo ao pé do Douro por conta dele declarante e as ditas partidas de trigo e centeio se montam 750 000 reis; e além disso deve também o dito Sebastião Nunes a sacaria em que o dito pão veio.
Como ele, comerciante lisboeta, angariava tanto cereal em Trás-os-Montes não o sabemos em pormenor. Mas sabemos que um dos processos seria a arrematação da cobrança de rendas. Como ele declarou, em um caso concreto:
- Tomou de arrendamento as comendas de S. João e S. Salvador de Ansiães, junto a Torre de Moncorvo, por tempo de um ano que acabou em São João deste presente ano, em preço de 580 000 reis… e estas comendas pertencem à filha de D. Leonor de Vilhena que agora está casada com D. Manuel de Melo…
Vimos, no número anterior, a lista de credores e devedores, reais ou inventados, de Rodrigo Vaz de Leão. Voltemos agora ao momento da sua prisão…
AS ROTAS COMERCIAIS DE RODRIGO VAZ DE LEÃO
Deixemos os negócios e voltemos atrás, à prisão de Rodrigo, que teve por base as seguintes denúncias de prisioneiros da Inquisição:
* João Peres Galvão, médico, natural do Porto, casado com uma senhora originária de Torre de Moncorvo e morador em Lamego – disse que com ele se teria declarado seguidor da lei de Moisés nesta última cidade, haverá 15 anos.
* Jerónimo navarro, natural de Miranda do Douro e morador em Guimarães – declarou que, 10 anos antes (1653) se tinha declarado com ele em braga, no Campo de Santa Ana.
* Pedro Vaz de Castro, natural e morador em Bragança – confessou que foi há 5 anos em Lisboa, na casa de Rodrigo Vaz de leão…
Escusado será dizer que entretanto várias outras pessoas de suas relações eram igualmente denunciadas e presas e novas denúncias de judaísmo eram acrescentadas no seu processo, nomeadamente as produzidas por seu irmão, o dr. Miguel Lopes, médico e a mulher deste, Guiomar Henriques, irmã também de sua mulher, moradores em Lamego.
Rodrigo de Leão, por seu turno, entrou logo a fazer denúncias sobre mais de 30 pessoas que com ele se declararam ou tiveram práticas judaizantes. E se a sua relação de bens é um verdadeiro tratado de relações comerciais, o conjunto das denúncias feitas por ele deixa-nos um seu retrato de verdadeiro andarilho percorrendo o País de lés-a-lés, desenhando rotas de comércio e contrabando, do Minho a Trás-os-Montes, à Beira e ao Alentejo.
Vejamos então um pouco das suas confissões, começando pelas que se referem a episódios mais antigos e determinantes para o seu comportamento religioso. E andou ele muito bem, ao começar por denunciar o seu tio que, pelos 12 anos, o terá iniciado no judaísmo:
- Disse que haverá vinte e tantos anos, então morador em Lamego, na feira de Armedo, em companhia de Simão Lopes, cristão-novo, mercador, casado com Gracia Lopes, tia dele confidente, em cuja casa se tinha criado (...), num lugar que se chama Santo Amaro das Caldas, 5 léguas de Lamego, indo para o Douro, disse Simão Lopes a ele confidente que cresse na lei de Moisés…
Seguem denúncias de outros familiares, como fossem o seu irmão Miguel Lopes e outras pessoas de Lamego que então estavam presas e eram publicamente tidas por judaizantes, nomeadamente o “Manico”, alcunha do avô paterno do dr. Francisco da Fonseca Henriques, mais conhecido por dr. Mirandela, famoso médico do rei D. João V.
Denunciou igualmente a sua mulher, com a qual se teria declarado uns 15 anos atrás, quando ele tinha 19 anos e por altura de casarem. E nisto andou também ele muito avisadamente, ao contrário de sua mulher, como se verá.
Sigamos agora pelas rotas do comércio e do contrabando desenhadas nas confissões de Rodrigo Vaz. Comecemos pela rota que podemos designar de Minho – Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, indo do Porto para Guimarães, em companhia de Jerónimo Navarro, cristão-novo, natural de Miranda, que morava em Guimarães, onde vivia de passar fazendas para Castela …; Haverá 9 anos, indo de Guimarães para Braga, com Vasco de Roxas, cristão-novo, natural de Trás-os-Montes (Chacim), morador em Castela, em um lugar da Galiza e vinha muitas vezes cada ano a Guimarães onde fazia sua assistência vendendo fazendas que trazia e comprando outras para levar…
Agora, a rota de Chaves, também para a Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, no caminho de Cisterna (Espanha) para Rebordelo (Vinhais) se encontrou com Vasco Fernandes, o malrasca, de Vila Flor…; Haverá 10 anos, no lugar de Aveleda, Castela, raia de Chaves, se achou com Manuel Mendes, filho de António Correia, morador em Lebução…; Haverá 10 anos, se achou com António Correia, mercador de Lebução, no lugar de Cisterna, em Castela, raia de Chaves…lhe disse que sabia muitas orações judaicas mas que não lhas repetiu…; Haverá 9 anos, em lebução, se achou com António Mendes, mercador, casado com uma parente dele confidente, que vivem na Galiza e depois vieram para Rebordelo, na raia da Galiza…; Haverá 11 anos, na vila de Chaves, em casa de Manuel Mendes, médico…
Depois da rota do Minho e da rota de Chaves, vejamos a rota duriense, de certo a mais percorrida por Rodrigo de Leão quando residiu em Vila Flor. Nesta rota identificam-se dois pontos. Um é junto a Miranda do Douro, “aonde não há povoação alguma”, conforme as suas declarações:
- Disse que haverá 13 anos, na raia de Castela junto ao rio Douro, aonde não há povoação alguma e aonde se juntam para passar fazendas para Castela, se achou com Pêro Guterres, cristão-novo, mercador de Vila Flor…; Haverá 8 anos, junto ao Douro, na raia de Castela, 4 ou 5 léguas acima de Miranda se achou com Francisco Mendes, o sortilho, morador em Vila Flor, para onde tinham ido em ordem a passar fazendas para Castela…
O outro ponto de passagem situava-se junto à povoação de Lagoaça. E este era o ponto da raia mais frequentado e o mais referido nos depoimentos de Rodrigo. Vejamos alguns:
- Disse que haverá 10 anos, no lugar de Lagoaça, 2 léguas ou 3 de Freixo de espada à Cinta, se achou com António Pereira, mercador, morador em Vila Flor e se juntaram em Lagoaça esperando os castelhanos que traziam fazenda pela raia, em ordem a seus contratos …; Em Lagoaça se achou com Manuel Lopes Pereira, de 26 anos, solteiro, filho de Henrique Lopes, de Vila Flor e na ocasião de ambos estarem pousados em uma casa, esperando a vinda dos castelhanos para trocarem suas fazendas…
Mas se todas estas rotas de comércio e contrabando para Espanha se situam a Norte do rio Douro, outras frequentava também Rodrigo Vaz pelas raias da Beira e do Alentejo, conforme resulta de suas confissões:
- Disse que haverá 12 anos, na vila de Estremoz, por ocasião da feira que se faz por S. André, se achou com André Lopes, mercador, natural de Trancoso…; Haverá o mesmo tempo, indo para a feira de S. Tiago em Estremoz se encontrou com Ambrósio Lopes e João Lopes, irmão do sobredito, morador na vila de Longa (Tabuaço) e indo caminhando junto a Castelo Branco…; Haverá 8 anos, no caminho de Lamego para o da Guarda, aonde chamam a Ponte do Abade, se achou com Henrique Fróis, irmão de Jorge Fróis, morador em Idanha…
E a finalizar esta digressão pelas rotas comerciais de Rodrigo de Leão, uma última declaração que desejamos especialmente destacar, por nela se fazer referência aos Lopes Teles, de Vila Flor, que foram grandes “asientistas” em Espanha:
- Disse que haverá 8 anos, caminhando para uma feira no Alentejo, tendo passado o rio Tejo em Abrantes e estando já na banda do Alentejo e começando a jornada às Vendas de Azedo (?), na charneca, em companhia de Manuel Lopes Pereira e de Manuel Lopes Teles e de João Lopes Teles, irmãos, filhos de Bartolomeu Lopes Teles e foram moradores nesta cidade, de onde se ausentaram para Castela e entre práticas que tiveram sobre umas armas de fogo que na vila de Abrantes lhes havia embaraçado a justiça…
Podíamos continuar com as confissões de Rodrigo, judaizando pelos caminhos de Murça, Bragança, Lamego… acrescentando nomes de pessoas que estavam já presas ou o foram depois, excepto alguns que se meteram pelos trilhos da emigração, fugindo da perseguição do Santo ofício.
E porque Rodrigo Vaz se mostrou tão colaborante e denunciou tanta gente e conseguiu convencer os inquisidores de que estava arrependido por ter judaizado e pedia perdão, eles decidiram recebê-lo ao “Grémio da Santa Madre Igreja”, condenando-o a “hábito e cárcere a arbítrio e a ser instruído nos mistérios da fé “. Saiu penitenciado no auto-de-fé realizado em Lisboa no dia 17 de Agosto de 1664, ao fim de um ano de cadeia.
Ficou por Lisboa cumprindo a penitência e recebendo a instrução cristã, sendo-lhe retirado o sambenito um mês depois. Mas haveria de passar mais outro ano e alguns meses para ele se atrever a apresentar a seguinte petição que lhe foi deferida em 13 de Janeiro de 1665:
- Diz Rodrigo Vaz de Leão … que ele em razão de suas culpas lhe foi proibido de comungar, sem ordem deste santo tribunal e porque tem cumprido a penitência que, com misericórdia, se houve com ele, que de presente está muito desconsolado por se não poder confessar e comungar; pede e V. Mercês que, compadecendo-se da sua dor e arrependimento e pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, haverá a Mesa dar licença para se poder confessar e comungar na freguesia onde de presente mora que é a de S. Nicolau ou aonde se oferecer e for mais conveniente para a consolação de sua alma e serviço de N. S. Jesus Cristo.
Presa logo a seguir ao marido, Isabel Henriques continuava nesta altura metida nas masmorras da Inquisição. E continuava a dizer-se inocente e a não denunciar ninguém. Dizia-se era vítima de ódios e invejas de gente de Vila Flor, especialmente de familiares seus despeitados com a herança dos bens que foram de sua avó. E só em 26 de Março de 1888, 2 anos e meio depois de ser presa, confessou que se apartara da fé cristã há uns 18 ou 19 anos, convencida por suas tias maternas com as quais judaizou, em conjunto com suas primas, filhas daquelas. E terminou a sua confissão dizendo:
- E a dita crença lhe durou até se resolver a confessar.
Claro que os inquisidores acharam esta confissão muito “diminuta” e “apertaram” ainda mais com ela, ameaçando-a com a morte na fogueira. Pouco mais informações lhe conseguiram arrancar e, a 2 de Abril de 1666, foram-lhe atadas as mãos e lida a sentença: - Relaxada ao braço secular.
E foi só no decurso do auto-de-fé, no Terreiro do Paço, pelas 2 horas da tarde, que ela denunciou o marido. Os inquisidores não “receberam” esta confissão “por deixar de dizer de sua irmã e de seu cunhado… e a denúncia contra o marido é diminuta”.
Termina o processo de Isabel Henriques com a seguinte declaração:
- Foi-me entregue uma estampa de Isabel Henriques, natural desta Vila Flor, a qual mandei afixar na igreja matriz de S. Bartolomeu, junto aos outros retratos que nela estão.
Por ser verdade e esta me ser pedida a passei, por mim feita e assinada aos 12 de Março de 1667. Padre Álvaro da Fonseca – encomendado da Igreja.
Por volta de 1655, Rodrigo e Isabel deixaram Vila Flor e foram estabelecer-se em Lisboa, na Rua Nova, com uma loja de venda de tecidos. Mas ele não se ficava pelas vendas na loja, antes frequentava muitas feiras e a longas distâncias, de Norte e Sul do País.
No último dia de Agosto de 1663, Rodrigo de Leão foi preso pela Inquisição de Lisboa e, pouco depois, aconteceu o mesmo à sua mulher. Nessa altura tinham já 3 filhas e com eles morava também um primo de Rodrigo, filho dos tios que o educaram em Lamego, certamente enviado para Lisboa para ser, de igual modo, iniciado na Lei mosaica e no mundo empresarial e destinado, porventura, a casar com alguma das suas filhas.
Quando o prenderam, Rodrigo “vinha das feiras do Alentejo”. E, vejam só o que com ele trazia e lhe foi apreendido:
* Mais de dois mil cruzados em dinheiro, “mas não pode dizer ao certo, porque o não tinha ainda contado”. - Para o leitor fazer uma ideia, refira-se que o cruzado valia 400 reis, perfazendo-se assim 800 000, ou seja: quase um conto de reis! Atente-se que por essa altura o orçamento da câmara de Lisboa andava nos 9 contos, ou que a jorna de um trabalhador era de 100 reis!
* Das mesmas “feiras do Alentejo” trazia mais duas saquetas de dinheiro, metidas em uma canastra, “que eram de António Godinho, mercador de massaria, que lhe pediu a ele declarante que lhe acomodasse as ditas duas saquetas por não ter comodidade para as trazer”. – Qual é o negociante que no final de uma feira não tem comodidade para levar o dinheiro?!
* E trazia ainda uma outra saqueta de dinheiro que disse pertencer a Manuel Pereira Rebelo, também mercador de Lisboa, que lha mandou das mesmas feiras “um sobrinho que ficou doente no Alentejo”.
Será que estas saquetas de dinheiro eram mesmo das referidas pessoas? Ou seriam também de Rodrigo de Leão que, com aqueles estaria concertado e esta seria uma forma de salvar parte do dinheiro?
De resto, o inventário dos seus bens não é mais do que uma extensa lista de pessoas a quem ele dizia dever dinheiro, pois “que não tinha bens de raiz, nem peças de ouro ou prata”. Apenas a sua loja “que constava de sedas, milanesas, baetas, serafinas e duquesas”.
Mas vale a pena espreitar a sua lista de credores, a qual nos permite fazer uma ideia da extensão do seu mundo empresarial. Assim:
* Tinha dívidas com os seguintes mercadores ingleses, derivadas de mercadorias fornecidas: Rogério Bradil, Guilherme Clarck, Samuel Butre, João Polisfin, João Vicent, Lazaro Brandana.
* Devia a Gaspar Paulo e a Abraão Vasnilher, mercadores holandeses “o procedido de 25 peças de milanesas de lã, à razão de 4 600 reis a peça e 24 peças de milanesas de seda, à razão de 7 600 reis a peça”.
* A João Vanciter, hamburguês, devia 14 ou 15 peças de sarja, à razão de 9384 reis a peça e mais 3 peças e meia de macaia “de que ainda não tinha passado escrito”.
* Tinha contas grossas com Lazaro Grandona, mercador italiano, procedidas de “uma partida de chamelotes que não sabe quanto importou” e “setenta e tantos mil reis procedidos de meias de seda de mulher que lhe comprou”. Mas também aquele lhe devia uns “206 mil e tantos reis”.
* A Henrique Pedro, “mercador estrangeiro” devia 14 ou 16 peças de bombazinas que lhe comprou.
* Idem aos ingleses Guilherme Marques, João Robinson, Joseph Ardenque; aos franceses Abraão Sarau, David Godfroy, Pedro Verdet e outros mais.
Refira-se que todos estes estrangeiros tinham escritório e residência em Lisboa e isso dá ideia do cosmopolita mundo empresarial lisboeta em que se movia Rodrigo de Leão.
Não menos sonantes são os nomes dos mercadores portugueses e cristãos-novos presentes no rol de suas dívidas, tais como:
* Henrique Paz Pinto a quem devia um chamelote e umas safiras.
* Diogo Rodrigues Marques (genro de António Rodrigues Mogadouro) a quem devia perto de mil cruzados (400 000 Reis!) de milanesas e tafetás.
* Sebastião Nunes que, entre outras mercadorias, lhe creditara 14 ou 15 peças de milanesas negras, à razão de 7 200 reis a peça.
* Jorge Dias Brandão, do fornecimento de 10 peças de “chamelote de seda de França” e de uns quantos tafetás.
* Francisco Carlos, Jerónimo Gomes Ramos, Jerónimo da Fonseca de Miranda e outros mais constam igualmente do rol.
Por sua vez, olhando a pequena lista de pessoas que lhe devem, vemos que todos são mercadores da província, nomeadamente de Coimbra, Trancoso e Lamego, a quem remetia mercadorias. Funcionaria, assim a sua loja como distribuidora de tecidos a vendedores retalhistas.
Naquele mundo empresarial, avulta o papel desempenhado pelos corretores, pois tudo girava com papéis de crédito. Vejamos dois exemplos:
* Ao corretor Manuel Rodrigues de Sampaio devia 135 000 reis “procedidos do rebate de um escrito que ele declarante tinha feito a Pedro Belismen, inglês”.
* Devia a Pedro Verdet, mercador francês, “uma partida de estremenhas que lhe comprou para a sua loja, não está lembrado de quanto importou, mas constará do escrito dele declarante que lhe passou ao tempo desta venda, a qual se fez com a intervenção do corretor António Lopes”.
Como se vê, o dinheiro de plástico dos nossos dias e os cartões de crédito não são tão originais quanto parece, pois já nesse tempo os mercadores usavam procedimentos semelhantes. Repare-se, por outro lado, neste exemplo, retirado do processo, de relações comerciais extremamente personalizadas e assentes na confiança mútua:
- Indo ele declarante desta cidade para o Alentejo para uma feira, que entende que era a que se faz pelo São Tiago, na vila de Estremoz, lhe pediram Abraão Esvilet e Gaspar Payel, mercadores de Hamburgo, ou de Holanda, que lhes levasse ele declarante, com sua fazenda, duas peças de chamelote de prata cor de cana finos e assim mais outras duas peças de chamelote branco de prata falsa, para lhos vender na mesma feira e ele declarante, em razão da amizade que tinha com os ditos mercadores, aceitou e levou à dita feira e deles se não gastou nem um só côvado e as tornara a trazer a esta cidade assim e na forma que as recebeu e em um mafamede que havia na sua loja se achariam…
E este outro exemplo de como funcionavam as relações dos mercadores cristãos-novos com o poder:
- Um mês antes de ele declarante ser preso por esta Inquisição, foi à sua loja Agostinho Nunes, que servia de solicitador a Sebastião Nunes Chaves e agora entende que assiste em casa do Conde de Castelo melhor (então chefe do governo) e ia em companhia de Domingos Soares, mercador da Rua Nova e levaram da loja dele declarante uma peça de tafetá cor de ouro, dizendo que era para se fazer um gibão de panos e que do Tesouro se havia de pagar e importou a peça em 36 mil e tantos reis; e que ele declarante ficou entendendo que estes tafetás eram para o serviço de el-rei, mas ainda se lhe não pagaram…
Não se pense, porém, que Rodrigo Vaz negociava apenas em panos. Não, como qualquer homem da nação, ele deitava mão ao que podia. Vejam este negócio:
- A Sebastião Nunes Chaves vendeu 50 moios de trigo (41 400 litros) à razão de 9 vinténs o alqueire e 5 moios de centeio à razão de 7 vinténs por alqueire, posto tudo ao pé do Douro por conta dele declarante e as ditas partidas de trigo e centeio se montam 750 000 reis; e além disso deve também o dito Sebastião Nunes a sacaria em que o dito pão veio.
Como ele, comerciante lisboeta, angariava tanto cereal em Trás-os-Montes não o sabemos em pormenor. Mas sabemos que um dos processos seria a arrematação da cobrança de rendas. Como ele declarou, em um caso concreto:
- Tomou de arrendamento as comendas de S. João e S. Salvador de Ansiães, junto a Torre de Moncorvo, por tempo de um ano que acabou em São João deste presente ano, em preço de 580 000 reis… e estas comendas pertencem à filha de D. Leonor de Vilhena que agora está casada com D. Manuel de Melo…
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 2842, de Rodrigo Vaz
de Leão e 7294, de Isabel HenriquesVimos, no número anterior, a lista de credores e devedores, reais ou inventados, de Rodrigo Vaz de Leão. Voltemos agora ao momento da sua prisão…
AS ROTAS COMERCIAIS DE RODRIGO VAZ DE LEÃO
Deixemos os negócios e voltemos atrás, à prisão de Rodrigo, que teve por base as seguintes denúncias de prisioneiros da Inquisição:
* João Peres Galvão, médico, natural do Porto, casado com uma senhora originária de Torre de Moncorvo e morador em Lamego – disse que com ele se teria declarado seguidor da lei de Moisés nesta última cidade, haverá 15 anos.
* Jerónimo navarro, natural de Miranda do Douro e morador em Guimarães – declarou que, 10 anos antes (1653) se tinha declarado com ele em braga, no Campo de Santa Ana.
* Pedro Vaz de Castro, natural e morador em Bragança – confessou que foi há 5 anos em Lisboa, na casa de Rodrigo Vaz de leão…
Escusado será dizer que entretanto várias outras pessoas de suas relações eram igualmente denunciadas e presas e novas denúncias de judaísmo eram acrescentadas no seu processo, nomeadamente as produzidas por seu irmão, o dr. Miguel Lopes, médico e a mulher deste, Guiomar Henriques, irmã também de sua mulher, moradores em Lamego.
Rodrigo de Leão, por seu turno, entrou logo a fazer denúncias sobre mais de 30 pessoas que com ele se declararam ou tiveram práticas judaizantes. E se a sua relação de bens é um verdadeiro tratado de relações comerciais, o conjunto das denúncias feitas por ele deixa-nos um seu retrato de verdadeiro andarilho percorrendo o País de lés-a-lés, desenhando rotas de comércio e contrabando, do Minho a Trás-os-Montes, à Beira e ao Alentejo.
Vejamos então um pouco das suas confissões, começando pelas que se referem a episódios mais antigos e determinantes para o seu comportamento religioso. E andou ele muito bem, ao começar por denunciar o seu tio que, pelos 12 anos, o terá iniciado no judaísmo:
- Disse que haverá vinte e tantos anos, então morador em Lamego, na feira de Armedo, em companhia de Simão Lopes, cristão-novo, mercador, casado com Gracia Lopes, tia dele confidente, em cuja casa se tinha criado (...), num lugar que se chama Santo Amaro das Caldas, 5 léguas de Lamego, indo para o Douro, disse Simão Lopes a ele confidente que cresse na lei de Moisés…
Seguem denúncias de outros familiares, como fossem o seu irmão Miguel Lopes e outras pessoas de Lamego que então estavam presas e eram publicamente tidas por judaizantes, nomeadamente o “Manico”, alcunha do avô paterno do dr. Francisco da Fonseca Henriques, mais conhecido por dr. Mirandela, famoso médico do rei D. João V.
Denunciou igualmente a sua mulher, com a qual se teria declarado uns 15 anos atrás, quando ele tinha 19 anos e por altura de casarem. E nisto andou também ele muito avisadamente, ao contrário de sua mulher, como se verá.
Sigamos agora pelas rotas do comércio e do contrabando desenhadas nas confissões de Rodrigo Vaz. Comecemos pela rota que podemos designar de Minho – Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, indo do Porto para Guimarães, em companhia de Jerónimo Navarro, cristão-novo, natural de Miranda, que morava em Guimarães, onde vivia de passar fazendas para Castela …; Haverá 9 anos, indo de Guimarães para Braga, com Vasco de Roxas, cristão-novo, natural de Trás-os-Montes (Chacim), morador em Castela, em um lugar da Galiza e vinha muitas vezes cada ano a Guimarães onde fazia sua assistência vendendo fazendas que trazia e comprando outras para levar…
Agora, a rota de Chaves, também para a Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, no caminho de Cisterna (Espanha) para Rebordelo (Vinhais) se encontrou com Vasco Fernandes, o malrasca, de Vila Flor…; Haverá 10 anos, no lugar de Aveleda, Castela, raia de Chaves, se achou com Manuel Mendes, filho de António Correia, morador em Lebução…; Haverá 10 anos, se achou com António Correia, mercador de Lebução, no lugar de Cisterna, em Castela, raia de Chaves…lhe disse que sabia muitas orações judaicas mas que não lhas repetiu…; Haverá 9 anos, em lebução, se achou com António Mendes, mercador, casado com uma parente dele confidente, que vivem na Galiza e depois vieram para Rebordelo, na raia da Galiza…; Haverá 11 anos, na vila de Chaves, em casa de Manuel Mendes, médico…
Depois da rota do Minho e da rota de Chaves, vejamos a rota duriense, de certo a mais percorrida por Rodrigo de Leão quando residiu em Vila Flor. Nesta rota identificam-se dois pontos. Um é junto a Miranda do Douro, “aonde não há povoação alguma”, conforme as suas declarações:
- Disse que haverá 13 anos, na raia de Castela junto ao rio Douro, aonde não há povoação alguma e aonde se juntam para passar fazendas para Castela, se achou com Pêro Guterres, cristão-novo, mercador de Vila Flor…; Haverá 8 anos, junto ao Douro, na raia de Castela, 4 ou 5 léguas acima de Miranda se achou com Francisco Mendes, o sortilho, morador em Vila Flor, para onde tinham ido em ordem a passar fazendas para Castela…
O outro ponto de passagem situava-se junto à povoação de Lagoaça. E este era o ponto da raia mais frequentado e o mais referido nos depoimentos de Rodrigo. Vejamos alguns:
- Disse que haverá 10 anos, no lugar de Lagoaça, 2 léguas ou 3 de Freixo de espada à Cinta, se achou com António Pereira, mercador, morador em Vila Flor e se juntaram em Lagoaça esperando os castelhanos que traziam fazenda pela raia, em ordem a seus contratos …; Em Lagoaça se achou com Manuel Lopes Pereira, de 26 anos, solteiro, filho de Henrique Lopes, de Vila Flor e na ocasião de ambos estarem pousados em uma casa, esperando a vinda dos castelhanos para trocarem suas fazendas…
Mas se todas estas rotas de comércio e contrabando para Espanha se situam a Norte do rio Douro, outras frequentava também Rodrigo Vaz pelas raias da Beira e do Alentejo, conforme resulta de suas confissões:
- Disse que haverá 12 anos, na vila de Estremoz, por ocasião da feira que se faz por S. André, se achou com André Lopes, mercador, natural de Trancoso…; Haverá o mesmo tempo, indo para a feira de S. Tiago em Estremoz se encontrou com Ambrósio Lopes e João Lopes, irmão do sobredito, morador na vila de Longa (Tabuaço) e indo caminhando junto a Castelo Branco…; Haverá 8 anos, no caminho de Lamego para o da Guarda, aonde chamam a Ponte do Abade, se achou com Henrique Fróis, irmão de Jorge Fróis, morador em Idanha…
E a finalizar esta digressão pelas rotas comerciais de Rodrigo de Leão, uma última declaração que desejamos especialmente destacar, por nela se fazer referência aos Lopes Teles, de Vila Flor, que foram grandes “asientistas” em Espanha:
- Disse que haverá 8 anos, caminhando para uma feira no Alentejo, tendo passado o rio Tejo em Abrantes e estando já na banda do Alentejo e começando a jornada às Vendas de Azedo (?), na charneca, em companhia de Manuel Lopes Pereira e de Manuel Lopes Teles e de João Lopes Teles, irmãos, filhos de Bartolomeu Lopes Teles e foram moradores nesta cidade, de onde se ausentaram para Castela e entre práticas que tiveram sobre umas armas de fogo que na vila de Abrantes lhes havia embaraçado a justiça…
Podíamos continuar com as confissões de Rodrigo, judaizando pelos caminhos de Murça, Bragança, Lamego… acrescentando nomes de pessoas que estavam já presas ou o foram depois, excepto alguns que se meteram pelos trilhos da emigração, fugindo da perseguição do Santo ofício.
E porque Rodrigo Vaz se mostrou tão colaborante e denunciou tanta gente e conseguiu convencer os inquisidores de que estava arrependido por ter judaizado e pedia perdão, eles decidiram recebê-lo ao “Grémio da Santa Madre Igreja”, condenando-o a “hábito e cárcere a arbítrio e a ser instruído nos mistérios da fé “. Saiu penitenciado no auto-de-fé realizado em Lisboa no dia 17 de Agosto de 1664, ao fim de um ano de cadeia.
Ficou por Lisboa cumprindo a penitência e recebendo a instrução cristã, sendo-lhe retirado o sambenito um mês depois. Mas haveria de passar mais outro ano e alguns meses para ele se atrever a apresentar a seguinte petição que lhe foi deferida em 13 de Janeiro de 1665:
- Diz Rodrigo Vaz de Leão … que ele em razão de suas culpas lhe foi proibido de comungar, sem ordem deste santo tribunal e porque tem cumprido a penitência que, com misericórdia, se houve com ele, que de presente está muito desconsolado por se não poder confessar e comungar; pede e V. Mercês que, compadecendo-se da sua dor e arrependimento e pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, haverá a Mesa dar licença para se poder confessar e comungar na freguesia onde de presente mora que é a de S. Nicolau ou aonde se oferecer e for mais conveniente para a consolação de sua alma e serviço de N. S. Jesus Cristo.
Presa logo a seguir ao marido, Isabel Henriques continuava nesta altura metida nas masmorras da Inquisição. E continuava a dizer-se inocente e a não denunciar ninguém. Dizia-se era vítima de ódios e invejas de gente de Vila Flor, especialmente de familiares seus despeitados com a herança dos bens que foram de sua avó. E só em 26 de Março de 1888, 2 anos e meio depois de ser presa, confessou que se apartara da fé cristã há uns 18 ou 19 anos, convencida por suas tias maternas com as quais judaizou, em conjunto com suas primas, filhas daquelas. E terminou a sua confissão dizendo:
- E a dita crença lhe durou até se resolver a confessar.
Claro que os inquisidores acharam esta confissão muito “diminuta” e “apertaram” ainda mais com ela, ameaçando-a com a morte na fogueira. Pouco mais informações lhe conseguiram arrancar e, a 2 de Abril de 1666, foram-lhe atadas as mãos e lida a sentença: - Relaxada ao braço secular.
E foi só no decurso do auto-de-fé, no Terreiro do Paço, pelas 2 horas da tarde, que ela denunciou o marido. Os inquisidores não “receberam” esta confissão “por deixar de dizer de sua irmã e de seu cunhado… e a denúncia contra o marido é diminuta”.
Termina o processo de Isabel Henriques com a seguinte declaração:
- Foi-me entregue uma estampa de Isabel Henriques, natural desta Vila Flor, a qual mandei afixar na igreja matriz de S. Bartolomeu, junto aos outros retratos que nela estão.
Por ser verdade e esta me ser pedida a passei, por mim feita e assinada aos 12 de Março de 1667. Padre Álvaro da Fonseca – encomendado da Igreja.
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 2842, de Rodrigo Vaz
de Leão e 7294, de Isabel Henriques.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
terça-feira, 10 de julho de 2012
Na Rota do Comércio de Escravos
sexta-feira, 6 de julho de 2012
A OBRA DO RESGATE DOS MARRANOS EM LAGOAÇA, Por: António Pimenta de Castro
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| Barros Basto |
Como é sabido de
todos, Lagoaça foi sempre terra com muitos judeus e, após o decreto de
expulsão, publicado em 1496, em que deixaram de existir oficialmente, judeus em
Portugal, o culto manteve-se, sobretudo nas zonas mais afastadas do nosso país,
como é o caso de Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta, Vilarinho dos Galegos,
Carção, Argozelo, entre muitas outras, só para falar de povoações transmontanas.
Começa assim, a época dos criptojudaísmo, ou seja, praticavam o culto judaico
às ocultas. Quem não se convertesse “oficialmente” ao cristianismo teria de
sair do país, indo assim criar riqueza por esse mundo além. Quem ficou,
oficialmente eram os chamados cristãos-novos, praticando, no recato do seu lar,
ou no de correligionários, o culto hebraico, em muito segredo.
Depreciativamente, começaram a chamar-lhes marranos. Como escreveu o meu amigo
João Guerra: “A degradação das
comunidades judaicas portuguesas acontece progressivamente, sobretudo a partir
de 1536, quando é estabelecida a Inquisição.
Agora, a sobrevivência das comunidades judaicas, enquanto tal, impunha
a preservação da sua religião e identidade, enfrentando e adaptando-se às novas
circunstâncias de perseguição e terror. Assim, os judeus (marranos)
portugueses, vivem o judaísmo possível, observado religiosamente na medida que
lhes é possível, com um inequívoco sentido de identidade. Este processo passou
por uma atitude de comunidade. Foram inventadas formas subtis e engenhosas de
preservar e praticar a religião e tradições judaicas, ocultando essas práticas
ao mundo alheio, transmitindo-se entre famílias de geração em geração até aos
nossos dias”[1].
Após séculos de discriminação, perseguição e tortura, em 1821, a Inquisição foi extinta, não querendo isso significar que o preconceito anti-judaico, deixasse de existir, mesmo em Trás-os-Montes, onde eram numerosas os criptojudeus. A mentalidade muda muito lentamente…O liberalismo e mais tarde, a República, aliviaram algum sufoco quer físico, quer sobretudo psicológico em que viveram as nossas comunidades judaicas (marranas), procurando estas afirmarem-se como tal, continuando, no entanto a manter um rigoroso secretismo, marca que ficou gravada na sua memória colectiva, pela Inquisição, até aí sempre omnipresente e omnipresente. Esse medo fez-se sentir muito para lá da sua extinção, e, em certa medida, ainda hoje está presente no subconsciente de muitos descendentes de judeus.
No século XX, deu-se ao crescimento da população judaica em Portugal, não só pela vinda de estrangeiro, à medida que o nazismo e o fascismo se iam instalando, mas, sobretudo, e é isso que mais nos interessa, pela OBRA DO RESGATE, fundada por um judeu português, o capitão Barros Basto (Ben-Rosh). Esta obra, destinava-se a restituir ao judaísmo português a grandeza de outros tempos, ajudando a: “resgatar as suas comunidades do cativeiro físico de dispersão e isolamento do mundo judaico e sobretudo do cativeiro espiritual para onde séculos de perseguições e clandestinidade os haviam atirado (…) A comunidade israelita do Porto foi fundada em 1923 pelo capitão Barros Basto. Também fruto do movimento judaico da “Obra do Resgate” foram constituídas formalmente nos anos 20 e 30 as comunidades judaicas de Bragança, Covilhã e Pinhel, as mais importantes, Macedo de Cavaleiros, Castelo Branco e outras, e ainda numerosas juntas judaicas (como a de Lagoaça, que falarei mais adiante), em aldeias e vilas do Nordeste, Douro e Beiras. (…) O infame processo contra o capitão Barros Basto e a perseguição do “Estado Novo” ao movimento da “Obra do Resgate”, levou a que nos anos 40 as sinagogas de judeu marranos fechassem as suas portas uma a uma, e as comunidades se desagregassem como instituições organizadas[2]”.
Antes de falarmos especificamente de Lagoaça, não quero esquecer o grande estudioso do judaísmo, nomeadamente nordestino, chamado Amílcar Paulo, com profundas raízes na vizinha freguesia de Fornos. Também o Abade de Baçal, no V volume, fala nos judeus de Lagoaça.
Para não vos enfadar mais, vamos a Lagoaça.
Na sinagoga do Porto, situada na rua Guerra Junqueiro, o capitão Barros Basto, criou uma “escola” yechiva, onde vários alunos aprendiam o judaísmo correcto e, após a sua formação, eram distribuídos pelas várias comunidades, sobretudo do interior do pais, para aí ensinarem os judeu marranos o autêntico judaísmo. Para esta zona de Trás-os-Montes veio o Reverendo Moisés Abrantes, natural da Beira (do Fundão ou da Covilhã). Eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente o Moreh Rev. Moisés Brito Abrantes. Foi num encontro histórico, realizado em Trancoso, nos finais dos anos 80, sobre os judeus nas Beiras. Nas apresentações, eu referi que vivia em Mogadouro. Foi então que vi um ancião de cabelo completamente branco que, ao ouvir a minha residência, arregalou os olhos, num misto de espanto e de saudades. Então, num intervalo, ele disse-me “-Sabe? Eu já ensinei em Lagoaça e Vilarinho dos Galegos…”. Fiquei espantado…e, logo trocamos endereços e telefones. Soube, mais tarde que tinha uma livraria no Fundão (onde então residia) e que tinha vários livros publicados. Mandei vir os seus livros, pois pensava que falariam da sua experiência nas nossas terras mas, para desgosto meu eram de poesia…Penso que Deus já o levou para junto de si…
Quero partilhar convosco a noticia do jornal da comunidade judaica do Porto (Ha-Lapid), integrado no movimento da “Obra do Resgate”, publicado em 1934 ”- OBRA DO RESGATE EM TRÁS-OS-MONTES” – No dia 18 de Outubro passado partiu para Trás-os-Montes, como missionário da “Obra do Resgate” o Moreh Rev. Moisés Brito Abrantes.
Em Lagoaça aguardavam a sua chegada muitos marranos (cristãos-novos), apesar de ser dia de trabalho, e entre eles a família dos Talmidim, por estes avisados.
Fez em várias casas de marranos orações e homilias, esforçando-se e conseguindo reavivar a fé dos nossos antepassados já um tanto amortecida. Ali formou uma junta judaica e seguiu para Vilarinho dos Galegos onde criou duas escolas: uma para meninas, frequentadas por cerca de 20 alunas e outra para rapazes, frequentada também pelo mesmo número de alunos.
Às suas orações, parte em português, parte em hebraico, assistiam normalmente cerca de 80 pessoas, em média. As orações eram finalizadas por homilias nas quais fornecia o conforto espiritual.
Fadou em acto solene as seguintes meninas: Lucinda D’Almeida, Raquel Davim, Cândida D’Almeida, Raquel Guilhermina Lopes, Ester Branca Rodrigues e Ernestina Branca.
Na sua qualidade de preceptor israelita visitou as povoações de Vilar do Rei, Vila D’Ala, Mogadouro e Fornos, nas quais falou com vários marranos.
A 23 de Janeiro regressou ao Porto, tendo sido saudosamente sentida a sua partida sobretudo em Vilarinho dos Galegos, lugar em que mais se demorou.
As juntas ficaram assim constituídas:
LAGOAÇA
Presidente – Acácio D’Oliveira
Secretário- Manoel Augusto Carpinteiro
Tesoureiro- Acúrcio Moreira
Presidente – Acácio D’Oliveira
Secretário- Manoel Augusto Carpinteiro
Tesoureiro- Acúrcio Moreira
VILARINHO DOS GALEGOS
Presidente- Manoel Lopes Rodrigues
Secretário – Francisco José Rodrigues
Tesoureiro- Artur Augusto Rodrigues”
Presidente- Manoel Lopes Rodrigues
Secretário – Francisco José Rodrigues
Tesoureiro- Artur Augusto Rodrigues”
A parte mais importante das habitações da gente judaica (sendo, possivelmente as mais ricas) eram no Bairro de Cima (na zona da Rebola), a da gente mais modesta (mas muitos também eram descendentes de judeus) no Bairro de Baixo, também conhecidos, creio, que por “penicheiros”. Conheço um amigo meu que ia, quando estava em Trás-os-Montes, celebrar o Shabbat a Lagoaça com um seu amigo, que praticava o judaísmo, mas que, infelizmente já faleceu. Espero ter contribuído, com este meu modesto trabalho, para se fazer alguma LUZ sobre a história dos judeu marranos de Lagoaça. SHALOM
Por: António Pimenta de Castro
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Os Judeus
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Paginação: Luís Teixeira
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