Rodrigo Vaz de Leão nasceu em Vila Real, por 1629. Seu pai
era originário de Sambade, Alfândega da Fé e sua mãe, nascida já em Vila Real,
provinha de Lamego. Não sabemos em que data seus pais o mandaram para Lamego,
para casa de sua tia Gracia Lopes, casada com o mercador Simão Lopes,
certamente para estes o introduzirem nos segredos da Lei mosaica e no mundo dos
negócios, como era bastante usual entre os cristãos-novos.
Também não sabemos em que data, mas terá sido por 1649, ele
foi casar a Vila Flor, com Isabel Henriques, 3 anos mais velha do que ele,
filha do médico Pêro Dias da Mesquita, natural de Lebução e casado na família
Henriques, acaso a mais poderosa da comunidade cristã-nova local.
Por volta de 1655, Rodrigo e Isabel deixaram Vila Flor e
foram estabelecer-se em Lisboa, na Rua Nova, com uma loja de venda de tecidos.
Mas ele não se ficava pelas vendas na loja, antes frequentava muitas feiras e a
longas distâncias, de Norte e Sul do País.
No último dia de Agosto de 1663, Rodrigo de Leão foi preso
pela Inquisição de Lisboa e, pouco depois, aconteceu o mesmo à sua mulher.
Nessa altura tinham já 3 filhas e com eles morava também um primo de Rodrigo,
filho dos tios que o educaram em Lamego, certamente enviado para Lisboa para
ser, de igual modo, iniciado na Lei mosaica e no mundo empresarial e destinado,
porventura, a casar com alguma das suas filhas.
Quando o prenderam, Rodrigo “vinha das feiras do Alentejo”.
E, vejam só o que com ele trazia e lhe foi apreendido:
* Mais de dois mil cruzados em dinheiro, “mas não pode dizer
ao certo, porque o não tinha ainda contado”. - Para o leitor fazer uma ideia,
refira-se que o cruzado valia 400 reis, perfazendo-se assim 800 000, ou seja:
quase um conto de reis! Atente-se que por essa altura o orçamento da câmara de
Lisboa andava nos 9 contos, ou que a jorna de um trabalhador era de 100 reis!
* Das mesmas “feiras do Alentejo” trazia mais duas saquetas
de dinheiro, metidas em uma canastra, “que eram de António Godinho, mercador de
massaria, que lhe pediu a ele declarante que lhe acomodasse as ditas duas
saquetas por não ter comodidade para as trazer”. – Qual é o negociante que no
final de uma feira não tem comodidade para levar o dinheiro?!
* E trazia ainda uma outra saqueta de dinheiro que disse
pertencer a Manuel Pereira Rebelo, também mercador de Lisboa, que lha mandou
das mesmas feiras “um sobrinho que ficou doente no Alentejo”.
Será que estas saquetas de dinheiro eram mesmo das referidas
pessoas? Ou seriam também de Rodrigo de Leão que, com aqueles estaria
concertado e esta seria uma forma de salvar parte do dinheiro?
De resto, o inventário dos seus bens não é mais do que uma
extensa lista de pessoas a quem ele dizia dever dinheiro, pois “que não tinha
bens de raiz, nem peças de ouro ou prata”. Apenas a sua loja “que constava de
sedas, milanesas, baetas, serafinas e duquesas”.
Mas vale a pena espreitar a sua lista de credores, a qual
nos permite fazer uma ideia da extensão do seu mundo empresarial. Assim:
* Tinha dívidas com os seguintes mercadores ingleses,
derivadas de mercadorias fornecidas: Rogério Bradil, Guilherme Clarck, Samuel
Butre, João Polisfin, João Vicent, Lazaro Brandana.
* Devia a Gaspar Paulo e a Abraão Vasnilher, mercadores
holandeses “o procedido de 25 peças de milanesas de lã, à razão de 4 600 reis a
peça e 24 peças de milanesas de seda, à razão de 7 600 reis a peça”.
* A João Vanciter, hamburguês, devia 14 ou 15 peças de
sarja, à razão de 9384 reis a peça e mais 3 peças e meia de macaia “de que
ainda não tinha passado escrito”.
* Tinha contas grossas com Lazaro Grandona, mercador
italiano, procedidas de “uma partida de chamelotes que não sabe quanto
importou” e “setenta e tantos mil reis procedidos de meias de seda de mulher
que lhe comprou”. Mas também aquele lhe devia uns “206 mil e tantos reis”.
* A Henrique Pedro, “mercador estrangeiro” devia 14 ou 16
peças de bombazinas que lhe comprou.
* Idem aos ingleses Guilherme Marques, João Robinson, Joseph
Ardenque; aos franceses Abraão Sarau, David Godfroy, Pedro Verdet e outros
mais.
Refira-se que todos estes estrangeiros tinham escritório e
residência em Lisboa e isso dá ideia do cosmopolita mundo empresarial lisboeta
em que se movia Rodrigo de Leão.
Não menos sonantes são os nomes dos mercadores portugueses e
cristãos-novos presentes no rol de suas dívidas, tais como:
* Henrique Paz Pinto a quem devia um chamelote e umas
safiras.
* Diogo Rodrigues Marques (genro de António Rodrigues
Mogadouro) a quem devia perto de mil cruzados (400 000 Reis!) de milanesas e tafetás.
* Sebastião Nunes que, entre outras mercadorias, lhe
creditara 14 ou 15 peças de milanesas negras, à razão de 7 200 reis a peça.
* Jorge Dias Brandão, do fornecimento de 10 peças de
“chamelote de seda de França” e de uns quantos tafetás.
* Francisco Carlos, Jerónimo Gomes Ramos, Jerónimo da
Fonseca de Miranda e outros mais constam igualmente do rol.
Por sua vez, olhando a pequena lista de pessoas que lhe
devem, vemos que todos são mercadores da província, nomeadamente de Coimbra,
Trancoso e Lamego, a quem remetia mercadorias. Funcionaria, assim a sua loja
como distribuidora de tecidos a vendedores retalhistas.
Naquele mundo empresarial, avulta o papel desempenhado pelos
corretores, pois tudo girava com papéis de crédito. Vejamos dois exemplos:
* Ao corretor Manuel Rodrigues de Sampaio devia 135 000 reis
“procedidos do rebate de um escrito que ele declarante tinha feito a Pedro
Belismen, inglês”.
* Devia a Pedro Verdet, mercador francês, “uma partida de
estremenhas que lhe comprou para a sua loja, não está lembrado de quanto
importou, mas constará do escrito dele declarante que lhe passou ao tempo desta
venda, a qual se fez com a intervenção do corretor António Lopes”.
Como se vê, o dinheiro de plástico dos nossos dias e os
cartões de crédito não são tão originais quanto parece, pois já nesse tempo os
mercadores usavam procedimentos semelhantes. Repare-se, por outro lado, neste
exemplo, retirado do processo, de relações comerciais extremamente
personalizadas e assentes na confiança mútua:
- Indo ele declarante desta cidade para o Alentejo para uma
feira, que entende que era a que se faz pelo São Tiago, na vila de Estremoz,
lhe pediram Abraão Esvilet e Gaspar Payel, mercadores de Hamburgo, ou de
Holanda, que lhes levasse ele declarante, com sua fazenda, duas peças de
chamelote de prata cor de cana finos e assim mais outras duas peças de
chamelote branco de prata falsa, para lhos vender na mesma feira e ele
declarante, em razão da amizade que tinha com os ditos mercadores, aceitou e
levou à dita feira e deles se não gastou nem um só côvado e as tornara a trazer
a esta cidade assim e na forma que as recebeu e em um mafamede que havia na sua
loja se achariam…
E este outro exemplo de como funcionavam as relações dos
mercadores cristãos-novos com o poder:
- Um mês antes de ele declarante ser preso por esta
Inquisição, foi à sua loja Agostinho Nunes, que servia de solicitador a
Sebastião Nunes Chaves e agora entende que assiste em casa do Conde de Castelo
melhor (então chefe do governo) e ia em companhia de Domingos Soares, mercador
da Rua Nova e levaram da loja dele declarante uma peça de tafetá cor de ouro,
dizendo que era para se fazer um gibão de panos e que do Tesouro se havia de
pagar e importou a peça em 36 mil e tantos reis; e que ele declarante ficou
entendendo que estes tafetás eram para o serviço de el-rei, mas ainda se lhe
não pagaram…
Não se pense, porém, que Rodrigo Vaz negociava apenas em
panos. Não, como qualquer homem da nação, ele deitava mão ao que podia. Vejam
este negócio:
- A Sebastião Nunes Chaves vendeu 50 moios de trigo (41 400
litros) à razão de 9 vinténs o alqueire e 5 moios de centeio à razão de 7
vinténs por alqueire, posto tudo ao pé do Douro por conta dele declarante e as
ditas partidas de trigo e centeio se montam 750 000 reis; e além disso deve
também o dito Sebastião Nunes a sacaria em que o dito pão veio.
Como ele, comerciante lisboeta, angariava tanto cereal em
Trás-os-Montes não o sabemos em pormenor. Mas sabemos que um dos processos
seria a arrematação da cobrança de rendas. Como ele declarou, em um caso
concreto:
- Tomou de arrendamento as comendas de S. João e S. Salvador
de Ansiães, junto a Torre de Moncorvo, por tempo de um ano que acabou em São
João deste presente ano, em preço de 580 000 reis… e estas comendas pertencem à
filha de D. Leonor de Vilhena que agora está casada com D. Manuel de Melo…
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 2842, de Rodrigo Vaz
de Leão e 7294, de Isabel Henriques
Vimos, no número anterior, a lista de credores e devedores, reais
ou inventados, de Rodrigo Vaz de Leão. Voltemos agora ao momento da sua prisão…
AS ROTAS COMERCIAIS
DE RODRIGO VAZ DE LEÃO
Deixemos os negócios e voltemos atrás, à prisão de Rodrigo,
que teve por base as seguintes denúncias de prisioneiros da Inquisição:
* João Peres Galvão, médico, natural do Porto, casado com
uma senhora originária de Torre de Moncorvo e morador em Lamego – disse que com
ele se teria declarado seguidor da lei de Moisés nesta última cidade, haverá 15
anos.
* Jerónimo navarro, natural de Miranda do Douro e morador em
Guimarães – declarou que, 10 anos antes (1653) se tinha declarado com ele em
braga, no Campo de Santa Ana.
* Pedro Vaz de Castro, natural e morador em Bragança –
confessou que foi há 5 anos em Lisboa, na casa de Rodrigo Vaz de leão…
Escusado será dizer que entretanto várias outras pessoas de
suas relações eram igualmente denunciadas e presas e novas denúncias de
judaísmo eram acrescentadas no seu processo, nomeadamente as produzidas por seu
irmão, o dr. Miguel Lopes, médico e a mulher deste, Guiomar Henriques, irmã
também de sua mulher, moradores em Lamego.
Rodrigo de Leão, por seu turno, entrou logo a fazer
denúncias sobre mais de 30 pessoas que com ele se declararam ou tiveram
práticas judaizantes. E se a sua relação de bens é um verdadeiro tratado de
relações comerciais, o conjunto das denúncias feitas por ele deixa-nos um seu
retrato de verdadeiro andarilho percorrendo o País de lés-a-lés, desenhando
rotas de comércio e contrabando, do Minho a Trás-os-Montes, à Beira e ao
Alentejo.
Vejamos então um pouco das suas confissões, começando pelas
que se referem a episódios mais antigos e determinantes para o seu
comportamento religioso. E andou ele muito bem, ao começar por denunciar o seu
tio que, pelos 12 anos, o terá iniciado no judaísmo:
- Disse que haverá vinte e tantos anos, então morador em
Lamego, na feira de Armedo, em companhia de Simão Lopes, cristão-novo,
mercador, casado com Gracia Lopes, tia dele confidente, em cuja casa se tinha
criado (...), num lugar que se chama Santo Amaro das Caldas, 5 léguas de
Lamego, indo para o Douro, disse Simão Lopes a ele confidente que cresse na lei
de Moisés…
Seguem denúncias de outros familiares, como fossem o seu
irmão Miguel Lopes e outras pessoas de Lamego que então estavam presas e eram
publicamente tidas por judaizantes, nomeadamente o “Manico”, alcunha do avô
paterno do dr. Francisco da Fonseca Henriques, mais conhecido por dr.
Mirandela, famoso médico do rei D. João V.
Denunciou igualmente a sua mulher, com a qual se teria declarado
uns 15 anos atrás, quando ele tinha 19 anos e por altura de casarem. E nisto
andou também ele muito avisadamente, ao contrário de sua mulher, como se verá.
Sigamos agora pelas
rotas do comércio e do contrabando desenhadas nas confissões de Rodrigo Vaz.
Comecemos pela rota que podemos designar de Minho – Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, indo do Porto para Guimarães, em
companhia de Jerónimo Navarro, cristão-novo, natural de Miranda, que morava em
Guimarães, onde vivia de passar fazendas para Castela …; Haverá 9 anos, indo de
Guimarães para Braga, com Vasco de Roxas, cristão-novo, natural de
Trás-os-Montes (Chacim), morador em Castela, em um lugar da Galiza e vinha
muitas vezes cada ano a Guimarães onde fazia sua assistência vendendo fazendas
que trazia e comprando outras para levar…
Agora, a rota de Chaves, também para a Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, no caminho de Cisterna (Espanha)
para Rebordelo (Vinhais) se encontrou com Vasco Fernandes, o malrasca, de Vila
Flor…; Haverá 10 anos, no lugar de Aveleda, Castela, raia de Chaves, se achou
com Manuel Mendes, filho de António Correia, morador em Lebução…; Haverá 10
anos, se achou com António Correia, mercador de Lebução, no lugar de Cisterna,
em Castela, raia de Chaves…lhe disse que sabia muitas orações judaicas mas que
não lhas repetiu…; Haverá 9 anos, em lebução, se achou com António Mendes,
mercador, casado com uma parente dele confidente, que vivem na Galiza e depois
vieram para Rebordelo, na raia da Galiza…; Haverá 11 anos, na vila de Chaves, em
casa de Manuel Mendes, médico…
Depois da rota do Minho e da rota de Chaves, vejamos a rota
duriense, de certo a mais percorrida por Rodrigo de Leão quando residiu em Vila
Flor. Nesta rota identificam-se dois pontos. Um é junto a Miranda do Douro,
“aonde não há povoação alguma”, conforme as suas declarações:
- Disse que haverá 13 anos, na raia de Castela junto ao rio
Douro, aonde não há povoação alguma e aonde se juntam para passar fazendas para
Castela, se achou com Pêro Guterres, cristão-novo, mercador de Vila Flor…;
Haverá 8 anos, junto ao Douro, na raia de Castela, 4 ou 5 léguas acima de
Miranda se achou com Francisco Mendes, o sortilho, morador em Vila Flor, para
onde tinham ido em ordem a passar fazendas para Castela…
O outro ponto de passagem situava-se junto à povoação de
Lagoaça. E este era o ponto da raia mais frequentado e o mais referido nos
depoimentos de Rodrigo. Vejamos alguns:
- Disse que haverá 10 anos, no lugar de Lagoaça, 2 léguas ou
3 de Freixo de espada à Cinta, se achou com António Pereira, mercador, morador
em Vila Flor e se juntaram em Lagoaça esperando os castelhanos que traziam
fazenda pela raia, em ordem a seus contratos …; Em Lagoaça se achou com Manuel
Lopes Pereira, de 26 anos, solteiro, filho de Henrique Lopes, de Vila Flor e na
ocasião de ambos estarem pousados em uma casa, esperando a vinda dos
castelhanos para trocarem suas fazendas…
Mas se todas estas rotas de comércio e contrabando para
Espanha se situam a Norte do rio Douro, outras frequentava também Rodrigo Vaz
pelas raias da Beira e do Alentejo, conforme resulta de suas confissões:
- Disse que haverá 12 anos, na vila de Estremoz, por ocasião
da feira que se faz por S. André, se achou com André Lopes, mercador, natural
de Trancoso…; Haverá o mesmo tempo, indo para a feira de S. Tiago em Estremoz
se encontrou com Ambrósio Lopes e João Lopes, irmão do sobredito, morador na
vila de Longa (Tabuaço) e indo caminhando junto a Castelo Branco…; Haverá 8
anos, no caminho de Lamego para o da Guarda, aonde chamam a Ponte do Abade, se achou
com Henrique Fróis, irmão de Jorge Fróis, morador em Idanha…
E a finalizar esta digressão pelas rotas comerciais de
Rodrigo de Leão, uma última declaração que desejamos especialmente destacar,
por nela se fazer referência aos Lopes Teles, de Vila Flor, que foram grandes
“asientistas” em Espanha:
- Disse que haverá 8 anos, caminhando para uma feira no
Alentejo, tendo passado o rio Tejo em Abrantes e estando já na banda do
Alentejo e começando a jornada às Vendas de Azedo (?), na charneca, em
companhia de Manuel Lopes Pereira e de Manuel Lopes Teles e de João Lopes
Teles, irmãos, filhos de Bartolomeu Lopes Teles e foram moradores nesta cidade,
de onde se ausentaram para Castela e entre práticas que tiveram sobre umas
armas de fogo que na vila de Abrantes lhes havia embaraçado a justiça…
Podíamos continuar com as confissões de Rodrigo, judaizando
pelos caminhos de Murça, Bragança, Lamego… acrescentando nomes de pessoas que
estavam já presas ou o foram depois, excepto alguns que se meteram pelos
trilhos da emigração, fugindo da perseguição do Santo ofício.
E porque Rodrigo Vaz se mostrou tão colaborante e denunciou
tanta gente e conseguiu convencer os inquisidores de que estava arrependido por
ter judaizado e pedia perdão, eles decidiram recebê-lo ao “Grémio da Santa
Madre Igreja”, condenando-o a “hábito e cárcere a arbítrio e a ser instruído
nos mistérios da fé “. Saiu penitenciado no auto-de-fé realizado em Lisboa no
dia 17 de Agosto de 1664, ao fim de um ano de cadeia.
Ficou por Lisboa cumprindo a penitência e recebendo a
instrução cristã, sendo-lhe retirado o sambenito um mês depois. Mas haveria de
passar mais outro ano e alguns meses para ele se atrever a apresentar a
seguinte petição que lhe foi deferida em 13 de Janeiro de 1665:
- Diz Rodrigo Vaz de Leão … que ele em razão de suas culpas
lhe foi proibido de comungar, sem ordem deste santo tribunal e porque tem
cumprido a penitência que, com misericórdia, se houve com ele, que de presente
está muito desconsolado por se não poder confessar e comungar; pede e V. Mercês
que, compadecendo-se da sua dor e arrependimento e pelo amor de Nosso Senhor
Jesus Cristo, haverá a Mesa dar licença para se poder confessar e comungar na
freguesia onde de presente mora que é a de S. Nicolau ou aonde se oferecer e
for mais conveniente para a consolação de sua alma e serviço de N. S. Jesus
Cristo.
Presa logo a seguir ao marido, Isabel Henriques continuava
nesta altura metida nas masmorras da Inquisição. E continuava a dizer-se
inocente e a não denunciar ninguém. Dizia-se era vítima de ódios e invejas de
gente de Vila Flor, especialmente de familiares seus despeitados com a herança
dos bens que foram de sua avó. E só em 26 de Março de 1888, 2 anos e meio
depois de ser presa, confessou que se apartara da fé cristã há uns 18 ou 19 anos,
convencida por suas tias maternas com as quais judaizou, em conjunto com suas
primas, filhas daquelas. E terminou a sua confissão dizendo:
- E a dita crença lhe durou até se resolver a confessar.
Claro que os inquisidores acharam esta confissão muito “diminuta”
e “apertaram” ainda mais com ela, ameaçando-a com a morte na fogueira. Pouco
mais informações lhe conseguiram arrancar e, a 2 de Abril de 1666, foram-lhe
atadas as mãos e lida a sentença: - Relaxada ao braço secular.
E foi só no decurso do auto-de-fé, no Terreiro do Paço,
pelas 2 horas da tarde, que ela denunciou o marido. Os inquisidores não
“receberam” esta confissão “por deixar de dizer de sua irmã e de seu cunhado… e
a denúncia contra o marido é diminuta”.
Termina o processo de Isabel Henriques com a seguinte
declaração:
- Foi-me entregue uma estampa de Isabel Henriques, natural
desta Vila Flor, a qual mandei afixar na igreja matriz de S. Bartolomeu, junto
aos outros retratos que nela estão.
Por ser verdade e esta me ser pedida a passei, por mim feita
e assinada aos 12 de Março de 1667. Padre Álvaro da Fonseca – encomendado da
Igreja.
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 2842, de Rodrigo Vaz
de Leão e 7294, de Isabel Henriques.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães