domingo, 12 de setembro de 2010
EFEMÉRIDES
1383-09.13 - O Rabi Santo, de Mogadouro, arrematou a cobrança das sisas do vinho nas províncias de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes.
1468-09-10 -Carta régia concedendo especiais privilégios a 40 oficiais sapateiros e alfaiates "cristãos ou judeus de Castela" que quisessem ir morar para Freixo de Espada à Cinta.
1642-09-06 - A câmara municipal de Mogadouro concedeu o privilégio de besteiro exclusivo na área do concelho a Pero Gonçalves, cristão-novo, oficial de bestas.
1468-09-10 -Carta régia concedendo especiais privilégios a 40 oficiais sapateiros e alfaiates "cristãos ou judeus de Castela" que quisessem ir morar para Freixo de Espada à Cinta.
1642-09-06 - A câmara municipal de Mogadouro concedeu o privilégio de besteiro exclusivo na área do concelho a Pero Gonçalves, cristão-novo, oficial de bestas.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
VINHAIS E O TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO
NOTAS SOBRE A COMUNIDADE MARRANA
1 . Inquisição e Judaísmo
Numeramento de 1530. Assim ficou conhecido o primeiro recenseamento geral da população feito em Portugal. Veja-se o que, acerca da vila de Vinhais, nele foi registado:
- A vila de Vinhais é cercada e a cerca em partes derribada; D. Afonso de Ataíde leva direitos e rendas dela e chama-se senhor dela; e vivem na dita vila e seus arrabaldes 84 moradores.O Numeramento não diz quantos desses moradores seriam de ascendência judaica. Mas, certamente, era uma boa percentagem, talvez a maioria, a avaliar por algumas informações que chegaram até nós. Vejam uma delas, retirada dos livros das denúncias da Inquisição:
- No dia 30 (de Maio de 1543) compareceu Rodrigo Bernardes, morador em Tuizelo, termo de Vinhais e disse (…) que em Vinhais há, dos muros para dentro, 50 moradores e desses só 3 ou 4 são cristãos-velhos…
Esta informação aparece corroborada, logo de seguida, por duas outras pessoas, moradoras na mesma vila.
Por mais dúvidas que tenhamos sobre os números apresentados, uma conclusão se impõe: a comunidade marrana de Vinhais era muito forte, possivelmente mais numerosa e mais instruída e rica do que a comunidade dos cristãos-velhos.
E naturalmente que uma tal situação despertava a animosidade destes, especialmente dos homens do clero e da nobreza da terra, aqueles que costumavam assegurar o governo da câmara e controlar a execução da justiça e da política fiscal.
E entre as duas comunidades entrou de desenvolver-se uma intensa luta política cujo palco se estendeu até ao governo do reino e ao tribunal da Inquisição.
A liderar a comunidade cristã-velha encontrava-se o ouvidor (representante do senhor da terra) – João de Morais, o velho, homem de mui nobre geração, fidalgo de cota de armas, com filhos e filhas casados nas mais nobres famílias de Bragança, Vimioso, Miranda do Douro… como eram os Madureira, Sapico, Ferreira, Sousa…
Um dos episódios dessa luta consistiu em afastar os cristãos-novos dos empregos públicos e dos cargos de chefia e governança da terra. A começar pela câmara municipal.
A comunidade marrana, porém, liderada pelo almotacé (oficial da câmara que fiscalizava pesos e medidas, taxava os preços dos géneros e tratava da conservação de pontes, calçadas e caminhos) Nuno Rodrigues fez uma exposição dos factos perante a Corte e conseguiu do rei D. Manuel sentença contra a câmara municipal.
Claro que esta vitória dos marranos não significou o fim da luta e o apaziguar das tensões. Antes pelo contrário, terá contribuído para que ela ganhasse nova intensidade e mudasse de palco. E que melhor maneira podia haver de afastar dos cargos públicos e de governo da terra os marranos do que denunciá-los por judeus? O santo tribunal se encarregaria de os prender, roubando-lhe cargos e empregos e comendo-lhe teres e haveres.
E assim terá o Santo Ofício efectuado, em Maio de 1541, em Vinhais, a sua primeira incursão, fazendo prender e conduzir a Lisboa o almotacé Nuno Rodrigues que, em Março do ano seguinte, foi libertado.
As denúncias, porém, continuaram. E mais incisivas. Como aquela que vimos ao início, feita por Rodrigo Bernardes que, depois de dizer que os 50 moradores da vila só 3 eram cristãos-velhos, acrescentou:- Os restantes guardam os sábados e, como um deles fosse preso, e se espalhasse a notícia de que a Inquisição os queria prender a todos, esteve a vila despovoada durante 8 dias porque fugiram. É voz pública que a sinagoga é em casa dum Francisco Lopes.
Seguiu-se nova leva de prisioneiros, desta vez para as cadeias da Inquisição de Évora. Entre esses prisioneiros lá foi, de novo, o mesmo almotacé Nuno Rodrigues. Desta vez a estadia nas masmorras prolongou-se por 4 anos e ele e os outros foram libertados por graça e mercê de um perdão geral decretado pelo Papa que ordenou a libertação de todos os prisioneiros da Inquisição portuguesa.
Há, porém, um facto estranho no meio desta luta político – religiosa. É que o primeiro homem que nos aparece a ser denunciado como herege na Inquisição foi exactamente João de Morais, o escudeiro fidalgo cristão-velho. Foi ele o primeiro a ser denunciado (em Março de 1541) e mais repetidamente (em 1543 e 1546). E denunciado como autor de crimes da maior gravidade e mais concretos como dizer que não havia céu nem inferno nem vida para além da morte; que era tolice ir em romaria à Senhora da Serra; que não havia excomunhões; que comia carne às sextas-feiras mesmo de Quaresma…
Acresce que a primeira denúncia foi feita por alguém de muito prestígio – Martim Trigueiro, capelão da rainha e abade de Vinhais!
Estranhamente e apesar de toda a gravidade dos factos e a acumulação de testemunhos, não o prenderam. Ou melhor: foi preso, mas 30 anos depois, em 1573, quando contava já uns 100 anos de idade!
Não podemos explicar as razões que terão determinado o desenrolar deste caso, pois não estudámos o processo de João de Morais, o Velho, patriarca da poderosa família trasmontana dos Morais Sarmento.
Voltemos atrás, ao ano de 1554, em que Nuno Rodrigues foi levado pela 3ª vez para o tribunal da Inquisição, de novo para Lisboa, de companhia com outros Vinhaenses, sendo todos libertados em Março do ano seguinte, condenados em penas espirituais, cárcere e hábito.
Nas duas décadas seguintes, aliviou-se a pressão inquisitorial sobre os marranos de Vinhais, como de resto em todo o país. Mas, a partir de 1583, depois de uma visita do inquisidor Jerónimo de Sousa, abade de Vila Flor, parece que todos os poderes do inferno se abateram sobre esta terra do Alto Trás-os-Montes, destruindo famílias, comendo haveres, liquidando empresas. Cerca de 164 homens e mulheres de Vinhais foram presos, em levas sucessivas, por década e meia, para as cadeias da Inquisição.
Alguns encontraram a morte nas bolorentas masmorras. Outros pereceram queimados nas fogueiras acesas para glória de Deus e diversão do povo, em festivos autos-de-fé. Muitos voltaram doidos, estropiados, cheios de doenças e os corações desfeitos. E dos que voltaram, apesar de tudo, os mais fortes, de corpo e espírito, conseguiram ganhar novas forças e fugir para o estrangeiro, aí reconstruindo suas vidas. E assim se arruinou a vila de Vinhais naquele findar do século XVI.
Tal como a Fénix, porém, a nação marrana de Vinhais haveria de renascer das cinzas das fogueiras da Inquisição. E de novo as forças do mal haveriam de conjurar-se contra ela, em renovadas e mais ferozes perseguições, em nome de um Deus a quem os inquisidores usurpavam o papel de juiz das consciências.
Numa terra em que o Numeramento de 1530 assinalava 84 moradores e onde o autor da Corografia Portuguesa contava, em 1706, 150 vizinhos, a Inquisição portuguesa (em Espanha se contarão mais alguns) instruiu uns 484 processos que se encontram na Torre do Tombo à espera de ser estudados para que se possa reescrever a história da vila e do povo de Vinhais e para que os Vinhaenses tomem verdadeira consciência das suas raízes e reclamem finalmente a herança de seus ancestrais e a transformem em uma rota de turismo cultural.
Este será o caminho do progresso, verdadeiro e sustentado. E por monumento primeiro dessa rota devem eleger a emblemática igreja de São Fagundo, porque era no seu adro que os marranos preferiam enterrar os seus mortos porque ali havia terra virgem, beijada pela sombra de um enorme sardão.
2. Inquisição e maçonaria.
Não entrando em académicas análises, podemos afirmar que a Inquisição portuguesa foi criada como um tribunal religioso para defender a pureza da doutrina católica contra as heresias e comportamentos escandalosos.
Cedo se transformou, porém, em instrumento do poder político, detido pelas classes da nobreza e do clero, voltado contra a classe mercantil e burguesa, essencialmente constituída por marranos.
Com a ascensão do marquês de Pombal à chefia do governo do rei D. José, a Inquisição virou polícia política muito motivada contra as ordens religiosas, em especial os Jesuítas.
Caído em desgraça o Marquês, a Inquisição foi colocada na dependência do Intendente Geral da Polícia, Diogo Inácio Pina Manique e o alvo privilegiado do mesmo tribunal passou a ser a Maçonaria, o clube dos livres-pensadores.
Por uma estranha casualidade, o último processo instruído pela Inquisição a gente de Vinhais foi ao cónego D. André de Morais Sarmento, por ser membro da seita dos pedreiros - livres.
Quando o prenderam e revistaram a casa, no dia 31 de Outubro de 1791, encontraram –lhe dentro de um pequeno baú encoirado um manuscrito com o título seguinte: Explicação da maçonaria aos recém recebidos, o qual será o mais antigo texto maçónico português – segundo afirma o historiador Oliveira Marques.
No auto de apreensão do manuscrito, incluído no processo, pode ainda ler-se:
- E igualmente lhe foram achados no dito baú quatro embrulhos, em cada um dos quais se achava um pedaço de peliça branca à maneira de pequeno avental, com umas fitas azuis nas pontas, tendo todos os ditos quatro aventais as insígnias e dísticos seguintes estampados nos mesmos, a saber:
De um lado a figura do sol e do outro a lua e no meio um compasso e um triângulo e por baixo o dístico: lux mundi.
E da outra parte nas costas dos mesmos aventais, a figura de uma caveira com dois ossos que demonstra a morte e por baixo o dístico: memento mortis…
Nas comemorações do centenário da fundação da República, acto que muitos atribuem à Maçonaria e à Carbonária, terminamos este texto com a seguinte afirmação produzida pelo principal denunciante de André de Morais e seus companheiros de Loja:
- E disse o dito José Inácio que desconfiava que a revolução de França principiara na Grande Loja de França da dita seita, porém que cá não sucederá porque os portugueses não eram capazes para isso.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processo 5321, de Nuno Rodrigues.
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8725, de João de Morais, o Velho.
IANTT, Inquisição de Lisboa, processo de D. André de Morais Sarmento.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
-OS MARRANOS EM TRÁS OS MONTES de AMÍLCAR PAULO
A GUISA DE ABERTURA
O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tenacidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportunamente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacionalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a provincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçadamente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoações, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase totalidade, por habitual mister ou obrigatória disposição, às artes, aos ofícios mecânicos, ao comércio de toda a espécie, à usura e contrabando, mas obrigados ao pagamento de pesados impostos, além da antiga sisa judenga.
O povo oriundo, católico, de rudimentar preparação mental e precária economia, como lhes invejava a prosperidade, odiou-os sempre, mas os réprobos, intelectualmente superiores e voluntariosos, resistiram estoicamente a impostas conversões, a todos os vexames e ataques, suportando sucessivos roubos e extorsões, com impressionante persistência e resignação. Nem os bárbaros processos de Santo Oficio, perpetrados nas pavorosas masmorras, nem os ferinos autos-de-fé, executados com lúgubre publicidade, conseguiram obliterar, no ânimo perseverante dos pei seguidos, a obstinada ideia religiosa, mantida com custo constante e doloroso, com a oferta suplicante da própria e preciosa vida, em verdadeiro holocausto.
Apesar de tamanhas perseguições e desgraças, conseguiram sobreviver, e ainda hoje, em algumas dessas localidades, Bragança, Vimioso, Carção, Argozelo, Asinhoso, Vilarinho dos Galegos, Lagoaça... se apontam muitas pessoas, como portadoras da ominosa mácula e, mesmo, como devotados praticantes da antiga fé.
Seus usos privados, práticas O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tenacidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportunamente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacionalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a provincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçadamente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoações, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase
e rezas, mantêm-se vivos, na actualidade, em muitas famílias onde a indiferença ou a apostasia não puderam vencer; modificadas pelo tempo, deturpadas pelo receio do ouvido atento de profanos delatores, transmitem-se, quase sempre, de uns a outros, por tradição verbal.
O conhecimento destes e outros pormenores interessa fundamentalmente aos estudos etnográficos e folclóricos, constituindo precioso material de difícil aquisição, pela manifesta relutância, que os adeptos sentem em transmiti-las, para pública revelação.
Assunto interessante, mas pouco versado, bem merece a atenção dos entendidos, para que possa narrar-se a verdadeira acção deste povo estranho, sempre malquisto e atacado, na colectividade nacional.
O consciencioso e vasto trabalho, que Amílcar Paulo conseguiu elaborar, ê muito curioso e útil, e abrange, em grande parte, o leste trasmontano, onde nasceu e a que muito quer.
Mostra, claramente, inteligente e penoso esforço de investigação oral, realizado em ambiente fechado e receoso, em diferentes e distanciadas povoações, que nem sequer possuem os indispensáveis recursos para regular estadia, ião necessária a fatigado peregrinador.
Trata-se de valioso estudo monográfico, que o Autor completou com esclarecedoras notas e citações, comprovativas de vincada origem hebraica, de preceitos e orações, ainda em uso naqueles núcleos de provecta idade, mas de feliz lembrança e memória pronta.
Um boa hora, o apreciável jornalista se inclinou para esta especialidade, e tesolveu revelar, a todos aqueles a quem agrada o conhecimento da nebulosa matéria, o resultado das suas indagações.
Afinal, quero anotar o facto invulgar de, com a publicação destas «novas achegas», se ter realizado o voto do erudito escritor, distinto polígrafo, Doutor Eugénio da Cunha e Freitas, expresso em artigo publicado neste acolhedor «Boletim», e manifestar o desejo de que o Autor continue a árdua tarefa de salvar do esquecimento o copioso manancial de noticias ainda existente na nossa região.
Porto, 1956.
Casimiro de Moraes Machado
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
-JOSÉ ANTÓNIO PINTO
Originário de Torre de Moncorvo,
circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão
Livorno é uma cidade da costa ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
Naturalmente que, abrindo-se-lhe uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300 membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam depois para os países da Europa central e meridional e também para o império Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro, sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.
No sentido de controlar o comércio da região do Magrebe (Norte de África), a “nação” de Livorno cedo abriu uma sucursal em Tunes e, em 1685, estavam ali registadas umas 50 famílias, num total de 300 indivíduos. Filippini calcula que entre 83% e 94% das exportações de Livorno para o Norte de África estivessem então nas mãos dos judeus.
Também com o Império Otomano Livorno conseguiu estabelecer relações privilegiadas e aceder ao comércio do Levante. E para fortalecer essa posição, estabeleceu também uma sucursal em Alepo, no Noroeste da Síria, ponto de partida das caravanas na famosa rota da seda e entreposto das mercadorias do Oriente. O mesmo Filippini calcula que os judeus de Livorno tinham entre 11% e 35% das exportações para o Levante.
De entre as firmas comerciais dos sefarditas de Livorno, destacava-se a da família Mogadouro – Vila Real, liderada por Gabriel Medina. De resto, predominavam as pequenas e médias empresas e a família era a base da organização social e empresarial entre a “gente da nação”, o que mantinha a confiança entre eles e permitia a tomada de decisões em tempo oportuno, condições essenciais para o sucesso no mundo dos negócios.
Vamos então até Livorno, ao ano de 1660, onde acabou de chegar Jorge Pinto, homem de seus 35 anos, originário de Torre de Moncorvo, com sua família que era constituída pela mulher (Beatriz Gonçalves, 6 anos mais velha que ele, natural da cidade da Guarda) e dois filhos, ambos nascidos em Cótimos, termo de Trancoso. O mais velho chamava-se Luís e tinha uns 15 anos e o mais novo, António, nascido em 14.4.1647.
Estes não viajaram na nau Jerusalém, mas em um navio inglês (ou seria holandês?) que apanharam em Alicante, Espanha, pagando 2 mil pesos pelo frete. À chegada a Livorno foram recebidos por seus parentes Daniel França e Jacob França, em cuja casa ficaram alojados.
Contaram que, depois de casar, foram residir em Cótimos e dali saíram por 1650 com destino a Málaga, em Espanha, onde já morava o pai e um irmão de Jorge. Aí, este e o pai acabaram por ser presos pela inquisição de Granada. Despachado o seu processo e cumprida a pena, Jorge dirigiu-se com a mulher e os filhos para Orihuela, uma terra do sul de Espanha, próximo de Alicante, onde permaneceram cerca de 4 meses “valendo-se da confiança e amizade de Jerónimo Fernandes, um português que tem sua mulher e filhos em Livorno onde são públicos judeus”, antes de embarcarem também para ali.
Em Livorno, os novos imigrantes fizeram-se “imediatamente” judeus , sendo circuncidados e adoptando nomes hebreus: Isaac Pinto, o pai; Sara Pinto, a mãe; Jacob Pinto o filho Luís e David Pinto, o mais novo, que em Cótimos fora baptizado com o nome de António e que, a partir de agora, vamos chamar de José António Pinto. Este é o protagonista do processo que estamos seguindo da inquisição de Lisboa, registado com o nº 2583.
É um processo deveras interessante para o estudo da vivência religiosa da comunidade sefardita de Livorno. Além da descrição pormenorizada da sua própria circuncisão, (berit-milá), José António fala das orações (shemá, amidá…) que rezavam na sinagoga onde iam 3 vezes ao dia, dos objectos ali usados e vestidos (kippa, taled, tefelin…), das cerimónias e dos oficiantes, dos jejuns (da rainha Ester, do dia grande, da guedalia…), dos rituais da matança dos animais e fabrico do pão ázimo, da celebração da Páscoa, etc…
Em Abril de 1668, José António saiu de Livorno para Argel, dali passou a Tânger “a tratar de negócios de seu pai” e a Tetuão “onde reside um irmão deste, Luís de Saldanha, com o qual o pai tinha negócios”. E este é um exemplo prático do que atrás dissemos sobre a estrutura empresarial familiar dos sefarditas. Refira-se também que a comunidade judaica de Tetuão vivia em um bairro próprio que chamavam Melaj (Salgadeira, acaso pelo tratamento de salga que ali faziam de couros e peles) e possuía 16 sinagogas.
Ficou por uns tempos em casa do irmão, que já era casado e em Tetuão tinha a família. E depois, de acordo com este, partiu novamente em viagem de negócios, rumo a Cádis e Antequera, cidades do sul de Espanha. Àquela parece que ia com ideias de comprar tecidos que remeteria ao irmão e a esta disse que ia cobrar “um vale de 8 mil e 500 réis”.
Estranhamente (ou talvez não), de Cádis dirigiu-se a Sevilha e, no dia 8 de Janeiro de 1670, foi apresentar-se ali no tribunal da inquisição. Contou a história da sua vida (com algumas mentiras) dizendo que era “judeu de sinal” em Livorno, mas que “resolveu passar-se a Espanha para ser cristão e baptizar-se”.
Pensaria ele que assim o aceitariam e lhe dariam qualquer documento para livremente poder andar por Espanha, sem receio de possíveis denúncias, já que era fácil, em qualquer esquina, encontrar quem o conhecesse de garoto ou o tivesse visto por Itália ou pelo Norte de África a entrar nas sinagogas e a assumir-se publicamente como judeu. Para que a história ganhasse consistência, mentiu quanto ao local de seu nascimento e nome de baptismo, disse que de Cádis escreveu ao irmão contando-lhe o seu propósito de “redução” ao cristianismo e que este reagira dizendo que “gastaria a sua vida e fazenda para o matar” se levasse avante seu intento. Esta informação fora-lhe dada em Tânger por um primo.
Claro que os inquisidores tinham muito calo já, disseram que iam estudar o seu caso e mandaram que podia ir em Paz e negociar à vontade, mas que não saísse de Sevilha sem ordem do tribunal até o seu processo de redução ser despachado. E por Sevilha andou ele alguns meses e várias vezes ele se terá dirigido ao tribunal em busca do despacho que… nunca mais vinha.
Desconfiado de que alguma coisa se passaria, abandonou a cidade de Sevilha e o reino de Espanha e foi-se a Lisboa. Ali, ao cabo de 22 dias, em 29 de Agosto de 1670, foi preso e “posto em custódia nos cárceres da penitência”. Era uma espécie de detenção ou prisão preventiva – como hoje dizemos. Efectivamente não havia denúncia alguma de qualquer crime cometido contra a fé cristã. Na base desta detenção estará o édito que, de imediato, a inquisição de Sevilha pôs a circular e onde se avisava:
- Foi determinado que o réu fosse buscado com diligência e fosse castigado por inobediente e transgressor dos mandatos deste tribunal o qual manda que se escreva a todos os portos para que se buscasse este réu.
E logo depois de preso, colhidas as primeiras declarações e detectadas algumas contradições, começou a organizar-se o processo contra José António Pinto que, em 28 de Fevereiro de 1671, foi formalmente entregue ao alcaide dos cárceres secretos da inquisição, onde foi metido. Vejamos agora as provas testemunhais que depois apareceram contra ele:
* Jacome Assucar, natural de Ishafan, na Arménia, disse que viveu em Tetuão e ali conheceu José António Pinto e o irmão, este nascido no Porto e aquele em Málaga – segundo diziam. E que em Tetuão sempre os viu frequentar as sinagogas e viver como judeus. Que depois se encontrou com José António em Salé em Tânger, em negócios, ali se apresentando igualmente como público judeu “posto que não mudava de traje como não costumam mudar os que vão só negociar” Que o encontrou depois em Lisboa e que até lhe deu novas de seu irmão que vira há 2 meses. E estranhou que, dando-lhe a morada em Lisboa, numa estalagem “junto aonde faziam as comédias” ali o não tenha já encontrado dias depois quando o foi procurar, depreendendo ele “que andava disfarçado, com receio de ser conhecido, porque nesta cidade não se trata como judeu público, antes o encobre”. Em prova de seu testemunho, ele indicou Toros Minos, também mercador da Arménia, um Monsieur Vicente, francês de nação e dois homens de Faro que estiveram cativos dos Mouros em Salé.
* Toros Minos, aliás, Teodoro Inácio, que por Tetuão e Salé andou negociando com Assucar, confirmou tudo e acrescentou que, ao vê-lo em Lisboa, lhe perguntou como se atrevia a vir a esta terra sendo judeu. Ele respondeu que viera fazer umas cobranças e comprar umas fazendas para enviar ao irmão e “se aqui soubessem que ele era judeu, havia de dizer que era filho de pai judeu e que se queria fazer católico (…) e que por isso fugira ao seu pai (…) quando o procurasse na estalagem (ao beco das Comédias) fosse com o nome de Joseph, dizendo que era sargento (…) se lhe perguntassem quem ele era dissesse que o não conhecia porque era italiano.
* Dos homens de Faro cativos em Salé não se achou rato. Mas em Lagos residia temporariamente (“por ocasião do contrato dos atuns”) o tal Vicente David, mercador francês da cidade de Marselha, cuja vida se repartia ainda por Tetuão e Lisboa. Também ele disse conhecer os irmãos Pinto como judeus que frequentavam as sinagogas.
* João Pires Rodrigues estava preso em Lisboa e foi na cela onde ele estava que, às tantas, meteram o José António. E depois de falarem, João concluiu que, afinal, conhecia os seus pais. E, confiado na sua amizade e discrição, o moço com ele desabafou, contando-lhe tudo e de como foi de Sevilha para Madrid e dali passou à Guarda, cidade onde esteve em casa de seu tio Belchior Mendes, antes de vir para Lisboa e ser preso. Acrescentou que ao sair da prisão haveria de levar uma prima, filha daquele seu tio, para Itália e com ela casar e havia de tornar a viver na lei de Moisés “que quem era judeu não tornaria a ser bom cristão” e que à religião cristã “não havia mais que mamá-la e calá-la”. Como era de esperar, João Pires não demorou a pedir audiência e a contar tudo aos inquisidores.
De posse do relatório da inquisição de Sevilha que entretanto viera e destes depoimentos, fácil foi aos inquisidores fazer o José António cantar tudo, explorando muito bem as suas contradições, de modo a clarificar a sua posição de judeu circuncidado que se queria “reduzir” ou de cristão baptizado que virou judeu e pretendeu “enrolar” a santa inquisição, “mamar e calar” os ensinamentos da igreja.
Na primeira audiência, em 1 de Setembro de 1670, ainda ele estava muito confiante, continuou a dizer que queria sinceramente “reduzir-se” ao cristianismo e se abandonou Sevilha foi por pouco tempo, por necessitar muito de vir a Lisboa fazer um negócio mas logo voltaria para Sevilha, até porque deixara em depósito no santo ofício uma caução de 11 mil “reales” que esperava lhe fossem devolvidos, com o despacho do seu processo de “redução”.
Mais tarde diria que em Sevilha ganhou estreita amizade com o capitão Don Henrique de la Torre que lhe dava “dinheiro, vestidos e cavalos em que andava” a quem foram dizer que ele era judeu e a inquisição o iria prender e o mesmo capitão ficou desapontado, considerando-se desonrado por antes o apresentar como seu parente. E foi essa intriga o motivo por que fugiu e rumou a Lisboa, com ânimo de embarcar para o Brasil.
Correu o processo e, provada a acusação de judaísmo, os inquisidores estavam também interessados em recolher o máximo de informações sobre outros cristãos-novos portugueses que andavam por Itália, Magrebe e outras terras fugidos da inquisição e a viver como judeus. E neste particular o processo de José António é bem interessante, dando informações como estas:
*Gabriel Medina é em Livorno o homem forte da empresa dos Mogadouro, de Lisboa e são todos passadores de cristãos-novos portugueses para Itália onde se fazem judeus e, como passadores, usam falsos nomes de mercadores italianos.
* Entre as famílias saídas da região de Torre de Moncorvo para Livorno e que ali vivem como judeus praticantes contam-se as de Simão Henriques Pimentel, aliás, Abraão Henriques Pimentel e sua mulher Brites Guterres, pais de António, aliás, Isaac Pimentel, de Manuel, aliás, Jacob Pimentel e de Ana e Brites Pimentel; Cristóvão Vaz França, aliás, Jacob Vaz França, casado com brites Nunes, pais de Jorge, aliás, David França e Daniel França; Rafael de Sousa; um homem que em Portugal era conhecido por Santilhano e que em Livorno se chama Aaron Franco de Albuquerque…
* Também em Veneza ele referenciou cristãos-novos de Torre de Moncorvo, processados pela inquisição e dela fugidos e que por lá são judeus: Jacob de Carvalho e seu irmão Daniel de Carvalho.
Bem espremido foi José António Pinto pelos inquisidores que, para acabar de deitar tudo cá para fora, o sujeitaram a duplo tormento – um trato esperto e outro corrido. Finalmente e depois de mil juras de arrependimento e pedidos de misericórdia e perdão, o seu processo ficou concluído, saindo no auto-de-fé de 10.12.1673, condenado a cárcere e hábito perpétuo, confisco de bens e desterro por 3 anos para o Brasil.
Em Abril de 1674, ainda ele esperava embarque e encontrava-se doente, tolhido dos braços e das mãos. Mandado para o hospital de Todos os Santos, os médicos que o atenderam logo informaram que não conseguiriam curá-lo e pô-lo em condições de proximamente embarcar para o degredo. Doente e sustentado por misericórdia, escreveu aos inquisidores uma carta muito sofrida em que desabafava “ser melhor que o embarquem nas naus e no mar morra por doença, que de fome em terra” o matem. Acabou por ser-lhe comutada a pena, sendo desterrado para Almeida onde se apresentou em 13.6.1674.
Refira-se, finalmente, que José António Pinto era um poliglota que sabia ler e escrever em espanhol, francês, português. Italiano e hebraico e tinha 27 anos quando saiu da inquisição de Lisboa, certamente com ânimo de refazer sua vida.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
-Miranda do Douro
JOÃO DE MIRANDA – Rabi da comuna de judeus
Não conseguimos encontrar o processo que a Inquisição de Lisboa certamente instruiu contra o cristão-novo João de Miranda. Acaso ele desapareceu. E talvez por isso nunca este homem mereceu especiais referências dos estudiosos da comunidade marrana de Miranda do Douro. Dessas referências registamos a de Maria José Ferro Tavares (haverá outras?) que é do seguinte teor:
Sim: tal como o Costanilha, João de Miranda era pessoa de muita influência no seio da comunidade cristã-nova da terra, pois terá sido um dos últimos, senão o último rabi da comuna de judeus de Miranda do Douro. Vamos então ver o que sobre ele conseguimos encontrar, alertando para a possibilidade de mais elementos aparecerem em outros processos que não consultamos.
A fazer fé no testemunho de Diogo de Leão, da rua Nova, que em 1542 lhe atribuía 90 anos, João terá então nascido por 1452. (2)
Quando o rei D. Manuel publicou o decreto de expulsão dos judeus, teria ele uns 44 anos, sendo casado com Isabel Garcia e dela tinha um filho – Diogo de Miranda – ao qual dedicaremos um dos próximos capítulos. E tinha, pelo menos, outros 3 filhos, de um primeiro casamento, cuja consorte ignoramos, e que eram:
* Amador de Miranda que mais tarde foi casar em Castela e lá fixou residência.
* Filipe de Miranda que foi preso pela Inquisição de Lisboa, como se verá. (3)
* Francisca de Miranda que casou com António Lopes, irmão de Diogo de Leão da Costanilha, atrás apresentado. Por 1558 era já viúva e residia em Alcanices, Castela. (4)
Claro que todos estes nomes foram por eles tomados pela Páscoa de 1497, na altura em que receberam a água do baptismo cristão, ignorando-se os nomes judeus que antes tinham. Sim: João de Miranda e sua mulher e filhos fizeram parte da multidão de baptizados em pé, ou seja, os que então foram obrigados por decreto do rei D. Manuel a abandonar a religião judaica e abraçar o cristianismo fazendo-se baptizar. Imagina-se quanto isso terá sido doloroso para um homem que foi rabi, mestre da lei. E percebe-se também que, apesar de todos os esforços, por mais vontade que tivesse, não seria fácil alterar as suas convicções religiosas. Percebe-se que João de Miranda, como a generalidade dos que receberam o baptismo forçado, continuaria a ser judeu, muito embora se comportasse exteriormente como cristão. Se as águas baptismais lavaram facilmente os nomes e as caras dos judeus, não lavaram as suas almas.
40 anos depois, quando foi criado o tribunal da Inquisição para julgar os que, tendo recebido o baptismo, eram apanhados a rezar, a fazer cerimónias ou realizar actos próprios da religião judaica… tinha João de Miranda uns 84 anos e, anos depois, logo que o tribunal entrou de funcionar regularmente, ele foi encarcerado e acabou queimado na fogueira, em data que ignoramos, mas antes de 1544. Acaso terá sido ele o primeiro dos cristãos-novos de Miranda de Miranda do Douro a experimentar tão trágica punição. (5)
Não sabemos qual o comportamento de João de Miranda no decorrer do processo. Mas, entre as acusações feitas pelo promotor de justiça contra Diogo de Leão da Costanilha, ficou registada a seguinte declaração:
- João de Miranda disse que o réu judaizava largamente falando sempre em hebraico com outros cristãos-novos (…) o dito João de Miranda afirma publicamente que em casa do dito réu se faziam ajuntamentos de cristãos-novos que andavam alvoroçados em fazer cerimónias judaicas e que jejuavam o jejum do kipur e disputava sobre a vinda do Messias tendo e afirmando que não era vindo e nas coisas que praticava falava hebraico com os outros cristãos-novos nas profecias e autoridades que alegava (…) e diz mais o dito João de Miranda que rezava o réu as orações judaicas e praticava sobre o que haviam de fazer nas Páscoas dos judeus… (6)
Em resposta a estas acusações, a defesa de Diogo de Leão ficou assim registada no mesmo processo, a folhas 68:
- É de pouca fé e crédito que se deva dar a João de Miranda, notório que foi um grande judeu vestindo um nome de cristão, como lobo com pele de ovelha e por tal foi julgado e queimado (…) o dito João de Miranda foi rabi e judeu…
No mesmo processo estão ainda registadas outras referências a João de Miranda. Numa delas, (folha 1) Diogo de Leão, o da rua Nova declarou:
- Que sabiam quando caía o dito jejum (do kipur) por João de Miranda e pela sua mãe dele Diogo de Leão que é falecida.
Outra confissão do mesmo, feita em Abril de 1543 e registada na folha 72 reza o seguinte:
- Disse ele Diogo de Leão que era verdade que haverá 7 ou 8 anos, em um dia, estando ele com João de Miranda nas ferrarias do espírito Santo junto à vila de Miranda, ele João de Miranda lhe dizia que o Messias não era ainda vindo e que ainda havia de vir e que a lei dos judeus era boa e que fora primeiro dada e não a dos cristãos e que quando o Messias viesse Roma havia de ser tomada e que se haviam de juntar todos em Jerusalém.
Ainda no mesmo processo, a folhas 75, está registada uma confissão semelhante mas feita por um outro prisioneiro, o que reforça a sua credibilidade sobre a liderança religiosa de João de Miranda. Vejam:
- Aos 23 de Maio de 1543, no colégio da doutrina da fé, estando ali o inquisidor João de Melo, mandou vir perante si a André Gavilão e entre outras coisas disse que haveria 6 anos, estando ele Andrá Gavilão na vila de Miranda onde é morador e que um João de Miranda ia com ele e com Diogo de Leão, da rua Nova e outros ao campo a umas eiras que estão junto à ermida do Santo Cristo e lhes dizia que o Messias não era vindo e que quando viesse havia de Roma ser destruída e que os judeus haviam de tornar a Jerusalém.
De entre os Mirandeses que naquela altura foram hospedados nas masmorras da Inquisição de Lisboa, e para além dos já citados, contavam-se dois filhos de João de Miranda: o Diogo e o Filipe de Miranda. Com o primeiro não sabemos se ali se cruzou alguma vez. Com o segundo, sim, esteve cara a cara, na sala de audiências, na presença e por iniciativa do inquisidor João de Melo. Antes de relatarmos o encontro, atentemos no estado de espírito de cada um.
João de Miranda, a esse tempo, tinha já confessado as suas culpas e denunciado os seus companheiros. Tinha também declarado que dera uma educação judaica aos filhos, carregando assim a culpa deles. Pensaria, naturalmente, que essa era a única forma de alcançar o perdão e ver-se livre da cadeia. E entre outras coisas confessou que, já na cadeia, jejuara no kipur e que recomendara ao filho que fizesse o mesmo.
Filipe de Miranda, ao contrário, continuava negando todas as acusações que lhe faziam, que não tinha qualquer culpa a confessar, que nunca judaizara e, em concreto, que nem sequer soube quando caiu o kipur nem fez qualquer jejum, ao contrário do que o pai afirmara.
E foi com esta disposição de espírito que pai e filho foram postoa cara a cara. Vejamos agora como as coisas se passaram nesse encontro, conforme o registo então feito pelo notário da Inquisição e que consta do processo de Filipe de Miranda:
- Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1542, aos 22 de Março, nas casas do despacho da santa Inquisição, estando ali preso João de Miranda, o senhor dr. João de Melo apresentou ao dito João de Miranda Filipe de Miranda, mancebo, solteiro, seu filho. E o dito João de Miranda pedira para que viesse falar com ele, sabia que isso era necessário e que cumpria para sua salvação. E estando ali o dito João de Miranda viu diante de si o seu filho e em presença do senhor inquisidor e mais testemunhas disse que ele réu pedia perdão e que havia ensinado a Filipe de Miranda e aos outros filhos o Kipur e as festas das Cabanas e da Páscoa do pão asmo para as guardarem e que fizessem o que ele seu pai fazia e as guardava.
- E logo o dito seu filho Filipe de Miranda disse ao dito seu pai que não sabia o que dizia, no que falava, que estava tornado do miolo, que estava louco e que nunca tal lhe ensinara nem lhe disse o que havia de fazer.
- Ao que o dito seu pai lhe disse que não estava louco e que falava a verdade e que havia de pedir ao senhor inquisidor que mandasse vir a sua mulher e outras pessoas da sua casa para os reconciliarem e pedir perdão.
- Filipe de Miranda disse que o pai estava louco e que não sabia o que dizia.
- E João de Miranda (voltou a dizer) que mandara dizer-lhe que jejuasse o jejum do Kipur este Outubro passado e o mesmo fizera Dinis Álvares a um seu filho, e que ele disse que o faria… E João de Miranda disse a Filipe de Miranda que o olhasse, que não fugisse ao que dizia… (12)
E terminamos este capítulo com as declarações de mais um prisioneiro de Miranda do Douro onde se reafirma que João de Miranda era um doutrinador messiânico:
- Aos 23 de Maio de 1543, no colégio da doutrina da fé, estando ali o inquisidor João de Melo, mandou vir perante si a André Gavilão e entre outras coisas disse que haveria 6 anos, estando ele André Gavilão na vila de Miranda onde é morador e que um João de Miranda ia com ele e com Diogo de Leão, da rua Nova e outros ao campo a umas eiras que estão junto à ermida do Santo Cristo e lhes dizia que o Messias não era vindo e que quando ele viesse havia de ser Roma destruída e que os judeus haviam de tornar a Jerusalém. (13)
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
NOTAS
1- MARIA JOSE PIMENTA FERRO TAVARES, Para o Estudo dos Judeus de Trás-os-Montes Sec. XVI, in: Cultura História e Filosofia, vol. VI, p. 380, Lisboa, 1985
2- IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 4532, de Diogo de Leão, f 15: - “Entende provar que João de Miranda era judeu e herege, sendo homemde 90 anos e muito falho de juízo”
3- IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 12112, de Filipe de Miranda.
4- Em 1544, quando António Lopes estava preso no tribunal de Évora, disse que tinha 3 filhos, a saber: Diogo, de 7 anos; Álvaro, de 4 anos e Isabel, de (?) idade. – pº 2945
5- Para além de João de Miranda e dos primos Diogo de Leão, na primeira leva de presos de Miranda contar-se-iam ainda os seguintes cristãos-novos:
* Jácome Valentim
* Duarte Navarro
André Gavilão
Dinis Álvares de Carvajales
Luís Fernandes
* Jácome Valentim (IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 4642). - Tinha 40 anos e era filho de Valentim de Barros e de Leonor Gonçalves.
* Duarte Navarro (IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 12770). Pensamos que nem chegou a estar preso e o seu processo consiste em um simples auto de declarações. Traz apenso um documento raro, que é uma sentença proferida pelo juiz dos órfãos de Miranda em 14.3.1496. Este documento foi lido e publicado pelo DR. HUGO MIGUEL CRESPO, no jornal Terra Quente de 15.8.2008, sob o título: Uma descoberta única: uma sentença da comuna judaica de Miranda do Douro nas vésperas da conversão geral.
* André Gavilão era casado com Isabel Gonçalves, Pimparel, uma irmã da mulher do Costanilha, a qual foi também processada e de quem se falará mais à frente. Por agora, refira-se que quando ela foi presa, era já viúva há mais de 10 anos, podendo desconfiar-se que André Gavilão terá morrido nas prisões do Santo Ofício, ou ter sido relaxado. Não conhecemos o seu processo.
* Dinis Álvares residia já em Bragança. O seu nome é referido em vários processos sempre aliado aos de João de Miranda e Diogo de Leão da Costanilha, mas “era muito mais douto”. Quando o Costanilha e o Miranda não sabiam responder a alguma questão, mandavam perguntar a Dinis Álvares “o qual vivia a 10 ou 12 léguas da dita vila”, segundo refere uma testemunha. De resto, sabe-se que Dinis Álvares veio de Zamora e que era casado com Isabel de Castro. Uma filha do casal, residente em Bragança, viria a ser presa pela Inquisição de Évora em 1545 – Pº 11641.
Luís Fernandes (IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 13199 e pº 12298).
6- IANTT, Inquisição de Lisboa, pº 4532, de Diogo de Leão, f. 64 e seg.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
-Retalhos da História de Vila Flor - XII
AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
FAMILIA ALVARENGA
Recordam-se do boticário Manuel de Alvarenga Cabral que, 20 anos atrás, se fartou de denunciar mulheres cristãs-novas da família Pereira que via judaizar, espreitando da sua casa? Pois, na vaga de 1667, também na sua família houve prisões, sob a acusação de judaísmo e foram as seguintes:
1 – Belchior Coelho de Meireles, filho de Manuel Alvarenga Cabral e de Maria Coelho Meireles, solteiro, estudante em Coimbra. (1)
2 – Ângela Coelho, irmã do anterior, solteira. (2)
3 – Sebastião Coelho Meireles, irmão dos antecedentes. Tinha 45 anos e mantinha-se solteiro. Era formado em cânones (advogado) e ocupava o honroso e proveitoso cargo de ouvidor dos Senhores de Sampaio. (3)
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografia cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 620, de Belchior Coelho Meireles
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8746, de Ângela Coelho.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 9021, de Sebastião Coelho Meireles.
domingo, 22 de agosto de 2010
Retalhos da História de Vila Flor - XI
AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
FAMÍLIA AZEVEDO MADUREIRA
1 – António Domingos de Madureira. Tinha 32 anos e era casado com Ana do Sil Carneiro. Filho de Manuel de Azevedo, escrivão das sisas e de Luísa de Madureira, a sua família era, talvez, a mais nobre de todas. Seu avô paterno viera de Castela e desempenhara o cargo de almoxarife em Ocaña. Foi casado 3 vezes, com mulheres de indiscutível nobreza: Domingas do Sil, Maria Coelha e Ana de Lobão. Uma tia paterna (Maria de Madureira) estava casada em Mogadouro com o capitão-mor Belchior Pinto Pereira, os quais tinham um filho, Gaspar Pinto Pereira, casado em Mirandela, em família de igual nobreza. Em Torre de Moncorvo estavam muitos tios e tias, nomeadamente António Domingos de Madureira, do tronco da família Carvalho e Castro. (1)
De seus bens sobressaem olivais nos sítios de Santa Luzia, da Cruz da Senhora da Veiga e da Ribeira, bem como uma vinha à Fonte do Seixo, que produzia 70 almudes de vinho.
E tinha a terça parte da herança de seu pai, que ainda não fora partida e incluía uma casa na rua da Fonte, uma vinha, 4 olivais e 5 terras de pão.
2 – Catarina de Azevedo, prima do anterior, pelo lado paterno. (2)
3 – Simão Vaz, sapateiro e curtidor, marido da antecedente. (3)
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8755, de António Domingos de Madureira
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8752, de Catarina de Azevedo.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 643, de Simão Vaz
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
sábado, 21 de agosto de 2010
-Retalhos da História de Vila Flor - X
AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
FAMÍLIA MONTES DE ALMEIDA
Os Montes de Almeida eram outra das famílias mais nobres de Vila Flor, ligados com os Borges, os Lemos, os Madureira--- Vejamos os membros desta família que foram na leva de 1667:
1 – Francisco Montes de Almeida, filho de Manuel Montes e de Isabel de Almeida, viúvo de Maria Borges. Ocupava o cargo de escrivão dos órfãos de Vila Flor, tal como e desempenhou seu pai, seu avô e seu bisavô paternos. (1)
Quando foi preso, residia em Torre de Moncorvo, na rua das Barreiras. Tinha propriedades agrícolas no sítio das Casas Queimadas, na Laranjeira e na Fonte do Carvalho. E tinha bens de uma capela, nomeadamente um pomar à Fonte do Carvalho, que valia 80 mil reis e um olival em S. Paulo que dava 25 almudes de azeite e valia 30 mil reis.
E em Vila Flor tinha umas casas de sobrado na rua de Santa Luzia “que foram dadas em folha por preço de 80 mil reis”.
Na mesma rua tinha um palheiro e mais uma casa térrea.
Tinha terras nos sítios do Paio Correia, Seixo, Soutinho, portela da Junqueira, cabeço do Bensaúde, portela de S. Paio, Casa da Mouroa, carrasco, Vale da Pala… Sobressaindo uma vinha ao Paio Correia “tapada sobre si que dá 100 almudes de vinho e vale 80 mil reis”.
2 – Joana Borges. Era filha do anterior e de sua mulher Maria Borges. Tinha 22 anos e estava solteira. Também ela denunciou o pai como judaizante.
3 – Francisco Montes de Almeida. Meio irmão da anterior, filho de Francisco Montes e de uma Ana Gomes. Tinha 23 anos e era soldado a cavalo na praça de Chaves.
4 – Ana Montesa, ou Ana de Almeida. Da mesma idade do anterior e filha do mesmo pai mas de outra mãe, uma tal Isabel Nunes.
5 – Ângela de lemos. Estava casada com Paulo Montes de Maduraira, filho de Diogo Montes (irmão do primeiro Francisco) e de Jerónima de Madureira.
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo_4758, de Francisco Montes de Almeida.
Por alvará de 9.6.1641, foi Manuel Montes nomeado para o cargo de escrivão dos órfãos, com faculdade de, em sua vida, ou por sua morte, poder nomear um de seus filhos.
Idêntico alvará foi publicado em 18.12.1658, nomeando Gregório Montes Botelho para o mesmo cargo, “por falecimento de Manuel Montes”.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 6054, de Joana Borges.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8757, de Francisco Montes de Almeida
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 10291, de Ana Montesa
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5956, de Ângela de Lemos.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
domingo, 15 de agosto de 2010
-Retalhos da História de Vila Flor - IX
AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
A FAMÍLIA DO CAPITÃO-MOR ALVARO MORAIS ATAÍDE
Na grande leva de Fevereiro de 1667, foram pelos menos 7 membros da família do capitão-mor e que passamos a apresentar, acrescentando sobre alguns curtas notas retiradas dos processos:
1 – Pedro de Morais. 52 anos, escrivão da câmara de Torre de Moncorvo, filho de Diogo de Morais, feitor mor das alfândegas de Trás-os-Montes. Dizia-se cristão-velho, mas os inquisidores descobriram-lhe ¼ de cristão-novo, pela parte de sua avó paterna, Catarina Álvares. Aliás, ele próprio saberia disso, como sabia que seu pai e dois tios paternos (Francisco e Pedro de Morais) haviam já passado pelas cadeias do Santo Ofício. (1)
Da extensa lista de seus bens imóveis, vamos apenas referir dois, que têm particular interesse para o estudo das quintas e propriedades agrícolas com história na região:
* O sítio de Nossa Senhora da Teixeira, que valeria 100 mil reis e que lhe tinha deixado em herança uma irmã de sua avó materna, D. Ana Borges, com obrigação de 2 missas em cada ano pela alma de Nicolau de Lobão, igualmente irmão de sua avó.
* A quinta do Rego da Barca, que valia uns 200 mil reis, herdada igualmente de sua tia-avó, com obrigação de 2 missas e vínculo de capela.
De referir também que à data de sua prisão, tinha 5 vacas de renda em mãos de lavradores no termo da Torre de Moncorvo.
Vendo-se acusado de judaísmo, Pedro do Sil começou por dizer que isso não passava de uma invenção dos cristãos-novos seus inimigos, especialmente de Diogo Henriques Julião e seus manos, que lhe tinham raiva por muitos motivos e concretamente por ter vindo a Vila Flor como meirinho do corregedor, aquando da prisão e fuga de um Manuel da Mesquita, parente dos Juliões. As vejam as próprias palavras do processo:
- Provará que os contraditados Diogo Henriques Julião e seus irmãos Luís Henriques e Rodrigo Fernandes e seus filhos e parentes de Vila Flor, estimulados do réu ir por meirinho do corregedor João de Medeiros Correia tirar uma devassa por provisão de Sua Majestade e da fugida de Manuel da mesquita, parente do dito Diogo Henriques Julião, que estava preso pelo pecado da bestialidade, andando em duas facções todas as pessoas da dita vila, de uma parte os da nação e da outra parte os homens nobres, buscando os da nação ocasiões para defrontarem os parentes do réu; e com efeito se fez grave rixa, sendo Gonçalo de Morais, irmão dele réu, juiz ordinário da dita vila, de que resultou ficarem culpados alguns deles (…) donde ficaram com maior ódio contra ele réu e mais seus parentes.
Do seu processo, retiramos ainda esta curta declaração de uma testemunha de defesa, João Borges de Morais que, depois de confirmar a cena da burra e da rixa, concluiu:
- E também sabe que os da nação andavam em dúvidas com os homens nobres sobre as varas do palio e governo da república.
2 – António do Sil, irmão do anterior, rendeiro, 45 anos. Foi denunciado por 22 testemunhas. (2)
Não vamos analisar o seu caso nem fazer quaisquer comentários. Apenas observar a relação de seus bens, no que interessa para a história local. Assim:
* Tinha umas casas sobradadas em que vivia, com seu quintal, na rua da Fonte, foreiras ao concelho da vila, pagando um vintém de foro anual e que valiam 5 mil reis.
* No sítio da Fonte tinha um terreno de semeadura de 2 alqueires com 2 pedaços de olival e uma vinha que valia 30 mil reis.
* Um olival e terra de cereal (10 alqueires) no sítio da Serra, com o valor de 25 ou 30 mil reis.
* Mais umas propriedades em diversos sítios, que ele comprou de 4 anos a esta parte no montante de 160 mil reis. Seriam as tais propriedades sequestradas a cristãos-novos e leiloadas na praça, de que atrás se falou?
* Em Benlhevai, tinha também 2 vinhas, 2 lameiros, uma casa de sobrado e terras de pão e tudo valeria uns 30 mil reis.
* Domingos Martins, cristão-velho, tendeiro, devia-lhe 30 mil reis que “ele declarante lhe entregou para lhe comprar na cidade do Porto uns ornamentos para a ermida de S. Jorge que ele declarante mandou fazer junto às suas casas, em Vila Flor”. E esta é uma nota bem interessante para o estudo do património da vila e da evolução urbana.
* Na qualidade de rendeiro, trazia arrematada a cobrança das rendas da Mitra de Braga, no montante de 160 ou 170 mil reis e uns foros do conde de Miranda, na área de Vila Flor, que ascendiam a 42 mil reis.
* E também tinha 12 ou 13 bois “dados de renda a diversas pessoas”.
3 – Maria de Aguirre, mulher do anterior, natural de Sambade, filha de Luís de Escobar Roubão e de Ana Aguirre. (3)
4 – António de Morais do Sil. Sobrinho de Pedro e António do Sil, filho de seu irmão Gonçalo e de Branca Teixeira. Certificaram os inquisidores que ele tinha 1/8 de cristão-novo. Tal como certificaram a sua morte no cárcere, 5 anos e meio depois de nele ser encerrado, em 27.8.1672. (4)
5 – Francisco de Morais Ataíde. Era igualmente sobrinho dos outros Sil, filho de sua irmã Ângela de Morais e do capitão-mor Álvaro de Morais de Ataíde. Tinha 28 anos quando foi preso. Era casado e pai de 4 filhas, a mais velha de 8 anos. Foi denunciado por muitos cristãos-novos de Vila Flor e também por gente de Vimioso (Vicente de Gambôa) e de Freixo de Numão (Ferreira Isidro). (5)
Defendeu-se destes e doutros denunciantes dizendo que foram instruídas por Diogo Henriques Julião, o qual foi ter com eles quando “estavam presos e depositados em Freixo de Numão”, na ida para Coimbra. De resto, os argumentos de defesa apresentados pelo réu constituem um verdadeiro tratado de sociologia de Vila Flor naquela época, repleto de episódios picarescos e caciqueiros. Vejam uma amostra:
Pêro da Costa era um advogado cristão-novo, solteiro, que foi na leva de presos de 1664. Em certa altura constou que ele andava metido de amores com uma mulher casada. E uma noite, a desoras, Francisco de Morais e o seu bando, foram bater-lhe à porta, feitos polícias, a saber da mulher. Levantou-se o advogado e veio em camisa abrir a porta. O filho do capitão-mor deitou-lhe as unhas “o puxou para fora pelas gadelhas e o lançou no chão lançando-lhe muitos coices”, exigindo que fosse buscar a mulher. Respondeu que a não tinha em casa, mas estava em um lagar sito à Fonte do Olmo. Alguns ficaram a guardar a porta e outros seguiram com ele, que foi assim, descalço e me camisa de dormir, a buscar a mulher, conforme lhe ordenaram.
Mas já de outra vez o tinham levado à força para um olival sito nas bandas da Portela e ali o espancaram e ameaçaram matar se ele não lhes entregasse a tal mulher. E claro que Francisco, depois de contar o episódio, não deixou de frisar que Pêro da Costa era parente e advogado de Diogo Henriques Julião “e de sua casa comia e bebia e o servia como criado”.
Da denúncia de João Lopes, o surdo, defendeu-se dizendo que ele “é inimigo do réu porque tendo um macho muito formoso e de preço e que não andava na estrada, o réu, necessitando de cavalgaduras para ir a Mirandela buscar pão, à força lhe tomou o macho”. E o pior é que o macho ficou com uma ferida no lombo, de tão carregado que foi. Assim, o testemunho daquele não deveria ser aceite porque foi motivado por ódio e espírito de vingança.
De igual modo argumentou acerca de possíveis denúncias de Pedro Guterres e Manuel Pinto. É que, tendo a Inquisição mandado ordem para se prender a mulher do primeiro, ela desapareceu. Mas o Francisco Ataíde tanto espiolhou que foi dar com ela em casa do Pinto, metida na cama, com a cabeça tapada, entre este e a sua mulher e ali a prendeu.
E vindo também ordem da Inquisição para prender a mulher do mesmo Pinto e sendo necessário juntar 20 mil reis, o capitão-mor pôs em leilão os seus bens. E entre esses bens “eram duas canastras encouradas novas com duas fechaduras cada uma, que bem valiam 4 para 5 mil reis e um primo do réu, António de Morais Sil lhe lançou nelas e valendo o dito preço se arremataram em 5 tostões”.
E também o Manuel Pinto foi preso pelo Santo ofício e então foram à praça seus bens que incluíam “as casas de sua morada, umas vinhas e um lagar de azeite e nesta fazenda toda lançou Jerónimo de Morais Beça, cunhado do réu, 2 mil reis e por não haver quem se atrevesse a lançar mais, nisso lhe foi arrematada”.
Mais casos do género podíamos apresentar, que a defesa de Francisco Morais de Ataíde se estende por uma centena de fólios do processo. Vamos porém concluir, transcrevendo dois parágrafos do mesmo processo, bem elucidativos da luta política que então se travava entre Diogo Henriques e o capitão-mor de Vila Flor:
- O pai do réu, capitão-mor, e seus parentes e homens nobres e graves de Vila Flor vendo que Diogo Henriques e seus parentes se queriam intrometer em quererem tomar em si o governo da terra, assim no secular e quererem e quererem servir nos ofícios da justiça e nas prisões, com muita ousadia e atrevimento pegarem e tomarem as varas do palio (…) se juntaram o pai do réu e os mais homens cristãos-velhos e nobres de Vila Flor e aí jogaram muitas pancadas e cutiladas, aonde os acutilaram a todos e a cada um deles, e fizeram à força recolher e meter em suas casas e com efeito nunca mais nenhum homem deles pegou em vara de palio.
- E além disso o pai e parentes do réu e todos os homens nobres de Vila Flor, vendo a soltura com que o dito Diogo Henriques e seus irmãos e parentes e todos os cristãos-novos se haviam e com muito atrevimento e ousadia se intrometiam para servir nos ofícios principais da república e governança, como também quererem tomar as varas do palio, o pai do réu, que nisso mais insistiu, obteve uma provisão de Sua Majestade para que nenhuma pessoa que fosse cristã-nova ou tivesse parte alguma da nação não servissem mais na dita vila ofícios da igreja nem da governação, de sorte que os privaram das varas do palio como de servirem ofícios da governação. Nem de juízes, nem vereadores, nem outros semelhantes (…) do que ficaram todos com grande ódio contra o pai do réu e contra ele réu e contra outros homens principais da vila, cristãos-velhos e sobre isso houve muitas diferenças.
E agora, como o leitor imagina, seria bem interessante analisar o inventário dos bens de um homem tão rico como era Francisco de Morais de Ataíde. Limitamo-nos apenas a apresentar dois itens desse longo inventário:
Tinha uma quinta que ele declarante havia comprado cujas casas estavam principiadas no sítio que chamam as Gamonitas, junto à quinta do Carrascal, que constava de terras de semeadura e olivais, a qual propriedade crê valer 100 mil reis e é livre e parte de uma banda com terras de Domingos de Morais das Flores e da outra com a estrada do concelho.
Um cavalo rocim de 4 anos selado e enfreado que vale 30 mil reis e 2 bois de arado que valiam 10 mil reis e tudo se vendeu, cavalo e bois, para alimento dele declarante, em preço de 40 mil reis.
6 – Maria de Morais de Ataíde, irmã do anterior, 26 anos, casada com Jerónimo de Morais Beça. Toda a estrutura do processo (acusação e defesa9 é idêntica à do irmão e dos restantes nobres, tentando provar que se trata de uma conjura urdida pelos cristãos-novos e que “ o autor e conselheiro” era Diogo Henriques Julião. E naturalmente que também este processo e os demais são fonte essencial para quem quiser estudar a sociedade de Vila Flor naquela época.
Mesmo sendo acusada pela própria irmã e sumetida a tormento, ela nunca confessou seu judaísmo.
Na parte final do processo, aparece uma petição feita por seu marido ao inquisidor geral para que lhe sejam perdoados os 149 mil e 900 reis que lhe foram exigidos por despesas de alojamento e alimentação na cadeia e custas do processo. Chamados a pronunciar-se os inquisidores de Coimbra ditaram o seguinte:
- Parece-nos que, em razão dos serviços que fez a esta Inquisição o seu sogro, o capitão-mor de Vila Flor, pode Vossa Senhoria mandar ao suplicante que pague 80 ou 100mil reis e lhe perdoe o mais.
E 12 anos depois que foi libertada, precisando seu neto José de Morais Beça uma certidão atestando que sua avó “que foi presa por esta Inquisição, saiu pura, sem condenação alguma”, a mesma foi negada porque ela “tinha parte de cristã-nova por seu avô materno, Diogo de Morais e como tal foi confrontada na sentença”. Além de que, sendo julgada por culpas de judaísmo, ela saiu em auto onde abjurou de leve.
7 – Catarina do Sil, irmã dos anteriores, 23 anos, solteira mas prometida em casamento a Gonçalo de Morais Beça quando foi presa. Do seu processo transcrevemos apenas um excerto dizendo que uma camisa de linho que fosse tecida e costurada por 9 Marias tinha o poder de livrar as pessoas de morte violenta. Mas vejam este naco saboroso de prosa:
- E estando as 10, por conselho de sua tia Maria de Morais, ficaram esta e as ditas pessoas e mandaram tecer e cortaram e fizeram no mesmo dia uma camisa de pano de linho cru, por se dizer que era boa para preservar de morte violenta e de outros males a quem a trouxesse vestida, sendo fiada e tecida por 9 Marias (…) era para a darem ao dito seu irmão dela confidente, Francisco de Morais, agora preso, o qual naquele tempo andava muito receoso que o matasse ou mandasse matar Domingos Afonso Galegos, governador da cavalaria da província de Trás-os-Montes, por se dizer que entrara em casa deste a ter conversação ilícita com uma mulher mulata, do mesmo (…) e depois da dita camisa feita e acabada, a levaram ela confidente e as outras 9 mulheres no mesmo dia à noite à igreja da Misericórdia da própria vila, onde tocaram com ela nos pés de uma imagem de Cristo Nosso Senhor que costuma ir com a cruz às costas na procissão dos Passos e depois a mandaram ao dito seu irmão que naquele tempo assistia homiziado no mosteiro dos frades de S. Francisco da Torre de Moncorvo. (7)
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
NOTAS:
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2804, de Pedro de Morais do Sil.
O tio Francisco de Morais era feitor e recebedor da alfândega de Freixo de Espada à Cinta, terra onde casou.
O avô materno, Pedro do Sil, foi meirinho da correição de Torre de Moncorvo.
A origem da família Sil é exactamente o lugar de Sil, junto à ribeira do Sil, na Galiza.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8749, de António de Morais Sil.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2040, de Maria de Aguirre.
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 501, de António de Morais Sil.
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2672, de Francisco de Morais de Ataíde.
6 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 9302, de Maria de Morais de Ataíde
7 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8753, de Catarina do Sil
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