segunda-feira, 6 de setembro de 2010

-JOSÉ ANTÓNIO PINTO

                                             Originário de Torre de Moncorvo,
circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão
Livorno é uma cidade da costa ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
Naturalmente que, abrindo-se-lhe uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300 membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam depois para os países da Europa central e meridional e também para o império Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro, sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.
No sentido de controlar o comércio da região do Magrebe (Norte de África), a “nação” de Livorno cedo abriu uma sucursal em Tunes e, em 1685, estavam ali registadas umas 50 famílias, num total de 300 indivíduos. Filippini calcula que entre 83% e 94% das exportações de Livorno para o Norte de África estivessem então nas mãos dos judeus.
Também com o Império Otomano Livorno conseguiu estabelecer relações privilegiadas e aceder ao comércio do Levante. E para fortalecer essa posição, estabeleceu também uma sucursal em Alepo, no Noroeste da Síria, ponto de partida das caravanas na famosa rota da seda e entreposto das mercadorias do Oriente. O mesmo Filippini calcula que os judeus de Livorno tinham entre 11% e 35% das exportações para o Levante.
De entre as firmas comerciais dos sefarditas de Livorno, destacava-se a da família Mogadouro – Vila Real, liderada por Gabriel Medina. De resto, predominavam as pequenas e médias empresas e a família era a base da organização social e empresarial entre a “gente da nação”, o que mantinha a confiança entre eles e permitia a tomada de decisões em tempo oportuno, condições essenciais para o sucesso no mundo dos negócios.
Vamos então até Livorno, ao ano de 1660, onde acabou de chegar Jorge Pinto, homem de seus 35 anos, originário de Torre de Moncorvo, com sua família que era constituída pela mulher (Beatriz Gonçalves, 6 anos mais velha que ele, natural da cidade da Guarda) e dois filhos, ambos nascidos em Cótimos, termo de Trancoso. O mais velho chamava-se Luís e tinha uns 15 anos e o mais novo, António, nascido em 14.4.1647.
Estes não viajaram na nau Jerusalém, mas em um navio inglês (ou seria holandês?) que apanharam em Alicante, Espanha, pagando 2 mil pesos pelo frete. À chegada a Livorno foram recebidos por seus parentes Daniel França e Jacob França, em cuja casa ficaram alojados.
Contaram que, depois de casar, foram residir em Cótimos e dali saíram por 1650 com destino a Málaga, em Espanha, onde já morava o pai e um irmão de Jorge. Aí, este e o pai acabaram por ser presos pela inquisição de Granada. Despachado o seu processo e cumprida a pena, Jorge dirigiu-se com a mulher e os filhos para Orihuela, uma terra do sul de Espanha, próximo de Alicante, onde permaneceram cerca de 4 meses “valendo-se da confiança e amizade de Jerónimo Fernandes, um português que tem sua mulher e filhos em Livorno onde são públicos judeus”, antes de embarcarem também para ali.
Em Livorno, os novos imigrantes fizeram-se “imediatamente” judeus , sendo circuncidados e adoptando nomes hebreus: Isaac Pinto, o pai; Sara Pinto, a mãe; Jacob Pinto o filho Luís e David Pinto, o mais novo, que em Cótimos fora baptizado com o nome de António e que, a partir de agora, vamos chamar de José António Pinto. Este é o protagonista do processo que estamos seguindo da inquisição de Lisboa, registado com o nº 2583.
É um processo deveras interessante para o estudo da vivência religiosa da comunidade sefardita de Livorno. Além da descrição pormenorizada da sua própria circuncisão, (berit-milá), José António fala das orações (shemá, amidá…) que rezavam na sinagoga onde iam 3 vezes ao dia, dos objectos ali usados e vestidos (kippa, taled, tefelin…), das cerimónias e dos oficiantes, dos jejuns (da rainha Ester, do dia grande, da guedalia…), dos rituais da matança dos animais e fabrico do pão ázimo, da celebração da Páscoa, etc…
Em Abril de 1668, José António saiu de Livorno para Argel, dali passou a Tânger “a tratar de negócios de seu pai” e a Tetuão “onde reside um irmão deste, Luís de Saldanha, com o qual o pai tinha negócios”. E este é um exemplo prático do que atrás dissemos sobre a estrutura empresarial familiar dos sefarditas. Refira-se também que a comunidade judaica de Tetuão vivia em um bairro próprio que chamavam Melaj (Salgadeira, acaso pelo tratamento de salga que ali faziam de couros e peles) e possuía 16 sinagogas.
Ficou por uns tempos em casa do irmão, que já era casado e em Tetuão tinha a família. E depois, de acordo com este, partiu novamente em viagem de negócios, rumo a Cádis e Antequera, cidades do sul de Espanha. Àquela parece que ia com ideias de comprar tecidos que remeteria ao irmão e a esta disse que ia cobrar “um vale de 8 mil e 500 réis”.
Estranhamente (ou talvez não), de Cádis dirigiu-se a Sevilha e, no dia 8 de Janeiro de 1670, foi apresentar-se ali no tribunal da inquisição. Contou a história da sua vida (com algumas mentiras) dizendo que era “judeu de sinal” em Livorno, mas que “resolveu passar-se a Espanha para ser cristão e baptizar-se”.
Pensaria ele que assim o aceitariam e lhe dariam qualquer documento para livremente poder andar por Espanha, sem receio de possíveis denúncias, já que era fácil, em qualquer esquina, encontrar quem o conhecesse de garoto ou o tivesse visto por Itália ou pelo Norte de África a entrar nas sinagogas e a assumir-se publicamente como judeu. Para que a história ganhasse consistência, mentiu quanto ao local de seu nascimento e nome de baptismo, disse que de Cádis escreveu ao irmão contando-lhe o seu propósito de “redução” ao cristianismo e que este reagira dizendo que “gastaria a sua vida e fazenda para o matar” se levasse avante seu intento. Esta informação fora-lhe dada em Tânger por um primo.
Claro que os inquisidores tinham muito calo já, disseram que iam estudar o seu caso e mandaram que podia ir em Paz e negociar à vontade, mas que não saísse de Sevilha sem ordem do tribunal até o seu processo de redução ser despachado. E por Sevilha andou ele alguns meses e várias vezes ele se terá dirigido ao tribunal em busca do despacho que… nunca mais vinha.
Desconfiado de que alguma coisa se passaria, abandonou a cidade de Sevilha e o reino de Espanha e foi-se a Lisboa. Ali, ao cabo de 22 dias, em 29 de Agosto de 1670, foi preso e “posto em custódia nos cárceres da penitência”. Era uma espécie de detenção ou prisão preventiva – como hoje dizemos. Efectivamente não havia denúncia alguma de qualquer crime cometido contra a fé cristã. Na base desta detenção estará o édito que, de imediato, a inquisição de Sevilha pôs a circular e onde se avisava:
- Foi determinado que o réu fosse buscado com diligência e fosse castigado por inobediente e transgressor dos mandatos deste tribunal o qual manda que se escreva a todos os portos para que se buscasse este réu.
E logo depois de preso, colhidas as primeiras declarações e detectadas algumas contradições, começou a organizar-se o processo contra José António Pinto que, em 28 de Fevereiro de 1671, foi formalmente entregue ao alcaide dos cárceres secretos da inquisição, onde foi metido. Vejamos agora as provas testemunhais que depois apareceram contra ele:
* Jacome Assucar, natural de Ishafan, na Arménia, disse que viveu em Tetuão e ali conheceu José António Pinto e o irmão, este nascido no Porto e aquele em Málaga – segundo diziam. E que em Tetuão sempre os viu frequentar as sinagogas e viver como judeus. Que depois se encontrou com José António em Salé em Tânger, em negócios, ali se apresentando igualmente como público judeu “posto que não mudava de traje como não costumam mudar os que vão só negociar” Que o encontrou depois em Lisboa e que até lhe deu novas de seu irmão que vira há 2 meses. E estranhou que, dando-lhe a morada em Lisboa, numa estalagem “junto aonde faziam as comédias” ali o não tenha já encontrado dias depois quando o foi procurar, depreendendo ele “que andava disfarçado, com receio de ser conhecido, porque nesta cidade não se trata como judeu público, antes o encobre”. Em prova de seu testemunho, ele indicou Toros Minos, também mercador da Arménia, um Monsieur Vicente, francês de nação e dois homens de Faro que estiveram cativos dos Mouros em Salé.
* Toros Minos, aliás, Teodoro Inácio, que por Tetuão e Salé andou negociando com Assucar, confirmou tudo e acrescentou que, ao vê-lo em Lisboa, lhe perguntou como se atrevia a vir a esta terra sendo judeu. Ele respondeu que viera fazer umas cobranças e comprar umas fazendas para enviar ao irmão e “se aqui soubessem que ele era judeu, havia de dizer que era filho de pai judeu e que se queria fazer católico (…) e que por isso fugira ao seu pai (…) quando o procurasse na estalagem (ao beco das Comédias) fosse com o nome de Joseph, dizendo que era sargento (…) se lhe perguntassem quem ele era dissesse que o não conhecia porque era italiano.
* Dos homens de Faro cativos em Salé não se achou rato. Mas em Lagos residia temporariamente (“por ocasião do contrato dos atuns”) o tal Vicente David, mercador francês da cidade de Marselha, cuja vida se repartia ainda por Tetuão e Lisboa. Também ele disse conhecer os irmãos Pinto como judeus que frequentavam as sinagogas.
* João Pires Rodrigues estava preso em Lisboa e foi na cela onde ele estava que, às tantas, meteram o José António. E depois de falarem, João concluiu que, afinal, conhecia os seus pais. E, confiado na sua amizade e discrição, o moço com ele desabafou, contando-lhe tudo e de como foi de Sevilha para Madrid e dali passou à Guarda, cidade onde esteve em casa de seu tio Belchior Mendes, antes de vir para Lisboa e ser preso. Acrescentou que ao sair da prisão haveria de levar uma prima, filha daquele seu tio, para Itália e com ela casar e havia de tornar a viver na lei de Moisés “que quem era judeu não tornaria a ser bom cristão” e que à religião cristã “não havia mais que mamá-la e calá-la”. Como era de esperar, João Pires não demorou a pedir audiência e a contar tudo aos inquisidores.
De posse do relatório da inquisição de Sevilha que entretanto viera e destes depoimentos, fácil foi aos inquisidores fazer o José António cantar tudo, explorando muito bem as suas contradições, de modo a clarificar a sua posição de judeu circuncidado que se queria “reduzir” ou de cristão baptizado que virou judeu e pretendeu “enrolar” a santa inquisição, “mamar e calar” os ensinamentos da igreja.
Na primeira audiência, em 1 de Setembro de 1670, ainda ele estava muito confiante, continuou a dizer que queria sinceramente “reduzir-se” ao cristianismo e se abandonou Sevilha foi por pouco tempo, por necessitar muito de vir a Lisboa fazer um negócio mas logo voltaria para Sevilha, até porque deixara em depósito no santo ofício uma caução de 11 mil “reales” que esperava lhe fossem devolvidos, com o despacho do seu processo de “redução”.
Mais tarde diria que em Sevilha ganhou estreita amizade com o capitão Don Henrique de la Torre que lhe dava “dinheiro, vestidos e cavalos em que andava” a quem foram dizer que ele era judeu e a inquisição o iria prender e o mesmo capitão ficou desapontado, considerando-se desonrado por antes o apresentar como seu parente. E foi essa intriga o motivo por que fugiu e rumou a Lisboa, com ânimo de embarcar para o Brasil.
Correu o processo e, provada a acusação de judaísmo, os inquisidores estavam também interessados em recolher o máximo de informações sobre outros cristãos-novos portugueses que andavam por Itália, Magrebe e outras terras fugidos da inquisição e a viver como judeus. E neste particular o processo de José António é bem interessante, dando informações como estas:
*Gabriel Medina é em Livorno o homem forte da empresa dos Mogadouro, de Lisboa e são todos passadores de cristãos-novos portugueses para Itália onde se fazem judeus e, como passadores, usam falsos nomes de mercadores italianos.
* Entre as famílias saídas da região de Torre de Moncorvo para Livorno e que ali vivem como judeus praticantes contam-se as de Simão Henriques Pimentel, aliás, Abraão Henriques Pimentel e sua mulher Brites Guterres, pais de António, aliás, Isaac Pimentel, de Manuel, aliás, Jacob Pimentel e de Ana e Brites Pimentel; Cristóvão Vaz França, aliás, Jacob Vaz França, casado com brites Nunes, pais de Jorge, aliás, David França e Daniel França; Rafael de Sousa; um homem que em Portugal era conhecido por Santilhano e que em Livorno se chama Aaron Franco de Albuquerque…
* Também em Veneza ele referenciou cristãos-novos de Torre de Moncorvo, processados pela inquisição e dela fugidos e que por lá são judeus: Jacob de Carvalho e seu irmão Daniel de Carvalho.
Bem espremido foi José António Pinto pelos inquisidores que, para acabar de deitar tudo cá para fora, o sujeitaram a duplo tormento – um trato esperto e outro corrido. Finalmente e depois de mil juras de arrependimento e pedidos de misericórdia e  perdão, o seu processo ficou concluído, saindo no auto-de-fé de 10.12.1673, condenado a cárcere e hábito perpétuo, confisco de bens e desterro por 3 anos para o Brasil.
Em Abril de 1674, ainda ele esperava embarque e encontrava-se doente, tolhido dos braços e das mãos. Mandado para o hospital de Todos os Santos, os médicos que o atenderam logo informaram que não conseguiriam curá-lo e pô-lo em condições de proximamente embarcar para o degredo. Doente e sustentado por misericórdia, escreveu aos inquisidores uma carta muito sofrida em que desabafava “ser melhor que o embarquem nas naus e no mar morra por doença, que de fome em terra” o matem. Acabou por ser-lhe comutada a pena, sendo desterrado para Almeida onde se apresentou em 13.6.1674.
Refira-se, finalmente, que José António Pinto era um poliglota que sabia ler e escrever em espanhol, francês, português. Italiano e hebraico e tinha 27 anos quando saiu da inquisição de Lisboa, certamente com ânimo de refazer sua vida. 

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

sábado, 28 de agosto de 2010

-Miranda do Douro


JOÃO DE MIRANDA – Rabi da comuna de judeus

Não conseguimos encontrar o processo que a Inquisição de Lisboa certamente instruiu contra o cristão-novo João de Miranda. Acaso ele desapareceu. E talvez por isso nunca este homem mereceu especiais referências dos estudiosos da comunidade marrana de Miranda do Douro. Dessas referências registamos a de Maria José Ferro Tavares (haverá outras?) que é do seguinte teor:
- “Sinagoga” era a tenda de Diogo de Leão da Costanilha, sapateiro, instruído na religião judaica, pelo que teve uma influência marcante em Miranda do Douro, juntamente com João de Miranda. (1)
Sim: tal como o Costanilha, João de Miranda era pessoa de muita influência no seio da comunidade cristã-nova da terra, pois terá sido um dos últimos, senão o último rabi da comuna de judeus de Miranda do Douro. Vamos então ver o que sobre ele conseguimos encontrar, alertando para a possibilidade de mais elementos aparecerem em outros processos que não consultamos.
A fazer fé no testemunho de Diogo de Leão, da rua Nova, que em 1542 lhe atribuía 90 anos, João terá então nascido por 1452. (2)
Quando o rei D. Manuel publicou o decreto de expulsão dos judeus, teria ele uns 44 anos, sendo casado com Isabel Garcia e dela tinha um filho – Diogo de Miranda – ao qual dedicaremos um dos próximos capítulos. E tinha, pelo menos, outros 3 filhos, de um primeiro casamento, cuja consorte ignoramos, e que eram:
* Amador de Miranda que mais tarde foi casar em Castela e lá fixou residência.
* Filipe de Miranda que foi preso pela Inquisição de Lisboa, como se verá. (3)
* Francisca de Miranda que casou com António Lopes, irmão de Diogo de Leão da Costanilha, atrás apresentado. Por 1558 era já viúva e residia em Alcanices, Castela. (4)
Claro que todos estes nomes foram por eles tomados pela Páscoa de 1497, na altura em que receberam a água do baptismo cristão, ignorando-se os nomes judeus que antes tinham. Sim: João de Miranda e sua mulher e filhos fizeram parte da multidão de baptizados em pé, ou seja, os que então foram obrigados por decreto do rei D. Manuel a abandonar a religião judaica e abraçar o cristianismo fazendo-se baptizar. Imagina-se quanto isso terá sido doloroso para um homem que foi rabi, mestre da lei. E percebe-se também que, apesar de todos os esforços, por mais vontade que tivesse, não seria fácil alterar as suas convicções religiosas. Percebe-se que João de Miranda, como a generalidade dos que receberam o baptismo forçado, continuaria a ser judeu, muito embora se comportasse exteriormente como cristão. Se as águas baptismais lavaram facilmente os nomes e as caras dos judeus, não lavaram as suas almas.
40 anos depois, quando foi criado o tribunal da Inquisição para julgar os que, tendo recebido o baptismo, eram apanhados a rezar, a fazer cerimónias ou realizar actos próprios da religião judaica… tinha João de Miranda uns 84 anos e, anos depois, logo que o tribunal entrou de funcionar regularmente, ele foi encarcerado e acabou queimado na fogueira, em data que ignoramos, mas antes de 1544. Acaso terá sido ele o primeiro dos cristãos-novos de Miranda de Miranda do Douro a experimentar tão trágica punição. (5)
Não sabemos qual o comportamento de João de Miranda no decorrer do processo. Mas, entre as acusações feitas pelo promotor de justiça contra Diogo de Leão da Costanilha, ficou registada a seguinte declaração:
- João de Miranda disse que o réu judaizava largamente falando sempre em hebraico com outros cristãos-novos (…) o dito João de Miranda afirma publicamente que em casa do dito réu se faziam ajuntamentos de cristãos-novos que andavam alvoroçados em fazer cerimónias judaicas e que jejuavam o jejum do kipur e disputava sobre a vinda do Messias tendo e afirmando que não era vindo e nas coisas que praticava falava hebraico com os outros cristãos-novos nas profecias e autoridades que alegava (…) e diz mais o dito João de Miranda que rezava o réu as orações judaicas e praticava sobre o que haviam de fazer nas Páscoas dos judeus… (6)
Em resposta a estas acusações, a defesa de Diogo de Leão ficou assim registada no mesmo processo, a folhas 68:
- É de pouca fé e crédito que se deva dar a João de Miranda, notório que foi um grande judeu vestindo um nome de cristão, como lobo com pele de ovelha e por tal foi julgado e queimado (…) o dito João de Miranda foi rabi e judeu…
No mesmo processo estão ainda registadas outras referências a João de Miranda. Numa delas, (folha 1) Diogo de Leão, o da rua Nova declarou:
- Que sabiam quando caía o dito jejum (do kipur) por João de Miranda e pela sua mãe dele Diogo de Leão que é falecida.
Outra confissão do mesmo, feita em Abril de 1543 e registada na folha 72 reza o seguinte:
- Disse ele Diogo de Leão que era verdade que haverá 7 ou 8 anos, em um dia, estando ele com João de Miranda nas ferrarias do espírito Santo junto à vila de Miranda, ele João de Miranda lhe dizia que o Messias não era ainda vindo e que ainda havia de vir e que a lei dos judeus era boa e que fora primeiro dada e não a dos cristãos e que quando o Messias viesse Roma havia de ser tomada e que se haviam de juntar todos em Jerusalém.
Ainda no mesmo processo, a folhas 75, está registada uma confissão semelhante mas feita por um outro prisioneiro, o que reforça a sua credibilidade sobre a liderança religiosa de João de Miranda. Vejam:
- Aos 23 de Maio de 1543, no colégio da doutrina da fé, estando ali o inquisidor João de Melo, mandou vir perante si a André Gavilão e entre outras coisas disse que haveria 6 anos, estando ele Andrá Gavilão na vila de Miranda onde é morador e que um João de Miranda ia com ele e com Diogo de Leão, da rua Nova e outros ao campo a umas eiras que estão junto à ermida do Santo Cristo e lhes dizia que o Messias não era vindo e que quando viesse havia de Roma ser destruída e que os judeus haviam de tornar a Jerusalém.
De entre os Mirandeses que naquela altura foram hospedados nas masmorras da Inquisição de Lisboa, e para além dos já citados, contavam-se dois filhos de João de Miranda: o Diogo e o Filipe de Miranda. Com o primeiro não sabemos se ali se cruzou alguma vez. Com o segundo, sim, esteve cara a cara, na sala de audiências, na presença e por iniciativa do inquisidor João de Melo. Antes de relatarmos o encontro, atentemos no estado de espírito de cada um.
João de Miranda, a esse tempo, tinha já confessado as suas culpas e denunciado os seus companheiros. Tinha também declarado que dera uma educação judaica aos filhos, carregando assim a culpa deles. Pensaria, naturalmente, que essa era a única forma de alcançar o perdão e ver-se livre da cadeia. E entre outras coisas confessou que, já na cadeia, jejuara no kipur e que recomendara ao filho que fizesse o mesmo.
Filipe de Miranda, ao contrário, continuava negando todas as acusações que lhe faziam, que não tinha qualquer culpa a confessar, que nunca judaizara e, em concreto, que nem sequer soube quando caiu o kipur nem fez qualquer jejum, ao contrário do que o pai afirmara.
E foi com esta disposição de espírito que pai e filho foram postoa cara a cara. Vejamos agora como as coisas se passaram nesse encontro, conforme o registo então feito pelo notário da Inquisição e que consta do processo de Filipe de Miranda:
- Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1542, aos 22 de Março, nas casas do despacho da santa Inquisição, estando ali preso João de Miranda, o senhor dr. João de Melo apresentou ao dito João de Miranda Filipe de Miranda, mancebo, solteiro, seu filho. E o dito João de Miranda pedira para que viesse falar com ele, sabia que isso era necessário e que cumpria para sua salvação. E estando ali o dito João de Miranda viu diante de si o seu filho e em presença do senhor inquisidor e mais testemunhas disse que ele réu pedia perdão e que havia ensinado a Filipe de Miranda e aos outros filhos o Kipur e as festas das Cabanas e da Páscoa do pão asmo para as guardarem e que fizessem o que ele seu pai fazia e as guardava.
- E logo o dito seu filho Filipe de Miranda disse ao dito seu pai que não sabia o que dizia, no que falava, que estava tornado do miolo, que estava louco e que nunca tal lhe ensinara nem lhe disse o que havia de fazer.
- Ao que o dito seu pai lhe disse que não estava louco e que falava a verdade e que havia de pedir ao senhor inquisidor que mandasse vir a sua mulher e outras pessoas da sua casa para os reconciliarem e pedir perdão.
- Filipe de Miranda disse que o pai estava louco e que não sabia o que dizia.
- E João de Miranda (voltou a dizer) que mandara dizer-lhe que jejuasse o jejum do Kipur este Outubro passado e o mesmo fizera Dinis Álvares a um seu filho, e que ele disse que o faria… E João de Miranda disse a Filipe de Miranda que o olhasse, que não fugisse ao que dizia… (12)
E terminamos este capítulo com as declarações de mais um prisioneiro de Miranda do Douro onde se reafirma que João de Miranda era um doutrinador messiânico:
- Aos 23 de Maio de 1543, no colégio da doutrina da fé, estando ali o inquisidor João de Melo, mandou vir perante si a André Gavilão e entre outras coisas disse que haveria 6 anos, estando ele André Gavilão na vila de Miranda onde é morador e que um João de Miranda ia com ele e com Diogo de Leão, da rua Nova e outros ao campo a umas eiras que estão junto à ermida do Santo Cristo e lhes dizia que o Messias não era vindo e que quando ele viesse havia de ser Roma destruída e que os judeus haviam de tornar a Jerusalém. (13)

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
NOTAS
1- MARIA JOSE PIMENTA FERRO TAVARES, Para o Estudo dos Judeus de Trás-os-Montes Sec. XVI, in: Cultura História e Filosofia, vol. VI, p. 380, Lisboa, 1985
2- IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 4532, de Diogo de Leão, f 15: - “Entende provar que João de Miranda era judeu e herege, sendo homemde 90 anos e muito falho de juízo”
3- IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 12112, de Filipe de Miranda.
4- Em 1544, quando António Lopes estava preso no tribunal de Évora, disse que tinha 3 filhos, a saber: Diogo, de 7 anos; Álvaro, de 4 anos e Isabel, de (?) idade. – pº 2945
5- Para além de João de Miranda e dos primos Diogo de Leão, na primeira leva de presos de Miranda contar-se-iam ainda os seguintes cristãos-novos:
* Jácome Valentim
* Duarte Navarro
André Gavilão
Dinis Álvares de Carvajales
Luís Fernandes
* Jácome Valentim (IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 4642). -  Tinha 40 anos e era filho de Valentim de Barros e de Leonor Gonçalves.
* Duarte Navarro (IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 12770). Pensamos que nem chegou a estar preso e o seu processo consiste em um simples auto de declarações. Traz apenso um documento raro, que é uma sentença proferida pelo juiz dos órfãos de Miranda em 14.3.1496. Este documento foi lido e publicado pelo DR. HUGO MIGUEL CRESPO, no jornal Terra Quente de 15.8.2008, sob o título: Uma descoberta única: uma sentença da comuna judaica de Miranda do Douro nas vésperas da conversão geral.
* André Gavilão era casado com Isabel Gonçalves, Pimparel, uma irmã da mulher do Costanilha, a qual foi também processada e de quem se falará mais à frente. Por agora, refira-se que quando ela foi presa, era já viúva há mais de 10 anos, podendo desconfiar-se que André Gavilão terá morrido nas prisões do Santo Ofício, ou ter sido relaxado. Não conhecemos o seu processo.
* Dinis Álvares residia já em Bragança. O seu nome é referido em vários processos sempre aliado aos de João de Miranda e Diogo de Leão da Costanilha, mas “era muito mais douto”. Quando o Costanilha e o Miranda não sabiam responder a alguma questão, mandavam perguntar a Dinis Álvares “o qual vivia a 10 ou 12 léguas da dita vila”, segundo refere uma testemunha. De resto, sabe-se que Dinis Álvares veio de Zamora e que era casado com Isabel de Castro. Uma filha do casal, residente em Bragança, viria a ser presa pela Inquisição de Évora em 1545 – Pº 11641.
Luís Fernandes (IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 13199 e pº 12298).
6- IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 4532, de Diogo de Leão, f. 64 e seg.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - XII

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

FAMILIA ALVARENGA
Recordam-se do boticário Manuel de Alvarenga Cabral que, 20 anos atrás, se fartou de denunciar mulheres cristãs-novas da família Pereira que via judaizar, espreitando da sua casa? Pois, na vaga de 1667, também na sua família houve prisões, sob a acusação de judaísmo e foram as seguintes:
1 – Belchior Coelho de Meireles, filho de Manuel Alvarenga Cabral e de Maria Coelho Meireles, solteiro, estudante em Coimbra. (1)
2 – Ângela Coelho, irmã do anterior, solteira. (2)
3 – Sebastião Coelho Meireles, irmão dos antecedentes. Tinha 45 anos e mantinha-se solteiro. Era formado em cânones (advogado) e ocupava o honroso e proveitoso cargo de ouvidor dos Senhores de Sampaio. (3)

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

Fotografia cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 620, de Belchior Coelho Meireles
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8746, de Ângela Coelho.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 9021, de Sebastião Coelho Meireles.

domingo, 22 de agosto de 2010

Retalhos da História de Vila Flor - XI

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

FAMÍLIA AZEVEDO MADUREIRA
1 – António Domingos de Madureira. Tinha 32 anos e era casado com Ana do Sil Carneiro. Filho de Manuel de Azevedo, escrivão das sisas e de Luísa de Madureira, a sua família era, talvez, a mais nobre de todas. Seu avô paterno viera de Castela e desempenhara o cargo de almoxarife em Ocaña. Foi casado 3 vezes, com mulheres de indiscutível nobreza: Domingas do Sil, Maria Coelha e Ana de Lobão. Uma tia paterna (Maria de Madureira) estava casada em Mogadouro com o capitão-mor Belchior Pinto Pereira, os quais tinham um filho, Gaspar Pinto Pereira, casado em Mirandela, em família de igual nobreza. Em Torre de Moncorvo estavam muitos tios e tias, nomeadamente António Domingos de Madureira, do tronco da família Carvalho e Castro. (1)
De seus bens sobressaem olivais nos sítios de Santa Luzia, da Cruz da Senhora da Veiga e da Ribeira, bem como uma vinha à Fonte do Seixo, que produzia 70 almudes de vinho.
E tinha a terça parte da herança de seu pai, que ainda não fora partida e incluía uma casa na rua da Fonte, uma vinha, 4 olivais e 5 terras de pão.
2 – Catarina de Azevedo, prima do anterior, pelo lado paterno. (2)
3 – Simão Vaz, sapateiro e curtidor, marido da antecedente. (3)
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8755, de António Domingos de Madureira
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8752, de Catarina de Azevedo.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 643, de Simão Vaz

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

sábado, 21 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - X

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

 FAMÍLIA MONTES DE ALMEIDA
Os Montes de Almeida eram outra das famílias mais nobres de Vila Flor, ligados com os Borges, os Lemos, os Madureira--- Vejamos os membros desta família que foram na leva de 1667:
1 – Francisco Montes de Almeida, filho de Manuel Montes e de Isabel de Almeida, viúvo de Maria Borges. Ocupava o cargo de escrivão dos órfãos de Vila Flor, tal como e desempenhou seu pai, seu avô e seu bisavô paternos. (1)
Quando foi preso, residia em Torre de Moncorvo, na rua das Barreiras. Tinha propriedades agrícolas no sítio das Casas Queimadas, na Laranjeira e na Fonte do Carvalho. E tinha bens de uma capela, nomeadamente um pomar à Fonte do Carvalho, que valia 80 mil reis e um olival em S. Paulo que dava 25 almudes de azeite e valia 30 mil reis.
E em Vila Flor tinha umas casas de sobrado na rua de Santa Luzia “que foram dadas em folha por preço de 80 mil reis”.
Na mesma rua tinha um palheiro e mais uma casa térrea.
Tinha terras nos sítios do Paio Correia, Seixo, Soutinho, portela da Junqueira, cabeço do Bensaúde, portela de S. Paio, Casa da Mouroa, carrasco, Vale da Pala… Sobressaindo uma vinha ao Paio Correia “tapada sobre si que dá 100 almudes de vinho e vale 80 mil reis”.
2 – Joana Borges. Era filha do anterior e de sua mulher Maria Borges. Tinha 22 anos e estava solteira. Também ela denunciou o pai como judaizante.
3 – Francisco Montes de Almeida. Meio irmão da anterior, filho de Francisco Montes e de uma Ana Gomes. Tinha 23 anos e era soldado a cavalo na praça de Chaves.
4 – Ana Montesa, ou Ana de Almeida. Da mesma idade do anterior e filha do mesmo pai mas de outra mãe, uma tal Isabel Nunes.
5 – Ângela de lemos. Estava casada com Paulo Montes de Maduraira, filho de Diogo Montes (irmão do primeiro Francisco) e de Jerónima de Madureira.
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo_4758, de Francisco Montes de Almeida.
Por alvará de 9.6.1641, foi Manuel Montes nomeado para o cargo de escrivão dos órfãos, com faculdade de, em sua vida, ou por sua morte, poder nomear um de seus filhos.
Idêntico alvará foi publicado em 18.12.1658, nomeando Gregório Montes Botelho para o mesmo cargo, “por falecimento de Manuel Montes”.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 6054, de Joana Borges.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8757, de Francisco Montes de Almeida
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 10291, de Ana Montesa
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5956, de Ângela de Lemos.


António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral




domingo, 15 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - IX

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
 QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
A FAMÍLIA DO CAPITÃO-MOR ALVARO MORAIS ATAÍDE
Na grande leva de Fevereiro de 1667, foram pelos menos 7 membros da família do capitão-mor e que passamos a apresentar, acrescentando sobre alguns curtas notas retiradas dos processos:
1 – Pedro de Morais. 52 anos, escrivão da câmara de Torre de Moncorvo, filho de Diogo de Morais, feitor mor das alfândegas de Trás-os-Montes. Dizia-se cristão-velho, mas os inquisidores descobriram-lhe ¼ de cristão-novo, pela parte de sua avó paterna, Catarina Álvares. Aliás, ele próprio saberia disso, como sabia que seu pai e dois tios paternos (Francisco e Pedro de Morais) haviam já passado pelas cadeias do Santo Ofício. (1)
Da extensa lista de seus bens imóveis, vamos apenas referir dois, que têm particular interesse para o estudo das quintas e propriedades agrícolas com história na região:
* O sítio de Nossa Senhora da Teixeira, que valeria 100 mil reis e que lhe tinha deixado em herança uma irmã de sua avó materna, D. Ana Borges, com obrigação de 2 missas em cada ano pela alma de Nicolau de Lobão, igualmente irmão de sua avó.
* A quinta do Rego da Barca, que valia uns 200 mil reis, herdada igualmente de sua tia-avó, com obrigação de 2 missas e vínculo de capela.
De referir também que à data de sua prisão, tinha 5 vacas de renda em mãos de lavradores no termo da Torre de Moncorvo.
Vendo-se acusado de judaísmo, Pedro do Sil começou por dizer que isso não passava de uma invenção dos cristãos-novos seus inimigos, especialmente de Diogo Henriques Julião e seus manos, que lhe tinham raiva por muitos motivos e concretamente por ter vindo a Vila Flor como meirinho do corregedor, aquando da prisão e fuga de um Manuel da Mesquita, parente dos Juliões. As vejam as próprias palavras do processo:
- Provará que os contraditados Diogo Henriques Julião e seus irmãos Luís Henriques e Rodrigo Fernandes e seus filhos e parentes de Vila Flor, estimulados do réu ir por meirinho do corregedor João de Medeiros Correia tirar uma devassa por provisão de Sua Majestade e da fugida de Manuel da mesquita, parente do dito Diogo Henriques Julião, que estava preso pelo pecado da bestialidade, andando em duas facções todas as pessoas da dita vila, de uma parte os da nação e da outra parte os homens nobres, buscando os da nação ocasiões para defrontarem os parentes do réu; e com efeito se fez grave rixa, sendo Gonçalo de Morais, irmão dele réu, juiz ordinário da dita vila, de que resultou ficarem culpados alguns deles (…) donde ficaram com maior ódio contra ele réu e mais seus parentes.
Do seu processo, retiramos ainda esta curta declaração de uma testemunha de defesa, João Borges de Morais que, depois de confirmar a cena da burra e da rixa, concluiu:
- E também sabe que os da nação andavam em dúvidas com os homens nobres sobre as varas do palio e governo da república.
2 – António do Sil, irmão do anterior, rendeiro, 45 anos. Foi denunciado por 22 testemunhas. (2)
Não vamos analisar o seu caso nem fazer quaisquer comentários. Apenas observar a relação de seus bens, no que interessa para a história local. Assim:
* Tinha umas casas sobradadas em que vivia, com seu quintal, na rua da Fonte, foreiras ao concelho da vila, pagando um vintém de foro anual e que valiam 5 mil reis.
* No sítio da Fonte tinha um terreno de semeadura de 2 alqueires com 2 pedaços de olival e uma vinha que valia 30 mil reis.
* Um olival e terra de cereal (10 alqueires) no sítio da Serra, com o valor de 25 ou 30 mil reis.
* Mais umas propriedades em diversos sítios, que ele comprou de 4 anos a esta parte no montante de 160 mil reis. Seriam as tais propriedades sequestradas a cristãos-novos e leiloadas na praça, de que atrás se falou?
* Em Benlhevai, tinha também 2 vinhas, 2 lameiros, uma casa de sobrado e terras de pão e tudo valeria uns 30 mil reis.
* Domingos Martins, cristão-velho, tendeiro, devia-lhe 30 mil reis que “ele declarante lhe entregou para lhe comprar na cidade do Porto uns ornamentos para a ermida de S. Jorge que ele declarante mandou fazer junto às suas casas, em Vila Flor”. E esta é uma nota bem interessante para o estudo do património da vila e da evolução urbana.
* Na qualidade de rendeiro, trazia arrematada a cobrança das rendas da Mitra de Braga, no montante de 160 ou 170 mil reis e uns foros do conde de Miranda, na área de Vila Flor, que ascendiam a 42 mil reis.
* E também tinha 12 ou 13 bois “dados de renda a diversas pessoas”.
3 – Maria de Aguirre, mulher do anterior, natural de Sambade, filha de Luís de Escobar Roubão e de Ana Aguirre. (3)
4 – António de Morais do Sil. Sobrinho de Pedro e António do Sil, filho de seu irmão Gonçalo e de Branca Teixeira. Certificaram os inquisidores que ele tinha 1/8 de cristão-novo. Tal como certificaram a sua morte no cárcere, 5 anos e meio depois de nele ser encerrado, em 27.8.1672. (4)
5 – Francisco de Morais Ataíde. Era igualmente sobrinho dos outros Sil, filho de sua irmã Ângela de Morais e do capitão-mor Álvaro de Morais de Ataíde. Tinha 28 anos quando foi preso. Era casado e pai de 4 filhas, a mais velha de 8 anos. Foi denunciado por muitos cristãos-novos de Vila Flor e também por gente de Vimioso (Vicente de Gambôa) e de Freixo de Numão (Ferreira Isidro). (5)
Defendeu-se destes e doutros denunciantes dizendo que foram instruídas por Diogo Henriques Julião, o qual foi ter com eles quando “estavam presos e depositados em Freixo de Numão”, na ida para Coimbra. De resto, os argumentos de defesa apresentados pelo réu constituem um verdadeiro tratado de sociologia de Vila Flor naquela época, repleto de episódios picarescos e caciqueiros. Vejam uma amostra:
Pêro da Costa era um advogado cristão-novo, solteiro, que foi na leva de presos de 1664. Em certa altura constou que ele andava metido de amores com uma mulher casada. E uma noite, a desoras, Francisco de Morais e o seu bando, foram bater-lhe à porta, feitos polícias, a saber da mulher. Levantou-se o advogado e veio em camisa abrir a porta. O filho do capitão-mor deitou-lhe as unhas “o puxou para fora pelas gadelhas e o lançou no chão lançando-lhe muitos coices”, exigindo que fosse buscar a mulher. Respondeu que a não tinha em casa, mas estava em um lagar sito à Fonte do Olmo. Alguns ficaram a guardar a porta e outros seguiram com ele, que foi assim, descalço e me camisa de dormir, a buscar a mulher, conforme lhe ordenaram.
Mas já de outra vez o tinham levado à força para um olival sito nas bandas da Portela e ali o espancaram e ameaçaram matar se ele não lhes entregasse a tal mulher. E claro que Francisco, depois de contar o episódio, não deixou de frisar que Pêro da Costa era parente e advogado de Diogo Henriques Julião “e de sua casa comia e bebia e o servia como criado”.
Da denúncia de João Lopes, o surdo, defendeu-se dizendo que ele “é inimigo do réu porque tendo um macho muito formoso e de preço e que não andava na estrada, o réu, necessitando de cavalgaduras para ir a Mirandela buscar pão, à força lhe tomou o macho”. E o pior é que o macho ficou com uma ferida no lombo, de tão carregado que foi. Assim, o testemunho daquele não deveria ser aceite porque foi motivado por ódio e espírito de vingança.
De igual modo argumentou acerca de possíveis denúncias de Pedro Guterres e Manuel Pinto. É que, tendo a Inquisição mandado ordem para se prender a mulher do primeiro, ela desapareceu. Mas o Francisco Ataíde tanto espiolhou que foi dar com ela em casa do Pinto, metida na cama, com a cabeça tapada, entre este e a sua mulher e ali a prendeu.
E vindo também ordem da Inquisição para prender a mulher do mesmo Pinto e sendo necessário juntar 20 mil reis, o capitão-mor pôs em leilão os seus bens. E entre esses bens “eram duas canastras encouradas novas com duas fechaduras cada uma, que bem valiam 4 para 5 mil reis e um primo do réu, António de Morais Sil lhe lançou nelas e valendo o dito preço se arremataram em 5 tostões”.
E também o Manuel Pinto foi preso pelo Santo ofício e então foram à praça seus bens que incluíam “as casas de sua morada, umas vinhas e um lagar de azeite e nesta fazenda toda lançou Jerónimo de Morais Beça, cunhado do réu, 2 mil reis e por não haver quem se atrevesse a lançar mais, nisso lhe foi arrematada”.
Mais casos do género podíamos apresentar, que a defesa de Francisco Morais de Ataíde se estende por uma centena de fólios do processo. Vamos porém concluir, transcrevendo dois parágrafos do mesmo processo, bem elucidativos da luta política que então se travava entre Diogo Henriques e o capitão-mor de Vila Flor:
- O pai do réu, capitão-mor, e seus parentes e homens nobres e graves de Vila Flor vendo que Diogo Henriques e seus parentes se queriam intrometer em quererem tomar em si o governo da terra, assim no secular e quererem e quererem servir nos ofícios da justiça e nas prisões, com muita ousadia e atrevimento pegarem e tomarem as varas do palio (…) se juntaram o pai do réu e os mais homens cristãos-velhos e nobres de Vila Flor e aí jogaram muitas pancadas e cutiladas, aonde os acutilaram a todos e a cada um deles, e fizeram à força recolher e meter em suas casas e com efeito nunca mais nenhum homem deles pegou em vara de palio.
- E além disso o pai e parentes do réu e todos os homens nobres de Vila Flor, vendo a soltura com que o dito Diogo Henriques e seus irmãos e parentes e todos os cristãos-novos se haviam e com muito atrevimento e ousadia se intrometiam para servir nos ofícios principais da república e governança, como também quererem tomar as varas do palio, o pai do réu, que nisso mais insistiu, obteve uma provisão de Sua Majestade para que nenhuma pessoa que fosse cristã-nova ou tivesse parte alguma da nação não servissem mais na dita vila ofícios da igreja nem da governação, de sorte que os privaram das varas do palio como de servirem ofícios da governação. Nem de juízes, nem vereadores, nem outros semelhantes (…) do que ficaram todos com grande ódio contra o pai do réu e contra ele réu e contra outros homens principais da vila, cristãos-velhos e sobre isso houve muitas diferenças.
E agora, como o leitor imagina, seria bem interessante analisar o inventário dos bens de um homem tão rico como era Francisco de Morais de Ataíde. Limitamo-nos apenas a apresentar dois itens desse longo inventário:
Tinha uma quinta que ele declarante havia comprado cujas casas estavam principiadas no sítio que chamam as Gamonitas, junto à quinta do Carrascal, que constava de terras de semeadura e olivais, a qual propriedade crê valer 100 mil reis e é livre e parte de uma banda com terras de Domingos de Morais das Flores e da outra com a estrada do concelho.
Um cavalo rocim de 4 anos selado e enfreado que vale 30 mil reis e 2 bois de arado que valiam 10 mil reis e tudo se vendeu, cavalo e bois, para alimento dele declarante, em preço de 40 mil reis.
6 – Maria de Morais de Ataíde, irmã do anterior, 26 anos, casada com Jerónimo de Morais Beça. Toda a estrutura do processo (acusação e defesa9 é idêntica à do irmão e dos restantes nobres, tentando provar que se trata de uma conjura urdida pelos cristãos-novos e que “ o autor e conselheiro” era Diogo Henriques Julião. E naturalmente que também este processo e os demais são fonte essencial para quem quiser estudar a sociedade de Vila Flor naquela época.
Mesmo sendo acusada pela própria irmã e sumetida a tormento, ela nunca confessou seu judaísmo.
Na parte final do processo, aparece uma petição feita por seu marido ao inquisidor geral para que lhe sejam perdoados os 149 mil e 900 reis que lhe foram exigidos por despesas de alojamento e alimentação na cadeia e custas do processo. Chamados a pronunciar-se os inquisidores de Coimbra ditaram o seguinte:
- Parece-nos que, em razão dos serviços que fez a esta Inquisição o seu sogro, o capitão-mor de Vila Flor, pode Vossa Senhoria mandar ao suplicante que pague 80 ou 100mil reis e lhe perdoe o mais.
E 12 anos depois que foi libertada, precisando seu neto José de Morais Beça uma certidão atestando que sua avó “que foi presa por esta Inquisição, saiu pura, sem condenação alguma”, a mesma foi negada porque ela “tinha parte de cristã-nova por seu avô materno, Diogo de Morais e como tal foi confrontada na sentença”. Além de que, sendo julgada por culpas de judaísmo, ela saiu em auto onde abjurou de leve.
7 – Catarina do Sil, irmã dos anteriores, 23 anos, solteira mas prometida em casamento a Gonçalo de Morais Beça quando foi presa. Do seu processo transcrevemos apenas um excerto dizendo que uma camisa de linho que fosse tecida e costurada por 9 Marias tinha o poder de livrar as pessoas de morte violenta. Mas vejam este naco saboroso de prosa:

- E estando as 10, por conselho de sua tia Maria de Morais, ficaram esta e as ditas pessoas e mandaram tecer e cortaram e fizeram no mesmo dia uma camisa de pano de linho cru, por se dizer que era boa para preservar de morte violenta e de outros males a quem a trouxesse vestida, sendo fiada e tecida por 9 Marias (…) era para a darem ao dito seu irmão dela confidente, Francisco de Morais, agora preso, o qual naquele tempo andava muito receoso que o matasse ou mandasse matar Domingos Afonso Galegos, governador da cavalaria da província de Trás-os-Montes, por se dizer que entrara em casa deste a ter conversação ilícita com uma mulher mulata, do mesmo (…) e depois da dita camisa feita e acabada, a levaram ela confidente e as outras 9 mulheres no mesmo dia à noite à igreja da Misericórdia da própria vila, onde tocaram com ela nos pés de uma imagem de Cristo Nosso Senhor que costuma ir com a cruz às costas na procissão dos Passos e depois a mandaram ao dito seu irmão que naquele tempo assistia homiziado no mosteiro dos frades de S. Francisco da Torre de Moncorvo. (7)

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
NOTAS:
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2804, de Pedro de Morais do Sil.
O tio Francisco de Morais era feitor e recebedor da alfândega de Freixo de Espada à Cinta, terra onde casou.
O avô materno, Pedro do Sil, foi meirinho da correição de Torre de Moncorvo.
A origem da família Sil é exactamente o lugar de Sil, junto à ribeira do Sil, na Galiza.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8749, de António de Morais Sil.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2040, de Maria de Aguirre.
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 501, de António de Morais Sil.
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2672, de Francisco de Morais de Ataíde.
6 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 9302, de Maria de Morais de Ataíde
7 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8753, de Catarina do Sil

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - VIII

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

A PRISÃO DOS NOBRES CRISTÃOS-VELHOS

Assistimos no capítulo anterior àquela enorme vaga de prisões efectuada em Novembro de 1664. Escusado será dizer que alguns daqueles homens e mulheres tinham fortes casas comerciais, negócios rendosos, indústrias florescentes de sedas e curtumes e boas casas agrícolas. Escusado será também dizer que muitas delas se arruinaram de repente e outras ficaram paralisadas ou meio abandonadas. Imaginem que até a própria casa de habitação era fechada e “selada” (quando se decretava prisão com sequestro de bens), ficando impedidos de nela entrar o próprio cônjuge e os filhos. Reparem que, por vezes, se prendiam ambos os pais e ficavam filhos de tenra idade completamente abandonados na rua, dependentes de algum familiar ou de uma boa alma que lhe deitasse a mão.
E certamente houve muita gente que, receando ser presa, decidiu abandonar a terra e seguir para o estrangeiro. Também Diogo Henriques e seu mano Luís Henriques Julião tentaram a fuga mas foram surpreendidos nessa hora pelo filho do capitão-mor que andava de olho em cima deles e não conseguiram abalar. Tal como não conseguiu a mulher de Filipe Dias que ia ter com o marido a Castela, levada por dois “passadores” mas o filho do capitão-mor seguiu-a até Gouveia, nas proximidades de Alfândega da Fé e ali prendeu a mulher e os “passadores” e lhe tomou “uma espada, uma espingarda, uma mula, um rocim e duas jumentas, que se venderam por ordem da justiça”. (1)
De outra vez, um parente muito chegado de Diogo Henriques terá vindo de Castela, onde estava emigrado, a buscar sua mulher a Vila Flor. Mas foi também surpreendido e preso.
Todos estes episódios são reveladores da intensa luta política entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Vila Flor. E as prepotências dos nobres (verdadeiros caciques, como hoje se diz) e do “partido da Inquisição” estendiam-se a outros campos, como o da política tributária:
Sim: em cada concelho, em cada ano, em reunião de câmara, era nomeada uma “junta de repartidores da décima” – uma comissão de 3 homens que definiam o montante que cada morador devia pagar de contribuição. E, naturalmente, que tal junta era constituída por gente da feição dos homens da governança da terra e que a “décima” atribuída aos cristãos-novos era sempre bem mais carregada que a dos outros. Não bastava os bens que lhe arrematavam por 5 reis de mel coado quando os prendiam, que também os carregavam no pagamento das décimas. Caso idêntico se passava com o pagamento das sisas e outras taxas e impostos fiscais.
Outra vexação que muito incomodava os cristãos-novos de Vila Flor vinha das “boletas dos soldados” e funcionários do Estado. Significa isto que, quando à vila chegava uma partida de soldados, ou qualquer alto funcionário do estado ou da igreja, com sua comitiva, era preciso proporcionar-lhe alojamento e refeições, não apenas para eles mas também para as cavalgaduras. E era ao capitão-mor e às estruturas de poder municipal dele dependentes que competia tomar as providências necessárias. E agora o leitor já sabe que, em tais circunstâncias, os castigados eram geralmente os mesmos, os seja as casas mais abonadas dos cristãos-novos.
E “aboletavam” também juntas de bois, machos e os burros dos cristãos-novos. Expliquemos. Era relativamente frequente haver necessidade de transportar cereal, palha, lenha e muitas outras coisas e então… requisitavam-se aos cristãos-novos.
Vai longa esta exposição sobre os procedimentos criminais da Inquisição e seus sequazes, procedimentos que não seriam muito diferentes dos adoptados por outros poderes e outras autoridades, devendo isto ser encarado como reflexo do pulsar da sociedade de então, um aspecto do modo de viver quotidiano. Nem esta exposição tem por objectivo fazer qualquer juízo de valor, mas tão só tentar compreender a sociedade.
Voltemos àquelas ondas de prisões em Vila Flor e a outras que seguiram ainda. Não vamos analisar os respectivos processos – que isso daria trabalho para uma vida. Vamos tão só focar um aspecto que vai levar a novas e extraordinárias prisões, a um estranho e fantástico episódio da luta política em Vila Flor, arbitrada pelos inquisidores de Coimbra.
O caso é que todos aqueles prisioneiros, ao longo das audiências, foram contando que realmente tinham feito práticas judaicas e se tinham declarado crentes na lei de Moisés. E citavam as pessoas e relatavam as circunstâncias e os pormenores. No fundo, todos se denunciavam uns aos outros e acabavam por mostrar-se arrependidos e pedir perdão.
Desta vez, porém, certamente combinados entre si, eles denunciaram, como seus companheiros de jejuns e orações e cerimonias e declarações de judaísmo, todas as figuras gradas de Vila Flor, os homens de maior nobreza da terra, sempre tidos por cristãos-velhos, a começar pela família do capitão-mor do concelho.
E o caso é que tais testemunhos não eram contraditórios, antes concordavam nos pormenores, tornando-se credíveis. Até apareceram pessoas de Vimioso, Ventuselo, Freixo de Numão e Vilarinho dos Galegos a ajudar em tais denúncias.
Não restou outra saída aos inquisidores que não fosse a abertura de novas fichas e a instauração dos respectivos processos e… em Fevereiro de 1667, a Vila Flor foi submersa de todas as vagas de prisões. Mais de 30 pessoas foram então enjauladas, a grande maioria pertencentes à mais distinta nobreza da terra e que sempre se afirmaram cristãos-velhos, alguns dos quais tinham até certidões de pureza de sangue. Aliás, e depois de minuciosas investigações, concluiu-se que, afinal, em todas elas corria sangue judeu, nem que fosse ¼ ou 1/8 ou 1/12 avos, significando isso que tinham pelo menos um avô, um bisavô ou um trisavô que era da nação hebreia. E todos eles, ao cabo de longos anos de estada nas masmorras da Inquisição, muitos deles submetidos a tormento, acharam melhor confessar que, afinal, tiveram práticas judaicas e se declararam seguidores da lei mosaica. Verdade? Mentira? Pelo menos assim veriam abrir-se-lhe a porta de regresso à liberdade.
Deve dizer-se que, exceptuando algum que morreu no cárcere, todos passaram uns 6 anos nas infectas masmorras, saindo no auto-de-fé realizado em 12-13 de Março de 1673.
Nos capítulos seguintes apresentaremos alguns desses presos que se diziam cristãos-velhos e pertenciam à nobreza da terra, como eram os Madureira, os Montes de Almeida, os Morais de Ataíde, os Azevedo, os Lemos, os Borges, os Sil, os Lobão, os Coelho de Meireles…

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 209, de Francisco de Morais de Ataíde.
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - VII

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

PRESOS NA CASA DA MISERICÓRDIA

Ao tempo da morte prematura do rei D. João IV, em 1656, tinha o príncipe herdeiro do trono apenas 13 anos de idade. Ficou, por isso, a governar o país sua mãe, a rainha D. Luísa de Gusmão.
Ainda para mais, o futuro rei era paraplégico e falho de juízo. E andava metido com grupos de jovens arruaceiros. Saíam em bandos, à noite, montados a cavalo pelas ruas de Lisboa, partiam vidros de janelas, atacavam à espadeirada quem lhes aparecia pela frente e assustavam sobretudo mulheres indefesas. De entre esses energúmenos, destacava-se um valentão italiano que vendia quinquilharias numa tenda montada no Rossio, chamado António Comti.
O País atravessava então uma enorme crise. Internamente, do ponto de vista da economia, era a ruína completa e, do ponto de vista político, a sociedade estava completamente dividida, sobretudo as classes dirigentes da nobreza e do povo. No plano externo era a guerra com a Espanha que tudo consumia, enquanto as colónias da Índia, África e Brasil eram atacadas por ingleses, franceses e holandeses.
Face a uma tal situação e porque os conflitos sociais e políticos, mesmo no interior do conselho real, eram cada vez maiores, pareceu a muitos homens de influência que só o casamento de D. Catarina, irmã do jovem rei D. Afonso VI, com o rei Carlos II de Inglaterra, poderia salvar o País. E nisso se empenharam a fundo, particularmente os cristãos-novos portugueses, não apenas os que residiam no País mas também (e sobretudo) os que estavam emigrados pelo Norte da Europa. (1)
Realizaram-se as bodas em Londres, em Maio de 1662. E, no mês seguinte a rainha mandou prender Comti e o seu bando de marginais, que logo foram metidos em um barco e despachados para o Brasil.
A rainha aparecia então com poderes reforçados e em seu redor capitaneavam velhos nobres cheios de condecorações e gente das cúpulas da Inquisição.
O jovem rei ficou furioso com a prisão de Comti e um grupo de jovens da nobreza, chefiados pelo conde de Castelo Melhor, que tinha apenas 26 anos, cercou o rei e fez com que ele assumisse o poder e demitisse o governo, enquanto a rainha-mãe fundava um convento e nele se encerrava. Escusado será dizer que o novo governo era chefiado por Castelo Melhor.
Perdedor ao nível do governo, o “partido da Inquisição” redobrou de actividade e cresceu a fúria contra os cristãos-novos. Assistiu-se então a enormes vagas de prisões, como antes nunca se vira, nomeadamente em Trás-os-Montes.
fixemo-nos então em Vila Flor, uma terra em que andavam “divididas em duas facções todas as pessoas da dita vila, de uma parte os da nação e da outra parte os homens nobres, buscando os da nação ocasiões para se defrontarem”.
Esta afirmação não é nossa, mas foi feita por alguém que se viu metido no meio daquele turbilhão e de quem falaremos mais à frente – Pedro de Morais do Sil.
Muitas afirmações de idêntico teor se encontra, em diferentes processos ali instaurados então pelo Santo Ofício e que chegaram até nós.
E esta luta não era só motivada pelos cristãos-novos “que se queriam intrometer em quererem tomar em si o governo da terra” mas também “andavam em dúvidas com os homens nobres sobre as varas do palio” – como também se afirma nos ditos processos. Quer isto dizer que a luta entre cristãos-novos e cristãos-velhos em Vila Flor visava o controlo do governo da república e do governo da igreja, que a luta não era apenas de carácter religioso, mas também social e político.
E se os cristãos-novos queriam tomar conta do governo e da igreja, os nobres e os partidários da Inquisição procuravam, por todos os meios, barrar-lhes o caminho. E um dos meios utilizados foi exactamente a obtenção de alvarás régios proibindo os cristãos-novos de exercer quaisquer cargos de administração pública e municipal, de frequentar a universidade e receber ordens eclesiásticas ou condecorações militares. E se essas leis discriminatórias dos cristãos-novos se estenderam depois a todo o país, é preciso não esquecer que elas começaram por se aplicar apenas em Vila Flor.
E quem eram os cabeças desta luta, os chefes de cada uma das facções? Exactamente as mesmas famílias de há 20 anos atrás, os filhos e herdeiros de Julião Henriques e Lopo Machado.
Recordam-se da prisão e da fuga de Lopo Machado da cadeia de Torre de Moncorvo? Certamente que, logo que a conjuntura o permitiu, ele regressou a Vila Flor e foi recebido pelos seus partidários como um verdadeiro herói. E certamente que as cúpulas da Inquisição de Coimbra se empenharam na recuperação da honra e do poder do seu familiar, pois era também a honra e o poder da própria instituição que estava em causa. E Lopo Machado e os seus certamente juravam que se haviam de vingar.
E o facto é que ele logo foi promovido ao mais elevado posto do governo do concelho, sendo empossado no cargo de capitão-mor, que ocupava no início da década de 1650. A ele competia a manutenção da ordem pública e a segurança dos cidadãos, para além da fiscalização da fé. (1)

E depois dele foi o cargo desempenhado por Álvaro de Morais de Ataíde e em seguida por um filho desta (Francisco de morais de Ataíde) e pelo genro Jerónimo de Morais Beça, que todos se ligaram na família de Lopo Machado. (2)
Por seu turno, com a morte do pai, Diogo Henriques Julião assumiu a liderança da comunidade cristã-nova.
Estamos então em Vila Flor, naquele mês de Junho de 1662 em que o conde de Castelo Melhor montou o cavalo do poder. Ao início desse mês, em Vila Flor, 8 cristãos-novos foram presos pela Inquisição de Coimbra e mais 4 se seguiram naquele ano. E no ano seguinte o número subiu para dezena e meia, numa espiral medonha de prisões. Era como se todas as forças do inferno se tivessem libertado e caíssem sobre Vila Flor, em feroz perseguição aos cristãos-novos. E o clímax foi atingido no ano de 1664 com mais de 30 prisões, sendo que umas 23 foram efectuadas de uma só vez, ao início do mês de Novembro.
Fácil será imaginar, mas torna-se impossível descrever o que em Vila Flor se terá passado naquele dia. Desde logo, a violência do acto. Sim, não seria fácil prender duas ou três dezenas de pessoas. Certamente que foi preciso planear muito bem as coisas e mobilizar muitas autoridades e “polícias”. Calculem quantas tentativas de fuga se ensaiaram, quantas resistências se opuseram às vozes de prisão, quantas pauladas e encontrões e palavrões… Imaginem a gritaria destemperada que correu a vila como língua de fogo. Recordem o choro convulsivo de avós, pais, irmãos, filhos e netos dos prisioneiros, enquanto estes eram metidos a ferros e estrebuchavam e berravam insultos e promessas de vingança.
Depois foi preciso arranjar prisões, que a do concelho não chegava. Requisitou-se a casa da Misericórdia e lá se meteram. Eram 35, segundo se diz em alguns processos. Noutros se diz que ali ficaram apenas as mulheres e nesse caso seria requisitada (ou posta pelo dono à disposição) alguma adega ou palheiro. Também não sabemos se era apenas gente de Vila Flor ou se tinham vindo alguns presos de Mirandela e outras terras, que os homens da Inquisição não quereriam gastar suas energias e perder seu tempo com pequenas manadas. Aliás, uma grande manada de prisioneiros chamava muito mais a atenção das populações que ficavam mais temerosas e respeitadoras do Santo Ofício.
Executadas as prisões, era preciso arranjar 20 mil reis por cada um, para custear as despesas de viagem e alimentação, que os presos até os próprios grilhões pagavam e as jornas a quem os prendia e conduzia à cadeia. E para isso sequestravam-se bens dos prisioneiros e punham-se a leilão na praça pública. Ora, quem é que iria então licitar naqueles bens? Os lanços seriam altos ou baixos?
Muitas vezes eram os próprios familiares e amigos que os arrematavam, de modo que o dono ou seus herdeiros podiam reavê-los mais tarde. Desta vez… a comunidade cristã-nova estava completamente dizimada e quase todos aqueles bens foram arrematados por gente da nobreza da vila, gente ligada ao capitão-mor Álvaro de Morais de Ataíde, que era quem presidia à execução das prisões e ao leilão dos bens dos prisioneiros.
Não sabemos quantas horas ou dias foram necessários para organizar a marcha em direcção a Coimbra. Também não sabemos quantos machos e burros se alugaram para transportar a cama, mesa e cozinha dos prisioneiros, que tudo eles tinham que levar, pois a cadeia não fornecia essas coisas. E também para levar algum prisioneiro que mal podia andar: Ignoramos ainda o número e a qualidade dos homens que foram requisitados para guardar os prisioneiros na viagem, mas não será difícil imaginar a sua índole e cariz.
Reparem agora no espectáculo deprimente daquelas dezenas de homens e mulheres agrilhoados e presos por cordas uns aos outros, pondo-se em marcha, açoitados pelos guardas, vaiados por grupos de populares arregimentados por frades e beatas, enxotados como se fossem cães danados pela raiva.

Não sabemos se foram ainda parar às cadeias da sede da comarca ou se a manada seguiu logo o caminho da Vilariça para a Beira, a eles se juntando presos vindos de Chacim (que foram muitos) e outras terras. Sabemos é que a manada esteve “depositada” (o termo é dos processos) em Freixo de Numão, ali se acrescentando outros presos.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – ALVES, Memórias, VI-499

2 – ALVES, Memórias, VI-501

Foto cedida pelo Museu Municipal Berta Cabral.