AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
Retalhos da História de Vila Flor
I - INTRODUÇÃO
A comunidade judaica de Vila Flor remonta possivelmente à época da fundação do município, em 1286, pelo rei D. Dinis e da construção das suas muralhas.
Esta afirmação baseia-se no facto de a sua judiaria se situar dentro do pequeno recinto amuralhado, junto à porta sul, a única que ficou perdurando até aos nossos dias. A propósito, escreveu o autor de Portugal e Moderno – dicionário geográfico impresso a partir de 1873:
- Também se vêem ainda junto da mencionada porta, intra-muros, bastantes casas velhíssimas, formando bitesgas que a tradição aponta como resto da judiaria que houve nesta povoação. (1)
Por outro lado, há também a tradição popular, confirmada por muitos vestígios arqueológicos, que aponta para a rua do Saco como pertencendo à judiaria. Com efeito, ali se vêem várias casas com cruzes esculpidas nas ombreiras das portas. Tais cruzes serão marcas que procuravam evidenciar para o mundo exterior a adesão ao cristianismo, dos locatários das casas.
E também se diz que a porta do Rossio, mandada demolir pela câmara municipal em 1868, dava para a velha judoaria. (2)
Para além disso, há muitos nomes de judeus moradores em Vila que nos aparecem em documentos régios do século XV. Só nos livros da chancelaria de D. Afonso V, são identificados mais de 3 dezenas, como mostra Maria José Ferro Tavares. (3)
De certo, será necessário proceder a criteriosos estudos de arqueologia judaica para esclarecer tudo isto mas estamos convictos de que a judiaria de Vila Flor não seria fechada sobre si e que desde muito cedo a população judaica ocupou largo espaço urbano, dentro e fora da muralha dionisíaca.
A existência da judiaria de Vila Flor é também testemunhada por vários documentos, nomeadamente uma carta de D. Afonso V, de 1439, confirmando os privilégios da comuna dos judeus e uma certidão de 1525 de uma carta em que o rei D. Manuel faz mercê a Francisco Vaz de Sampaio de 30 mil reis de tença, cada ano, em sua vida, em satisfação das rendas das judiarias de Torre de Moncorvo e Vila Flor. (3)
Acerca deste período da história da vila e da sua comuna de judeus, o abade de Miragaia deixou-nos o seguinte retrato:
- Até o fim do século XV foi terra importante e rica. Era habitada então por grande número de judeus que a tornavam florescente pela indústria e trato comercial de todo o género, incluindo a ourivesaria e joalharia, mas, pela bárbara e mal entendida expulsão dos judeus (…) começou a decadência de Vila Flor, porque não só perdeu a actividade e o génio mercantil e industrioso que caracterizaram sempre os israelitas, mas também os capitais que ao tempo eram apanágio quase exclusivamente seu. Assim veio a diminuir consideravelmente a população desta vila e muitos dos seus edifícios caíram em ruínas. (4)
Na verdade, aquando do recenseamento geral da população, efectuado em 1527 – 30, a situação era a seguinte:
- A vila de Vila Flor é cercada e cerca derrubada; é de Fernão Vaz de Sampaio, com direitos e rendas; e vivem na dita vila e arrabaldes 151 moradores. (5)
Por moradores deverá entender-se agrupamentos familiares, o que correspondia a uma população de mais de 500 habitantes. E se a cerca (muralha) se encontrava derrubada, isso não significaria ruína da terra, antes pelo contrário a terra seria então muito progressiva e a população continuava em crescimento extravasando os muros, pois no século de 600 o autor de Poblacion General de España diz que nela se contavam 400 fogos (quase 2000 habitantes) (6)
A hecatombe virá de seguida e dela falaremos mais adiante. Agora voltemos atrás, aos tempos mais próximos da fundação, mais precisamente ao ano de 1329, em que aconteceu um caso deveras notável e que bem mostra a força da comunidade judaica de Vila Flor. Vamos relatar.
Naquele ano, andando o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira em visitação ao arciprestado de Torre de Moncorvo, chegou a Vila Flor, acompanhado de numeroso séquito, como então era apanágio da gente ilustre da nobreza e do clero. E então, entre a criadagem do arcebispo e alguns judeus moradores da terra surgiram discussões e cenas de pancadaria de que resultaram mortos e feridos. E cercaram a casa onde se hospedava o arcebispo onde mataram alguns homens e matariam o próprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que não lhe evitou cair de costas no terreiro e contundir-se gravemente. O descadeirado arcebispo, continua Camilo, transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro meses depois, adormeceu no Senhor”. (7)
Pelos anos de 500, houve um frade trinitário do convento da Lousa, aldeia das vizinhanças, chamado frei Bento da Conceição, que foi a Vila Flor pregar os sermões da semana santa. E terá feito um sermão contundente contra os judeus, que acusava de terem morto Jesus Cristo. O sermão não terá agradado à gente cristã-nova de Vila Flor que, em resposta, terá arranjado forma de lhe deitar veneno na comida e provocar a morte do frade que não pregou mais sermões. (8)
Estes episódios deixam adivinhar uma intensa luta e surda entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Vila Flor. E aquela, depois que foi instituído o tribunal da Inquisição, terá sido alvo dos maiores vexames e humilhações. E a discriminação chegou a tal ponto que eram obrigados a ir à missa, ao domingo, presos uns aos outros por uma fita e a assistirem à missa de fora da igreja e comungarem por um buraco feito na parede! (9)
Não bastavam já os humilhantes sambenitos que os processados do Santo Ofício tinham de vestir e todos os apupos e insultos que o rapazio e as beatas lhe atiravam e as invectivas que frades fanatizados lhe lançavam dos púlpitos acusando-os da morte de Cristo…
Para mais, aconteceu em Vila Flor um cataclismo: no dia 31 de Janeiro de 1700, caiu a igreja matriz. Imagine-se que muita gente devota considerou logo aquilo como um castigo de Deus, naturalmente por a terra albergar aqueles ímpios hebreus. O facto ficou perpetuado na memória popular que repetia estes versos feitos a propósito:
Vila Flor já não és vila,
Nem vila te chamarão;
Que te caiu a igreja
E tarde a levantarão.
Levantaram sim e bem formosa que ficou, uma das mais belas e grandiosas do Nordeste Trasmontano. Mas levou anos e foram precisos muitos cabedais. De onde eles vieram?
Reza a tradição que tal obra só foi possível porque os cristãos-novos de Vila Flor resolveram abrir os cordões à bolsa e encarregar-se do seu financiamento. Em contrapartida exigiram que se acabasse com aquele vexame de irem à missa presos com a fita e comungarem pelo buraco
(museu.Foto da Junta de Freguesia)
.Vejamos, entretanto, como evoluía a população da vila que, em 1675, contava 400 fogos e quase 2000 habitantes, como atrás se disse e que, em 1706, contava apenas 300 fogos! A quarta parte de seus moradores terá, pois, abandonado a vila no curto espaço de duas décadas, conforme noticia o padre Carvalho da Costa que acrescenta:
- Foi em algum tempo maior e mais rica povoação, porque os muitos homens da nação hebreia que a habitavam, a faziam mais populosa, e com seus tratos e comércios a enriqueciam, e ao presente, com a sua ausência, se acham arruinadas muitas casas (…) Ainda hoje tem algum trato e comércio de mercadores de loja, tenda e courames (…) Tem 300 vizinhos. (10)
E a hecatombe não ficou por aí. Antes continuou, por mais algumas décadas, enquanto a Inquisição prosseguia o seu trabalho. Vejam o que escreviam os vereadores da câmara em documento oficial, enviado à Academia Real da História, em 1721:
- Tem um templo que se vai reedificando sumptuoso (…) Foi povoação de 500 vizinhos e hoje se acha tão diminuta que tem somente 259. A respeito dos inumeráveis cristãos-novos que dela se expulsaram, não sem notável detrimento dos mais moradores, de cuja perfídia hoje se acha tão livre, que não tem por habitador nem um só cristão-novo intra, que é digno de toda a admiração. (11)
Então parece ter a vila batido no ponto mais fundo, iniciando-se a recuperação, que foi muito lenta, aliás. Isto porque, em 1768, contava apenas 274 fogos. A propósito deste número, vejam o comentário inserto no Portugal Antigo e Moderno:
- Em 93 anos perdeu pois 126 fogos e 500 a 600 habitantes – e mais devia perder nos 179 anos que decorreram desde 1496, data da expulsão dos judeus, até 1675. (12)
Neste ponto andará Pinho Leal enganado. É que, numa primeira fase e durante várias décadas, a população judaica de Vila Flor não diminuiu, antes terá crescido e muito, com o decreto de expulsão dos judeus de Espanha, em 1492. Com efeito, terá sido entre Vila Flor e Torre de Moncorvo, nos plainos da Vilariça, que então se estabeleceu um acampamento de refugiados para efeitos de controlo da população e pagamento do imposto estipulado pelo rei D. João II. Para este acampamento convergiram os judeus espanhóis que passaram a fronteira na parte sul de Trás-os-Montes, portos de Barca d´Alva, Freixo de Espada à Cinta, Lagoaça… E depois, uma grande porção desses refugiados, ficou-se, naturalmente por terras de Vila Flor e Torre de Moncorvo. (13)
Aliás, ainda mesmo depois do decreto de 1496, os cristãos-novos de Vila Flor obtiveram alguns favores e mercês reais. Com efeito, ainda em 20 de Março de 1520, o rei D. Manuel lhes concedeu uma carta de privilégios sobre fintas e aposentadorias e, 10 anos depois, o rei D. João III, lhes assinou outra carta confirmando todos os privilégios que possuíam. (14)
Dissemos atrás que se adivinhava uma continuada luta entre cristãos-novos e cristãos-velhos da terra. Pois, isso mesmo se confirma em documentos régios, nomeadamente um alvará de D. Sebastião, datado de 1561, proibindo os cristãos-novos de vila Flor de servirem em cargos públicos. Idêntico alvará foi promulgado por Filipe II, em 1598. E até mesmo o rei D. João IV que tão apoiado foi pela gente da nação de Trás-os-Montes, se viu forçado a assinar uma carta proibindo-os de serem eleitos para a câmara municipal de Vila Flor. (15)
E não seria por acaso que uma nova medida anti-judaica começou por ser aplicada em Vila Flor (a título experimental, como hoje se diria), antes de se tornar extensiva a todo o País. Referimo-nos à prova da limpeza de sangue. De acordo com esta lei, qualquer pessoa, para desempenhar um cargo público, entrar numa universidade ou ordem religiosa, ser padre ou bispo, ou obter uma condecoração ou título de nobreza, tinha de provar que, em sua família, até à quinta geração, não havia gota de sangue judeu. Pois, foi precisamente em 1574 que foi publicado o primeiro alvará desta natureza e visando os cristãos-novos de Vila Flor. (16)
De resto, os processos da Inquisição que vamos apresentar dão exactamente testemunho dessas luta (política, religiosa, económica e social) que assolou Vila Flor na segunda metade do século XVII.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
NOTAS
1 – PINHO LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa – Portugal Antigo e Moderno dicionário geographico, estatístico, chorografico, heráldico, archeologico, histórico, biographico e etymologico de todas as cidades, vilas e freguesias de Portugal, vol. XI, p. 732.
2 – MORAIS, Cristiano de – Cronologia Histórica de Vila Flor 1286 – 1986, p.10
3 – TAVARES, Maria José Ferro – Os Judeus em Portugal no séc. XV, vol II.
4 – IANTT, Corpo Cronológico, parte II, mç 126 nº 169.
5 – PINHO LEAL, ob. cit. P.732
6 – ARCHIVO HISTORICO PORTUGUEZ, vol. VII, p. 255
7 – MENDES DA SILVA, Rodrigo – Poblacion General de España, p. 144v.
8 – GRANDE ENCICLOPEDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA, VOL. 35, P. 508.
9 – ALVES, Francisco Manuel – memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança, vol. V, p. XLII
10 – PINHO LEAL, ob. cit. P. 733
11 – COSTA, P. António Carvalho da – Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal, tomo I, p. 471.
12- Esta Memória encontra-se transcrita no arquivo municipal de Vila Flor.
13 – PINHO LEAL, ob. Cit. P. 732.
14 – Este acampamento terá dado origem às povoações das Cabanas (de Baixo e Cabanas de Cima), actual freguesia de Cabeça Boa.
No termo de Pinelo, concelho de Vimioso, se terá organizado o campo de refugiados que entraram pela parte Norte, fronteiras de Bragança e Miranda do Douro, restando hoje o topónimo de Vale das Cabanas.
15 – MORAIS, Cristiano de – ob. cit. P.12
16 – Idem, p. 14.
17 – ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda – Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos, in: Jornal Terra Quente de 15 de Dezembro de 1999.