terça-feira, 24 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - XII

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

FAMILIA ALVARENGA
Recordam-se do boticário Manuel de Alvarenga Cabral que, 20 anos atrás, se fartou de denunciar mulheres cristãs-novas da família Pereira que via judaizar, espreitando da sua casa? Pois, na vaga de 1667, também na sua família houve prisões, sob a acusação de judaísmo e foram as seguintes:
1 – Belchior Coelho de Meireles, filho de Manuel Alvarenga Cabral e de Maria Coelho Meireles, solteiro, estudante em Coimbra. (1)
2 – Ângela Coelho, irmã do anterior, solteira. (2)
3 – Sebastião Coelho Meireles, irmão dos antecedentes. Tinha 45 anos e mantinha-se solteiro. Era formado em cânones (advogado) e ocupava o honroso e proveitoso cargo de ouvidor dos Senhores de Sampaio. (3)

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

Fotografia cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 620, de Belchior Coelho Meireles
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8746, de Ângela Coelho.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 9021, de Sebastião Coelho Meireles.

domingo, 22 de agosto de 2010

Retalhos da História de Vila Flor - XI

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

FAMÍLIA AZEVEDO MADUREIRA
1 – António Domingos de Madureira. Tinha 32 anos e era casado com Ana do Sil Carneiro. Filho de Manuel de Azevedo, escrivão das sisas e de Luísa de Madureira, a sua família era, talvez, a mais nobre de todas. Seu avô paterno viera de Castela e desempenhara o cargo de almoxarife em Ocaña. Foi casado 3 vezes, com mulheres de indiscutível nobreza: Domingas do Sil, Maria Coelha e Ana de Lobão. Uma tia paterna (Maria de Madureira) estava casada em Mogadouro com o capitão-mor Belchior Pinto Pereira, os quais tinham um filho, Gaspar Pinto Pereira, casado em Mirandela, em família de igual nobreza. Em Torre de Moncorvo estavam muitos tios e tias, nomeadamente António Domingos de Madureira, do tronco da família Carvalho e Castro. (1)
De seus bens sobressaem olivais nos sítios de Santa Luzia, da Cruz da Senhora da Veiga e da Ribeira, bem como uma vinha à Fonte do Seixo, que produzia 70 almudes de vinho.
E tinha a terça parte da herança de seu pai, que ainda não fora partida e incluía uma casa na rua da Fonte, uma vinha, 4 olivais e 5 terras de pão.
2 – Catarina de Azevedo, prima do anterior, pelo lado paterno. (2)
3 – Simão Vaz, sapateiro e curtidor, marido da antecedente. (3)
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8755, de António Domingos de Madureira
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8752, de Catarina de Azevedo.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 643, de Simão Vaz

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

sábado, 21 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - X

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

 FAMÍLIA MONTES DE ALMEIDA
Os Montes de Almeida eram outra das famílias mais nobres de Vila Flor, ligados com os Borges, os Lemos, os Madureira--- Vejamos os membros desta família que foram na leva de 1667:
1 – Francisco Montes de Almeida, filho de Manuel Montes e de Isabel de Almeida, viúvo de Maria Borges. Ocupava o cargo de escrivão dos órfãos de Vila Flor, tal como e desempenhou seu pai, seu avô e seu bisavô paternos. (1)
Quando foi preso, residia em Torre de Moncorvo, na rua das Barreiras. Tinha propriedades agrícolas no sítio das Casas Queimadas, na Laranjeira e na Fonte do Carvalho. E tinha bens de uma capela, nomeadamente um pomar à Fonte do Carvalho, que valia 80 mil reis e um olival em S. Paulo que dava 25 almudes de azeite e valia 30 mil reis.
E em Vila Flor tinha umas casas de sobrado na rua de Santa Luzia “que foram dadas em folha por preço de 80 mil reis”.
Na mesma rua tinha um palheiro e mais uma casa térrea.
Tinha terras nos sítios do Paio Correia, Seixo, Soutinho, portela da Junqueira, cabeço do Bensaúde, portela de S. Paio, Casa da Mouroa, carrasco, Vale da Pala… Sobressaindo uma vinha ao Paio Correia “tapada sobre si que dá 100 almudes de vinho e vale 80 mil reis”.
2 – Joana Borges. Era filha do anterior e de sua mulher Maria Borges. Tinha 22 anos e estava solteira. Também ela denunciou o pai como judaizante.
3 – Francisco Montes de Almeida. Meio irmão da anterior, filho de Francisco Montes e de uma Ana Gomes. Tinha 23 anos e era soldado a cavalo na praça de Chaves.
4 – Ana Montesa, ou Ana de Almeida. Da mesma idade do anterior e filha do mesmo pai mas de outra mãe, uma tal Isabel Nunes.
5 – Ângela de lemos. Estava casada com Paulo Montes de Maduraira, filho de Diogo Montes (irmão do primeiro Francisco) e de Jerónima de Madureira.
NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo_4758, de Francisco Montes de Almeida.
Por alvará de 9.6.1641, foi Manuel Montes nomeado para o cargo de escrivão dos órfãos, com faculdade de, em sua vida, ou por sua morte, poder nomear um de seus filhos.
Idêntico alvará foi publicado em 18.12.1658, nomeando Gregório Montes Botelho para o mesmo cargo, “por falecimento de Manuel Montes”.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 6054, de Joana Borges.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8757, de Francisco Montes de Almeida
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 10291, de Ana Montesa
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5956, de Ângela de Lemos.


António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral




domingo, 15 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - IX

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
 QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
A FAMÍLIA DO CAPITÃO-MOR ALVARO MORAIS ATAÍDE
Na grande leva de Fevereiro de 1667, foram pelos menos 7 membros da família do capitão-mor e que passamos a apresentar, acrescentando sobre alguns curtas notas retiradas dos processos:
1 – Pedro de Morais. 52 anos, escrivão da câmara de Torre de Moncorvo, filho de Diogo de Morais, feitor mor das alfândegas de Trás-os-Montes. Dizia-se cristão-velho, mas os inquisidores descobriram-lhe ¼ de cristão-novo, pela parte de sua avó paterna, Catarina Álvares. Aliás, ele próprio saberia disso, como sabia que seu pai e dois tios paternos (Francisco e Pedro de Morais) haviam já passado pelas cadeias do Santo Ofício. (1)
Da extensa lista de seus bens imóveis, vamos apenas referir dois, que têm particular interesse para o estudo das quintas e propriedades agrícolas com história na região:
* O sítio de Nossa Senhora da Teixeira, que valeria 100 mil reis e que lhe tinha deixado em herança uma irmã de sua avó materna, D. Ana Borges, com obrigação de 2 missas em cada ano pela alma de Nicolau de Lobão, igualmente irmão de sua avó.
* A quinta do Rego da Barca, que valia uns 200 mil reis, herdada igualmente de sua tia-avó, com obrigação de 2 missas e vínculo de capela.
De referir também que à data de sua prisão, tinha 5 vacas de renda em mãos de lavradores no termo da Torre de Moncorvo.
Vendo-se acusado de judaísmo, Pedro do Sil começou por dizer que isso não passava de uma invenção dos cristãos-novos seus inimigos, especialmente de Diogo Henriques Julião e seus manos, que lhe tinham raiva por muitos motivos e concretamente por ter vindo a Vila Flor como meirinho do corregedor, aquando da prisão e fuga de um Manuel da Mesquita, parente dos Juliões. As vejam as próprias palavras do processo:
- Provará que os contraditados Diogo Henriques Julião e seus irmãos Luís Henriques e Rodrigo Fernandes e seus filhos e parentes de Vila Flor, estimulados do réu ir por meirinho do corregedor João de Medeiros Correia tirar uma devassa por provisão de Sua Majestade e da fugida de Manuel da mesquita, parente do dito Diogo Henriques Julião, que estava preso pelo pecado da bestialidade, andando em duas facções todas as pessoas da dita vila, de uma parte os da nação e da outra parte os homens nobres, buscando os da nação ocasiões para defrontarem os parentes do réu; e com efeito se fez grave rixa, sendo Gonçalo de Morais, irmão dele réu, juiz ordinário da dita vila, de que resultou ficarem culpados alguns deles (…) donde ficaram com maior ódio contra ele réu e mais seus parentes.
Do seu processo, retiramos ainda esta curta declaração de uma testemunha de defesa, João Borges de Morais que, depois de confirmar a cena da burra e da rixa, concluiu:
- E também sabe que os da nação andavam em dúvidas com os homens nobres sobre as varas do palio e governo da república.
2 – António do Sil, irmão do anterior, rendeiro, 45 anos. Foi denunciado por 22 testemunhas. (2)
Não vamos analisar o seu caso nem fazer quaisquer comentários. Apenas observar a relação de seus bens, no que interessa para a história local. Assim:
* Tinha umas casas sobradadas em que vivia, com seu quintal, na rua da Fonte, foreiras ao concelho da vila, pagando um vintém de foro anual e que valiam 5 mil reis.
* No sítio da Fonte tinha um terreno de semeadura de 2 alqueires com 2 pedaços de olival e uma vinha que valia 30 mil reis.
* Um olival e terra de cereal (10 alqueires) no sítio da Serra, com o valor de 25 ou 30 mil reis.
* Mais umas propriedades em diversos sítios, que ele comprou de 4 anos a esta parte no montante de 160 mil reis. Seriam as tais propriedades sequestradas a cristãos-novos e leiloadas na praça, de que atrás se falou?
* Em Benlhevai, tinha também 2 vinhas, 2 lameiros, uma casa de sobrado e terras de pão e tudo valeria uns 30 mil reis.
* Domingos Martins, cristão-velho, tendeiro, devia-lhe 30 mil reis que “ele declarante lhe entregou para lhe comprar na cidade do Porto uns ornamentos para a ermida de S. Jorge que ele declarante mandou fazer junto às suas casas, em Vila Flor”. E esta é uma nota bem interessante para o estudo do património da vila e da evolução urbana.
* Na qualidade de rendeiro, trazia arrematada a cobrança das rendas da Mitra de Braga, no montante de 160 ou 170 mil reis e uns foros do conde de Miranda, na área de Vila Flor, que ascendiam a 42 mil reis.
* E também tinha 12 ou 13 bois “dados de renda a diversas pessoas”.
3 – Maria de Aguirre, mulher do anterior, natural de Sambade, filha de Luís de Escobar Roubão e de Ana Aguirre. (3)
4 – António de Morais do Sil. Sobrinho de Pedro e António do Sil, filho de seu irmão Gonçalo e de Branca Teixeira. Certificaram os inquisidores que ele tinha 1/8 de cristão-novo. Tal como certificaram a sua morte no cárcere, 5 anos e meio depois de nele ser encerrado, em 27.8.1672. (4)
5 – Francisco de Morais Ataíde. Era igualmente sobrinho dos outros Sil, filho de sua irmã Ângela de Morais e do capitão-mor Álvaro de Morais de Ataíde. Tinha 28 anos quando foi preso. Era casado e pai de 4 filhas, a mais velha de 8 anos. Foi denunciado por muitos cristãos-novos de Vila Flor e também por gente de Vimioso (Vicente de Gambôa) e de Freixo de Numão (Ferreira Isidro). (5)
Defendeu-se destes e doutros denunciantes dizendo que foram instruídas por Diogo Henriques Julião, o qual foi ter com eles quando “estavam presos e depositados em Freixo de Numão”, na ida para Coimbra. De resto, os argumentos de defesa apresentados pelo réu constituem um verdadeiro tratado de sociologia de Vila Flor naquela época, repleto de episódios picarescos e caciqueiros. Vejam uma amostra:
Pêro da Costa era um advogado cristão-novo, solteiro, que foi na leva de presos de 1664. Em certa altura constou que ele andava metido de amores com uma mulher casada. E uma noite, a desoras, Francisco de Morais e o seu bando, foram bater-lhe à porta, feitos polícias, a saber da mulher. Levantou-se o advogado e veio em camisa abrir a porta. O filho do capitão-mor deitou-lhe as unhas “o puxou para fora pelas gadelhas e o lançou no chão lançando-lhe muitos coices”, exigindo que fosse buscar a mulher. Respondeu que a não tinha em casa, mas estava em um lagar sito à Fonte do Olmo. Alguns ficaram a guardar a porta e outros seguiram com ele, que foi assim, descalço e me camisa de dormir, a buscar a mulher, conforme lhe ordenaram.
Mas já de outra vez o tinham levado à força para um olival sito nas bandas da Portela e ali o espancaram e ameaçaram matar se ele não lhes entregasse a tal mulher. E claro que Francisco, depois de contar o episódio, não deixou de frisar que Pêro da Costa era parente e advogado de Diogo Henriques Julião “e de sua casa comia e bebia e o servia como criado”.
Da denúncia de João Lopes, o surdo, defendeu-se dizendo que ele “é inimigo do réu porque tendo um macho muito formoso e de preço e que não andava na estrada, o réu, necessitando de cavalgaduras para ir a Mirandela buscar pão, à força lhe tomou o macho”. E o pior é que o macho ficou com uma ferida no lombo, de tão carregado que foi. Assim, o testemunho daquele não deveria ser aceite porque foi motivado por ódio e espírito de vingança.
De igual modo argumentou acerca de possíveis denúncias de Pedro Guterres e Manuel Pinto. É que, tendo a Inquisição mandado ordem para se prender a mulher do primeiro, ela desapareceu. Mas o Francisco Ataíde tanto espiolhou que foi dar com ela em casa do Pinto, metida na cama, com a cabeça tapada, entre este e a sua mulher e ali a prendeu.
E vindo também ordem da Inquisição para prender a mulher do mesmo Pinto e sendo necessário juntar 20 mil reis, o capitão-mor pôs em leilão os seus bens. E entre esses bens “eram duas canastras encouradas novas com duas fechaduras cada uma, que bem valiam 4 para 5 mil reis e um primo do réu, António de Morais Sil lhe lançou nelas e valendo o dito preço se arremataram em 5 tostões”.
E também o Manuel Pinto foi preso pelo Santo ofício e então foram à praça seus bens que incluíam “as casas de sua morada, umas vinhas e um lagar de azeite e nesta fazenda toda lançou Jerónimo de Morais Beça, cunhado do réu, 2 mil reis e por não haver quem se atrevesse a lançar mais, nisso lhe foi arrematada”.
Mais casos do género podíamos apresentar, que a defesa de Francisco Morais de Ataíde se estende por uma centena de fólios do processo. Vamos porém concluir, transcrevendo dois parágrafos do mesmo processo, bem elucidativos da luta política que então se travava entre Diogo Henriques e o capitão-mor de Vila Flor:
- O pai do réu, capitão-mor, e seus parentes e homens nobres e graves de Vila Flor vendo que Diogo Henriques e seus parentes se queriam intrometer em quererem tomar em si o governo da terra, assim no secular e quererem e quererem servir nos ofícios da justiça e nas prisões, com muita ousadia e atrevimento pegarem e tomarem as varas do palio (…) se juntaram o pai do réu e os mais homens cristãos-velhos e nobres de Vila Flor e aí jogaram muitas pancadas e cutiladas, aonde os acutilaram a todos e a cada um deles, e fizeram à força recolher e meter em suas casas e com efeito nunca mais nenhum homem deles pegou em vara de palio.
- E além disso o pai e parentes do réu e todos os homens nobres de Vila Flor, vendo a soltura com que o dito Diogo Henriques e seus irmãos e parentes e todos os cristãos-novos se haviam e com muito atrevimento e ousadia se intrometiam para servir nos ofícios principais da república e governança, como também quererem tomar as varas do palio, o pai do réu, que nisso mais insistiu, obteve uma provisão de Sua Majestade para que nenhuma pessoa que fosse cristã-nova ou tivesse parte alguma da nação não servissem mais na dita vila ofícios da igreja nem da governação, de sorte que os privaram das varas do palio como de servirem ofícios da governação. Nem de juízes, nem vereadores, nem outros semelhantes (…) do que ficaram todos com grande ódio contra o pai do réu e contra ele réu e contra outros homens principais da vila, cristãos-velhos e sobre isso houve muitas diferenças.
E agora, como o leitor imagina, seria bem interessante analisar o inventário dos bens de um homem tão rico como era Francisco de Morais de Ataíde. Limitamo-nos apenas a apresentar dois itens desse longo inventário:
Tinha uma quinta que ele declarante havia comprado cujas casas estavam principiadas no sítio que chamam as Gamonitas, junto à quinta do Carrascal, que constava de terras de semeadura e olivais, a qual propriedade crê valer 100 mil reis e é livre e parte de uma banda com terras de Domingos de Morais das Flores e da outra com a estrada do concelho.
Um cavalo rocim de 4 anos selado e enfreado que vale 30 mil reis e 2 bois de arado que valiam 10 mil reis e tudo se vendeu, cavalo e bois, para alimento dele declarante, em preço de 40 mil reis.
6 – Maria de Morais de Ataíde, irmã do anterior, 26 anos, casada com Jerónimo de Morais Beça. Toda a estrutura do processo (acusação e defesa9 é idêntica à do irmão e dos restantes nobres, tentando provar que se trata de uma conjura urdida pelos cristãos-novos e que “ o autor e conselheiro” era Diogo Henriques Julião. E naturalmente que também este processo e os demais são fonte essencial para quem quiser estudar a sociedade de Vila Flor naquela época.
Mesmo sendo acusada pela própria irmã e sumetida a tormento, ela nunca confessou seu judaísmo.
Na parte final do processo, aparece uma petição feita por seu marido ao inquisidor geral para que lhe sejam perdoados os 149 mil e 900 reis que lhe foram exigidos por despesas de alojamento e alimentação na cadeia e custas do processo. Chamados a pronunciar-se os inquisidores de Coimbra ditaram o seguinte:
- Parece-nos que, em razão dos serviços que fez a esta Inquisição o seu sogro, o capitão-mor de Vila Flor, pode Vossa Senhoria mandar ao suplicante que pague 80 ou 100mil reis e lhe perdoe o mais.
E 12 anos depois que foi libertada, precisando seu neto José de Morais Beça uma certidão atestando que sua avó “que foi presa por esta Inquisição, saiu pura, sem condenação alguma”, a mesma foi negada porque ela “tinha parte de cristã-nova por seu avô materno, Diogo de Morais e como tal foi confrontada na sentença”. Além de que, sendo julgada por culpas de judaísmo, ela saiu em auto onde abjurou de leve.
7 – Catarina do Sil, irmã dos anteriores, 23 anos, solteira mas prometida em casamento a Gonçalo de Morais Beça quando foi presa. Do seu processo transcrevemos apenas um excerto dizendo que uma camisa de linho que fosse tecida e costurada por 9 Marias tinha o poder de livrar as pessoas de morte violenta. Mas vejam este naco saboroso de prosa:

- E estando as 10, por conselho de sua tia Maria de Morais, ficaram esta e as ditas pessoas e mandaram tecer e cortaram e fizeram no mesmo dia uma camisa de pano de linho cru, por se dizer que era boa para preservar de morte violenta e de outros males a quem a trouxesse vestida, sendo fiada e tecida por 9 Marias (…) era para a darem ao dito seu irmão dela confidente, Francisco de Morais, agora preso, o qual naquele tempo andava muito receoso que o matasse ou mandasse matar Domingos Afonso Galegos, governador da cavalaria da província de Trás-os-Montes, por se dizer que entrara em casa deste a ter conversação ilícita com uma mulher mulata, do mesmo (…) e depois da dita camisa feita e acabada, a levaram ela confidente e as outras 9 mulheres no mesmo dia à noite à igreja da Misericórdia da própria vila, onde tocaram com ela nos pés de uma imagem de Cristo Nosso Senhor que costuma ir com a cruz às costas na procissão dos Passos e depois a mandaram ao dito seu irmão que naquele tempo assistia homiziado no mosteiro dos frades de S. Francisco da Torre de Moncorvo. (7)

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral
NOTAS:
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2804, de Pedro de Morais do Sil.
O tio Francisco de Morais era feitor e recebedor da alfândega de Freixo de Espada à Cinta, terra onde casou.
O avô materno, Pedro do Sil, foi meirinho da correição de Torre de Moncorvo.
A origem da família Sil é exactamente o lugar de Sil, junto à ribeira do Sil, na Galiza.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8749, de António de Morais Sil.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2040, de Maria de Aguirre.
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 501, de António de Morais Sil.
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2672, de Francisco de Morais de Ataíde.
6 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 9302, de Maria de Morais de Ataíde
7 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8753, de Catarina do Sil

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - VIII

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

A PRISÃO DOS NOBRES CRISTÃOS-VELHOS

Assistimos no capítulo anterior àquela enorme vaga de prisões efectuada em Novembro de 1664. Escusado será dizer que alguns daqueles homens e mulheres tinham fortes casas comerciais, negócios rendosos, indústrias florescentes de sedas e curtumes e boas casas agrícolas. Escusado será também dizer que muitas delas se arruinaram de repente e outras ficaram paralisadas ou meio abandonadas. Imaginem que até a própria casa de habitação era fechada e “selada” (quando se decretava prisão com sequestro de bens), ficando impedidos de nela entrar o próprio cônjuge e os filhos. Reparem que, por vezes, se prendiam ambos os pais e ficavam filhos de tenra idade completamente abandonados na rua, dependentes de algum familiar ou de uma boa alma que lhe deitasse a mão.
E certamente houve muita gente que, receando ser presa, decidiu abandonar a terra e seguir para o estrangeiro. Também Diogo Henriques e seu mano Luís Henriques Julião tentaram a fuga mas foram surpreendidos nessa hora pelo filho do capitão-mor que andava de olho em cima deles e não conseguiram abalar. Tal como não conseguiu a mulher de Filipe Dias que ia ter com o marido a Castela, levada por dois “passadores” mas o filho do capitão-mor seguiu-a até Gouveia, nas proximidades de Alfândega da Fé e ali prendeu a mulher e os “passadores” e lhe tomou “uma espada, uma espingarda, uma mula, um rocim e duas jumentas, que se venderam por ordem da justiça”. (1)
De outra vez, um parente muito chegado de Diogo Henriques terá vindo de Castela, onde estava emigrado, a buscar sua mulher a Vila Flor. Mas foi também surpreendido e preso.
Todos estes episódios são reveladores da intensa luta política entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Vila Flor. E as prepotências dos nobres (verdadeiros caciques, como hoje se diz) e do “partido da Inquisição” estendiam-se a outros campos, como o da política tributária:
Sim: em cada concelho, em cada ano, em reunião de câmara, era nomeada uma “junta de repartidores da décima” – uma comissão de 3 homens que definiam o montante que cada morador devia pagar de contribuição. E, naturalmente, que tal junta era constituída por gente da feição dos homens da governança da terra e que a “décima” atribuída aos cristãos-novos era sempre bem mais carregada que a dos outros. Não bastava os bens que lhe arrematavam por 5 reis de mel coado quando os prendiam, que também os carregavam no pagamento das décimas. Caso idêntico se passava com o pagamento das sisas e outras taxas e impostos fiscais.
Outra vexação que muito incomodava os cristãos-novos de Vila Flor vinha das “boletas dos soldados” e funcionários do Estado. Significa isto que, quando à vila chegava uma partida de soldados, ou qualquer alto funcionário do estado ou da igreja, com sua comitiva, era preciso proporcionar-lhe alojamento e refeições, não apenas para eles mas também para as cavalgaduras. E era ao capitão-mor e às estruturas de poder municipal dele dependentes que competia tomar as providências necessárias. E agora o leitor já sabe que, em tais circunstâncias, os castigados eram geralmente os mesmos, os seja as casas mais abonadas dos cristãos-novos.
E “aboletavam” também juntas de bois, machos e os burros dos cristãos-novos. Expliquemos. Era relativamente frequente haver necessidade de transportar cereal, palha, lenha e muitas outras coisas e então… requisitavam-se aos cristãos-novos.
Vai longa esta exposição sobre os procedimentos criminais da Inquisição e seus sequazes, procedimentos que não seriam muito diferentes dos adoptados por outros poderes e outras autoridades, devendo isto ser encarado como reflexo do pulsar da sociedade de então, um aspecto do modo de viver quotidiano. Nem esta exposição tem por objectivo fazer qualquer juízo de valor, mas tão só tentar compreender a sociedade.
Voltemos àquelas ondas de prisões em Vila Flor e a outras que seguiram ainda. Não vamos analisar os respectivos processos – que isso daria trabalho para uma vida. Vamos tão só focar um aspecto que vai levar a novas e extraordinárias prisões, a um estranho e fantástico episódio da luta política em Vila Flor, arbitrada pelos inquisidores de Coimbra.
O caso é que todos aqueles prisioneiros, ao longo das audiências, foram contando que realmente tinham feito práticas judaicas e se tinham declarado crentes na lei de Moisés. E citavam as pessoas e relatavam as circunstâncias e os pormenores. No fundo, todos se denunciavam uns aos outros e acabavam por mostrar-se arrependidos e pedir perdão.
Desta vez, porém, certamente combinados entre si, eles denunciaram, como seus companheiros de jejuns e orações e cerimonias e declarações de judaísmo, todas as figuras gradas de Vila Flor, os homens de maior nobreza da terra, sempre tidos por cristãos-velhos, a começar pela família do capitão-mor do concelho.
E o caso é que tais testemunhos não eram contraditórios, antes concordavam nos pormenores, tornando-se credíveis. Até apareceram pessoas de Vimioso, Ventuselo, Freixo de Numão e Vilarinho dos Galegos a ajudar em tais denúncias.
Não restou outra saída aos inquisidores que não fosse a abertura de novas fichas e a instauração dos respectivos processos e… em Fevereiro de 1667, a Vila Flor foi submersa de todas as vagas de prisões. Mais de 30 pessoas foram então enjauladas, a grande maioria pertencentes à mais distinta nobreza da terra e que sempre se afirmaram cristãos-velhos, alguns dos quais tinham até certidões de pureza de sangue. Aliás, e depois de minuciosas investigações, concluiu-se que, afinal, em todas elas corria sangue judeu, nem que fosse ¼ ou 1/8 ou 1/12 avos, significando isso que tinham pelo menos um avô, um bisavô ou um trisavô que era da nação hebreia. E todos eles, ao cabo de longos anos de estada nas masmorras da Inquisição, muitos deles submetidos a tormento, acharam melhor confessar que, afinal, tiveram práticas judaicas e se declararam seguidores da lei mosaica. Verdade? Mentira? Pelo menos assim veriam abrir-se-lhe a porta de regresso à liberdade.
Deve dizer-se que, exceptuando algum que morreu no cárcere, todos passaram uns 6 anos nas infectas masmorras, saindo no auto-de-fé realizado em 12-13 de Março de 1673.
Nos capítulos seguintes apresentaremos alguns desses presos que se diziam cristãos-velhos e pertenciam à nobreza da terra, como eram os Madureira, os Montes de Almeida, os Morais de Ataíde, os Azevedo, os Lemos, os Borges, os Sil, os Lobão, os Coelho de Meireles…

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 209, de Francisco de Morais de Ataíde.
Fotografias cedidas pelo Museu Municipal Berta Cabral.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor - VII

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

PRESOS NA CASA DA MISERICÓRDIA

Ao tempo da morte prematura do rei D. João IV, em 1656, tinha o príncipe herdeiro do trono apenas 13 anos de idade. Ficou, por isso, a governar o país sua mãe, a rainha D. Luísa de Gusmão.
Ainda para mais, o futuro rei era paraplégico e falho de juízo. E andava metido com grupos de jovens arruaceiros. Saíam em bandos, à noite, montados a cavalo pelas ruas de Lisboa, partiam vidros de janelas, atacavam à espadeirada quem lhes aparecia pela frente e assustavam sobretudo mulheres indefesas. De entre esses energúmenos, destacava-se um valentão italiano que vendia quinquilharias numa tenda montada no Rossio, chamado António Comti.
O País atravessava então uma enorme crise. Internamente, do ponto de vista da economia, era a ruína completa e, do ponto de vista político, a sociedade estava completamente dividida, sobretudo as classes dirigentes da nobreza e do povo. No plano externo era a guerra com a Espanha que tudo consumia, enquanto as colónias da Índia, África e Brasil eram atacadas por ingleses, franceses e holandeses.
Face a uma tal situação e porque os conflitos sociais e políticos, mesmo no interior do conselho real, eram cada vez maiores, pareceu a muitos homens de influência que só o casamento de D. Catarina, irmã do jovem rei D. Afonso VI, com o rei Carlos II de Inglaterra, poderia salvar o País. E nisso se empenharam a fundo, particularmente os cristãos-novos portugueses, não apenas os que residiam no País mas também (e sobretudo) os que estavam emigrados pelo Norte da Europa. (1)
Realizaram-se as bodas em Londres, em Maio de 1662. E, no mês seguinte a rainha mandou prender Comti e o seu bando de marginais, que logo foram metidos em um barco e despachados para o Brasil.
A rainha aparecia então com poderes reforçados e em seu redor capitaneavam velhos nobres cheios de condecorações e gente das cúpulas da Inquisição.
O jovem rei ficou furioso com a prisão de Comti e um grupo de jovens da nobreza, chefiados pelo conde de Castelo Melhor, que tinha apenas 26 anos, cercou o rei e fez com que ele assumisse o poder e demitisse o governo, enquanto a rainha-mãe fundava um convento e nele se encerrava. Escusado será dizer que o novo governo era chefiado por Castelo Melhor.
Perdedor ao nível do governo, o “partido da Inquisição” redobrou de actividade e cresceu a fúria contra os cristãos-novos. Assistiu-se então a enormes vagas de prisões, como antes nunca se vira, nomeadamente em Trás-os-Montes.
fixemo-nos então em Vila Flor, uma terra em que andavam “divididas em duas facções todas as pessoas da dita vila, de uma parte os da nação e da outra parte os homens nobres, buscando os da nação ocasiões para se defrontarem”.
Esta afirmação não é nossa, mas foi feita por alguém que se viu metido no meio daquele turbilhão e de quem falaremos mais à frente – Pedro de Morais do Sil.
Muitas afirmações de idêntico teor se encontra, em diferentes processos ali instaurados então pelo Santo Ofício e que chegaram até nós.
E esta luta não era só motivada pelos cristãos-novos “que se queriam intrometer em quererem tomar em si o governo da terra” mas também “andavam em dúvidas com os homens nobres sobre as varas do palio” – como também se afirma nos ditos processos. Quer isto dizer que a luta entre cristãos-novos e cristãos-velhos em Vila Flor visava o controlo do governo da república e do governo da igreja, que a luta não era apenas de carácter religioso, mas também social e político.
E se os cristãos-novos queriam tomar conta do governo e da igreja, os nobres e os partidários da Inquisição procuravam, por todos os meios, barrar-lhes o caminho. E um dos meios utilizados foi exactamente a obtenção de alvarás régios proibindo os cristãos-novos de exercer quaisquer cargos de administração pública e municipal, de frequentar a universidade e receber ordens eclesiásticas ou condecorações militares. E se essas leis discriminatórias dos cristãos-novos se estenderam depois a todo o país, é preciso não esquecer que elas começaram por se aplicar apenas em Vila Flor.
E quem eram os cabeças desta luta, os chefes de cada uma das facções? Exactamente as mesmas famílias de há 20 anos atrás, os filhos e herdeiros de Julião Henriques e Lopo Machado.
Recordam-se da prisão e da fuga de Lopo Machado da cadeia de Torre de Moncorvo? Certamente que, logo que a conjuntura o permitiu, ele regressou a Vila Flor e foi recebido pelos seus partidários como um verdadeiro herói. E certamente que as cúpulas da Inquisição de Coimbra se empenharam na recuperação da honra e do poder do seu familiar, pois era também a honra e o poder da própria instituição que estava em causa. E Lopo Machado e os seus certamente juravam que se haviam de vingar.
E o facto é que ele logo foi promovido ao mais elevado posto do governo do concelho, sendo empossado no cargo de capitão-mor, que ocupava no início da década de 1650. A ele competia a manutenção da ordem pública e a segurança dos cidadãos, para além da fiscalização da fé. (1)

E depois dele foi o cargo desempenhado por Álvaro de Morais de Ataíde e em seguida por um filho desta (Francisco de morais de Ataíde) e pelo genro Jerónimo de Morais Beça, que todos se ligaram na família de Lopo Machado. (2)
Por seu turno, com a morte do pai, Diogo Henriques Julião assumiu a liderança da comunidade cristã-nova.
Estamos então em Vila Flor, naquele mês de Junho de 1662 em que o conde de Castelo Melhor montou o cavalo do poder. Ao início desse mês, em Vila Flor, 8 cristãos-novos foram presos pela Inquisição de Coimbra e mais 4 se seguiram naquele ano. E no ano seguinte o número subiu para dezena e meia, numa espiral medonha de prisões. Era como se todas as forças do inferno se tivessem libertado e caíssem sobre Vila Flor, em feroz perseguição aos cristãos-novos. E o clímax foi atingido no ano de 1664 com mais de 30 prisões, sendo que umas 23 foram efectuadas de uma só vez, ao início do mês de Novembro.
Fácil será imaginar, mas torna-se impossível descrever o que em Vila Flor se terá passado naquele dia. Desde logo, a violência do acto. Sim, não seria fácil prender duas ou três dezenas de pessoas. Certamente que foi preciso planear muito bem as coisas e mobilizar muitas autoridades e “polícias”. Calculem quantas tentativas de fuga se ensaiaram, quantas resistências se opuseram às vozes de prisão, quantas pauladas e encontrões e palavrões… Imaginem a gritaria destemperada que correu a vila como língua de fogo. Recordem o choro convulsivo de avós, pais, irmãos, filhos e netos dos prisioneiros, enquanto estes eram metidos a ferros e estrebuchavam e berravam insultos e promessas de vingança.
Depois foi preciso arranjar prisões, que a do concelho não chegava. Requisitou-se a casa da Misericórdia e lá se meteram. Eram 35, segundo se diz em alguns processos. Noutros se diz que ali ficaram apenas as mulheres e nesse caso seria requisitada (ou posta pelo dono à disposição) alguma adega ou palheiro. Também não sabemos se era apenas gente de Vila Flor ou se tinham vindo alguns presos de Mirandela e outras terras, que os homens da Inquisição não quereriam gastar suas energias e perder seu tempo com pequenas manadas. Aliás, uma grande manada de prisioneiros chamava muito mais a atenção das populações que ficavam mais temerosas e respeitadoras do Santo Ofício.
Executadas as prisões, era preciso arranjar 20 mil reis por cada um, para custear as despesas de viagem e alimentação, que os presos até os próprios grilhões pagavam e as jornas a quem os prendia e conduzia à cadeia. E para isso sequestravam-se bens dos prisioneiros e punham-se a leilão na praça pública. Ora, quem é que iria então licitar naqueles bens? Os lanços seriam altos ou baixos?
Muitas vezes eram os próprios familiares e amigos que os arrematavam, de modo que o dono ou seus herdeiros podiam reavê-los mais tarde. Desta vez… a comunidade cristã-nova estava completamente dizimada e quase todos aqueles bens foram arrematados por gente da nobreza da vila, gente ligada ao capitão-mor Álvaro de Morais de Ataíde, que era quem presidia à execução das prisões e ao leilão dos bens dos prisioneiros.
Não sabemos quantas horas ou dias foram necessários para organizar a marcha em direcção a Coimbra. Também não sabemos quantos machos e burros se alugaram para transportar a cama, mesa e cozinha dos prisioneiros, que tudo eles tinham que levar, pois a cadeia não fornecia essas coisas. E também para levar algum prisioneiro que mal podia andar: Ignoramos ainda o número e a qualidade dos homens que foram requisitados para guardar os prisioneiros na viagem, mas não será difícil imaginar a sua índole e cariz.
Reparem agora no espectáculo deprimente daquelas dezenas de homens e mulheres agrilhoados e presos por cordas uns aos outros, pondo-se em marcha, açoitados pelos guardas, vaiados por grupos de populares arregimentados por frades e beatas, enxotados como se fossem cães danados pela raiva.

Não sabemos se foram ainda parar às cadeias da sede da comarca ou se a manada seguiu logo o caminho da Vilariça para a Beira, a eles se juntando presos vindos de Chacim (que foram muitos) e outras terras. Sabemos é que a manada esteve “depositada” (o termo é dos processos) em Freixo de Numão, ali se acrescentando outros presos.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – ALVES, Memórias, VI-499

2 – ALVES, Memórias, VI-501

Foto cedida pelo Museu Municipal Berta Cabral.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor -VI

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
A RESPOSTA DOS INQUISIDORES
Que voltas o mundo deu, não o sabemos, mas não é difícil adivinhar. A fuga de Lopo Machado Pereira certamente foi apoiada e ajudada por muitos homens grados de vila Flor e Torre de Moncorvo e o caso terá funcionado como uma espécie de aviso, um toque a cerrar fileiras entre o “partido da Inquisição”. Por toda a parte o caso seria apresentado como se de um infame atentado contra o Santo Ofício se tratasse. Muitas preces se ouviriam nas igrejas pedindo a Deus protecção para os familiares e comissários da Inquisição e muitas promessas de apoio e planos de actuação se fariam nas altas esferas do poder.
O certo é que, dois meses depois, a Inquisição de Coimbra mandava proceder a uma rigorosa devassa sobre “a prisão de Lopo Machado, que se fez em ódio ao Santo Ofício”, dela encarregando o licenciado Domingos Carneiro, comissário da Inquisição, reitor de S. Miguel de Nogueira que, em 28 de Novembro de 1644, abriu escritório na ermida de S. Luzia, em Vila Flor, onde ouviu em declarações várias testemunhas, fazendo lavrar os competentes autos que enviou para Coimbra. Vejamos alguns pormenores desses depoimentos:
* Manuel Rebelo de Abreu disse que viu pessoalmente o “assalto” e contou como foi, referindo os nomes de vários dos “assaltantes” e “outros mais que não conheceu que andavam embuçados e armados e entende e tem por certo que todas estas vexações se fizeram ao sobredito Lopo Machado pelo ódio que têm e má vontade ao Santo ofício e aos seus ministros”
* Francisco Montes acrescentou que “se ele testemunha e outras pessoas nobres que ali estavam lho não impedissem e estorvassem para que lhas não atassem (as mãos) e lhe queriam lançar uma corda para o levarem bem arrematado (…) e todos logo entenderam que o faziam por ódio que lhe tinham de executar as ordens e mandados do Santo Ofício”.
* Manuel Lopes, ferreiro, confirmou a história, indicou os nomes dos protagonistas “e outros mais que por ser de noite e estarem embuçados e arrimados às paredes com suas armas se não conheceram”.
Estas foram as testemunhas presenciais. O comissário, porém, não estaria satisfeito com os depoimentos recolhidos em Vila Flor e transferiu sua mesa de audiências para o vizinho concelho de Vilas Boas. Acaso alguns teriam receio que os vissem ir apresentar-se em Vila Flor. Nesta vila recolheu então mais depoimentos, das seguintes pessoas:
* Luís Borges de Macedo, tabelião, contou que a história da prisão corria por todo o lado e acrescentou mais um episódio comprometedor para Julião e seu filho Luís Henriques dizendo “que ele testemunha, estando no lugar de Samões, em casa do padre frei Pêro Esteves (recordam-se do episódio do copo de vinho?) que ao tempo vivia em casa de sua mãe, falando com Julião Henriques e seu filho Luís Henriques, eles ambos disseram a ele testemunha que, já que Lopo Machado lhe tinha preso seu filho e seu irmão, que era o mal que lhe podia fazer a eles, o haviam de destruir e pôr portas e para isso se haviam de fintar os da nação (…) e de quantos há em Vila Flor, só 5 ficaram por fintar (…) e que tudo determinaram por ódio ao Santo Ofício e seus ministros”.
* O capitão Francisco Lopes disse que ouviu contar a história do assalto a pessoas de fé e de crédito. Sobre a finta, disse que “cada cristão-novo contribuiu com 5 mil reis”.
Francisco Nunes também ouviu contar a história e acrescentou que Rodrigo Fernandes se gabava de ter lhe atado as mãos atrás das costas e lhe dissera que “por Lopo machado lhe ter prendido o irmão, nunca mais havia de ser juiz, nem pôr os pés na terra e que para esse intento que tinham de o desterrar, haviam de fazer finta com os demais da nação da dita Vila Flor”.
* O padre Domingos Fernandes Trigo, esse contou ainda uma outra história segundo a qual, 6 meses antes, os mesmos assaltantes “com muitas armas de fogo” tinham montado uma emboscada na Portela da Forca, à saída de Vila Flor para Vilas Boas, para matar Lopo Machado que ali tinha ido. E a emboscada só não resultou porque eles mandaram um moço por espia para que viesse à frente avisá-los da saída de Lopo Machado “o qual moço achando-o a ele testemunha, lhe contou tudo em segredo, pedindo-lhe que o não descobrisse” e depois ele testemunha “levou Lopo de noite por um outro caminho extraordinário até o meter em sua casa, para o livrar de que o não matassem”.
Como atrás se disse, apareceram efectivamente pessoas de Vila Flor a dar seus depoimentos em Vilas Boas. Certamente que não gostavam que se soubesse e possivelmente receavam represálias. Mas vejamos esses depoimentos:
* Gonçalo Ribeiro Teixeira disse que naquela noite, logo em seguida ao “crime”, foi com Jacinto Machado, filho de Lopo Machado, a casa de Francisco de Sampaio, a contar tudo e, naturalmente, a pedir a intervenção deste, na qualidade de senhor da terra e que no dia seguinte “o viu (Lopo Machado) em uma besta de albarda com grilhões nos pés e o quiseram arrematar com uma corda”.
* O licenciado Lucas de Gouveia de Madureira referiu que a história era do conhecimento público.
* Gregório Gomes Botelho também não adiantou mais pormenores, o mesmo acontecendo com Francisco de Leão que, nessa mesma noite, também foi preso e metido na mesma cadeia, mas por ordem do ouvidor.
Feitas estas diligências, não demorou o comissário Domingos Carneiro a enviar o sumário para a Inquisição de Coimbra. E, no dia 23 de Dezembro de 1644, na Mesa do Santo Ofício e a requerimento do promotor “pareceu a todos os votos que eram as culpas bastantes para serem presas nos cárceres do Santo Ofício os seguintes:
* Luís Henriques e Rodrigo Fernandes, filhos de Julião Henriques;
* Branca Rodrigues, mulher do dito Julião Henriques e que só a dita Branca Rodrigues seja presa com sequestro de bens, visto ter culpas de judaísmo.
E a maior parte dos votos pareceu também que fossem presos nos cárceres do Santo Ofício:
* Rodrigo Fernandes, tio dos ditos Luís Henriques e Rodrigo Fernandes;
* Francisco Vaz, o ganâncias;
* Jerónimo Guterres, o indiano;
* Jorge Fernandes, filho de Henrique Dias;
* Manuel, neto do dito Henrique Dias e sem sequestro de bens, visto serem todos cristãos-novos e acharem-se presentes à prisão de Lopo Machado, que se fez em ódio ao Santo ofício, de que houve escândalo em Vila Flor”.
Não vamos aqui analisar os processos instaurados a estes réus, pois alguns deles dariam matéria para trabalho de maior fôlego. Vamos apenas apresentá-los e indicar a respectiva sentença. Antes, porém, deverá reparar-se para as datas, verificando-se que os dois filhos de Julião, protagonistas do “assalto” a Lopo Machado, só foram presos uns 10 anos depois. E parece que o filho e o neto de Henrique Dias nem sequer foram presos, pois se não encontram seus processos. Certamente que fugiram para o estrangeiro. Vejamos então:
* Branca Rodrigues – processo 6102 – 55 anos, filha de Diogo Henriques, rendeiro e de Genebra Alvim, casada com Julião Henriques. Presa pelo familiar da Inquisição Francisco de Gouveia de Vasconcelos, de Torre de Moncorvo, foi entregue em Coimbra em 31.1.1645. Saiu no auto de fé de 24.2.1647 condenada em 3 anos de degredo para Amarante e penas espirituais.
Ainda antes do “assalto”, a “ficha” de Branca Rodrigues na Inquisição de Coimbra apresentava já outras denúncias. Vamos transcrever uma, feita por Manuel Alvarenga, boticário de Vila Flor, em 25.4.1642, perante o vigário geral da comarca de Torre de Moncorvo:
- Disse que defronte dele mora Maria Henriques, cristã-nova, mulher de Diogo Henriques Julião, a qual esteve escondida dois ou três meses antes do auto de fé último que se celebrou em Coimbra, temendo-se que dessem dela as Eminentas que lá estavam presas e não apareceu até que veio um neto do Eminente e lhe deu aviso e logo apareceu; em casa da qual Maria Henriques vê ele testemunha ajuntar de 5 anos a esta parte por muitas vezes, principalmente à sexta-feira à noite como tem reparado, Mécia Coutinho, cristã-nova, viúva do Gigante e sua irmã Leonor Coutinho cujo marido não sabe o nome e Beatriz Pereira e sua filha Branca Pereira mulher de António Mendes e Branca Rodrigues, mulher de Julião Henriques e Ângela Henriques, filha da Castelhana, que veio de Mogadouro, todas cristãs-novas as quais depois dele testemunha se recolher, vê que ficam na dita casa a qual vê mais alumiada que nos outros dias da semana e ao sábado vê ele testemunha algumas das sobreditas na dita casa…
Refira-se que o testemunho deste Manuel Alvarenga foi contestado e considerado suspeito porque “está casado com uma parenta de Lopo Machado e tem grande ódio a todas as pessoas da nação da dita vila porque lhe não compram suas mezinhas e mandam a Mirandela, a 3 léguas de distância, buscá-las a casa de outro boticário”.
* Luís Henriques Julião – processo 1093 – 42 anos, mercador, filho de Julião Henriques e Branca Rodrigues, morador em Orense, Galiza, casado com Filipa Dias. Foi preso em 14.5.1656, em Castro Laboreiro, quando se preparava para passar a fronteira de regresso a Orens, conduzindo um “rocim negro que vale 8 mil reis” o qual lhe foi sequestrado juntamente com 17 arrobas e 3 arráteis de cera que tinha, comprados em Castro Laboreiro e ia levar para Orense. Saiu no auto de fé de 23.5.1660, condenado em 2 anos de degredo para Castro Marim. De seu “curriculum vitae” consta que estivera 5 ou 6 meses em Lisboa onde levara carneiradas para vender; que estivera outro tanto tempo em Lagos, como guarda dos almandravas (armazéns de pesca do atum); que estivera 3 meses em Coimbra, por “demandas do fisco” e em Braga e Porto por razões de comércio. No seguimento da prisão de Lopo Machado fugiu com a mulher para a Galiza e foi para Pontevedra a tomar conta das salinas. Depois fixou-se em Orense viajando por Madrid, Valladolid e outras terras de Castela, em negócios. Na altura em que fugiu sequestraram-lhe os bens e entre eles contava-se uma vinha no sítio da Fonte do Olmo “que valia 10 mil reis e levava 16 jeiras de cava”.
* Rodrigo Fernandes Julião – processo 6981 – 37 anos, mercador, irmão do anterior. Preso em 20.6.1654, saiu no auto de fé de 18.4.\655, sentenciado em 2 anos de degredo na fronteira de Valença e ao pagamento de 20 mil reis para despesas do Santo Ofício.
* Rodrigo Fernandes Portelo – processo 6861 - tio dos anteriores, 66 anos, filho de João Rodrigues Portelo, mercador de panos e de Filipa Dias, casado com Catarina de Baeça. Preso em 6.2.1645, ouviu sua sentença em Mesa em 26.11.1646, sendo absolvido.
* Francisco Vaz, o ganâncias – processo 4016 – 52 anos, filho de António Lopes Faro e Branca Gomes, mercador e rendeiro, preso em 1645, morreu nos cárceres da Inquisição e teve sepultura religiosa.
* Jerónimo Guterres, o indiano – processo 3996 – 47 anos, filho de Manuel Rodrigues e Ana Jerónima, casado com Leonor Gomes, preso em 1645. Foi absolvido.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Antes do Santo ofício

D. Afonso V concede carta de contrato a Ben Venyste Piecho, judeu, mercador, morador em Torre de Moncorvo.

Datas 1455-03-20

Localização física Chancelaria de D. Afonso V, liv. 15, fl. 156

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor V

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLITICA?
A PRISÃO DO FAMILIAR DA INQUISIÇÃO
Tinha-se o sol já posto e a noite começava a cerrar-se sobre Vila Flor, naquele dia primeiro de Setembro de 1644. O tempo mantinha-se morno e, apesar do escuro, muitos moradores seroavam na rua, sentados nos poiais e soleiras das portas.
Lopo Machado Pereira atrasou-se um pouco lá pelos cabeceiros da Vilariça onde tinha ido ver a vinha, que as vindimas estavam à porta. Regressava a casa, montado no seu esplêndido cavalo castanho. Vinha pela rua da Fonte e entrou na vila pela porta sul, seguindo pela rua Direita, também chamada rua Nova desde a altura em que a sinagoga dos judeus se fechou.
Aquela não era a rua mais direita para sua casa, sita lá para as bandas da Portela. Mas vinha por ali com intenção de deitar um olho a ver como as coisas andavam. É que ele, além do estatuto de nobreza e do rendoso ofício de juiz dos órfãos, ostentava o colar de familiar da Inquisição e sentia-se investido na santa obrigação de zelar pela pureza da fé e dos costumes, numa terra que todos sabiam estar infestada de cristãos-novos judaizantes.
Vinha por aquela rua, que era onde morava a maioria dos marranos da vila. E, muito em especial, queria manter apertada vigilância sobre a família de Julião Henriques que ele despachou há quase um ano para a cadeia de Coimbra, assim como a seu filho Diogo Henriques Julião.
Aliás, ele andava um tanto intrigado desde há uns tempos, pois lhe constara que os cristãos-novos de Vila Flor se quotizaram, dizendo-se que cada um entrou com 5 mil reis. Constava que esse dinheiro se destinava a conseguir em Lisboa um bom advogado ou alguém poderoso que fosse capaz de lhes alcançar da corte d´el-rei D. João IV um despacho favorável. Que despacho e que favor tão importante seria esse?! – perguntaria Lopo Machado a si próprio naquele momento.
E também lhe vinham à memória as ameaças proferidas contra ele por Julião Henriques e seus filhos e parentes de que o haviam de destruir e não havia de prender mais gente. E muitos amigos lhe estranhavam que, dadas as inimizades com os Juliões, ele lhe andasse sempre a passar à porta, em nítida atitude de provocação.
De repente, saídos de uma esquina, um grupo de homens, todos cristãos-novos, saltaram-lhe à frente e, segurando-lhe as rédeas do cavalo, derrubaram o cavaleiro. E apareceu uma mulher, com um archote de palha, a alumiar-lhe bem a cara e a gritar-lhe insultos:
Ladrão! Agora pagarás pela prisão do meu homem e do meu filho, que foi injusta!
Chamava-se Branca Rodrigues e, enquanto proferia insultos, chegava a luminária bem à frente da cara do fidalgo. E continuava despejando insultos:
Ladrão! Mostra bem essa cara de malvado! Deixa-me ver esses olhos de maroto! Agora pagarás pelo meu homem e pelo meu filho, que mos tens presos, falsamente!
Acorreu gente, destacando-se entre todos o alcaide António do Sil, o juiz ordinário e presidente da câmara Agostinho Valente Pinto e o ouvidor do conde de Sampaio, Manuel Correia da Fonseca – as autoridades maiores da terra – naturalmente seguidos pelos quadrilheiros ou homens do regimento, que cumpriam as tarefas de policiamento da vila. E acorreram também familiares e amigos de Lopo Machado, gritando “aqui d´el-rei, que matam D. Lopo!”

Fotografia do vale da Vilariça, que une Vila Flor e Torre de Moncorvo.LB
Branca Rodrigues não se amedrontou com a chegada das autoridades e dos “polícias! E muito menos o seu filho Luís Henriques, que capitaneava os agressores. Antes, orgulhoso, face à intimidação do alcaide que lhe dava ordem de prisão, ele levantou a vara da justiça que todos reconheceram pertencer ao meirinho da correição de Torre de Moncorvo enquanto tirava do bolso um pergaminho que deu a ler ao juiz, declarando:
- Veja vossa senhoria que isto é um mandato de prisão e que, como aí se diz, tem vossas senhoria e todas as autoridades o dever de me ajudar a meter este homem na cadeia e guardá-lo até ser entregue ao meirinho da correição. Juntamente com o juiz, o ouvidor e o alcaide debruçaram-se sobre o escrito e leram, com Branca Rodrigues a fazer luz com o archote. A letra era bem familiar àqueles homens da governança da vila, bem como a assinatura e o selo que a autenticava. E a ordem era bem clara:
- Eu, André Barreto Ferraz, corregedor desta comarca de Torre de Moncorvo, por este meu escrito e assinado, dou poderes a Luís Henriques Julião, morador na vila de Vila Flor, para que, como meirinho desta correição, possa prender a Lopo Machado, morador na dita vila, por culpas mui graves que dele há neste juízo e preso o trará à cadeia desta vila e poderá o dito Luís Henriques, com este mandato, requerer para isso todo o favor e ajuda às justiças desta comarca, a qual lhe darão da maneira que ele requerer, sob pena de suspensão de seus ofícios; e feita a dita prisão não poderá o dito Luís Henriques usar o dito mandato em outra diligência porque só por esta vez lhe dou este poder, por assim convir ao serviço de Sua majestade; e para o trazer preso á cadeia desta vila poderá pedir ajuda às pessoas que lhe convier, à custa do dito Lopo Machado. Dado nesta vila de Torre de Moncorvo, feito e assinado por mim, de minha letra e sinal, aos 30 dias de Agosto de 1644. Ferraz.
E assim se procedeu. O juiz mandou buscar as chaves da cadeia e para lá seguiram. E mandou também chamar o tabelião António Borges de Castro, para que lavrasse o competente auto de prisão. No auto queria ele anexar o mandato de prisão, mas Luís Henriques pediu-lhe que o deixasse ficar com ele, para sua própria defesa. O juiz concedeu. E porque não houvesse carcereiro ou ele não garantisse a segurança da prisão, o juiz ordenou que ficasse Luís Henriques e seu irmão Rodrigo Fernandes de guarda à cadeia durante a noite. Entretanto, já o filho de Lopo Machado tinha ido ter com Francisco de Sampaio intercedendo com ele para que acudisse a seu pai. E também o seu ouvidor tinha ido contar-lhe o sucedido e dizer-lhe que a prisão fora executada por ordem do corregedor e com aviso de Sua Majestade. E Luís Henriques, por seu turno, teria já despachado um amigo para Torre de Moncorvo a informar o corregedor e o meirinho que o homem estava preso aguardando transferência para a cadeia da sede da comarca.
Efectivamente, ao outro dia, apareceu o meirinho com 3 ou 4 homens e, também na presença do juiz Agostinho Valente Pinto, o preso foi colocado em cima de um jumento, com grilhões nos pés. Queriam também prender-lhe as mãos atrás das costas e arrematá-lo com cordas à albarda do jerico. Porém, e por insistência do capitão de milícias Jerónimo de Morais e do fidalgo Gregório Montes Botelho, foi poupado a esse vexame.
Imagine o leitor a multidão de mirones à porta da cadeia e pelas ruas da vila e os comentários que correram a terra sobre o caso. Um homem da nobreza, juiz dos órfãos e familiar do Santo Ofício feito prisioneiro de um cristão-novo e judaizante, insultado e vilipendiado pelos “judeus” da terra!
Para além do mais, era um golpe tremendo no prestígio de uma instituição tão sagrada e temida como o Santo Ofício, que tinha o poder do papa e de Deus para julgar não apenas os actos mas até a consciência das pessoas! O caso vinha minar a sua autoridade e enfraquecer a segurança dos familiares e comissários da Inquisição, que de futuro, se esquivariam a executar as prisões e outras ordens vindas de Coimbra.
Sigamos agora para o Torre de Moncorvo onde Lopo machado foi metido na prisão, esta dotada já de carcereiro que garantia a segurança e às ordens do corregedor. Porém e estranhamente, não foi longa a sua estadia no cárcere, que logo na primeira noite fugiu, certamente ajudado e por intervenção de alguém muito poderoso.
Aqui fazemos um parêntese para dizer que em Portugal se travava então uma feroz luta pelo poder, entre o rei D. João IV e a Inquisição, com a nobreza, o povo e a própria igreja católica completamente divididos. Na verdade, por detrás da capa da religião e dela se servindo, assistia-se a uma verdadeira guerra política e a sociedade agrupada em dois blocos: o partido dos cristãos-novos e o partido da Inquisição. A prisão do Inquisidor Mor e a morte na fogueira do capitão Manuel Fernandes Vila Real foram os dois episódios mais marcantes dessa luta cujos efeitos se sentiam também na Torre de Moncorvo e particularmente em Vila Flor. (1)
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda, A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa