sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Os Judeus
Descarregar ficheiro em PDF
Paginação: Luís Teixeira
*****************
Para fazer download (descarregar) o PDF:
clique em PDF;
na nova página aberta, clique em
Save File to your computer (download) > Guardar;
quando terminar, clique em fechar ;
no seu ambiente de trabalho está o ficheiro em PDF
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
MUSEU JUDAICO DE BELMONTE
Descarregar ficheiro em PDF
Paginação: Luís Teixeira
*****************
Para fazer download (descarregar) o PDF:
clique em PDF;
na nova página aberta, clique em
Save File to your computer (download) > Guardar;
quando terminar, clique em fechar ;
no seu ambiente de trabalho está o ficheiro em PDF
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Idade Média - as terras portuguesas arraianas colheram os Hebreus fugidos de Leão e Castela
![]() |
| Prof.doutor Adriano Vasco Rodrigues |
Trás-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa e Alentejo foram as áreas do território nacional mais povoadas pelos Judeus e também áreas da sua dispersão interna, orientada, preferentemente, para povoações portuárias do litoral.
Ao longo da Idade Média, as terras portuguesas arraianas acolheram os Hebreus fugidos de Leão e Castela e também dos Almoravidas e dos Almóadas (1086-1248).
Nos alvores da Idade Moderna os expulsos da Espanha recém-unificada pelo Reis Católicos, acolheram-se, principalmente, nas zonas raianas portuguesas
Das províncias citadas, uma se distingue pelo condicionalismo geográfico, acentuado pelo aspérrimo e fragoso recorte do profundo vale do Douro, pela vigilante, arredondada e impávida Serra do Marão e pela fronteira, outrora hostil, cerrada e cintada, contornando de Norte para Nordeste o território nacional. Essa província, Trás-os-Montes, foi a nova Terra da Promissão dos Hebreus. A região de Bragança pela ondulação dos seus montes e o atractivo dos vales, lembra a Galileia. Desde os alvores da nacionalidade portuguesa atraiu os Judeus.
D. Afonso Henriques e seu filho D. Sancho, não só procuraram alargar o território mas consolidá-lo pelo povoamento. Se o filho se distingiu nesta tarefa mais do que o pai, o Rei Conquistador iniciou-a, recorrendo a cristãos de Além-Pireneus e também aos vencidos serracenos, mouros forros livres, os mudéjares. Serviu-se ainda das pueblas judias, isto é, de aldeamentos hebraicos. Temos testemunhos em Trás-os-Montes e na Beira, onde persiste o topónimo Jueus.terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Casa do Castelo, um projecto designado Sepharad Lands
Esta
quarta-feira, dia 8 de Fevereiro, pelas 15 horas, vai ser apresentado no
Sabugal, na Casa do Castelo, um projecto designado Sepharad Lands, o qual
pretende desenvolver uma rede de promoção e apoio ao turismo cultural, com
especial enfoque no património judaico sefardita.
O projecto
Sepharad Lands, foi concebido para apoiar os empresários da região do Sabugal
que têm actividade ligada ao sector turístico, garantindo-lhes o acompanhamento
e a prestação de serviços de informação cultural, histórica e patrimonial aos
visitantes, bem como transporte e estadias organizadas.Segundo o comunicado hoje divulgado pela equipa que elaborou o projecto, o mesmo «surge da percepção que os operadores turísticos têm da necessidade de promover o estudo, preservação e promoção do património Sefardita da região como uma mais valia em termos de projecção turística».
A recente formação da Rede de Judiarias de Portugal, que reúne os municípios com património histórico judaico, foi a «janela de oportunidade para a promoção da região beirã junto de um mercado internacional específico que tem grande apetência por conhecer as suas raízes na Península Ibérica».
A necessidade de um tratamento e acompanhamento qualificado, trouxe à luz a ideia de se avançar na concepção de um projecto que envolveu o estabelecimento de parcerias «em torno de uma marca comum que tem a designação de Sepharad Lands».
«Os mercados alvo desta iniciativa são os mercados internacionais, com enfoque especial nos mercados da América do Norte, Estados Unidos e Canadá, nos países do Norte da Europa, da Europa de Leste e no Estado de Israel», refere o comunicado enviado à imprensa.
Trata-se de uma iniciativa de alguns empresários do Sabugal, estando porém aberta, segundo os promotores, «à integração de mais empresas da região que se queiram associar e participar no objectivo de proporcionar aos visitantes uma estadia de qualidade respeitando as suas crenças e hábitos».
A conjuntura de crise económica que o país e a região atravessam torna esta proposta aliciante por proporcionar condições para «um aumento de visitantes com o consequente incremento de potencial económico»
Os contactos do Sepharad Lands são: 00351 271 754 169 e 00351 962 408 648 (telefones) e sepharadlands@gmail.com (email).
domingo, 22 de janeiro de 2012
OS JUDEUS NO CONCELHO DE TORRE DE MONCORVO
Por: António Pimenta de Castro
Não se sabe ao certo a vinda dos primeiros judeus para o território que hoje é Portugal. São inúmeras as lendas que vários autores aludem, mas que precisam de uma confirmação histórica irrefutável. Por isso apenas vamos falar da sua vinda, com provas concretas e comprovadas com documentos. Esta questão não é pacífica, escreveu recentemente (Outubro de 2009) Carsten L. Wilke: “Fora da capital provincial, estelas antigas de judeus lusitanos foram encontradas em Villamesías (perto de Tujillo) e, há uma vintena de anos, em Mértola, a antiga Mytilis, no Alentejo. Essa pedra é o mais antigo testemunho da presença judaica no actual território português. Mas ela é – lá está – muito incompleta; da inscrição, ornamentada por uma menorah (candelabro de sete braços hebraico) gravada, não resta senão a parte inferior, comportando uma datação em língua e calendário latinos: die quar (ta n) onas octo (bri)s era DXX, o que corresponde a 4 de Outubro de 482. O costume de redigir as inscrições funerárias em língua hebraica só se difundiu quatro séculos mais tarde. Assim, os dois epitáfios hebraicos encontrados em Espiche, perto de Lagos, tidos durante muito tempo como o mais antigo vestígio judaico em Portugal, não podem manifestamente datar do século VI como pretendem os manuais, pois o seu vocabulário é nitidamente característico da Alta Idade Média(1)” .
«Alto Dio de Abraão,
Rei forte de Israel!
Tu, que ouviste a Daniel,
Ouve a minha oração!
Tu, que nas grandes alturas
Te aposentas, Senhor,
Ouve a este pecador
Que te chama das baixuras,
Pois, Tu, a todas as criaturas
Abres caminhos e fontes
Alço meus olhos aos montes,
De onde virá minha ajuda?
Minha ajuda de com Adonay,
quem fez o céu e a terra.
Livra-nos de tanta guerra,
pois que somos a tua grei,
de adorar deuses alheios,
coisa que em tanto o homem erra,
confesso que em mim se encerra,
grão pecado que em mim hei.(5) »
Reparem nas palavras, Israel e Adonay. E o citado autor e trabalho, na página 14, acrescenta: “Fica do mundo bíblico a mirada angustiada, o sentimento de desamparo, o desencanto do mundo e, finalmente, a consolação. Assim, a diáspora judaica trocou as colinas da Judeia pela Serra do Reboredo, no alto de Torre de Moncorvo; e levou os montes do silencioso diálogo, lá pela serrania da Espanha e para os vulcões do México”.
Muito mais haveria a dizer, ficará para próximos artigos…
1-Carsten L. Wilke, “História dos Judeus Portugueses”, página 13 e 14, Edições 70, Lisboa, 2009.
2- Maria José Pimenta Ferro Tavares, “Os Judeus em Portugal no século XV”, Universidade Nova de Lisboa, Volume I, página 75, 1982.
3- Abade de Baçal, V Volume, das “Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança, página XLIX.
4- Carsten L. Wilke “O que é a História dos Judeus Portugueses”, Edições 70
5- Carsten L. Wilke “O que é a História dos Judeus Portugueses”, páginas 12 e 13, Edições 70
![]() |
| Velha judia (professor Santos Júnior) |
Não se sabe ao certo a vinda dos primeiros judeus para o território que hoje é Portugal. São inúmeras as lendas que vários autores aludem, mas que precisam de uma confirmação histórica irrefutável. Por isso apenas vamos falar da sua vinda, com provas concretas e comprovadas com documentos. Esta questão não é pacífica, escreveu recentemente (Outubro de 2009) Carsten L. Wilke: “Fora da capital provincial, estelas antigas de judeus lusitanos foram encontradas em Villamesías (perto de Tujillo) e, há uma vintena de anos, em Mértola, a antiga Mytilis, no Alentejo. Essa pedra é o mais antigo testemunho da presença judaica no actual território português. Mas ela é – lá está – muito incompleta; da inscrição, ornamentada por uma menorah (candelabro de sete braços hebraico) gravada, não resta senão a parte inferior, comportando uma datação em língua e calendário latinos: die quar (ta n) onas octo (bri)s era DXX, o que corresponde a 4 de Outubro de 482. O costume de redigir as inscrições funerárias em língua hebraica só se difundiu quatro séculos mais tarde. Assim, os dois epitáfios hebraicos encontrados em Espiche, perto de Lagos, tidos durante muito tempo como o mais antigo vestígio judaico em Portugal, não podem manifestamente datar do século VI como pretendem os manuais, pois o seu vocabulário é nitidamente característico da Alta Idade Média(1)” .
No período do reino Visigótico, poderemos distinguir dois períodos distintos, um primeiro, de tolerância religiosa, um segundo período, de feroz perseguição com a conversão ao catolicismo do rei Recaredo, em 587 e, depois, os outros reis visigodos. Não há dúvida que os primeiros reis portugueses protegeram os judeus. Poderemos afirmar que nos primeiros cinco reinados, os judeus viveram num clima de paz e protecção real. Prova disso é que os judeus, são denominados pelos reis de «meus judeus», o que indica uma certa protecção e dependência perante o rei. No século XV no mapa de comunas judaicas (só salientamos as da nossa região), aparecem-nos as seguintes: Moncorvo; Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro (esta já nos aparece no mapa do Século XIV), Bemposta, Azinhoso, Miranda do Douro, Bragança, Vinhais, Vila Flor, Alfândega da Fé…(2) ”. “O Rabino da Sinagoga de Moncorvo no tempo de D. João I, abrangia na sua jurisdição os judeus de Trás-os-Montes. A comuna de judeus de Moncorvo é uma das que concorreram, com várias outras, para o empréstimo lançado por D. Afonso V (1478) para as despesas da guerra(3)” . Com o decreto de expulsão de 1496: “transformada, pela força, em conversão geral no ano seguinte. Fez com que Portugal se transformasse, de um país excepcionalmente tolerante, no contexto da Idade Média europeia, num país de religião única, exclusiva e repressiva, e, portanto num país que, com poucas excepções, não aceitava judeus declarados no seu solo ”(4), situação que piorou a partir de 1536, com a introdução da Inquisição no nosso país. A partir daqui não poderia haver judeus a viver em Portugal. Muitos (os mais ricos, mais religiosos e influentes) foram-se embora, os outros, que não puderam ou não quiseram partir, tiveram que se deixar baptizar e fingir exteriormente, que eram católicos. Quase todos os que ficaram, eram conhecidos por cristãos-novos, ou marranos, e praticavam no recato da sua casa o judaísmo, nascendo assim o criptojudaísmo. Também em Moncorvo assim aconteceu. Ainda hoje, os habitantes da freguesia de Felgueiras (concelho de Moncorvo), são conhecidos pela sua ascendência judaica, bem como os nossos vizinhos, de além Douro, de Vila Nova de Foz Côa. As tradições eram transmitidas, a partir daí, oralmente e transmitidas secretamente, de geração em geração, sobretudo pelas mulheres. Ao preparar este trabalho, li o interessante livrinho de Carsten L. Wilke, de apresentação da sua obra mais profunda “História dos Judeus Portugueses”, das Edições 70, deparei com o seguinte. “Citarei um exemplo só: de uma oração clandestina, a mais popular dos criptojudeus portugueses, uma trova em vinte versos que chegava a ser uma espécie de hino do criptojudaísmo português. Foi dita já no século XVI e ainda no século XX (…) Os primeiros exemplos surgem nos anos 1580, segundo os estudos eruditos da professora Elvira de Azevedo Mea: são de confissões de nove prisioneiras da Inquisição, todas mulheres de Trás-os-Montes ou, mais precisamente, originárias do distrito de Torre de Moncorvo. (…) Ainda no século XX, recitam-na de memória testemunhas de Bragança, de Felgueiras e de Belmonte. Leio-vos aqui as duas famosas oitavas:
«Alto Dio de Abraão,
Rei forte de Israel!
Tu, que ouviste a Daniel,
Ouve a minha oração!
Tu, que nas grandes alturas
Te aposentas, Senhor,
Ouve a este pecador
Que te chama das baixuras,
Pois, Tu, a todas as criaturas
Abres caminhos e fontes
Alço meus olhos aos montes,
De onde virá minha ajuda?
Minha ajuda de com Adonay,
quem fez o céu e a terra.
Livra-nos de tanta guerra,
pois que somos a tua grei,
de adorar deuses alheios,
coisa que em tanto o homem erra,
confesso que em mim se encerra,
grão pecado que em mim hei.(5) »
Reparem nas palavras, Israel e Adonay. E o citado autor e trabalho, na página 14, acrescenta: “Fica do mundo bíblico a mirada angustiada, o sentimento de desamparo, o desencanto do mundo e, finalmente, a consolação. Assim, a diáspora judaica trocou as colinas da Judeia pela Serra do Reboredo, no alto de Torre de Moncorvo; e levou os montes do silencioso diálogo, lá pela serrania da Espanha e para os vulcões do México”.
Muito mais haveria a dizer, ficará para próximos artigos…
O professor Castro
1-Carsten L. Wilke, “História dos Judeus Portugueses”, página 13 e 14, Edições 70, Lisboa, 2009.
2- Maria José Pimenta Ferro Tavares, “Os Judeus em Portugal no século XV”, Universidade Nova de Lisboa, Volume I, página 75, 1982.
3- Abade de Baçal, V Volume, das “Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança, página XLIX.
4- Carsten L. Wilke “O que é a História dos Judeus Portugueses”, Edições 70
5- Carsten L. Wilke “O que é a História dos Judeus Portugueses”, páginas 12 e 13, Edições 70
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Inquisição - Lista dos processados no distrito de Bragança
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
BELMONTE - terra de judeus (II)
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
BRAGANÇA - MUSEU HEBRAICO
A cidade de Bragança vai ver surgir uma nova estrutura cultural. Trata-se do Museu Hebraico que vai ficar localizado junto ao Centro de Arte Contemporânea Graça Morais.
O Museu Hebraico vai ser projectado pelo arquitecto Souto Moura, contemplado recentemente com o prémio Pritzker 2011, considerado o Nobel da Arquitectura.
O equipamento vai nascer a partir da recuperação de um edifício secular que está abandonado e degradado e que foi adquirido pela autarquia de Bragança pelo valor de 150 mil euros. Aqui serão instalados o futuro Museu Hebraico e o Centro de Interpretação Cefardita do Nordeste Transmontano.
Paralelamente surgirá um centro de estudos sobre a presença dos judeus no Nordeste Transmontano, região onde ainda existem importantes núcleos e povoações com arreigadas tradições culturais.Segundo o presidente da Câmara Municipal de Bragança, Jorge Nunes, o projecto já se encontra concluído, embora ainda não estejam reunidas as condições de financiamento necessárias ao arranque das obras de reabilitação do antigo edifício.
O autarca referiu que as obras vão arrancar no próximo ano, devendo, para o efeito, serem criadas as condições necessárias para que o projecto seja financiado por fundos comunitários, já que, como sublinha Jorge Nunes, “ trata-se de uma obra de elevado interesse cultural”.
http://noticiasdonordesteultimas.blogspot.com/2011/07/nova-estrutura-museologica-vai-surgir.html
O Museu Hebraico vai ser projectado pelo arquitecto Souto Moura, contemplado recentemente com o prémio Pritzker 2011, considerado o Nobel da Arquitectura.
O equipamento vai nascer a partir da recuperação de um edifício secular que está abandonado e degradado e que foi adquirido pela autarquia de Bragança pelo valor de 150 mil euros. Aqui serão instalados o futuro Museu Hebraico e o Centro de Interpretação Cefardita do Nordeste Transmontano.
Paralelamente surgirá um centro de estudos sobre a presença dos judeus no Nordeste Transmontano, região onde ainda existem importantes núcleos e povoações com arreigadas tradições culturais.Segundo o presidente da Câmara Municipal de Bragança, Jorge Nunes, o projecto já se encontra concluído, embora ainda não estejam reunidas as condições de financiamento necessárias ao arranque das obras de reabilitação do antigo edifício.
O autarca referiu que as obras vão arrancar no próximo ano, devendo, para o efeito, serem criadas as condições necessárias para que o projecto seja financiado por fundos comunitários, já que, como sublinha Jorge Nunes, “ trata-se de uma obra de elevado interesse cultural”.
http://noticiasdonordesteultimas.blogspot.com/2011/07/nova-estrutura-museologica-vai-surgir.html
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
GENOME PROJECT-From Jamaica to Vancouver to Portugal-part 1
This article first appeared in Portuguese on February 1, 2011 in Terra Quente, a bi-monthly newspaper in Tras-os-Montes, Portugal (insert link), and in English at www.ladina.blogspot.com
Richard George Henriques, A Canadian architect in search of his roots.
Antonio J. Andrade and M. Fernanda Guimaraes
Translated and revised by mlopesazevedo and M. Fernanda Guimaraes
(the authors assert copyright)
Henriquez Partners is a prestigious architectural firm in Canada. Their most emblematic work is found in Vancouver where they are located. Some of their highrise projects form part of the panoramic of the city. Other noteworthy projects are part of urban renewal, sometimes constituting a set of buildings or even an entire block. There are also significant buildings in the arts, medicine, and scientific research. There are innovative projects, from the boldest modernism to Gothic and Neo-Classical re-creations. The firm enjoys an international reputation and has won more than a dozen awards, in particular, the Governor General's gold medal, the highest distinction in Canada, which the firm has received twice.
The firm has about 30 functionaries, headed by architect Alfred George Henriquez whose mentor and thesis advisor was the celebrated architect and historian Alberto Perez-Gomes, professor of architecture and engineering at the University of Montreal. But the founder and builder of the firm is his father, the architect Richard George Henriquez. It is the latter that is at the heart of our story, which will lead us to multiple references of a Sephardic family that left its mark in many parts of the world during several centuries. We are restricting our research to Portugal, especially the Inquisition trial records (“processos”) that can be found at the Torre do Tombo archives in Lisbon.
First, we wish to point out that the surname Henriquez was Hispanicized at the turn of the last century during the construction of the Panama canal. Therefore, for the purposes of our work, we will adopt the Portuguese spelling, Henriques, the name which connects this Jewish family to Portugal since the 15th century. Other branches of the family kept the Portuguese spelling in the diaspora.
We would also like to relate how this adventure began, yes this project, not the architectural one! Richard had been trying for two years to obtain processos from the Torre do Tombo but lack of knowledge of the Lusitanian language of Camoes hindered him, so he decided to attend in person at the archives. Richard has been making many such trips over the last 20 years to places such as the USA, Antilles, England, France, Spain, Amsterdam, wherever his ancestors led him. By chance, a Luso-Canadian lawyer referred him to Fernanda Guimaraes who practically lives at the Torre.
It was in the summer of 2008 when Richard and his wife arrived in Lisbon. There is an old saying in Portuguese, when hunger calls, the appetite strikes. In other words, at precisely the same time that Richard was looking for the processos, Fernanda was researching them. Unkowingly, Fernanda had been studying Richard`s ancestors in such dispersed places as Torre De Moncorvo, Vila Flor, Trancoso, Celorico da Beira, Mirandela, and Viseu, all places with a significant Jewish population before the forced baptism of 1497. ( All Portuguese Jews were forcibly baptized in 1497, thereafter called New Christians). Fernanda was also aware that some members of the family had fled Portugal to such places as Madrid, Bordeaux, Amsterdam and then London to escape the clutches of the Inquisition. Fernanda offered her services and Richard was pleased.
Richard George Henriques was born on February 5, 1941 in Annotto Bay on the north coast of Jamaica, within the limits of the city of Saint Mary, baptized Puerto de Santa Maria by the first Spanish colonizers. His mother's name was Essie Adeline Silvera, also Hispanicized (Silveira in Portuguese), and his father Alfred George Henriques was born in 1916. They were a typical agricultural family working on their father's estate, however Richard's father was soon drafted into the British army to help boost agricultural production during wartime. The British naval base in Kingston played a leading role in patrolling the Caribbean basin and ensuring that the Panama canal remained open.
During his tender years, Richard remembers a particularly violent storm, almost a hurricane, which destroyed the family home in which his sister, Kathleen Maye Henriques also lived. At about the same time Richard learned that his 25 year father, now a fighter pilot in the British air force had been shot down by an enemy plane over Warsaw. The death of his father coincided with the uprising of the Warsaw ghetto and must have contributed to Richard's destiny of becoming the family genealogist.
Without a father and the family home in ruins, Richard and his sister went to live with his paternal grandparents, Alfred St. Elmo Henriques, and Linda Maye Cohen Henriques, at Greenwood. Richard has fond memories from his time at Greenwood, frequent trips to the beach supervised by his aunt Rita, moonlight filled nights on the house porch with his grandfather unravelling the mysteries of life and the world, and tales of the eternal wanderings of the Jewish people, especially the Iberian Jews of Sepharad (literally land's end, ie, Portugal and Spain). Perhaps it was these nostalgic evenings and the absence of a father killed in a distant land that ignited Richard's interest in discovering his roots.
Later, Richard's mother married Francis Roy Henriques, his grandfather's brother. The family settled in Buff Bay, a small seaside city, 40 kilometres from their previous home. Richard started primary school when he was seven and has some unpleasant memories of being bullied. When he was about ten years old he decided to become an architect like his uncle Rudolph Daniel Cohen Henriques whom he got to know during summer vacations. Uncle Dossie, as Richard called him was a talented self-made man, architect, sculptor and painter. He served an architectural apprenticeship at a New York engineering firm and was soon helping build the Panama canal. Richard has fond memories of uncle Dossie's trip home to see his brother, building, sculpting, and painting, all the while doting on the young Richard. Uncle Dossie married Gwendolyn Cohen Henriques, Linda's sister and Richard's paternal grandmother. Their son, Maurice Karl Cohen Henriques graduated from architecture and engineering in 1957 from the University of Manitoba in Canada. Richard soon followed in his footsteps, and the rest is history as it is said.
Source
Howard Shubert, Geoffrey Smedley, Robert Enright, Richard Henriques, Selected Works, 1964-2005, Douglas & McIntyre, Vancouver, Toronto, 2006
Richard George Henriques, A Canadian architect in search of his roots.
Antonio J. Andrade and M. Fernanda Guimaraes
Translated and revised by mlopesazevedo and M. Fernanda Guimaraes
(the authors assert copyright)
Henriquez Partners is a prestigious architectural firm in Canada. Their most emblematic work is found in Vancouver where they are located. Some of their highrise projects form part of the panoramic of the city. Other noteworthy projects are part of urban renewal, sometimes constituting a set of buildings or even an entire block. There are also significant buildings in the arts, medicine, and scientific research. There are innovative projects, from the boldest modernism to Gothic and Neo-Classical re-creations. The firm enjoys an international reputation and has won more than a dozen awards, in particular, the Governor General's gold medal, the highest distinction in Canada, which the firm has received twice.
The firm has about 30 functionaries, headed by architect Alfred George Henriquez whose mentor and thesis advisor was the celebrated architect and historian Alberto Perez-Gomes, professor of architecture and engineering at the University of Montreal. But the founder and builder of the firm is his father, the architect Richard George Henriquez. It is the latter that is at the heart of our story, which will lead us to multiple references of a Sephardic family that left its mark in many parts of the world during several centuries. We are restricting our research to Portugal, especially the Inquisition trial records (“processos”) that can be found at the Torre do Tombo archives in Lisbon.
First, we wish to point out that the surname Henriquez was Hispanicized at the turn of the last century during the construction of the Panama canal. Therefore, for the purposes of our work, we will adopt the Portuguese spelling, Henriques, the name which connects this Jewish family to Portugal since the 15th century. Other branches of the family kept the Portuguese spelling in the diaspora.
We would also like to relate how this adventure began, yes this project, not the architectural one! Richard had been trying for two years to obtain processos from the Torre do Tombo but lack of knowledge of the Lusitanian language of Camoes hindered him, so he decided to attend in person at the archives. Richard has been making many such trips over the last 20 years to places such as the USA, Antilles, England, France, Spain, Amsterdam, wherever his ancestors led him. By chance, a Luso-Canadian lawyer referred him to Fernanda Guimaraes who practically lives at the Torre.
It was in the summer of 2008 when Richard and his wife arrived in Lisbon. There is an old saying in Portuguese, when hunger calls, the appetite strikes. In other words, at precisely the same time that Richard was looking for the processos, Fernanda was researching them. Unkowingly, Fernanda had been studying Richard`s ancestors in such dispersed places as Torre De Moncorvo, Vila Flor, Trancoso, Celorico da Beira, Mirandela, and Viseu, all places with a significant Jewish population before the forced baptism of 1497. ( All Portuguese Jews were forcibly baptized in 1497, thereafter called New Christians). Fernanda was also aware that some members of the family had fled Portugal to such places as Madrid, Bordeaux, Amsterdam and then London to escape the clutches of the Inquisition. Fernanda offered her services and Richard was pleased.
Richard George Henriques was born on February 5, 1941 in Annotto Bay on the north coast of Jamaica, within the limits of the city of Saint Mary, baptized Puerto de Santa Maria by the first Spanish colonizers. His mother's name was Essie Adeline Silvera, also Hispanicized (Silveira in Portuguese), and his father Alfred George Henriques was born in 1916. They were a typical agricultural family working on their father's estate, however Richard's father was soon drafted into the British army to help boost agricultural production during wartime. The British naval base in Kingston played a leading role in patrolling the Caribbean basin and ensuring that the Panama canal remained open.
During his tender years, Richard remembers a particularly violent storm, almost a hurricane, which destroyed the family home in which his sister, Kathleen Maye Henriques also lived. At about the same time Richard learned that his 25 year father, now a fighter pilot in the British air force had been shot down by an enemy plane over Warsaw. The death of his father coincided with the uprising of the Warsaw ghetto and must have contributed to Richard's destiny of becoming the family genealogist.
Without a father and the family home in ruins, Richard and his sister went to live with his paternal grandparents, Alfred St. Elmo Henriques, and Linda Maye Cohen Henriques, at Greenwood. Richard has fond memories from his time at Greenwood, frequent trips to the beach supervised by his aunt Rita, moonlight filled nights on the house porch with his grandfather unravelling the mysteries of life and the world, and tales of the eternal wanderings of the Jewish people, especially the Iberian Jews of Sepharad (literally land's end, ie, Portugal and Spain). Perhaps it was these nostalgic evenings and the absence of a father killed in a distant land that ignited Richard's interest in discovering his roots.
Later, Richard's mother married Francis Roy Henriques, his grandfather's brother. The family settled in Buff Bay, a small seaside city, 40 kilometres from their previous home. Richard started primary school when he was seven and has some unpleasant memories of being bullied. When he was about ten years old he decided to become an architect like his uncle Rudolph Daniel Cohen Henriques whom he got to know during summer vacations. Uncle Dossie, as Richard called him was a talented self-made man, architect, sculptor and painter. He served an architectural apprenticeship at a New York engineering firm and was soon helping build the Panama canal. Richard has fond memories of uncle Dossie's trip home to see his brother, building, sculpting, and painting, all the while doting on the young Richard. Uncle Dossie married Gwendolyn Cohen Henriques, Linda's sister and Richard's paternal grandmother. Their son, Maurice Karl Cohen Henriques graduated from architecture and engineering in 1957 from the University of Manitoba in Canada. Richard soon followed in his footsteps, and the rest is history as it is said.
Source
Howard Shubert, Geoffrey Smedley, Robert Enright, Richard Henriques, Selected Works, 1964-2005, Douglas & McIntyre, Vancouver, Toronto, 2006
RICHARD GEORGE HENRIQUES
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos
A generosidade é para mim uma das
características mais vincadas dos Trasmontanos. Talvez esteja relacionado com a
vida dura aquém dos montes. E por toda a parte onde os Trasmontanos chegam,
eles estabelecem relações de boa vizinhança, baseadas naquela generosidade.
Porém, a generosidade que temos
com estranhos e deles nos faz próximos falta muitas vezes nas relações entre
nós e dos nossos nos afasta. Até parece que de generosos passamos a mesquinhos,
no trato comunitário.
| Cortiços -Foto de Luís Coelho |
E isto acontece também quando
lidamos com a história. Há Trasmontanos que foram grandes e são considerados em
todo o mundo, mas completamente desprezados por nós, ignorados pelos que entre
nós escrevem a nossa história e pelos que nos governam e têm obrigação de
defender e valorizar o nosso património. Sim, este património, o património
humano é bem mais importante que o património arqueológico, arquitectónico e
etnográfico.
Exemplar, a este respeito, é o
que se passa com os Trasmontanos Sefarditas e Marranos. Alguns deles ganharam
relevo a nível mundial e têm os seus nomes inscritos em enciclopédias de âmbito
mundial mas são esquecidos dos nossos dicionaristas e afastados da toponímia
das nossas terras. Vou apresentar alguns exemplos:
Manuel Cortiços. Tendo embora nascido em Madrid, em 1603, os seus
pais eram Trasmontanos fugidos da inquisição. A sociedade e a família
perpetuariam no sobrenome, que ainda hoje conservam descendentes seus, a terra
de sua origem - Cortiços - no actual concelho de Macedo de Cavaleiros. Manuel
Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em
toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta
em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos, onde até eu, pequeno escriba, já
tomei lugar, por mão alheia.
José Cortiços. Nascido em Antuérpia em 1656 e falecido em Londres
em 1742, foi outro dos membros da mesma família fugida de Trás-os-Montes.
Virado para o abastecimento das tropas, durante a Guerra da Sucessão de
Espanha, eles colocou-se do lado do Arquiduque Carlos, futuro imperador da
Alemanha. Depois da guerra, a viver já em Londres,, José Cortiços queixar-se-ia
de que a Inglaterra lhe ficou devendo 25 000 libras (de géneros fornecidos aos
militares estacionados em Gibraltar) e Portugal 70 000, de provimentos ao exército
do Marquês das Minas. Também o seu nome não consta das listas publicadas de
notáveis Trasmontanos e nenhuma lembrança tem na terra de seus ascendentes
Trasmontanos.
António Júlio Andrade
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
EFEMÉRIDES
20 Set. 1540 - Realizou-se em Lisboa, no sítio da Ribeira, o primeiro auto de fé, saindo 23 pessoas todas condenadas em penas espirituais.
20 Set. 1733 - Auto de fé celebrado na igreja de S. Domingos, em Lisboa saindo 59 pessoas sentenciadas, 5 delas condenadas à fogueira.
21 Set. 1939 - Instruções de Heydrich para a concentração dos judeus polacos em guetos fechados. Era o princípio da política hitleriana de extermínio dos judeus.
domingo, 19 de setembro de 2010
EFEMÉRIDES
19 Set. 1627 – Nesse dia esvaziaram-se as prisões da Inquisição Portuguesa e também nas de Espanha se registou a saída de muitos prisioneiros, em consequência de um perdão de 3 meses decretado pelo rei Filipe IV. Em Coimbra, Évora e Lisboa realizaram-se procissões solenes nas quais participaram os prisioneiros. Em Lisboa a procissão saiu dos Estaus (sede do tribunal da Inquisição) e dirigiu-se para a Sé episcopal. Ali pregou um sermão o padre jesuíta António de Abreu, terminado o acto com a leitura da dita carta de perdão.
Convém acrescentar que este perdão foi autenticamente comprado pelos cristãos-novos portugueses na Corte de Filipe IV de Espanha, onde contavam com um aliado poderoso: o novo ministro, conde – duque de Olivares. Aliás, esta foi apenas uma das medidas adoptadas para encontrar dinheiros que salvassem a Corte da bancarrota financeira. Outra das medidas e a mais importante, levada a efeito por aquele ministro consistiu em fazer com que os banqueiros e “homens de negócio” portugueses substituíssem os banqueiros genoveses e alemães no financiamento da Coroa e dos grandes investimentos de Espanha, bem como na cobrança das rendas e impostos e na arrematação dos monopólios do sal, do tabaco, das cartas de jogar… na distribuição do açúcar e das especiarias… E foi então que alguns marranos de Trás-os-Montes se afirmaram como banqueiros de renome internacional. Podemos citar Fernando Montesinhos, o Barão de Aguilar e Manuel Cortiços que, entre outros, ficaram a ser conhecidos como “os Banqueiros do Rei”.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
MIRANDA DO DOURO
MADALENA GARCIA E A SUA TENDA
Madalena Garcia tinha já uns 80 anos quando foi presa pela Inquisição de Coimbra, em Agosto de 1643. Estava casada, em segundas núpcias, com Luís Fernandes, castelhano de origem. Um de seus filhos estudara em Salamanca entre 1626 e 1633, tendo-se formado em Medicina. Era casado com Margarida Lopes e exercia a sua profissão na cidade espanhola de Zamora, onde o casal fixou sua residência.
Madalena e Luís moravam então em Miranda do Douro, na rua da Costanilha, uma artéria comercial cheia de lojas da gente da nação. A loja de madalena e Luís seria um tanto especial, pois ela se dizia tendeira e o marido é identificado como livreiro. E esta informação é interessante para a história da cultura no Nordeste Trasmontano.
Na origem da sua prisão estariam várias denúncias de declarações de judaísmo como a de André Ramires, marido de uma sua sobrinha que, estando preso, declarou “que madalena Garcia lhe perguntou quando caíam os jejuns da Rainha Ester e do Dia Grande”.
Mas havia já outras denúncias registadas nos livros da Inquisição de Coimbra. E as mais explícitas e comprometedoras vinham do alfaiate Domingos Lopes e do seu ajudante Bento Marques, ambos cristãos-velhos, recolhidas pelo inquisidor Diogo de Sousa em Fevereiro de 1638, “nas casas do seminário”, aquando da sua visitação a Miranda do Douro.
Segundo eles, pelo S. Roque (17 de Agosto) de 1636, faleceu Pedro de Miranda, sobrinho de Madalena Garcia, casado com Ventura Nunes, o qual morava também na rua da Costanilha e também tinha uma loja de tendeiro. Pois, tratando-se do funeral do sobrinho, madalena terá ido buscar uma peça de pano de linho, novo em folha e mandado os referidos alfaiates fazer “umas ceroulas compridas, umas meias e uns escarpins” para amortalhar o defunto. E que recomendou que depois de cortadas, as alinhavassem apenas. E que também ouviram dizer que o mesmo fora “amortalhado com uma camisa de pano de linho cru”.
Esta denúncia é exemplo da ideia geral que então dominava, de acordo com a qual era prova de judaísmo o facto de se amortalharem os defuntos com roupas novas, que não tivessem qualquer uso. De resto, o processo de Madalena Garcia nada tem de especial, para além do inventário de seus bens. E aqui devemos chamar a atenção para alguns aspectos.
Em primeiro lugar, as casas que tem e a sua localização. E isso aportará elementos de interesse para o estudo da toponímia e da evolução urbana da cidade de Miranda do Douro.
Em segundo lugar, as peças de prata que ela tinha em depósito, significando isso que a sua loja era, em certa medida, também uma casa de penhoras.
Finalmente, a descrição dos artigos que tinha para vender na sua tenda ( e que não eram apenas tecidos, como poderia pensar-se) constituirá informação interessante para se fazer ideia dos produtos do comércio naquela época em Miranda do Douro. Vejamos então esse inventário:
Umas casas em que vivia (…) que valem 40 mil réis.
Umas casas na rua Nova (…) nas quais mora de aluguer uma mulher que chamam a Caneda, que lhe pagava 4 cruzados (1 600 réis!) que valem 20 mil réis.
Outra casa na mesma rua Nova (…) que vale 20 mil réis.
Outra casa térrea pequena que está na rua que vai para o Poço do seminário (…) que valerá 10 cruzados.
Mais outra casinha térrea na rua que chamam a caleja, no Poço de João Frois (…) que vale 5 mil réis.
Uma vinha (…) aonde chamam a Cruz da cabreira (…) vale 8 mil réis.
Tinha (…) em um saquinho 15 mil réis, de que seu marido não sabia…
Tinha mais em um saquinho 20 mil réis que tinham para empregar em mercadorias no Porto.
Mais uns 40 mil réis em patacas e moedas de 8 vinténs em uma caixa…
Mais 8 colheres de prata e 2 garfos que estavam empenhados por 6 tostões que eram de seu filho António Garcia.
Mais 1 colher de prata que é de um escrivão da almotaçaria, Miguel Borges e sobre ela lhe emprestou 2 tostões.
Mais um anel de ouro de 4 ou 5 pedras que é de Francisco Borges Brandão sobre o qual ela declarante lhe emprestou em coisas da tenda…
2 arcas de pão que valem 4 cruzados…
3 pichéis de estanho ou 4 que valem 5 tostões.
5 pratos de estanho, um casco de latão…
Uma caldeira em latão que é de um lavrador sobre a qual tem emprestada uma pataca.
Uma colcha branca de Inês de Vargas sobre a qual o marido dela declarante deu 2 cruzados ou mil réis.
6 toalhas… cortinas…
20 alqueires de farinha de trigo (…) 4 ou 5 cascos de pipas e tonéis…
Impressionante a lucidez e frescura da memória desta mulher de 80 anos. E vejam como ela continuou enumerando os artigos que deixou na tenda para vender:
Um pequeno (pouco) de pez que valia 7 vinténs.
3 arráteis de confeitos que vale o arrátel 4 vinténs.
3 resmas de papel a 500 réis cada resma.
Retroses preto e de cores que (…) valem 2 cruzados.
2 pequenos de pano de estopa, que será 10 ou 11 varas, a 30 réis a vara.
20 varas de pano de linho já curado e algum cru que vale 70 réis a vara.
Um almofariz de bronze que vale 2 tostões.
40 varas de galão de cor que vale a 20 réis a vara.
Uns tafetás negro e de cores, em pedaços…
Um pedaço de açúcar de cana que serão 8 arráteis.
Meia onça de açafrão.
2 arráteis de pimenta.
5 ou 6 arráteis de arroz.
Algumas fitas e atacas e miudezas da tenda que pouco valem.
Terminamos dizendo que esta mulher acabou por falecer nos cárceres da Inquisição de Coimbra, ao cabo de mais de 2 anos e meio, em Fevereiro de 1646, sem que o seu processo estivesse terminado.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 1943.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
EFEMÉRIDES
15 Set. 1602 – Realizou-se em Coimbra, na Praça, um auto de fé em que foram penitenciados 82 réus, 7 dos quais queimados na fogueira e 2 queimados em estátua. A grande maioria dos penitenciados eram marranos de Trás-os-Montes, contando-se 34 da cidade de Bragança. De Torre de Moncorvo compareceram 2 rapazes solteiros, filhos de António Rodrigues Trindade, mercador e rendeiro, morador na Rua Nova, os quais foram condenados em penas espirituais. Um terceiro irmão fora também preso e sairia mais tarde da cadeia. Penitenciada também naquele auto de fé foi a mãe dos rapazes, mulher de João Trindade que contava uns 50 anos. Chamava-se Ana Fernandes. Foi uma das vítimas da fogueira.
15 Set. 1931 – Depois de instruídos no Instituto teológico israelita do Porto, fundado e dirigido pelo capitão Barros Basto, foram naquela data recebidos na Aliança de Abraão, isto é, foram circuncidados, os seguintes marranos oriundos do Nordeste Trasmontano:
· Fernando Cepeda Teles, natural de Argoselo, Vimioso, 19 anos, estudante universitário. Recebeu o nome de David.
· Gilberto Cepeda Teles, também natural de Argoselo, 17 anos,, ao qual foi dado o nome de Daniel.
· José Augusto Gabriel, natural de Freixo de Espada à Cinta, 15 anos. Recebeu o nome de Joseph Israel.
· Edmundo da Silva Pereira, natural de Argoselo, 12 anos, que recebeu o nome de Emanuel.
· Francisco António Rodrigues, natural de Carção. Adoptou o nome de Isaac.
Informações recolhidas do jornal Ha Lapid
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
OS MARRANOS EM TRÁS-OS -MONTES
domingo, 12 de setembro de 2010
MIRANDA DO DOURO
Presos em Miranda do Douro em 1556
quando cozinhavam uma panela de carne.
21 de Fevereiro de 1556. Caiu nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6 irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484. Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6 homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos “baptizados em pé”.
quando cozinhavam uma panela de carne.
21 de Fevereiro de 1556. Caiu nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6 irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484. Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6 homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos “baptizados em pé”.Voltemos agora a Miranda do Douro onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho (antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este. Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556, foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro de 1557, juntamente com os respectivos processos.
E se em Miranda do Douro ele tudo negava e nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão.
EFEMÉRIDES
1383-09.13 - O Rabi Santo, de Mogadouro, arrematou a cobrança das sisas do vinho nas províncias de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes.
1468-09-10 -Carta régia concedendo especiais privilégios a 40 oficiais sapateiros e alfaiates "cristãos ou judeus de Castela" que quisessem ir morar para Freixo de Espada à Cinta.
1642-09-06 - A câmara municipal de Mogadouro concedeu o privilégio de besteiro exclusivo na área do concelho a Pero Gonçalves, cristão-novo, oficial de bestas.
1468-09-10 -Carta régia concedendo especiais privilégios a 40 oficiais sapateiros e alfaiates "cristãos ou judeus de Castela" que quisessem ir morar para Freixo de Espada à Cinta.
1642-09-06 - A câmara municipal de Mogadouro concedeu o privilégio de besteiro exclusivo na área do concelho a Pero Gonçalves, cristão-novo, oficial de bestas.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
VINHAIS E O TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO
NOTAS SOBRE A COMUNIDADE MARRANA
1 . Inquisição e Judaísmo
Numeramento de 1530. Assim ficou conhecido o primeiro recenseamento geral da população feito em Portugal. Veja-se o que, acerca da vila de Vinhais, nele foi registado:
- A vila de Vinhais é cercada e a cerca em partes derribada; D. Afonso de Ataíde leva direitos e rendas dela e chama-se senhor dela; e vivem na dita vila e seus arrabaldes 84 moradores.O Numeramento não diz quantos desses moradores seriam de ascendência judaica. Mas, certamente, era uma boa percentagem, talvez a maioria, a avaliar por algumas informações que chegaram até nós. Vejam uma delas, retirada dos livros das denúncias da Inquisição:
- No dia 30 (de Maio de 1543) compareceu Rodrigo Bernardes, morador em Tuizelo, termo de Vinhais e disse (…) que em Vinhais há, dos muros para dentro, 50 moradores e desses só 3 ou 4 são cristãos-velhos…
Esta informação aparece corroborada, logo de seguida, por duas outras pessoas, moradoras na mesma vila.
Por mais dúvidas que tenhamos sobre os números apresentados, uma conclusão se impõe: a comunidade marrana de Vinhais era muito forte, possivelmente mais numerosa e mais instruída e rica do que a comunidade dos cristãos-velhos.
E naturalmente que uma tal situação despertava a animosidade destes, especialmente dos homens do clero e da nobreza da terra, aqueles que costumavam assegurar o governo da câmara e controlar a execução da justiça e da política fiscal.
E entre as duas comunidades entrou de desenvolver-se uma intensa luta política cujo palco se estendeu até ao governo do reino e ao tribunal da Inquisição.
A liderar a comunidade cristã-velha encontrava-se o ouvidor (representante do senhor da terra) – João de Morais, o velho, homem de mui nobre geração, fidalgo de cota de armas, com filhos e filhas casados nas mais nobres famílias de Bragança, Vimioso, Miranda do Douro… como eram os Madureira, Sapico, Ferreira, Sousa…
Um dos episódios dessa luta consistiu em afastar os cristãos-novos dos empregos públicos e dos cargos de chefia e governança da terra. A começar pela câmara municipal.
A comunidade marrana, porém, liderada pelo almotacé (oficial da câmara que fiscalizava pesos e medidas, taxava os preços dos géneros e tratava da conservação de pontes, calçadas e caminhos) Nuno Rodrigues fez uma exposição dos factos perante a Corte e conseguiu do rei D. Manuel sentença contra a câmara municipal.
Claro que esta vitória dos marranos não significou o fim da luta e o apaziguar das tensões. Antes pelo contrário, terá contribuído para que ela ganhasse nova intensidade e mudasse de palco. E que melhor maneira podia haver de afastar dos cargos públicos e de governo da terra os marranos do que denunciá-los por judeus? O santo tribunal se encarregaria de os prender, roubando-lhe cargos e empregos e comendo-lhe teres e haveres.
E assim terá o Santo Ofício efectuado, em Maio de 1541, em Vinhais, a sua primeira incursão, fazendo prender e conduzir a Lisboa o almotacé Nuno Rodrigues que, em Março do ano seguinte, foi libertado.
As denúncias, porém, continuaram. E mais incisivas. Como aquela que vimos ao início, feita por Rodrigo Bernardes que, depois de dizer que os 50 moradores da vila só 3 eram cristãos-velhos, acrescentou:- Os restantes guardam os sábados e, como um deles fosse preso, e se espalhasse a notícia de que a Inquisição os queria prender a todos, esteve a vila despovoada durante 8 dias porque fugiram. É voz pública que a sinagoga é em casa dum Francisco Lopes.
Seguiu-se nova leva de prisioneiros, desta vez para as cadeias da Inquisição de Évora. Entre esses prisioneiros lá foi, de novo, o mesmo almotacé Nuno Rodrigues. Desta vez a estadia nas masmorras prolongou-se por 4 anos e ele e os outros foram libertados por graça e mercê de um perdão geral decretado pelo Papa que ordenou a libertação de todos os prisioneiros da Inquisição portuguesa.
Há, porém, um facto estranho no meio desta luta político – religiosa. É que o primeiro homem que nos aparece a ser denunciado como herege na Inquisição foi exactamente João de Morais, o escudeiro fidalgo cristão-velho. Foi ele o primeiro a ser denunciado (em Março de 1541) e mais repetidamente (em 1543 e 1546). E denunciado como autor de crimes da maior gravidade e mais concretos como dizer que não havia céu nem inferno nem vida para além da morte; que era tolice ir em romaria à Senhora da Serra; que não havia excomunhões; que comia carne às sextas-feiras mesmo de Quaresma…
Acresce que a primeira denúncia foi feita por alguém de muito prestígio – Martim Trigueiro, capelão da rainha e abade de Vinhais!
Estranhamente e apesar de toda a gravidade dos factos e a acumulação de testemunhos, não o prenderam. Ou melhor: foi preso, mas 30 anos depois, em 1573, quando contava já uns 100 anos de idade!
Não podemos explicar as razões que terão determinado o desenrolar deste caso, pois não estudámos o processo de João de Morais, o Velho, patriarca da poderosa família trasmontana dos Morais Sarmento.
Voltemos atrás, ao ano de 1554, em que Nuno Rodrigues foi levado pela 3ª vez para o tribunal da Inquisição, de novo para Lisboa, de companhia com outros Vinhaenses, sendo todos libertados em Março do ano seguinte, condenados em penas espirituais, cárcere e hábito.
Nas duas décadas seguintes, aliviou-se a pressão inquisitorial sobre os marranos de Vinhais, como de resto em todo o país. Mas, a partir de 1583, depois de uma visita do inquisidor Jerónimo de Sousa, abade de Vila Flor, parece que todos os poderes do inferno se abateram sobre esta terra do Alto Trás-os-Montes, destruindo famílias, comendo haveres, liquidando empresas. Cerca de 164 homens e mulheres de Vinhais foram presos, em levas sucessivas, por década e meia, para as cadeias da Inquisição.
Alguns encontraram a morte nas bolorentas masmorras. Outros pereceram queimados nas fogueiras acesas para glória de Deus e diversão do povo, em festivos autos-de-fé. Muitos voltaram doidos, estropiados, cheios de doenças e os corações desfeitos. E dos que voltaram, apesar de tudo, os mais fortes, de corpo e espírito, conseguiram ganhar novas forças e fugir para o estrangeiro, aí reconstruindo suas vidas. E assim se arruinou a vila de Vinhais naquele findar do século XVI.
Tal como a Fénix, porém, a nação marrana de Vinhais haveria de renascer das cinzas das fogueiras da Inquisição. E de novo as forças do mal haveriam de conjurar-se contra ela, em renovadas e mais ferozes perseguições, em nome de um Deus a quem os inquisidores usurpavam o papel de juiz das consciências.
Numa terra em que o Numeramento de 1530 assinalava 84 moradores e onde o autor da Corografia Portuguesa contava, em 1706, 150 vizinhos, a Inquisição portuguesa (em Espanha se contarão mais alguns) instruiu uns 484 processos que se encontram na Torre do Tombo à espera de ser estudados para que se possa reescrever a história da vila e do povo de Vinhais e para que os Vinhaenses tomem verdadeira consciência das suas raízes e reclamem finalmente a herança de seus ancestrais e a transformem em uma rota de turismo cultural.
Este será o caminho do progresso, verdadeiro e sustentado. E por monumento primeiro dessa rota devem eleger a emblemática igreja de São Fagundo, porque era no seu adro que os marranos preferiam enterrar os seus mortos porque ali havia terra virgem, beijada pela sombra de um enorme sardão.
2. Inquisição e maçonaria.
Não entrando em académicas análises, podemos afirmar que a Inquisição portuguesa foi criada como um tribunal religioso para defender a pureza da doutrina católica contra as heresias e comportamentos escandalosos.
Cedo se transformou, porém, em instrumento do poder político, detido pelas classes da nobreza e do clero, voltado contra a classe mercantil e burguesa, essencialmente constituída por marranos.
Com a ascensão do marquês de Pombal à chefia do governo do rei D. José, a Inquisição virou polícia política muito motivada contra as ordens religiosas, em especial os Jesuítas.
Caído em desgraça o Marquês, a Inquisição foi colocada na dependência do Intendente Geral da Polícia, Diogo Inácio Pina Manique e o alvo privilegiado do mesmo tribunal passou a ser a Maçonaria, o clube dos livres-pensadores.
Por uma estranha casualidade, o último processo instruído pela Inquisição a gente de Vinhais foi ao cónego D. André de Morais Sarmento, por ser membro da seita dos pedreiros - livres.
Quando o prenderam e revistaram a casa, no dia 31 de Outubro de 1791, encontraram –lhe dentro de um pequeno baú encoirado um manuscrito com o título seguinte: Explicação da maçonaria aos recém recebidos, o qual será o mais antigo texto maçónico português – segundo afirma o historiador Oliveira Marques.
No auto de apreensão do manuscrito, incluído no processo, pode ainda ler-se:
- E igualmente lhe foram achados no dito baú quatro embrulhos, em cada um dos quais se achava um pedaço de peliça branca à maneira de pequeno avental, com umas fitas azuis nas pontas, tendo todos os ditos quatro aventais as insígnias e dísticos seguintes estampados nos mesmos, a saber:
De um lado a figura do sol e do outro a lua e no meio um compasso e um triângulo e por baixo o dístico: lux mundi.
E da outra parte nas costas dos mesmos aventais, a figura de uma caveira com dois ossos que demonstra a morte e por baixo o dístico: memento mortis…
Nas comemorações do centenário da fundação da República, acto que muitos atribuem à Maçonaria e à Carbonária, terminamos este texto com a seguinte afirmação produzida pelo principal denunciante de André de Morais e seus companheiros de Loja:
- E disse o dito José Inácio que desconfiava que a revolução de França principiara na Grande Loja de França da dita seita, porém que cá não sucederá porque os portugueses não eram capazes para isso.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processo 5321, de Nuno Rodrigues.
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8725, de João de Morais, o Velho.
IANTT, Inquisição de Lisboa, processo de D. André de Morais Sarmento.
Subscrever:
Mensagens (Atom)










