quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Antes do Santo ofício

D. Afonso V concede carta de contrato a Ben Venyste Piecho, judeu, mercador, morador em Torre de Moncorvo.

Datas 1455-03-20

Localização física Chancelaria de D. Afonso V, liv. 15, fl. 156

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor V

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLITICA?
A PRISÃO DO FAMILIAR DA INQUISIÇÃO
Tinha-se o sol já posto e a noite começava a cerrar-se sobre Vila Flor, naquele dia primeiro de Setembro de 1644. O tempo mantinha-se morno e, apesar do escuro, muitos moradores seroavam na rua, sentados nos poiais e soleiras das portas.
Lopo Machado Pereira atrasou-se um pouco lá pelos cabeceiros da Vilariça onde tinha ido ver a vinha, que as vindimas estavam à porta. Regressava a casa, montado no seu esplêndido cavalo castanho. Vinha pela rua da Fonte e entrou na vila pela porta sul, seguindo pela rua Direita, também chamada rua Nova desde a altura em que a sinagoga dos judeus se fechou.
Aquela não era a rua mais direita para sua casa, sita lá para as bandas da Portela. Mas vinha por ali com intenção de deitar um olho a ver como as coisas andavam. É que ele, além do estatuto de nobreza e do rendoso ofício de juiz dos órfãos, ostentava o colar de familiar da Inquisição e sentia-se investido na santa obrigação de zelar pela pureza da fé e dos costumes, numa terra que todos sabiam estar infestada de cristãos-novos judaizantes.
Vinha por aquela rua, que era onde morava a maioria dos marranos da vila. E, muito em especial, queria manter apertada vigilância sobre a família de Julião Henriques que ele despachou há quase um ano para a cadeia de Coimbra, assim como a seu filho Diogo Henriques Julião.
Aliás, ele andava um tanto intrigado desde há uns tempos, pois lhe constara que os cristãos-novos de Vila Flor se quotizaram, dizendo-se que cada um entrou com 5 mil reis. Constava que esse dinheiro se destinava a conseguir em Lisboa um bom advogado ou alguém poderoso que fosse capaz de lhes alcançar da corte d´el-rei D. João IV um despacho favorável. Que despacho e que favor tão importante seria esse?! – perguntaria Lopo Machado a si próprio naquele momento.
E também lhe vinham à memória as ameaças proferidas contra ele por Julião Henriques e seus filhos e parentes de que o haviam de destruir e não havia de prender mais gente. E muitos amigos lhe estranhavam que, dadas as inimizades com os Juliões, ele lhe andasse sempre a passar à porta, em nítida atitude de provocação.
De repente, saídos de uma esquina, um grupo de homens, todos cristãos-novos, saltaram-lhe à frente e, segurando-lhe as rédeas do cavalo, derrubaram o cavaleiro. E apareceu uma mulher, com um archote de palha, a alumiar-lhe bem a cara e a gritar-lhe insultos:
Ladrão! Agora pagarás pela prisão do meu homem e do meu filho, que foi injusta!
Chamava-se Branca Rodrigues e, enquanto proferia insultos, chegava a luminária bem à frente da cara do fidalgo. E continuava despejando insultos:
Ladrão! Mostra bem essa cara de malvado! Deixa-me ver esses olhos de maroto! Agora pagarás pelo meu homem e pelo meu filho, que mos tens presos, falsamente!
Acorreu gente, destacando-se entre todos o alcaide António do Sil, o juiz ordinário e presidente da câmara Agostinho Valente Pinto e o ouvidor do conde de Sampaio, Manuel Correia da Fonseca – as autoridades maiores da terra – naturalmente seguidos pelos quadrilheiros ou homens do regimento, que cumpriam as tarefas de policiamento da vila. E acorreram também familiares e amigos de Lopo Machado, gritando “aqui d´el-rei, que matam D. Lopo!”

Fotografia do vale da Vilariça, que une Vila Flor e Torre de Moncorvo.LB
Branca Rodrigues não se amedrontou com a chegada das autoridades e dos “polícias! E muito menos o seu filho Luís Henriques, que capitaneava os agressores. Antes, orgulhoso, face à intimidação do alcaide que lhe dava ordem de prisão, ele levantou a vara da justiça que todos reconheceram pertencer ao meirinho da correição de Torre de Moncorvo enquanto tirava do bolso um pergaminho que deu a ler ao juiz, declarando:
- Veja vossa senhoria que isto é um mandato de prisão e que, como aí se diz, tem vossas senhoria e todas as autoridades o dever de me ajudar a meter este homem na cadeia e guardá-lo até ser entregue ao meirinho da correição. Juntamente com o juiz, o ouvidor e o alcaide debruçaram-se sobre o escrito e leram, com Branca Rodrigues a fazer luz com o archote. A letra era bem familiar àqueles homens da governança da vila, bem como a assinatura e o selo que a autenticava. E a ordem era bem clara:
- Eu, André Barreto Ferraz, corregedor desta comarca de Torre de Moncorvo, por este meu escrito e assinado, dou poderes a Luís Henriques Julião, morador na vila de Vila Flor, para que, como meirinho desta correição, possa prender a Lopo Machado, morador na dita vila, por culpas mui graves que dele há neste juízo e preso o trará à cadeia desta vila e poderá o dito Luís Henriques, com este mandato, requerer para isso todo o favor e ajuda às justiças desta comarca, a qual lhe darão da maneira que ele requerer, sob pena de suspensão de seus ofícios; e feita a dita prisão não poderá o dito Luís Henriques usar o dito mandato em outra diligência porque só por esta vez lhe dou este poder, por assim convir ao serviço de Sua majestade; e para o trazer preso á cadeia desta vila poderá pedir ajuda às pessoas que lhe convier, à custa do dito Lopo Machado. Dado nesta vila de Torre de Moncorvo, feito e assinado por mim, de minha letra e sinal, aos 30 dias de Agosto de 1644. Ferraz.
E assim se procedeu. O juiz mandou buscar as chaves da cadeia e para lá seguiram. E mandou também chamar o tabelião António Borges de Castro, para que lavrasse o competente auto de prisão. No auto queria ele anexar o mandato de prisão, mas Luís Henriques pediu-lhe que o deixasse ficar com ele, para sua própria defesa. O juiz concedeu. E porque não houvesse carcereiro ou ele não garantisse a segurança da prisão, o juiz ordenou que ficasse Luís Henriques e seu irmão Rodrigo Fernandes de guarda à cadeia durante a noite. Entretanto, já o filho de Lopo Machado tinha ido ter com Francisco de Sampaio intercedendo com ele para que acudisse a seu pai. E também o seu ouvidor tinha ido contar-lhe o sucedido e dizer-lhe que a prisão fora executada por ordem do corregedor e com aviso de Sua Majestade. E Luís Henriques, por seu turno, teria já despachado um amigo para Torre de Moncorvo a informar o corregedor e o meirinho que o homem estava preso aguardando transferência para a cadeia da sede da comarca.
Efectivamente, ao outro dia, apareceu o meirinho com 3 ou 4 homens e, também na presença do juiz Agostinho Valente Pinto, o preso foi colocado em cima de um jumento, com grilhões nos pés. Queriam também prender-lhe as mãos atrás das costas e arrematá-lo com cordas à albarda do jerico. Porém, e por insistência do capitão de milícias Jerónimo de Morais e do fidalgo Gregório Montes Botelho, foi poupado a esse vexame.
Imagine o leitor a multidão de mirones à porta da cadeia e pelas ruas da vila e os comentários que correram a terra sobre o caso. Um homem da nobreza, juiz dos órfãos e familiar do Santo Ofício feito prisioneiro de um cristão-novo e judaizante, insultado e vilipendiado pelos “judeus” da terra!
Para além do mais, era um golpe tremendo no prestígio de uma instituição tão sagrada e temida como o Santo Ofício, que tinha o poder do papa e de Deus para julgar não apenas os actos mas até a consciência das pessoas! O caso vinha minar a sua autoridade e enfraquecer a segurança dos familiares e comissários da Inquisição, que de futuro, se esquivariam a executar as prisões e outras ordens vindas de Coimbra.
Sigamos agora para o Torre de Moncorvo onde Lopo machado foi metido na prisão, esta dotada já de carcereiro que garantia a segurança e às ordens do corregedor. Porém e estranhamente, não foi longa a sua estadia no cárcere, que logo na primeira noite fugiu, certamente ajudado e por intervenção de alguém muito poderoso.
Aqui fazemos um parêntese para dizer que em Portugal se travava então uma feroz luta pelo poder, entre o rei D. João IV e a Inquisição, com a nobreza, o povo e a própria igreja católica completamente divididos. Na verdade, por detrás da capa da religião e dela se servindo, assistia-se a uma verdadeira guerra política e a sociedade agrupada em dois blocos: o partido dos cristãos-novos e o partido da Inquisição. A prisão do Inquisidor Mor e a morte na fogueira do capitão Manuel Fernandes Vila Real foram os dois episódios mais marcantes dessa luta cujos efeitos se sentiam também na Torre de Moncorvo e particularmente em Vila Flor. (1)
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda, A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa

sábado, 31 de julho de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor IV

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
IV - O PROCESSO DE JULIÃO HENRIQUES
Acaso receando tempestade, no seguimento da prisão de seu filho Diogo, Julião Henriques começou a vender alguns dos numerosos bens imobiliários, espalhando-se a notícia de que ele se preparava para fugir para o estrangeiro. E então, Lopo machado e outros esbirros da Inquisição e inimigos daquele, terão convencido o vigário geral da comarca para que, em nome da Mesa do Paço de Braga, ordenasse a sua prisão na cadeia da comarca, ao mesmo tempo que se mandava relatório para a Inquisição de Coimbra, redigindo-se o competente sumário da prisão. O próprio vigário, depois de o ter preso, escrevia para Coimbra:
- Porque é rico e poderoso, será muito conveniente que Vossas Senhorias mandem brevemente quem o guarde (e leve) para que não possam, com dinheiro, corromper o carcereiro, sem embargo que o tenho segurado com ferros, porque sinto que os cristãos-novos, a peso de ouro, o poderão tirar dela.
E foi ao início de Janeiro de 1644, que Julião Henriques foi entregue a Lucas de Andrade, morador em Fonte Arcada, actual freguesia do concelho de Sernancelhe, que “a bom recato” o levou para Coimbra, depois de lhe fazer sequestro de bens e tomar 20 mil reis em dinheiro para custear transporte, alimentação e alojamento, que a Inquisição não oferecia tais serviços aos prisioneiros. (1)
Para além das denúncias de judaísmo feitas por Lopo Machado, a ordem de prisão era sustentada por uma outra, feita 21 anos antes (!), em 17.1.1623, por Brites da Costa, de 26 anos, cristã-nova, casada com Fernão Nunes, nos seguintes termos:
- Disse que haverá ano e meio se achou em casa de sua tia Marquesa da Mesquita, com Manuel de Valença, seu irmão e com Julião Henriques e se declararam. (2).
Por 3 longos anos permaneceu Julião Henriques nas masmorras da Inquisição, acabando por sair no auto de fé de 25.2.1647 abjurando “de leve”.
Não vamos aqui analisar os trâmites do processo que nada de especialmente relevante apresenta, para além da extensa genealogia de sua família, das “contraditas” da defesa e da relação de seus bens, ambas do maior interesse para a história económica e social de Vila Flor naqueles tempos.
Note-se, antes de mais, que ele se apresenta como rendeiro e saboeiro e estas actividades seriam a maior fonte de seus rendimentos. Uma segunda nota para referir que, afinal, esta gente também investia em propriedades rústicas e urbanas e não apenas no mundo dos negócios e da agiotagem, como muitas vezes se diz. E ainda uma referência para os olivais que possuía, referência esta bem significativa se nos lembrarmos que esta cultura só a partir do século XVI se espalhou pela região. E isso faz com que possamos considerar Julião Henriques como um dinâmico empresário agrícola. Mas vejamos então a relação que Julião Henriques ditou para o processo:
- Umas casas na rua da Fonte “sobradadas, 4 casas em cima e 4 lojas em baixo, que estima em 100 mil reis”, aonde morava.
- Outra casa ao Toural, sobradada, com 2 divisões em cima e 2 em baixo, avaliada em 30 mil reis. Estava emprestada a uma criada “sem pagar coisa alguma porque lha dava de amor e graça”.
- Um palheiro na rua da Fonte a que chamam Lagareta e que vale 4 ou 5 mil reis.
- Em Vilas Boas, na praça, tinha uma casa térrea que valeria 4 mil reis.
- Em Candoso, tinha parte de uma casa a qual estava vendida por 2 mil reis, mas ainda lhe não tinham pago.
- No sítio do Cardal tinha uma terra que costumava semear de cereal e que levava 25 alqueires e valeria uns 15 mil reis.
- No Vale das Vinhas tinha uma vinha avaliada em 20 mil reis.
- Na freguesia de vale Frechoso possuía um casal que andava arrendado por 7 alqueires de centeio, valendo uns 7 mil reis.
- Em Vila Flor, no sítio do Jazigo, tinha um olival “todo tapado sobre si” que valia 70 mil reis.
- Outro olival, também murado, no termo de Meireles, no valor de 20 mil reis. E por cima deste olival tinha uma “leirinha” de 7 oliveiras que valiam 1 500 reis.
- Outro olival, igualmente “tapado sobre si” que valeria 3 mil reis no termo de Vale da Sancha.
Estes eram os bens imóveis de Julião Henriques. Dos móveis disse que sua mulher daria melhor conta.
E se esta relação de bens tem interesse para o estudo da ocupação do espaço urbano de Vila Flor e da sua geografia económica, não menos interesse para a história da comenda da Ordem de Cristo na área de Torre de Moncorvo terá a relação dos cereais que ele tinha fornecido e cujo pagamento lhe deviam. Vejamos:



- Dos frutos da comenda tinha vendido fiado 206 alqueires de cereal a moradores do Larinho.
- Outros 200 alqueires de trigo, centeio e cevada em Açoreira.
- Outros 200 de centeio em Estevais
- Também na Horta da Vilariça, 200 alqueires de trigo, centeio e cevada.
- Deixou nas tulhas da mesma comenda em Felgar e Felgueiras, uns 800 alqueires de cereal, enquanto na tulha da Torre de Moncorvo ficaram uns 300 alqueires.
Para além de rendeiro da comenda da Ordem de Cristo em Torre de Moncorvo, Julião Henriques trazia arrematadas outras rendas, nomeadamente na 2Fábrica dos Estevais” e no concelho do Vilarinho da Castanheira onde deixou pão “repartido” pelos moradores e ainda não pago, para além de 200 alqueires em tulha.
Curioso que neste rol de devedores de Julião Henriques se incluía o juiz de fora de Torre de Moncorvo, dr. Manuel Correia Freire e o escudeiro Francisco de Almeida e ambas as dívidas respeitavam a cereal fornecido
Os restantes devedores eram todos lavradores e as dívidas provenientes de “bois de renda” e isso é interessante para o estudo da vida quotidiana de então. Vejam dois casos:
Manuel Pinto, morador em Samões “lhe trás um boi castanho que vale 3 mil reis e dando o dito Manuel Pinto os ditos 3 mil reis é o boi seu, porque com essa condição lho comprou, com obrigação de cada ano lhe lavrar 3 jeiras de terra”.
António Queijo, lavrador de Candoso “tem em seu poder uma vaca que será de 4 anos, cor castanha, que vale 2 500 reis e lhe pagava cada ano 5 ou 6 alqueires de centeio e do aluguer lhe não deve nada porque lha comprou este ano”.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 3869, de Julião Henriques.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 3857, de Brites da Costa.

Fotografia de Torre de Moncorvo.A.P.L.B.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

-Cátedra de Estudos Sefarditas

A Cátedra de Estudos Sefarditas faz referência, na sua página inicial, ao blog como um espaço a seguir.

Siga o Blog: OS JUDEUS EM TRÁS OS MONTES
http://marranosemtrasosmontes.blogspot.com/
Em destaque neste blog, entre muitos outros artigos de interesse, o Prefácio de Carla Vieira ao livro «Jacob de Castro Sarmento» de Maria Fernanda Guimarães e António Júlio Andrade.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

-Retalhos da História de Vila Flor III


AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
LOPO MACHADO - FAMILIAR DA INQUISIÇÂO
Lopo Machado era homem nobre de Vila Flor, juiz dos órfãos e familiar da Inquisição. Nesta última qualidade, ele era chamado a participar nas prisões que se efectuavam na terra em nome do Santo Ofício e esperava-se que mantivesse apertada vigilância sobre o procedimento dos cristãos-novos. E não desmerecia ele nesse papel de espião e informador, como se depreende da leitura de alguns processos, nomeadamente o de Julião Henriques, neto do físico / médico do mesmo nome de que atrás se falou. (1)
Neste processo se apresenta uma longa exposição por ele enviada para Coimbra e que serviu de fundamento à ordem de prisão do citado Julião Henriques. (2)
Começa o informador por contar que em Junho de 1638, foram presas em Vila Flor uma cunhada (Isabel Pereira) e uma sobrinha (Genebra Henriques) de Julião (mãe e filha) e que quem dirigiu tais prisões foi o corregedor da comarca, dr. António Cardoso de Sousa. Este, depois de efectuadas as prisões e “indo pousar a casa de um clérigo por nome Pêro Esteves, do lugar de Samões, meia légua da vila e dando-lhe o dito clérigo um copo de vinho com o qual morreu logo apressadamente, sem confissão e desde esse tempo até hoje a gente da nação, principalmente Julião Henriques, cabeça deles, corre com o dito clérigo e seus irmãos com muita amizade, o que deu muita suspeita a sua morte” (3)
Em Agosto seguinte, foi presa uma outra filha de Isabel, chamada Eva Pereira e outras prisões se seguiram em nome da Inquisição, sendo corregedor da comarca o dr. Jerónimo de Medeiros Correia. E, contava Lopo Machado, que Julião Henriques (“cabeça desta gente”) e seus filhos andaram “perturbando grandemente” as diligências do Santo Ofício “só a fim de intimidarem” o novo corregedor. (4)
Em Dezembro de 1642, foi presa uma Brites Gomes, mulher de Lopo Cardoso e quem executou a prisão e procedeu ao sequestro e inventário dos bens foi o provedor da comarca, dr. Bernardo de Morais e o familiar Machado que fora também o denunciante. Nesta prisão terá havido algumas irregularidades e terá sido feito por ordem da Mesa do Paço e não da Mesa do Santo Ofício. E esta e outras atitudes “irregulares” de Lopo Machado terão sido objecto de reclamação por parte de Julião Henriques e dos cristãos-novos de Vila Flor e será uma das razões que levarão estes a alcançar um mandato de prisão (nos tribunais civis, não nos da Inquisição) contra o mesmo Lopo Machado, como adiante se verá. Agora o familiar queixava-se de que andavam a pressionar e a intimidar o provedor da comarca. (5)
Depois, em data que não conseguimos apurar porque não foi possível encontrar o respectivo processo na Torre do Tombo, foi preso, estando lugar de Sampaio, pelo familiar Lopo Machado, um filho de Julião Henriques, Diogo de seu nome. E essa foi a gota de água que fez o copo extravasar. Vejamos só o comentário feito pelo próprio familiar e enviado para a Inquisição de Coimbra:
- Tanto que eu prendi Diogo Henriques, os mais logo se fintaram contra mim e todos os que nessa ocasião ajudaram dando 5 mil reis cada um, sendo que passam de 100, fazendo-se o dito Julião a cabeça deles, assinaram capítulos falsos que deram a Sua majestade de mim; e desta sorte escreveram com o corregedor desta comarca, André Barreto Ferraz, natural de Aveiro, que por respeito os favorece demasiadamente.
Registe-se a informação de que os cristãos-novos (agrupamentos familiares, certamente) eram mais de 100 e o facto de o familiar da Inquisição acusar o corregedor da comarca (a maior autoridade civil da região) de cumplicidade com os cristãos-novos!
Lopo Machado concluía este ponto da sua exposição dizendo que por isso os cristãos-novos “se gabam poucamente que pois me hão-de destruir e não hei-de prender outros”.
Apresentava, em seguida, dois casos concretos exemplificando como os cristãos-velhos se recusavam a exercer cargos e a servir de testemunha contra os cristãos-novos. Um deles, Francisco Gomes, de Santa Comba da Vilariça, recusou exercer o cargo de juiz da vara para que foi nomeado em Dezembro de 1643 pala câmara municipal, devido às ameaças que lhe fizeram por ter testemunhado contra o dito Diogo Henriques Julião. O outro “perseguido” foi Humberto Rodrigues Pimental, que ajudou a executar a mesma prisão e ficou depositário dos bens do prisioneiro.
E depois de apresentar estes dois casos, por ele considerados exemplares, escrevia:
- Tem dado nesta vila e comarca notável escândalo ver que as pessoas que fazem diligências do Santo Ofício e os que ajudam são desta sorte perseguidos pela gente da nação e por estas razões hão medo e não se atrevem a dizer as verdades.
Mais apresentava alguns casos de pessoas que testemunharam falsamente, em favor de cristãos-novos e duas denúncias de comportamento contrário à religião católica e merecedores de intervenção do santo tribunal. Uma deles, referente a Rodrigo Fernandes e outros que se puseram a zombar e a arremedar os clérigos à passagem de uma procissão, em Vilas Boas. A outra era contra Julião Henriques que, como rendeiro da vila de Frechas, tinha obrigação de dar “azeite para semear (acender) a lâmpada do Santíssimo Sacramento” e indo-lho o mordomo a pedir, ele terá respondido “com muito desprezo, que a semeassem com lama”. E que, sendo presente um António Rodrigues, sapateiro, este lhe aconselhou a que tivesse cuidado com o que dizia, respondendo Julião “que ele era judeu e disso se prezava”.
Lopo machado terminava o seu relatório denunciando mais uma ameaça feita presumidamente por Julião Henriques e seus pares, nos seguintes termos:
- Pois os prenderam, hão-de fazer ir à Inquisição todos quantos há nesta vila, cristãos-velhos e cristãos-novos; gabando-se de serem poderosos e ter dinheiro, acabam por difamar a santa Inquisição, pois dizem que este Novembro próximo passado, mandaram um macho com uma carga de presuntos de peita (suborno) a um ministro da santa Inquisição da Mesa Grande, só a fim de que a gente de pouco entendimento lhe haja medo e não se atreva a dizer o que souberem. Porque este povo está tão intimidado e esta comarca tão escandalizada, que os homens de mais conta afirmam que na cristandade não aconteceu outro caso como este, pois estando em Portugal, haviam os homens de ser perseguidos por defender a lei de Cristo.
Ao ler um relatório desta natureza, adivinha-se naturalmente uma luta bem renhida entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Vila Flor, sendo cabecilhas desta luta o “judeu” Julião Henriques e o familiar da Inquisição Lopo machado Pereira. E se D. Lopo contava os dias à espera que a Inquisição de Coimbra mandasse ordem para se prender Julião Henriques, este alimentava forte esperança de que Sua Majestade, o recém aclamado rei D. João IV passasse alvará para o corregedor da comarca de Torre de Moncorvo meter na cadeia o juiz dos órfãos de Vila Flor.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimães


NOTAS


1 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 3869, de Julião Henriques.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 3869, f. 16 e seguintes.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo1841, de Isabel pereira, processo.
Genebra Henriques (processo 21843) era casada com Diogo da Mesquita Munhós que então estava também preso na cadeia da Inquisição de Coimbra (processo 7067).
4 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2174, de Eva Pereira
5 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 6105, de Brites Gomes.

domingo, 25 de julho de 2010

Retalhos da História de Vila Flor

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.

QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?

II - JULIÃO HENRIQUES, MÉDICO EM VILA FLOR

Julião Henriques pode ser considerado o patriarca de uma importante família de cristãos-novos de Vila Flor cujos membros forneceram fartura de carne aos inquisidores - para usar uma expressão que terá ganho foros de escândalo entre alguns cardeais da Cúria de Roma horrorizados com as notícias de abusos que lhe chegavam praticados pela Inquisição espanhola e preocupados com a determinação e teimosia do rei D. João III no estabelecimento do tribunal do Santo ofício em Portugal. (1)

Da sua biografia pouco sabemos. Apenas o nome de seus pais e irmãos e que era casado com Branca Coutinho, filha de Leonel Fernandes, rendeiro, que foi preso pela Inquisição de Coimbra em 1558 (2)

De seus filhos, muito haverá que dizer, especialmente de Pêro Henriques Julião que casou em Torre de Moncorvo com Francisca Vaz e ambos tiveram hospedagem nas masmorras do Santo Ofício. Ele era, de certeza, um dos homens mais ricos e mais considerados da região trasmontana e só assim se compreende que fosse escolhido pelo “governo da comarca” (corregedor, provedor e almoxarife) para o cargo de “depositário do dinheiro das obras públicas do reino”. E também foi escolhido pelos seus confrades para repartidor da finta lançada entre “a gente da nação” para a compra do perdão geral concedido pelo rei Filipe e pelo Papa aos cristãos-novos portugueses; em 1605, que estavam presos nas cadeias das Inquisições de Espanha e Portugal.(3)

Voltando ao patriarca, diremos que ele é apresentado como físico e médico e que a sua vida se repartia entre Castela e Trás-os-Montes, sobretudo entre as localidades de Vilvestre e Vila Flor, indicadas como terras de sua residência. E sabemos que foi denunciado como judaizante na visitação que fez a Torre de Moncorvo o dr. Jerónimo de Sousa, em Março de 1583, enviado pela Inquisição de Coimbra. (4)

Estando então o dr. Jerónimo de Sousa em Torre de Moncorvo, na “casa da Inquisição”, no dia 23 daquele mês e ano, aí compareceu um tal Bartolomeu Fernandes, cristão-velho, de 35 anos, casado, porteiro, que fez a seguinte declaração: (5)

- Disse que haverá onze anos pouco mais ou menos, morando ele com Álvaro Vaz, cristão-novo, mercador, morador nesta vila, que ora está casado com uma irmã de Julião Henriques (…) morando assim com ele vindo uma vez de Castela no dito tempo com panos, passaram a barca de Silvestre de noite e se vieram agasalhar em Freixo de Espada à Cinta, em casa de uma viúva que se chamava a de Burgos chama-se Branca Francisca Rodrigues cristã-nova, estalajadeira e aí veio ter com o dito seu amo Julião Henriques, físico, que então morava em Silvestre e agora mora em Vila Flor e dois filhos da dita estalajadeira (…) e depois de terem ceado, já muito de noite, ele denunciante se foi deitar em cima de uma carrega (sic) na mesma casa onde estavam e depois de ele denunciante se deitar, fez que dormia, e o dito seu amo com os mais cristãos-novos e a estalajadeira e duas filhas suas, mulheres, se ajuntaram junto do fogo e mandaram pôr uma mesa com um lambel por cima e puseram duas velas em dois castiçais, acesas na dita mesa, e entre estas velas puseram um livro de quarto que poderia ter duas mãos de papel, e o abriram e cada um deles lia pelo dito livro; e o primeiro que começou a ler foi Julião Henriques e o segundo foi o amo dele denunciante, e assim corria todos, e cada um lia seu pouco; e acabando cada um de ler, dava uma palmada no livro e o passava a outro; e ele denunciante não entendeu nem pode entender a língua do dito livro, somente entendia algumas vezes, mexiam, levantavam as mãos dando palmadas e que as mulheres não liam, mas iam tocar no dito livro e se tornavam a sentar; e depois se levantaram e estiveram todos em pé um grande pedaço, sem ele denunciante entender o que eles diziam; e acabando isto, cerraram o livro e a velha estalajadeira o foi meter em um cortiço em que tinha sal, a um canto do lar, em entrando à mão esquerda; e enquanto estiveram na dita cerimónia, um neto da dita estalajadeira ia a ver se dormia ele denunciante…(6)



António Júlio Andrade
Fernanda Guimães

NOTAS


1 – HERCULANO, Alexandre – História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, tomo III, p. 268.

2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2182, de Leonel Fernandes.

3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5814, de Pêro Henriques Julião. Processo 5022, de Francisca Vaz.

4 – Antes de entrar ao serviço da Inquisição de Coimbra, o dr. Jerónimo de Sousa foi prior da igreja de Vila Flor. E já então revelava um extraordinário zelo inquisitorial, como se vê das actas dos interrogatórios que lhe mandavam fazer. A este respeito é exemplar o relatório que anexou no processo nº 458 da Inquisição de Coimbra, referente a Manuel Lopes, de Vila Flor. Nesse relatório, datado de 23.10.1577, ele permitia-se dizer que não interrogou algumas testemunhas, como lhe fora ordenado, “por não serem da terra, como também por não fazer estrondo (…) e eu porque trazem o olho em mim, não ouso de perguntar isto miudamente, somente noto o que acaso ouço sem perguntar”.

E permitia-se até aconselhar os inquisidores escrevendo que “ deviam vossas mercês usar um pouco mais de rigor neste caso porque estão aqui casas que tiveram mãe e filha escondidas e ainda se presume que está a filha; se estas pessoas fossem presas diriam a verdade; e também a mulher do alcaide de que há culpas de fautoria não deixa com o poder do marido de contar tudo o que pode porque os dias passados morreu aqui um cristão-novo paralítico e começava de falar; morreu uma noite e subitamente; disseram que o mataram com peçonha”.

E não bastando o relatório com tantas insinuações e conselhos, Jerónimo de Sousa escolheu então uma pessoa de toda a sua confiança para ir pessoalmente a Coimbra explicar todos os pormenores do processo – Gaspar da Rosa (tabelião, inimigo figadal dos cristãos-novos) e sua mulher.

5 – Sobre esta visitação ver: ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda – Subsídios para a História da Inquisição em Torre de Moncorvo.

6 – IANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 662.

A mulher de Álvaro Vaz chamava-se Catarina Henriques. E eles foram os pais de Filipa Henriques, que casou com Vasco Pires Isidro e de Francisca Vaz, que casou com Pêro Henriques Julião, todos moradores em Torre de Moncorvo.

(foto da Junta de Freguesia de Vila Flor)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

-VILA FLOR

AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
Retalhos da História de Vila Flor
I - INTRODUÇÃO
A comunidade judaica de Vila Flor remonta possivelmente à época da fundação do município, em 1286, pelo rei D. Dinis e da construção das suas muralhas.
Esta afirmação baseia-se no facto de a sua judiaria se situar dentro do pequeno recinto amuralhado, junto à porta sul, a única que ficou perdurando até aos nossos dias. A propósito, escreveu o autor de Portugal e Moderno – dicionário geográfico impresso a partir de 1873:
- Também se vêem ainda junto da mencionada porta, intra-muros, bastantes casas velhíssimas, formando bitesgas que a tradição aponta como resto da judiaria que houve nesta povoação. (1)
Por outro lado, há também a tradição popular, confirmada por muitos vestígios arqueológicos, que aponta para a rua do Saco como pertencendo à judiaria. Com efeito, ali se vêem várias casas com cruzes esculpidas nas ombreiras das portas. Tais cruzes serão marcas que procuravam evidenciar para o mundo exterior a adesão ao cristianismo, dos locatários das casas.
E também se diz que a porta do Rossio, mandada demolir pela câmara municipal em 1868, dava para a velha judoaria. (2)
Para além disso, há muitos nomes de judeus moradores em Vila que nos aparecem em documentos régios do século XV. Só nos livros da chancelaria de D. Afonso V, são identificados mais de 3 dezenas, como mostra Maria José Ferro Tavares. (3)
De certo, será necessário proceder a criteriosos estudos de arqueologia judaica para esclarecer tudo isto mas estamos convictos de que a judiaria de Vila Flor não seria fechada sobre si e que desde muito cedo a população judaica ocupou largo espaço urbano, dentro e fora da muralha dionisíaca.
A existência da judiaria de Vila Flor é também testemunhada por vários documentos, nomeadamente uma carta de D. Afonso V, de 1439, confirmando os privilégios da comuna dos judeus e uma certidão de 1525 de uma carta em que o rei D. Manuel faz mercê a Francisco Vaz de Sampaio de 30 mil reis de tença, cada ano, em sua vida, em satisfação das rendas das judiarias de Torre de Moncorvo e Vila Flor. (3)
Acerca deste período da história da vila e da sua comuna de judeus, o abade de Miragaia deixou-nos o seguinte retrato:
- Até o fim do século XV foi terra importante e rica. Era habitada então por grande número de judeus que a tornavam florescente pela indústria e trato comercial de todo o género, incluindo a ourivesaria e joalharia, mas, pela bárbara e mal entendida expulsão dos judeus (…) começou a decadência de Vila Flor, porque não só perdeu a actividade e o génio mercantil e industrioso que caracterizaram sempre os israelitas, mas também os capitais que ao tempo eram apanágio quase exclusivamente seu. Assim veio a diminuir consideravelmente a população desta vila e muitos dos seus edifícios caíram em ruínas. (4)
Na verdade, aquando do recenseamento geral da população, efectuado em 1527 – 30, a situação era a seguinte:
- A vila de Vila Flor é cercada e cerca derrubada; é de Fernão Vaz de Sampaio, com direitos e rendas; e vivem na dita vila e arrabaldes 151 moradores. (5)
Por moradores deverá entender-se agrupamentos familiares, o que correspondia a uma população de mais de 500 habitantes. E se a cerca (muralha) se encontrava derrubada, isso não significaria ruína da terra, antes pelo contrário a terra seria então muito progressiva e a população continuava em crescimento extravasando os muros, pois no século de 600 o autor de Poblacion General de España diz que nela se contavam 400 fogos (quase 2000 habitantes) (6)
A hecatombe virá de seguida e dela falaremos mais adiante. Agora voltemos atrás, aos tempos mais próximos da fundação, mais precisamente ao ano de 1329, em que aconteceu um caso deveras notável e que bem mostra a força da comunidade judaica de Vila Flor. Vamos relatar.
Naquele ano, andando o arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira em visitação ao arciprestado de Torre de Moncorvo, chegou a Vila Flor, acompanhado de numeroso séquito, como então era apanágio da gente ilustre da nobreza e do clero. E então, entre a criadagem do arcebispo e alguns judeus moradores da terra surgiram discussões e cenas de pancadaria de que resultaram mortos e feridos. E cercaram a casa onde se hospedava o arcebispo onde mataram alguns homens e matariam o próprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que não lhe evitou cair de costas no terreiro e contundir-se gravemente. O descadeirado arcebispo, continua Camilo, transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro meses depois, adormeceu no Senhor”. (7)
Pelos anos de 500, houve um frade trinitário do convento da Lousa, aldeia das vizinhanças, chamado frei Bento da Conceição, que foi a Vila Flor pregar os sermões da semana santa. E terá feito um sermão contundente contra os judeus, que acusava de terem morto Jesus Cristo. O sermão não terá agradado à gente cristã-nova de Vila Flor que, em resposta, terá arranjado forma de lhe deitar veneno na comida e provocar a morte do frade que não pregou mais sermões. (8)
Estes episódios deixam adivinhar uma intensa luta e surda entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Vila Flor. E aquela, depois que foi instituído o tribunal da Inquisição, terá sido alvo dos maiores vexames e humilhações. E a discriminação chegou a tal ponto que eram obrigados a ir à missa, ao domingo, presos uns aos outros por uma fita e a assistirem à missa de fora da igreja e comungarem por um buraco feito na parede! (9)
Não bastavam já os humilhantes sambenitos que os processados do Santo Ofício tinham de vestir e todos os apupos e insultos que o rapazio e as beatas lhe atiravam e as invectivas que frades fanatizados lhe lançavam dos púlpitos acusando-os da morte de Cristo…
Para mais, aconteceu em Vila Flor um cataclismo: no dia 31 de Janeiro de 1700, caiu a igreja matriz. Imagine-se que muita gente devota considerou logo aquilo como um castigo de Deus, naturalmente por a terra albergar aqueles ímpios hebreus. O facto ficou perpetuado na memória popular que repetia estes versos feitos a propósito:
Vila Flor já não és vila,
Nem vila te chamarão;
Que te caiu a igreja
E tarde a levantarão.
Levantaram sim e bem formosa que ficou, uma das mais belas e grandiosas do Nordeste Trasmontano. Mas levou anos e foram precisos muitos cabedais. De onde eles vieram?
Reza a tradição que tal obra só foi possível porque os cristãos-novos de Vila Flor resolveram abrir os cordões à bolsa e encarregar-se do seu financiamento. Em contrapartida exigiram que se acabasse com aquele vexame de irem à missa presos com a fita e comungarem pelo buraco



(museu.Foto da Junta de Freguesia)
.Vejamos, entretanto, como evoluía a população da vila que, em 1675, contava 400 fogos e quase 2000 habitantes, como atrás se disse e que, em 1706, contava apenas 300 fogos! A quarta parte de seus moradores terá, pois, abandonado a vila no curto espaço de duas décadas, conforme noticia o padre Carvalho da Costa que acrescenta:
- Foi em algum tempo maior e mais rica povoação, porque os muitos homens da nação hebreia que a habitavam, a faziam mais populosa, e com seus tratos e comércios a enriqueciam, e ao presente, com a sua ausência, se acham arruinadas muitas casas (…) Ainda hoje tem algum trato e comércio de mercadores de loja, tenda e courames (…) Tem 300 vizinhos. (10)
E a hecatombe não ficou por aí. Antes continuou, por mais algumas décadas, enquanto a Inquisição prosseguia o seu trabalho. Vejam o que escreviam os vereadores da câmara em documento oficial, enviado à Academia Real da História, em 1721:
- Tem um templo que se vai reedificando sumptuoso (…) Foi povoação de 500 vizinhos e hoje se acha tão diminuta que tem somente 259. A respeito dos inumeráveis cristãos-novos que dela se expulsaram, não sem notável detrimento dos mais moradores, de cuja perfídia hoje se acha tão livre, que não tem por habitador nem um só cristão-novo intra, que é digno de toda a admiração. (11)
Então parece ter a vila batido no ponto mais fundo, iniciando-se a recuperação, que foi muito lenta, aliás. Isto porque, em 1768, contava apenas 274 fogos. A propósito deste número, vejam o comentário inserto no Portugal Antigo e Moderno:
- Em 93 anos perdeu pois 126 fogos e 500 a 600 habitantes – e mais devia perder nos 179 anos que decorreram desde 1496, data da expulsão dos judeus, até 1675. (12)
Neste ponto andará Pinho Leal enganado. É que, numa primeira fase e durante várias décadas, a população judaica de Vila Flor não diminuiu, antes terá crescido e muito, com o decreto de expulsão dos judeus de Espanha, em 1492. Com efeito, terá sido entre Vila Flor e Torre de Moncorvo, nos plainos da Vilariça, que então se estabeleceu um acampamento de refugiados para efeitos de controlo da população e pagamento do imposto estipulado pelo rei D. João II. Para este acampamento convergiram os judeus espanhóis que passaram a fronteira na parte sul de Trás-os-Montes, portos de Barca d´Alva, Freixo de Espada à Cinta, Lagoaça… E depois, uma grande porção desses refugiados, ficou-se, naturalmente por terras de Vila Flor e Torre de Moncorvo. (13)
Aliás, ainda mesmo depois do decreto de 1496, os cristãos-novos de Vila Flor obtiveram alguns favores e mercês reais. Com efeito, ainda em 20 de Março de 1520, o rei D. Manuel lhes concedeu uma carta de privilégios sobre fintas e aposentadorias e, 10 anos depois, o rei D. João III, lhes assinou outra carta confirmando todos os privilégios que possuíam. (14)
Dissemos atrás que se adivinhava uma continuada luta entre cristãos-novos e cristãos-velhos da terra. Pois, isso mesmo se confirma em documentos régios, nomeadamente um alvará de D. Sebastião, datado de 1561, proibindo os cristãos-novos de vila Flor de servirem em cargos públicos. Idêntico alvará foi promulgado por Filipe II, em 1598. E até mesmo o rei D. João IV que tão apoiado foi pela gente da nação de Trás-os-Montes, se viu forçado a assinar uma carta proibindo-os de serem eleitos para a câmara municipal de Vila Flor. (15)
E não seria por acaso que uma nova medida anti-judaica começou por ser aplicada em Vila Flor (a título experimental, como hoje se diria), antes de se tornar extensiva a todo o País. Referimo-nos à prova da limpeza de sangue. De acordo com esta lei, qualquer pessoa, para desempenhar um cargo público, entrar numa universidade ou ordem religiosa, ser padre ou bispo, ou obter uma condecoração ou título de nobreza, tinha de provar que, em sua família, até à quinta geração, não havia gota de sangue judeu. Pois, foi precisamente em 1574 que foi publicado o primeiro alvará desta natureza e visando os cristãos-novos de Vila Flor. (16)
De resto, os processos da Inquisição que vamos apresentar dão exactamente testemunho dessas luta (política, religiosa, económica e social) que assolou Vila Flor na segunda metade do século XVII.


António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães


NOTAS


1 – PINHO LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa – Portugal Antigo e Moderno dicionário geographico, estatístico, chorografico, heráldico, archeologico, histórico, biographico e etymologico de todas as cidades, vilas e freguesias de Portugal, vol. XI, p. 732.


2 – MORAIS, Cristiano de – Cronologia Histórica de Vila Flor 1286 – 1986, p.10


3 – TAVARES, Maria José Ferro – Os Judeus em Portugal no séc. XV, vol II.


4 – IANTT, Corpo Cronológico, parte II, mç 126 nº 169.


5 – PINHO LEAL, ob. cit. P.732


6 – ARCHIVO HISTORICO PORTUGUEZ, vol. VII, p. 255


7 – MENDES DA SILVA, Rodrigo – Poblacion General de España, p. 144v.


8 – GRANDE ENCICLOPEDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA, VOL. 35, P. 508.


9 – ALVES, Francisco Manuel – memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança, vol. V, p. XLII


10 – PINHO LEAL, ob. cit. P. 733


11 – COSTA, P. António Carvalho da – Corografia Portugueza e Descripçam Topográfica do Famoso Reyno de Portugal, tomo I, p. 471.


12- Esta Memória encontra-se transcrita no arquivo municipal de Vila Flor.


13 – PINHO LEAL, ob. Cit. P. 732.


14 – Este acampamento terá dado origem às povoações das Cabanas (de Baixo e Cabanas de Cima), actual freguesia de Cabeça Boa.


No termo de Pinelo, concelho de Vimioso, se terá organizado o campo de refugiados que entraram pela parte Norte, fronteiras de Bragança e Miranda do Douro, restando hoje o topónimo de Vale das Cabanas.


15 – MORAIS, Cristiano de – ob. cit. P.12


16 – Idem, p. 14.


17 – ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda – Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos, in: Jornal Terra Quente de 15 de Dezembro de 1999.


terça-feira, 20 de julho de 2010

-VILA FLOR


Faro, João Rodrigues / Liarte, João de / Faro, Aarão Gabay/ Richart
(séculos XVI-XVII)



Filho de André Lopes e de Maria Vaz, de Vila Flor, João Rodrigues Faro era neto de João Rodrigues Isidro. Do lado paterno, era sobrinho dos mercadores Manuel Rodrigues Isidro e Vasco Peres Isidro, além de Isabel Vaz e Francisca de Sousa. Irmão de Francisco de Paz Isidro, João casou-se com a prima Beatriz Lopes (filha de Manuel Rodrigues).
Durante a primeira metade do século XVII, João Rodrigues Faro foi uma figura de relevo no meio das comunidades sefarditas dispersas pelo continente europeu. Na década de 20, João e a sua família encontravam-se em Madrid, mas no decénio seguinte, já estavam em Amesterdão.
Quando foi denunciado na Inquisição de Toledo, percebeu-se o quão abrangente era a sua rede de negócios, espalhada por cidades como Lubeque, Hamburgo, Amesterdão, Bayonne, Bordéus e Londres. Nesta última cidade, o mercador era também conhecido pelo nome de Richart. É possível que o biografado correspondesse a um Joan Luarte que Gérard Nahon refere na sua obra.
Apesar das acusações que recaíam sobre ele, o Tribunal do Santo Ofício não conseguiu prendê-lo e acabou por ser relaxado em estátua.
Bibliografia
Estudos
Gérard Nahon, Métropoles et Périphéries Sefarades d’Occident, Paris, Les Éditions du Cerf, 1993.
Maria José Pimenta Ferro Tavares, Los Judíos en Portugal, Madrid, MAPFRE, 1992, p. 336.
Markus Schreiber, Marranen in Madrid, 1600-1670, Estugarda, Franz Steiner Verlag, 1994, p. 287.Fontes
ANTT, Inquisição de Coimbra, proc. n.º 448 (Manuel Rodrigues Isidro).
M. Fernanda Guimarães
A.J. Andrade.

-VULTOS JUDAICOS BRAGANÇANOS II (a)


Ver o post Vultos Judaicos Bragançanos II

domingo, 18 de julho de 2010

-BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural VII

A Rua Direita no dia do Kipur no ano de 1745.
Numa das crónicas anteriores vimos que o r/chão da casa de José Cardoso Borges, sita a meio da rua Direita de Bragança, servia de esconderijo aos esbirros da Inquisição para vigiarem os cristãos-novos que se juntavam em casa de António Rodrigues Gabriel, o Falho de alcunha, para fazer sinagoga, nas noites de sexta-feira.
E falámos sobre Pedro Lafaia de Castro – o chamador – que ia pela rua Direita batendo na calçada com um pau ferrado a chamar os outros para os tais ajuntamentos.
Acerca desta casa, diremos que, da outra banda, ela dava para a rua da Esquerda – assim aparece designada em alguns documentos a actual rua do Conselheiro Abílio Beça, em outras eras também conhecida por rua da Corredoira. E essa casa, por 1585, pertencia a um capitalista “judeu” de que também já falámos em uma das nossas crónicas, chamado Rodrigo Lopes, sogro de Pedro de Figueiredo, este bisavô da mulher de Cardoso Borges, cuja fortuna estaria na origem da ilustre e brasonada Casa dos Figueiredos.
Em Janeiro de 1745, faleceu José Cardoso Borges e a casa ficou a ser governada pelo seu filho António Manuel de Figueiredo Sarmento, que então completava os 30 anos de idade.
Mais novo do que ele seria Manuel de Castro, um filho bastardo do “chamador” Pedro Lafaia de Castro. Ele se revelaria como uma espécie de ovelha ranhosa no seio da comunidade marrana de Bragança.
Nesse ano de 1745, o dia do Kipur (perdão, expiação dos pecados) caiu no dia 6 de Outubro. E esse dia é o mais sagrado de todos e nenhum judeu trabalha nesse dia, que também é dia de jejum rigoroso.
Pois, logo de manhã, o famigerado Manuel de Castro se apresentou em casa dos Figueiredo Sarmento e se dirigiu ao dono da casa dizendo:
- Senhor António Manuel, quer ver como esses cães judiam? Hoje é o dia grande.
Naturalmente já antes lhe tinha explicado a razão de ser, e os rituais usados nesse dia sagrado.
Presente estava também o seu irmão, Francisco Bernardo Figueiredo Sarmento. E, em face da informação recebida, ambos assomaram à janela e viram que, sendo um dia de semana, os moradores da rua, que na grande maioria eram cristãos-novos, todos vestiam seus fatos domingueiros e se apresentavam às portas de seus estabelecimentos e nenhum deles dava mostras de querer trabalhar nesse dia.

Mas vejam as próprias palavras usadas por António Manuel Figueiredo Sarmento para descrever a cena, conforme consta do processo nº 10633 da Inquisição de Lisboa, referente ao dr. Francisco Furtado Mendonça:
- E chegando-se ele testemunha à janela de sua casa, que está no meio da rua Direita, aonde vive a maior parte dos cristãos-novos, ele viu que todos naquele dia traziam suas camisas em folha, lavadas, e não trabalhavam, sendo que muitos deles são tecelões de seda e com esse ofício se sustentam (…) E não só viu de sua janela como foi à rua verificar de mais perto e conversar com cada um deles, e na rua havia um profundo silêncio (…) E assim andavam não só os adultos como as crianças de 3 ou 4 anos.
E para além de ele próprio ter ido pela rua a verificar e falar mesmo com alguns deles, António Manuel disse a seu irmão Francisco Bernardo que fosse também por toda a rua Direita a observar. E não foi apenas de manhã, mas várias vezes ao dia, para ver se guardavam mesmo todos aquele “dia grande” de manhã até que fosse de noite e as estrelas apareceram no firmamento.
E a vigilância de Francisco Bernardo terá dado nas vistas a ponto de o advogado António Gabriel Pizarro se voltar para ele e ostensivamente terá desabotoado o casaco para lhe mostrar bem claramente que trazia por baixo um colete de linho bem lavado e uma camisa novinha, em folha. E também terá levantado a calça e mostrado a canela para que visse bem “umas meias lavadas que trazia nas pernas”.
José da Rocha Pimentel contava então uns 32 anos. Era um homem da mais alta nobreza de Bragança e Familiar do Santo Ofício. Significa isso que era colaborador daquele tribunal e, por isso, não podia deixar de estar informado sobre estas coisas. Naturalmente que também andou a espiar os cristãos-novos. Vejamos então o seu depoimento:
- Disse que no dia 6 de Outubro de 1745 era dia grande e na rua Direita estavam todos às portas a conversar, de camisas lavadas ou a jogar, e não se ouvia um só tear.
Bragança 2008.A.P.L.B.

António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães

sábado, 17 de julho de 2010

-BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural VI

António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães
Pedro Lafaia de Castro, o “chamador”
Como já dissemos, era na rua Direita que habitava a maior parte dos cristãos-novos de Bragança. Bastará consultar os processos da Inquisição para vermos como a rua era deles povoada. A título de exemplo, vejamos tão só um desses processos – o de Francisco Rodrigues Ferreira:
- Disse que tinha umas casas na rua Direita da cidade de Bragança, na quina da travessa do Corpo da Guarda e nelas tem a terça parte por serem do réu e de suas duas irmãs chamadas Inácia e Catarina, solteiras, com quem vive, e são livres e valem ao todo valem 300 mil réis. Na mesma travessa tem outras duas moradas de casas que são comuns com as duas suas irmãs e são livres e valem ao todo 200 mil réis.
Como se sabe, todos eles eram cristãos baptizados e exteriormente tinham de se apresentar como tais e cumprir os deveres cristãos. No interior de suas almas porém, a generalidade deles acreditavam era no deus de Moisés e não em Cristo. E também se reuniam para rezar, sempre às escondidas, naturalmente e no estreito círculo das pessoas de confiança que normalmente se limitavam à própria família, mais ou menos alargada.
Estas reuniões ou ajuntamentos eram designadas pelo nome de sinagoga. E era sobretudo nas noites de sexta-feira e nos dias de jejum que eles se reuniam em sinagoga.
Na cidade de Bragança, ao tempo que vimos referindo, ficou fama de existirem pelo menos duas dessas sinagogas, uma em casa do médico Gabriel Ledesma e outra na casa do mercador e rendeiro António Rodrigues, o Falho, de alcunha. Vejam o testemunho prestado por um cristão-velho, Francisco Lopes de seu nome e capitão de uma companhia de ordenanças:
-Disse que em casa do médico Gabriel Rodrigues Ledesma, morador na rua dos Oleiros, desta cidade, se recolhem às noites, principalmente de sexta-feira, os cristãos-novos desta cidade, principalmente os seguintes: os Ledesma, os Falho, os de Lafaia e os Marranos, todos moradores na rua Direita, o qual médico se presume ser seu rabi e na qual casa se faz sinagoga.
- E que em casa de António Rodrigues Falho, morador na rua Direita, se fazem também ajuntamentos à noite de sexta-feira, principalmente na Quaresma e aos tais ajuntamentos vão cristãos-novos, homens e mulheres e também o bacharel António Gabriel Pissarro e António Rodrigues Castro, o Cabecinha, tio dos Falho, e os filhos de Henrique Rodrigues e sua mães e os de José Rodrigues, já defunto e Rafael Rodrigues e Gabriel Rodrigues e outros mais e o praticante daquela sinagoga é o bacharel António Gabriel Pissarro.


A meio da rua Direita situava-se a casa de uma importante família de cristãos-velhos que produziu comissários e familiares do Santo Ofício – a de José Cardoso Borges, sua mulher D. Clara Maria Figueiredo Sarmento, seus 4 filhos e 2 filha. Um dos filhos, António Manuel de Figueiredo Sarmento, aparece em vários processos declarando que se punha à janela a observar os comportamentos dos cristãos-novos, nomeadamente aos sábados e quando passavam os funerais.
Ao nível do r/chão, a casa dos Figueiredo tinha uma porta larga e por se situar numa curva da rua (Directa na origem) tinha um ângulo de vista bastante alargado sobre a mesma rua. E por isso era sítio escolhido para, também à noite, os esbirros da Inquisição se porem a vigiar os comportamentos dos marranos. Vejam como o já citado capitão de ordenanças falou no caso:
- Pelas 8 horas da noite foram (ele e os padres Bartolomeu Neves e Manuel da Cruz) para a loja de José Cardoso Borges, sita no meio da rua Direita, a qual tem uma porta grande para a mesma rua (…) vendo eles (…) sem serem vistos (…) e dali viu ele testemunha com os mais, entrar em casa de Pedro Lafaia de Castro, cerieiro, cristão-novo, um adjunto de 6 ou 7 pessoas, homens e mulheres.
Isto foi a uma sexta-feira da Quaresma. Na sexta-feira seguinte, antes do domingo de Ramos, voltou o mesmo capitão àquele posto de vigia, desta vez acompanhado pelo padre José Álvares da Silva. Vejamos o que aconteceu, conforme o seu relato:
- Pelas mesmas 8 para 9 horas da noite, estando ele testemunha só, viu sair da casa do dito Pedro Lafaia de Castro um homem com um pau ferrado ao fundo, dando golpes na calçada da rua (…) viu que era Pedro de castro, cerieiro, e se meteu em casa de José Rodrigues Ledesma, em cuja casa entraram 5 ou 6 pessoas mais e logo o dito Pedro de Castro foi batendo com o dito pau pela rua acima e saiu a mulher de Pedro Carvalho, tendeiro, e veio pela rua abaixo com um irmão dela e chegando à porta de Sebastião da Costa Chacla, pai da sobredita, saíram da casa 4 ou 5 mulheres e se meteram em casa de Brites Maria e outrossim saíram logo Manuel Mendes, Castanhola, de alcunha, a mulher e a mãe e se meteram em casa do dito António Rodrigues Falho, para onde tinham entrado os mais e observou que a criada do dito António Rodrigues logo foi para casa do dito Manuel Mendes Castanhola, todos cristãos-novos, e ele testemunha ficou entendendo, pelas referidas circunstâncias e razões, que todos os referidos cristãos-novos se juntaram para fazer sinagoga naquela noite e muito melhor por lançarem para fora a criada, para melhor ficarem em liberdade.
Este Pedro Lafaia, como também o advogado António Pissarro contam-se entre os ascendentes do grande pintor fundador do movimento impressionista Camille Pissarro (1830 – 1903). Acaso se ele tivesse conhecido a rua Direita de Bragança e adivinhado o vulto daquele seu antepassado indo de noite pela rua a bater na calçada com um pau ferrado a chamar os outros para a sinagoga, ele teria imortalizado a cena pintando um belo quadro. Alguém o fará por ele? Haveria de ficar bem, num futuro museu do marranismo, em Bragança.


Bragança 2008.Foto A.P.l.B.