Nasceu em Bragança em Portugal, no ano de 1620, filho duma família judaica-marana. Não consta ao certo, quanto tempo ficou em Portugal, mas parece ter sido ainda muito jovem, quando abandonou a sua terra natal, emigrando para Alcalá de Henares, um município da Espanha na província e comunidade autônoma de Madrid, onde cursou filosofia. quarta-feira, 7 de julho de 2010
-VULTOS JUDAICOS BRAGANÇANOS II
Isaac Oróbio de Castro - Pensador Judeu do Século XVII
Por: Amílcar Paulo
Baltazar (Isaac) Oróbio de Castro é um dos vultos mais notáveis do judaísmo do século XVII.
Nasceu em Bragança em Portugal, no ano de 1620, filho duma família judaica-marana. Não consta ao certo, quanto tempo ficou em Portugal, mas parece ter sido ainda muito jovem, quando abandonou a sua terra natal, emigrando para Alcalá de Henares, um município da Espanha na província e comunidade autônoma de Madrid, onde cursou filosofia.
O seu profundo conhecimento nesta ciência, e as suas grandes qualidades de mestre, o levaram a ser escolhido para dirigir a cátedra de metafísica na Universidade de Alcalá, e mais tarde na de Salamanca. Sentia-se atraído por este estudo, pois achava que só esta ciência o conseguia levar a um conhecimento exato. Mais tarde estabelece-se permanentemente em Sevilha, onde cursa medicina. Médico de profissão, Oróbio de Castro revela-se em proporções gigantescas, passando a ser o médico da família real e do Duque de Medinaceli (antigamente Medina Celi).
Convivendo com os homens de letras do seu tempo, muitos deles por inveja, procuraram deprimi-lo, fazendo com que ele fosse cair nas mãos do Tribunal do Santo Ofício, onde permaneceu durante o espaço de três anos, sofrendo as maiores torturas, entre os vastos interrogatórios, acabando por confessar ser cristão e prestar juramento de fé à Santa Madre Igreja.
Depois do seu cativeiro nos cárceres da Inquisição, os soberanos da Espanha, decretam a sua expulsão, dirigindo-se Oróbio para a França. A viagem era incômoda, as estradas péssimas; tudo concorria para tornar este exílio verdadeiramente aterrador. Mas Oróbio lutou e venceu. O arguto não se conformou com o sucedido, dispunha-se a lutar contra aqueles que maldiziam e perseguiam o judaísmo. Entra na França; nesse país encontra bom acolhimento, sendo já conhecida a sua reputação como médico hábil. Começa imediatamente a insinuação tênue mas firme no meio francês. Trava relações e consegue, com pasmo de todos, alcançar a cátedra da Universidade de Toulouse, sendo pouco depois nomeado conselheiro maior do rei da França.
Oróbio de Castro estava definitivamente lançado no meio francês. Mas os intelectuais desejavam afastá-lo, achando nele uma sombra. Torturado de desgostos e desilusões resolve partir para Amsterdã.
Em Amsterdã é recebido pela colônia judaica Luso-Hispânica da Holanda; nesta cidade foi Oróbio circuncidado mudando o nome de Baltazar para Isaac. A existência de grande número de cenáculos literários em Amsterdã levou os judeus a fundar a sua academia com o nome "os Floridos de la Almendra" de que faziam parte grandes intelectualidades judaicas, sendo Oróbio, por esta sociedade, científica e literária nomeado seu presidente.
Teve relações com os maiores vultos da época, como Brendemburg, Mosseh Rafael de Aguilar, a quem Oróbio fez por meio de epístolas algumas perguntas, a que faz referência Mendes dos Remédios em sua obra ..., Espinoza, a quem atacou mais tarde, como se vê nos seguintes versos de Daniel Levi de Barrios, na Relacion de los Poetas u Escritores Españoles de la Nacion Yudayca em Amesterdam:
Ishac Oróbio, Médico Eminenete ,
Com sus libros da invidia a la sapiente,
Y em lo que escreve contra el Atheista
Espinoza, mas clara haze la vista
Três anos depois de ter lançado o seu tratado intitulado Certamen Philosoficum findava os seus dias. Foi em 7 de novembro de 1687 que a morte agitando a rede de caça, aprisionava o seu cérebro de lutador, levando um dos mais brilhantes sábios de Israel, abandonando-o na saudade! Sua mulher, que se chamava Ester sobreviveu-lhe alguns anos mais, vindo a falecer em 5 de julho de 1712. Oróbio deixou alguns filhos, tais como: o médico Mosseh Oróbio de Castro que exerceu as funções de tesoureiro da Academia de los Floridos; Abraham Oróbio de Castro, fundador duma sociedade de beneficência de Amsterdã e uma filha chamada Rebeca.
Segundo Ribeiro dos Santos, foi Oróbio muito propagado no século XVIII, sendo vários os escritores que dele fazem menção, citando-os na sua obra intitulada, Memórias da Literatura Sagrada dos Judeus Portugueses no século XVII.
Ao cabo desta escassa biografia resta-nos dar algumas indicações sobre a sua obra. É ela modesta, sendo a sua maior aspiração a defesa da sua crença religiosa o que levou Ribeiro dos Santos a opinar "a religião cristã não tem tido nestes últimos séculos adversário mais cruel e obstinado que Oróbio".
Nos seus escritos desenvolveu Oróbio, o seu sistema filosófico religioso, vivendo sempre embebido num misticismo e sensibilidade mórbida, recolhendo-se a si próprio acompanhando todas as imaginações e meditações do seu cérebro. A sua fé intensa e calorosa ajudada pela filosofia foram os ideais que o levaram a escrever os seus tratados de defesa contra aqueles, que condenavam e maldiziam o judaísmo. O seu impulso foi intenso, auxiliado por uma natureza de lutador, não temendo os ataques de católicos e protestantes. "O afamado Oróbio de Castro – escreve Lúcio de Azevedo – na história dos Cristãos Novos Portugueses – natural de Bragança, contraditor de Spinoza e polemista exaltado contra o cristianismo".
Para a sua defesa apologética, teve o grande auxílio de poder exprimir com facilidade e eloqüência nas línguas em que escreveu os seus eruditos tratados, manejando-as como língua natal. Neles Oróbio estuda à luz da razão o problema religioso, dentro da sua feição filosófica, com características novas de tese apresentadas por um método racional, não nos dando o parecer de análise mas sim de exemplificação.
O seu primeiro tratado, parece ter sido, Prevenciones Divinas Contra la Vana Ydolatria de las Gentes, obra manuscrita e da qual existem vários exemplares segundo refere Kayserling. Em seguida escreveu um tratado em que faz uma disputa contra um teólogo, que tentou provar a necessidade da vinda do messias, para assim expiar o pecado original. Este tratado intitula-se La Observância de la Divina Ley de Mosseh. Neste trabalho pretendeu o glorioso sábio demonstrar a não existência do pecado original, porque o tem como fundamento de toda a doutrina dos cristãos, dando em razão, que a alma dos filhos de Adão não estava no pecado do pai, mas vinha imediatamente de D-us, escreve ele no seu tratado: "És bien cierto que la alma racional, que es la principal parte constitutiva al hombre, no se puede contener en Adam, por que ella, vu espiritu criado de nada, por el Señor que lo infundo en el cuerpo en el instante de la generacion, y de alli viene la imposibilidad de haverse contenido em Adam, que no tenia virtud de producir la alma racional, de suerte que ella no pudo participar lo corrupción de Adam, por la generacion, pues que ella no viene de Adam, nino de Dios, que la crio pura limpia, sin pecado, ni macula".
Certamen Philosophicum – Imprimiu-se pela primeira vez em Amsterdã no ano de 1689; Foi escrito em latim, seu amigo G. de La Torre, traduziu-a para espanhol dedicando-a "ao Senhor D. Carlos de Sotto, Agente de Espana em Hollande".
A obra espanhola foi impressa pela primeira vez no ano de 1721. É com razão que Ribeiro dos Santos pondera o seguinte a respeito desta obra: "Pelo que escreveu o seu certame contra Spinoza e contra Brendemburg, e escreveu como um filósofo que tinha estudado profundamente Metafísica". É na verdade tão extraordinária, que se torna difícil classificá-la. O ataque que evoca nesta obra contra Brendemburg e Spinoza aproveitou-o o autor com inegável superioridade e intuição.
Istael Vergé – Foi publicado em espanhol e mais tarde traduzido para o inglês e francês. Este tratado foi consagrado à defesa do dogma, contra os ataques dos adversários cristãos.
Neste tratado explica o seu autor os capítulos bíblicos, que servem de base a doutrina dos cristãos, provando que eles em nada favorecem a doutrina destes, mas pelo contrário, contradizem-na, dizendo-nos ele neste tratado: "O que é que Ele ordenou dando-a a nossos pais? Segui-la sempre com a mesma pureza que o seu servidor Moisés lhes prescrevia: Ele proibiu aos seus filhos que acreditassem em deuses que os seus pais não tinham conhecido".
Junto a esta obra, vem também uma "Dissertação sobre o Messias", onde se prova que ele ainda não chegou e que segundo as promessas dos profetas que o anunciaram aos israelitas, eles esperam-no com razão", nele diz: "não há nada mais extraordinário que o querer exemplificar o texto sagrado e de se propor alguém a fazer comentários sobre as passagens mais obscuras o que se não pode compreender sem explicação quando se não faz sempre um estudo profundo da língua na qual o senhor o ditou. Tal é a situação em que se encontram a maior parte dos cristãos".
De Oróbio de Castro são também as seguintes obras:
Epístola invectiva contra Prado, tratado este que no dizer de Ribeiro dos Santos é "o mais considerável de todos os que escreveu Oróbio". Nele pretende que a Lei de Moises confirme perfeitamente com a Lei Natural, e que a predição dos futuros contingentes e dos sucessos ocultos no porvir demonstrava a sua Divindade.
Tratado em que se explica La prophesia de las 70 Semanas de Daniel.
Explicação Paraphrastica sobre o Capítulo 53 do Profeta Isahias.
Tratado ou Repuesta a um Cavalleri Francez Reformado.
terça-feira, 6 de julho de 2010
-BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural II
Igreja de S. Vicente

A igreja de S. Vicente é um dos mais emblemáticos monumentos da cidade de Bragança. Não tanto pela sua arquitectura (de raiz românica e reconstrução barroca), mas tão só pela talha do seu altar-mor – um monte de ouro – na expressão de José Cardoso Borges, na sua Descrição Topográfica de Bragança.
Emblemática também pelos acontecimentos históricos que lhe estão associados, dois deles merecendo especial destaque. O primeiro relaciona-se com Inês de Castro. É que, segundo a tradição, ela terá casado clandestinamente nesta igreja com o príncipe, futuro rei D. Pedro, sendo oficiante o deão da Guarda.
Emblemática também pelos acontecimentos históricos que lhe estão associados, dois deles merecendo especial destaque. O primeiro relaciona-se com Inês de Castro. É que, segundo a tradição, ela terá casado clandestinamente nesta igreja com o príncipe, futuro rei D. Pedro, sendo oficiante o deão da Guarda.
O segundo acontecimento respeita à época das invasões francesas. Com efeito, foi do patamar exterior lateral desta igreja que, ao entardecer do dia 11 de Junho de 1808, o general Jorge Gomes de Sepúlveda lançou o grito de revolta contra as tropas de Napoleão e se meteu a chefiar um movimento político-militar que rapidamente alastrou a toda a província de Trás-os-Montes e a todo o Norte de Portugal. Comemorando esta proclamação, lá está, na parede exterior da igreja um painel de azulejos alusivo à cena, inaugurado em 11.6.1929.
Para além disso, a igreja num dos espaços mais nobres da cidade. Por isso mesmo se chamava Principal ao largo que lhe está fronteiro. O Principal era então a praça mais importante da urbe, o elemento de ligação entre a cidade e a vila (entendendo-se esta como o núcleo urbano sito dentro das muralhas) e nela convergiam todos os arruamentos.
Não por acaso, adossado à mesma parede lateral e junto à porta principal do templo, foi construído um chafariz de granito. Sim, esta era uma infra-estrutura vital para a praça maior de Bragança, o espaço privilegiado para o desenrolar das actividades comerciais, lúdicas e políticas da terra, o local de encontro quotidiano dos cidadãos. Ali se realizavam as touradas e as mouriscas, as danças e as comédias, nas grandes festas reais.
Por outro lado, a igreja de S. Vicente constitui um notável monumento da história judaica de Bragança e por ela passa, obrigatoriamente, a Rota dos Judeus. Nela, mais do que em qualquer outra parte, se guardam as memórias da “gente da nação” de Bragança. Isto porque ela era o espaço religioso mais frequentado pelos cristãos-novos da terra e o local de eleição para enterrarem os seus mortos. Expliquemos a razão.
Antes de mais, sabem os leitores que, naquele tempo, as pessoas eram enterradas no interior das igrejas e os cristãos-novos não podiam fazer de outro modo, se bem que um dos preceitos da lei de Moisés seja o de que os mortos devem ser enterrados em terra virgem, ou seja, em sítio onde ninguém tivesse antes sido sepultado.
Era difícil, ou mesmo impossível, conseguir tal objectivo, na generalidade dos casos. Em S. Vicente, porém, nos anos de 1700 abriu-se uma janela de oportunidades nesse sentido. Recordam-se de termos dito que a igreja foi reconstruída e ampliada? Isso terá acontecido em finais do século XVII e as obras terão sido conduzidas pela Confraria de Santa Cruz, a qual era dominada por cristãos-novos. E estes é que pagariam as tais obras. E ter-se-á então estatuído um preço bem elevado por cada sepultura que naquela igreja se abrisse: 4800 réis, quase 10 vezes mais do que em Bragança se pagava pelos enterramentos em outras igrejas, nomeadamente na igreja matriz que até era de maior nobreza e dignidade, se é que tais palavras são adequadas.
A verdade é que, na igreja de S. Vicente apenas a gente da nação hebreia gostava de enterra os seus mortos, certamente porque nela havia sítios onde ninguém fora enterrado antes e isso resultou das obras de ampliação efectuadas.
E já que estamos falando de enterros, diga-se que aquela gente também se preocupava grandemente com a forma de amortalhar os seus defuntos. Veja-se, a tal respeito, a descrição feita da mortalha de uma jovem enterrada em S. Vicente no dia 7 de Março de 1747, feita pelo padre que presidiu ao funeral:
- Assistindo ele ao enterro de Luísa, solteira, irmã de Baltasar Gomes e de José Gomes, sobrinha de António Rodrigues Ferreira e Francisco Rodrigues Ferreira, cristãos-novos, moradores na rua dos Oleiros, freguesia de Santa Maria, observando ele testemunha a mortalha que a dita defunta levava, por ter lido os editais do Santo ofício, viu que a dita defunta levava uma camisa nova em folha, em pano de linho fino, com as mangas puxadas para fora, e ouviu dizer ao padre Bernardo Álvares e a Joana Maria Ferreira, mulher de Diogo Pinto, vizinhos da casa da dita defunta, que eles tinham visto que a dita defunta também levava uma anágua em folha e que todos os mais fatos que levava, assim touca de freira como os mais adornos, eram novos e muitas pessoas das que assistiram ao dito enterro fizeram observação e reparo no referido, em tal forma que António Lopes, tesoureiro da igreja de S. Vicente, aonde foi sepultada a dita defunta, veio falar com ele testemunha dizendo que se admirava muito que os párocos consentissem se enterrasse tal cristã-nova com aqueles hábitos novos sabendo que era proibido pelos editais do Santo Ofício e disse o tal tesoureiro que até o pano com que lhe cobriram a cara era novo em folha; e que ao dito enterro assistiu muita gente e muitos clérigos e que faziam o mesmo reparo, como era o padre Bernardino Álvares, o padre Manuel de Morais, o padre Inocêncio da Cunha, o padre sacristão da igreja de Santa Maria, o padre José Domingues e o padre António da Cunha. E que leu nos ditos editais por ter lido aos seus fregueses. E que o padre Manuel Rodrigues Ferreira, tio da defunta, irmão dos sobreditos…

Por finais do século XVII, a igreja de S. Vicente terá sofrido obras de remodelação / ampliação, metendo-se ao corpo da mesma o espaço ocupado por uma torre que foi demolida. Era, pois, um espaço de terra virgem, onde ninguém fora antes enterrado. E foi exactamente nesse espaço que a família do advogado mais distinto de Bragança, o dr. António Gabriel Pissarro comprou uma sepultura para enterrar o seu pai, Pedro Álvares Pissarro, cremos que falecido no ano de 1737.
Era então cura dessa igreja o padre Bento Rodrigues. E uma coisa que o intrigava era o facto de os cristãos-novos preferirem enterrar os seus mortos em S. Vicente, uma igreja de menos categoria e menos assistida, do ponto de vista religioso, e não nas igrejas de freguesia como eram as de S. João e Santa Maria. Além de que a sepultura ali custava 4 800 réis e nas igrejas de paróquia o preço era de 500 réis, quase 10 vezes mais!
Resolveu-se, pois, o padre Bento tirar a limpo essa história da terra virgem. Programou para isso acompanhar a abertura da cova para o Pedro Álvares que era tido como o “rabi” da sinagoga da cidade, o homem “que explicava a lei mosaica aos mais cristãos-novos” – no dizer de uma testemunha cristã-velha. André Borges foi quem tratou da compra e marcação do terreno, acompanhando o trabalho do coveiro que era um tal João Rodrigues Bugalho, cristão-novo também e muito amigo da família. E como a terra era dura e apareciam muitas pedras, o padre Bento mandou parar e que abrissem a cova noutro sítio. Argumentou o Borges que aquela era a vontade do defunto, que deixou em testamento a indicação do sítio onde o haviam de enterrar, que era o mesmo onde já fora enterrada a sua mulher.
Condescendeu o padre, mas com uma condição: assim sendo, haviam de aparecer ossos. Caso contrário, teriam de tapar aquela sepultura e abri-la em outro sítio da igreja.
Ficou o coveiro no trabalho e André Borges foi-se ao adro da igreja de S. João e ali andavam uns ossos pela terra, ao ar livre, sabe-se lá de quem seriam! E recolheu alguns e voltou a S. Vicente. Com água benta da pia, molhou-os e depois “os incodrigaram na terra” para dar o aspecto de que ali estiveram enterrados. Só que, entretanto, voltou a aparecer o padre Bento e, apanhando-os a fazer o trabalho, com os ossos a escorrer água… mandou-os tapar a cova e abrir outra, acaso ameaçando-os com a Inquisição.
Mas não desistiram e logo foram ter com o vigário geral, a autoridade de maior peso na terra, na esfera do eclesiástico, queixando-se que o cura de S. Vicente os não deixava cumprir a última vontade do defunto.
Despachou o vigário a seu favor a petição e, com o despacho na mão, voltaram eles ao seu trabalho. E foi a vez de o padre Bento ir ter com o seu superior e explicar-lhe a razão da sua atitude, que era a de impedir uma cerimónia judaica, que não era por respeito à vontade do defunto que abriam a cova naquele sítio, mas porque a lei de Moisés ordena que os defuntos devem ser enterrados em terra virgem.
Naturalmente que o vigário revogou o despacho anterior e ordenou que a sepultura de Pedro Álvares Pissarro fosse aberta em outra parte do templo.
Esta foi uma culpa que, anos depois, foi incluída no processo de António Gabriel Pissarro, pela acusação.
Outras histórias de enterramentos judaicos na igreja de S. Vicente poderíamos contar, justificando plenamente a sua inclusão na Rota dos Judeus pela cidade de Bragança.
Outro aspecto que, porventura, pode lançar outras luzes sobe a ligação deste templo à comuna marrana de Bragança é a história da Confraria de Santa Cruz que está por fazer. É que foi exactamente esta Confraria que financiou e dirigiu as obras de remodelação/ampliação da igreja e era nos seus cofres que entrava o dinheiro pago pelas sepulturas. Importaria ver quem eram os confrades e os mordomos que presidiam à sua direcção. Até que ponto seria uma Confraria de marranos, destinada exactamente a esconder cerimónias e ritos funerários marranos.
António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarãessegunda-feira, 5 de julho de 2010
-Uma Família de Cristãos-Novos em Bragança
Filipe Pinheiro de Campos
Edição: 2007
3 vols.
Sinopse:
O presente conjunto de três volumes corresponde a uma aturada investigação de Filipe Pinheiro de Campos em torno de uma família de cristãos-novos estabelecidos em Bragança nos finais do século XV, consagrando um elevado número de casas com relevância na cidade e na região, assim como nas cidades de Lisboa e do Porto.
Com prefácio do Professor Doutor António de Sousa Lara, esta obra genealógica é de grande relevância histórica e social para o estudo do percurso dos cristãos-novos transmontanos e da sua inserção social e cultural na sociedade Portuguesa, abrange um grande número de personalidades e ramos familiares …sexta-feira, 2 de julho de 2010
-VULTOS JUDAICOS BRAGANÇANOS
Francisco da Fonseca Henriques (Dr. Mirandela)

· Al Alimentação, qualidade do ar, higiene e descanso são alguns dos temas desta obra. Sua primeira edição é de 1721, mas o texto traz diversas recomendações surpreendentemente atuais para manter uma vida saudável. A obra teve apenas três reedições, todas no século XVIII, e ressurge agora com glossário. A linguagem foi atualizada pelos professores Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, Leônidas Querubim Avelino (UFMT), Sílvio de Almeida Toledo Neto e Heitor Megale (USP).
Sumário
Prefacio – Dr. Cássio Ravaglia
O Primeiro Tratado de Nutrição em Língua Portuguesa – Dr. Sérgio de Paula Santos
âncora medicinal
Ao Excelentíssimo Senhor
Excelentíssimo Senhor
Ao Leitor
Licenças do Santo Ofício
Antelóquio
Seção I – [do ar ambiente]
Sumário
Prefacio – Dr. Cássio Ravaglia
O Primeiro Tratado de Nutrição em Língua Portuguesa – Dr. Sérgio de Paula Santos
âncora medicinal
Ao Excelentíssimo Senhor
Excelentíssimo Senhor
Ao Leitor
Licenças do Santo Ofício
Antelóquio
Seção I – [do ar ambiente]
I. O que Seja Ar e que Poderes Tenha no Corpo Humano. II. Da Eleição do Ar
Seção II – [dos alimentos em comum].I. O que Seja Alimento, como se Coza no Estômago e Quais Sejam os Melhores Alimentos para as Pessoas que Têm Saúde.II. Da Quantidade de Alimento. III. Qual Seja mais Saudável, a Mesa que Consta de um só Alimento ou a que se Compõe de Muitos.
IV. Da Ordem com que se Hão de Usar os Alimentos
V. Quantas Vézes e em que Horas se Há de Comer Cada Dia
VI. Se o Almoço Há de Ser Maior que o Jantar, se o Jantar Maior que o Almoço
VII. Se os Alimentos do Jantar Devem Ser Diferentes dos do Almoço?
VIII. Se é Melhor Comer Assado ou Cozido?
IX. Do Alimento Próprio para Cada Idade e Temperamento
X. Do Alimento Próprio de Cada Témpo do Ano
Seção III – [dos alimentos em particular]. I. Do Pão de Trigo.II. Do Pão de Centeio, de Milho, de Cevada e Aveia. III. Dos Animais Quadrúpedes em Comum. IV. Das Carnes dos Quadrúpedes em Particular. V. Das Entranhas e Extremidades dos Animais Quadrúpedes.VI. Das Partes Líquidas dos Quadrúpedes que Servem de Alimento .VII. Dos Animais Voadores. VIII. Dos Ovos (Ova Gallinae).IX. Dos Peixes em Comum. X. Dos Peixes em Particular. XI. Dos Legumes. XII. Da Hortaliça Sativa e Esculenta. XIII. Das Raízes Sativas. XIV. Das Raízes que se não Semeiam e dos Cogumelos. XV. Dos Frutos Sativos. XVI. Dos Frutos das Árvores. XVII. Dos Frutos Lenhosos. XVIII. Dos Condimentos. XIX. Dos Aromas
Seção IV – da água, do vinho e de outras bebidas alimentares e medicamentosas que no presente século se frequentam.I. Da Água e suas Diferenças. II. De que Água se Há de Usar, em que Quantidade, em que Tempo e com que Ordem se Há de Beber.III. Se se Há de Beber Água Fria, se Quente, Crua, ou Fervida; e das Utilidades e Danos de Cada uma Delas.IV. Da Água Nevada, Sorvetes, Limonadas de Neve; e da Água Fria nos Poços e ao Sereno, e de Outras Bebidas.V. Do Vinho e suas Diferenças.VI. Qual Seja o Melhor Vinho; se Devem Usar Dele as Pessoas que Têm Saúde; em que Quantidade se Há de Beber e das Utilidades e Danos que Causa.VII. Se o Vinho se Há de Beber Puro, se Linfado.VIII. Propõem-se Algumas Advertências que se Devem Observar no Uso do Vinho.IX. Da Aguardente, do Espírito de Vinho, da Água-da-rainha-da-Hungria e do Arrobe de Vinho.X. Da Cerveja.XI. Do Chocolate.XII. Do Chá.XIII. Do Café.XIV. Do Licor a que Chamam Sidra.XV. Do Hidromel Vinoso e do Mulso
Seção V – do sono e vigília; do movimento e descanso; dos excretos e retentos e das paixões da alma
I. O que Seja Sono e que Utilidades e Danos Cause no Corpo Humano. II. Em que Tempo, Quantas Horas e com que Decúbito se Há de Dormir.III. Que Coisa Seja Vigília e Quais os seus Efeitos no Corpo Humano.IV. Do Movimento, ou Exerácio. Mostra-se o que Seja Exercício e as Utilidades que dele se Seguem.V. Do Descanso. Mostra-se o Muito que Ofende a Falta de Exercício.VI. Dos Excretos e Retentos.VII. Das Paixões da Alma
Glossário
Índice das Coisas que se Contêm neste Livro
Índice das Coisas que se Contêm neste Livro
Autor: Francisco da Fonseca Henriquez
Biografia: Francisco da Fonseca Henriquez:
Biografia: Francisco da Fonseca Henriquez:
Nasceu em Mirandela, em 6.10.1665 e faleceu em Lisboa, em 17.4.1731. Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra e foi médico de el rei D. João V Foi autor de vários tratados científicos que o Abade de Baçal menciona no Tomo VII das suas Memórias, p.p. 239/241. Enalteceu-o também Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V falando das águas de caldas, fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal dignos de particular memória em 1726: "o barro he de tal natureza que do muy fino, não só se fazem púcaros e quartos de boa forma, mas também figuras e brincos que servem de adorno e compostura de casas, no que se tem aprovado muyto o primor dos Artifícios, com utilidade sua".
Fontes: Ateliê Editorial e C.M.M.
Fontes: Ateliê Editorial e C.M.M.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
-Os braços do Santo Ofício
Pedro Henriques de Guevara
(nascido em Torre de Moncorvo, séc. XVII)

Era filho de Luís Vaz Henriques, de alcunha o Alto, rendeiro e morador em Torre de Moncorvo, e de Isabel da Pena, ambos cristãos-novos.
Teve quatro irmãos: Francisco Vaz Barbo, casado com Jerónima de Matos; Álvaro Cardoso de Oliveira, marido de Mécia de Pena; Gaspar Cardoso, casado com Josefa de Matos e que fazia viagens para Castela; e Félix Henriques, que embarcou para as Índias de Castela.
Os dados biográficos que se conhecem sobre Pedro Henriques são fruto, na sua maioria, de algumas diligências feitas pelo comissário do Santo Ofício em Macau, Manuel Fernandes, que as remeteu à mesa da Inquisição de Goa, em 1646.
Nesta documentação, Pedro Henriques é apresentado como um judeu público bastante rico e que fazia muitas viagens, provavelmente por motivos comerciais, bem como para escapar à perseguição inquisitorial que lhe era movida por vários tribunais. Assim, em Setembro de 1645, Pedro Henriques teria chegado a Macau, oriundo de Manila, tendo passado, nessa viagem, pela região do Camboja. Sabendo que um comissário da Inquisição de Manila ordenara, através do vigário de Macassar, a sua prisão em Macau, Pedro fugiu para Cochim, no navio do capitão Diogo do Amaral.
Segundo uma carta do padre frei Gaspar de Carvalho, escrita em Macassar, a 13 de Maio de 1645, Pedro Henriques já teria uma ordem de prisão no México, presumindo-se que o seu primeiro destino, quando se ausentou de Portugal, tenha sido a América Espanhola e, só mais tarde, o Oriente.
O arcediago e governador do bispado de Malaca, o padre Paulo da Costa, procedeu a algumas inquirições sobre Pedro Henriques, nas quais surgiu um testemunho de Gonçalo de Lima que narrou um episódio ocorrido na viagem que Pedro fez para Macau, dizendo que lhe tinha sido roubada uma escrivaninha quando se encontrava no reino do Camboja.
Segundo o que o Santo Ofício averiguou, Pedro Henriques teria fugido para o reino de Portugal num navio de João da Costa.
Pouco se sabe sobre o percurso deste mercador depois da sua fuga do Oriente. Em Janeiro de 1650, o Conselho Geral do Santo Ofício considerou que não existiam culpas suficientes contra ele para lhe ser instaurado um processo.
No ano de 1658, uma prima sua, Catarina Henriques, referiu, na sessão de genealogia do seu processo na Inquisição de Coimbra, que o seu primo residia em Lisboa.
Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade
Bibliografia
Fontes
ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. n.º 13643 (Pedro Henriques Guevara).
ANTT, Inquisição de Coimbra, proc. n.º 7575 (Catarina Henriques).
terça-feira, 29 de junho de 2010
-SABORES JUDAICOS
Sabores Judaicos — Trás-os-Montes
Graça Sá-Fernandes
Naomi Calvão
Colecção: Coração, Cabeça e Estômago / Sabores Exóticos
Assírio & Alvim -
Sinopse:
Na recolha de material sobre a tradição oral, ainda mantida pelos cripto-judeus, em Trás-os-Montes, deparámos com várias orações, práticas religiosas, alimentares e outras.
Estes costumes eram, e são, transmitidos essencialmente pelas mulheres.
Com perigo, até da própria vida, os cripto-judeus transmontanos tiveram que, ao longo do tempo, esconder, e mesmo evitar, todos os costumes e preceitos que os comprometiam.
São disso exemplo o abandono sucessivo da Circuncisão, da Festa das Cabanas, da Delegação Ritual, da Preparação do Vinho, do Uso dos Livros Sagrados e utensílios pertencentes ao culto.
Por outro lado, é muito interessante ver como, passados cinco séculos, persistiu a consciência religiosa em vários campos e como conseguiram, disfarçadamente, continuar com a prática do culto judaico, iludindo a vigilância inquisicional.
Podemos, ao longo deste livro, tomar contacto com alguns desses hábitos.
A alimentação foi, desde sempre, como em todas as comunidades judaicas, um dos traços mais fortes da sua tradição e simbologia características.
Usámos uma cronologia litúrgica para facilitar a leitura das receitas.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
-NA TERRA DO FERRO
O Ferrador que em Torre de Moncorvo tocava às Trindades com o malho na bigorna do tronco
Na praça do município, em Torre de Moncorvo, existe uma casa que tem insculpida no granito da ombreira da porta a data de 1709. Certamente que tal data corresponde ao ano da sua construção.Fazendo esquina da mesma praça com a antiga rua dos Mercadores, uma outra casa, que alberga no r/chão uma ourivesaria, terá sido construída na mesma época. Ambas foram reconstruídas ultimamente, mantendo a traça original. Aliás, nenhuma alteração de monta terão sofrido estas edificações nestes três séculos, tanto ao nível dos espaços habitacionais como nos espaços comerciais.
Mais difícil será tentar reconstruir as edificações que ali existiam antes daquela data e a ambiência do sítio. Apesar da dificuldade, propomos um exercício de imaginação, baseados nas informações colhidas em um processo da Inquisição, referente a Henrique Rodrigues, ferrador de profissão. É que, pelos anos de 1647, as duas casas seriam dele, conforme consta do inventário de seus bens, assim registados:- Disse que possui uma casa sobradada na praça da vila de Moncorvo (…) que parte com a mesma praça e da outra banda com casa de Francisco de Araújo, que comprou ao fisco e vale 25 mil réis.
Tem outra casa na mesma praça, na entrada da rua dos Mercadores, que é foreira ao licenciado João de Góis, que lhe paga mil réis cada ano, que parte com as sobreditas casas e com outras de Luís Correia, as quais valerão 16 mil réis cada ano.Este Luís Correia de Paiva foi exactamente um dos denunciantes de Henrique. Era também cristão-novo e confirmou que as casas eram contíguas e que havia um buraco na parede por onde espreitava o que os outros faziam e que os via fazer cerimónias judaicas, nomeadamente às sextas-feiras à tarde: varrer a casa, limpar as candeias, meter torcidas, vestir camisas lavadas… que os ouvia falar…
E disse estar lembrado de os ouvir comentar a morte de Manuel Henriques Pereira nas fogueiras da Inquisição, dizendo que morreu como mártir da religião judaica. E de ter ouvido a mulher do ferrador a dizer para este: - Agora que vem o nosso jejum da rainha Ester, é preciso comprar grãos. De outra vez que ouviu o ferrador dizer para a mulher: - Estes cães não mos querem deixar, já nos caíram na trinca, mas nem por isso hei-de deixar de fazer o meu ofício.
Efectivamente não eram só os “cães” dos cristãos-velhos, como os familiares da Inquisição Francisco Gouveia Pinto e Pedro saraiva de Vasconcelos, mas também os vizinhos “judeus” como o Luís Correia que contou ainda ter sido apanhado pela mulher do ferrador a espreitar, a qual veio para a janela a “gritar à d´el-rei que a ameaçava com Coimbra” .
Por outro lado, o senhorio de uma das casas, João de Góis, advogado, disse que a morada do ferrador tinha paredes-meias com a de Francisco Brandão. Certamente que era da outra banda, do lado da rua do Cano. E o curioso é que também nos aparece uma testemunha a dizer que havia um buraco entre as duas casas, por onde comunicavam.

Quanto ao facto de a casa ter sido comprada ao fisco, devemos concluir que ela pertencera antes a algum cristão-novo que foi preso pelo Santo Ofício e por isso lhe foi sequestrada para o fisco.Podemos então concluir que aquele conjunto de casas que por 1650 davam para a praça, sitas entre a rua do Cano e a rua dos Mercadores era todo ele habitado por cristãos-novos. E esta constatação é importante. Desde logo porque nos mostra que é necessário ter em conta a arqueologia judaica nos estudos de desenvolvimento urbano da vila de Torre de Moncorvo, como, aliás, na generalidade dos centros urbanos tradicionais de Trás-os-Montes, coisa completamente desprezada entre nós.
A existência de buracos e também de janelas e portas interiores de comunicação entre as moradias contíguas era um fenómeno característico dos blocos habitacionais dos cristãos-novos, sempre obrigados a esconder as suas coisas e o seu modo de viver, no seio da própria família e a estar sempre preparados para a fuga.
O processo não é esclarecedor sobre a localização do tronco e da oficina do ferrador. Esta, constituída pela forja, com o respectivo fole e pela bigorna, era certamente no interior da edificação. O tronco, construído com uns toros e uns casqueiros transversais, podia ser fora, ocupando um pedaço do terreiro. Será que, na reconstrução setecentista dos edifícios ficou um deles mais recuado, correspondendo exactamente ao espaço do tronco de ferrar? É uma possibilidade. E muito interessante de contar a quem hoje se senta no poial de granito ali existente. Aliás, das notícias que temos sobre troncos de ferrar em Torre de Moncorvo, verifica-se que todos eles se situavam em espaços nobres da vila: na esquina da rua das Flores e no “largo das bestas”, junto à muralha, ao início da rua Tomás Ribeiro.
Imagina-se assim o colorido que o tronco do ferrador acrescentava à praça do município: as sonoridades variadas de malhos e martelos batendo na bigorna ou nos cravos das ferraduras, o relinchar dos cavalos, o zurrar dos burros e o muar dos bois. E a gente que sempre se juntava neste tipo de oficinas, observando as artes de ferrar, ajudando a tocar o fole, examinando os animais, trazendo e levando novidades.
E aquele ferrador era um malandreco, podem crer. Gostava de brincar com coisas sérias. À tardinha, à hora das Trindades, punha-se a imitar o sino da torre da matriz, batendo com o malho na bigorna, 3 pancadas. Depois parava e de novo 3 pancadas, igualmente compassadas. E nova pausa e mais 3 pancadas.
E este foi um dos crimes que o levaram à prisão: o de ridicularizar o cerimonial cristão do tocar às Trindades:
Outra acusação respeitava à guarda do sábado. Assim, no dizer de Francisco Gouveia Pinto, cristão-velho, familiar do Santo Ofício, “viu ele testemunha trazerem-lhe, em dias de sábado, cavalgaduras para ferrar e ele não querer, dizendo que não tinha ferragem aparelhada”. E viu que normalmente “aos dias de sábado anda pela vila sem assistir ao banco. E aos domingos, antes da missa, ferra”. Esta acusação foi confirmada por outras testemunhas, nomeadamente por Luís Correia, dizendo que “aos domingos conserta a ferragem sem haver cavalgaduras à sua porta”.
O testemunho daquele familiar da Inquisição acrescenta ainda um pormenor interessante que nos permite saber que na loja do ferrador havia uma escada de acesso ao piso superior, de habitação. Com efeito, disse ele que ao sábado, a mulher do ferrador se punha “sentada na loja, no topo da escada e andava mais composta da cabeça e rosto, com tralha lavada”.
Eram denúncias bastantes e confirmadas por várias testemunhas e, por isso, Henrique Rodrigues e sua mulher, Susana Mendes foram presos e levados para Coimbra onde se juntaram mais acusações. Uma delas partiu de Brás do Canto, alcaide da prisão, segundo o qual o ferrador mandava e recebia recados, usando métodos e códigos, os mais diversos, como o de desenhar uma ferradura no nabo que era para fazer o caldo, “um sinal de uma ferradura e um bocado abocanhado e cravado com 6 cravos de pão”.
Seria por acaso que lhe deram por companheiro de prisão um tal Bernardo Gama, ferrador de Bragança? Ou para o incentivar a falar, pois que o outro tinha já admitido e confessado as suas culpas? A verdade é que também o Bernardo denunciou aos inquisidores estranhas formas de comunicação usadas por Henrique na prisão: bater nas paredes ou no soalho, a modos de linguagem telegráfica ou fazer com que da cozinha “lhe vieram 3 ovos e um deles era cru, vinham 12 os, que queria dizer que 12 pessoas tinham vindo presas”.
Curioso que do inventário das coisas do ferrador constavam “dois livros da Lusitânia, um livro de Comédias e outro livro que se intitulava os Conceitos Espirituais, que todos valiam 800 réis. E tem outro livro que trata da batalha naval e que vale 12 réis”.
Para além de ferrador, Henrique Rodrigues era também cobrador de rendas e de dívidas mal paradas ou de senhorios de fora da terra, como era o caso de mariana Mendes, de Murça, que lhe fizera procuração para lhas cobrar. E trazia ainda arrematadas por 75 500 réis as sisas das correntes da Torre de Moncorvo, ou seja, o imposto dos mesteres e o do real de água, imposto pago pela carne e pelo vinho que se comprava.
Decorreu o processo com a normalidade inquisitorial e Henrique Rodrigues acabou por confessar suas culpas e denunciar os que com ele haviam judaizado, incluindo os seus vizinhos Luís Correia de Paiva e Francisco Brandão, cujas casas comunicavam com a dele. E ditou para o processo algumas das orações que rezava. Vamos transcrever uma delas:
Sol de dia não me ferirá
Lua de noite não me empeçará
Que Adonay me guardará;
Guardar-me-á minha alma
Será minha defensão
Guardar-me-á ao meu deitar
Ao meu levantar
E ao meu entrar
E ao andar pela carreira.
FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8044, de Francisco Rodrigues.
Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade
sábado, 26 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
-Rota dos judeus
segunda-feira, 21 de junho de 2010
sábado, 19 de junho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
-JACOB DE CASTRO SARMENTO II
No auditório do centro cultural de Bragança, no decorrer da feira do livro, realaizou-se no domingo passado, 15 de Junho a apresentação do livro - Jacob de Castro Sarmento. A sessão foi presidida pelo sr. presidente da câmara municipal, engº Jorge Nunes que manifestou muito interesse em que se faça o estudo da importância que os judeus e os marranos tiveram na história da cidade de Bragança e em todo o distrito. Sobre o livro e o trabalho dos autores falou a drª Carla Vieira, da cátedra de estudos sefarditas da universidade de Lisboa.
Seguiu-se a intervenção de Fernanda Guimarães que realçou o papel dos marranos fugidos de Bragança na fundação da sinagoga e da comunidade judaica de Londres. Júlio Andrade referiu-se à urgência que há em desenvolver uma rota dos judeus em Trás-os-Montes. Na assistência destacava-se um grupo de pessoas idas expressamente do Porto e outro grupo de gente de Carção. Ficou a promessa de em breve haver uma edição inglesa do livro, a qual está a ser preparada
Prefácio
“Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou.”
Álvaro de Campos, Opiário
Na dedicatória da sua obra Matéria Médica, physico-historico-mechanica, dirigida a Marco António de Azevedo Coutinho, então secretário de Estado e enviado extraordinário e plenipotenciário à corte britânica, Jacob de Castro Sarmento ousou fazer uma sugestão a tão ilustre figura da corte portuguesa:
“[...] quisera eu humildemente propor a Vossa Excelência e à Real Academia de História que sem sair, a meu ver, da instituição dela, seria um grande brasão da nossa Nação Portuguesa, o deputar alguns dos sapientíssimos académicos para escreverem uma história de todos os sábios lusitanos que floresceram em todos os tempos passados, dando relação de seus escritos, assim dos que escreveram dentro dos domínios próprios, como dos que floresceram e escreveram entre os estranhos. Esta história, não faltando o material para compô-la, prognostica dois grandes benefícios a Nação Portuguesa: o primeiro consiste em que olhando as nações para a nossa história literária e vendo aos nossos ali juntos florescer em casa e fora dela, esse semblante com que agora, por falta desta noticia, nos olham como superiores se mudaria no de veneração para os nossos antepassados que os excederam a eles; o segundo consiste em que vendo nós mesmos na história dos sábios literários lusitanos tantos incentivos para sermos grandes entre as gentes quantos são os gloriosos exemplos de nossos predecessores, deixando o ócio que nos fez perder um pouco de vista à nossa antiga proeminência, nos aplicaremos com mais cuidado que Nação alguma para que a nossa diligência, em imitação da antiga, venha a produzir o material para uma nova historia literária [...]”
A obra foi publicada em 1735. Então, Castro Sarmento contava já com um currículo admirável: tinha escrito uma memória sobre a inoculação da varíola, um tratado dedicado às virtudes de certos tipos de águas minerais, três sermões sobre a celebração do Quipur, uma paráfrase ao Livro de Ester e um elogio fúnebre em memória do rabi David Nieto, da congregação de Londres, cidade onde se encontrava a viver desde os anos 20 do século XVIII. Sobretudo, era membro da Royal Society, tendo sido, assim, um dos primeiros judeus a integrá-la.
Portanto, bem vistas as coisas, Jacob de Castro Sarmento inseria-se já na categoria de que ele próprio fala na dita dedicatória, a dos “sábios lusitanos” que “floresceram e escreveram entre os estranhos”. E ainda estava apenas no início da sua carreira. Afinal, a Materia Medica abre um período de produção científica altamente profícua que apenas cessaria com a sua morte, com cerca de 70 anos de idade. A química, a física newtoniana, a cirurgia, a farmacologia e até a astronomia foram alvo do interesse de Castro Sarmento e áreas nas quais deixou a sua marca indelével.
Porém, séculos passados, este “sábio lusitano” da diáspora tem sido tratado com semelhante incúria a que foram sujeitos os outros “sábios” aos quais fez menção na dedicatória da Materia Medica. Peca por defeito a bibliografia portuguesa dedicada a Jacob de Castro Sarmento. Salvemos algumas excepções, nomeadamente os opúsculos escritos por Augusto Isaac d’Esaguy, ou o mais recente trabalho desenvolvido por José Pedro Sousa Dias relativo à introdução e uso da água de Inglaterra em Portugal. Fora isso, Sarmento surge apenas de uma forma pontual na historiografia nacional. É uma lacuna lamentável não existir uma única tese de mestrado ou doutoramento em Portugal dedicada à vida e obra de uma das figuras mais proeminentes da diáspora sefardita em Inglaterra e da ciência setecentista escrita em português (e se existe, deixo já aqui as minhas desculpas e as minhas esperanças numa maior divulgação de tal trabalho).
Por outro lado, esse olvido não deixa de ser uma infeliz ironia do destino.
Afinal, o percurso de Jacob de Castro Sarmento foi marcado por uma relação quase bipolar com a terra e a gente que o viu nascer. Sai de Portugal sob o encalço da Inquisição, ameaçado pelas prisões efectuadas no seio da sua família e da sua esfera de relações. Em Londres, é acolhido pela comunidade sefardita estabelecida na cidade, não sem gerar desconfianças e acusações que o perseguiriam durante toda a sua vida. Como membro da Royal Society, Castro Sarmento serve de intermediário entre esta instituição e a sua congénere portuguesa, a Academia Real de Lisboa. É frequentemente consultado pela embaixada portuguesa em Londres, quer nas suas funções de médico, quer de cientista. Torna-se, assim, próximo de Marco António de Azevedo Coutinho e do seu sucessor, Sebastião José de Carvalho e Melo. É com Sarmento que o futuro Marquês de Pombal se aconselha a respeito da reforma da Universidade de Coimbra. Também é por seu intermédio que chegam a Portugal as mais recentes inovações técnicas, como o microscópio ou o termómetro Fahrenheit. A sua permanente ligação a Portugal manifesta-se igualmente na sua obra. É o caso da Materia Medica, na qual Sarmento disserta sobre as propriedades das águas das Caldas da Rainha e as riquezas minerais do Brasil. Isto já para não falar no seu trabalho de introdução da água de Inglaterra em Portugal.
Em 1755, ao ter notícia do terramoto que abalara o seu país natal, Castro Sarmento escreveu a Diogo de Mendonça Corte Real, lamentando a calamidade e prontificando a sua ajuda “pois sabe muito bem, que uma grande parte do meu tempo e melhor da minha vida o tenha interessado no bem público e benefício da minha Pátria”. A resposta da pátria é que nem sempre foi a desejada. Sarmento planificou a tradução para português da obra de Francis Bacon. O financiamento não chegou. Sarmento empenhou-se na composição de um dicionário de português-inglês. A sua sorte foi a mesma. Sarmento propôs a criação de um jardim botânico à Universidade de Coimbra e à Academia Real de História. Nenhuma das instituições aceitou a proposta e a oferta de ajuda de Sarmento e de Hans Sloane, então presidente da Royal Society. A história natural não era uma prioridade. Em suma, Sarmento queria introduzir em Portugal a vanguarda da ciência europeia mas a sua pátria não partilhava as mesmas aspirações.
A pátria não valeu a Jacob de Castro Sarmento. E a religião também não. Baptizado como Henrique de Castro, viveu como católico até à sua chegada a Londres. Então, converteu-se ao judaísmo e ingressou na congregação de Londres, sob a protecção de David Nieto. A sua ligação à Bevis Marks começaria a esvanecer-se a partir da morte do rabi. Os laços romper-se-ia definitivamente em 1758, quando se casa com uma mulher cristã e escreve à congregação a comunicar as razões do seu afastamento. Jacob morre como anglicano.
Matt Goldish, autor de um interessante artigo sobre a adesão de Sarmento às teorias newtonianas (“Newtonian, Converso and Deist: the Lives of Jacob (Henrique) de Castro Sarmento”, Science in Context, vol. 10, n.º 4, Inverno 1997), refere que a adesão de Sarmento ao judaísmo não exprimiu um profundo sentimento religioso mas antes a conveniência de se encontrar ligado à comunidade sefardita de Londres e que, após a morte do seu patrono, o rabi Nieto, a sua vivência religiosa passou para um plano secundário. Como refere o autor, Sarmento ganhou então um “novo herói”, Isaac Newton, e a sua permeabilidade ao pensamento newtoniano deveu-se muito ao facto de não possuir uma ligação profunda a nenhuma confissão religiosa.
Afinal, Sarmento viveu toda a sua vida sob a sombra da perseguição religiosa: em Portugal pela Inquisição, em Londres, vítima da desconfiança de alguns membros da congregação. Olhando para trás, vemos como a opressão religiosa passou de geração para geração na sua família.
Apenas compreendemos o homem, compreendendo essa funesta herança. E é sobretudo a este nível que o presente estudo, levado a cabo por Maria Fernanda Guimarães e António Júlio de Andrade com afinco e dedicação, representa um contributo inestimável para o conhecimento não só da vida, como também do passado geracional de Jacob de Castro Sarmento.
Sigamos, assim, a história de uma família que acompanha a história de uma instituição, arquétipo da intolerância religiosa. Encontremo-nos com Francisco Rodrigues, tabelião de Bragança, um baptizado em pé, preso em 1531, nos primórdios do estabelecimento do Tribunal da Inquisição em Portugal, e perscrutemos as vidas dos seus descendentes até aos primos de Jacob de Castro Sarmento que, ao longo da primeira metade do século XVIII, vão povoando os cárceres do Santo Oficio. Mais de dois séculos de medo, de calabouços, de evasão.
É um cenário de cativeiro aquele que Jacob de Castro Sarmento deixa atrás de si quando embarca rumo a Inglaterra. O que encontra ao chegar às margens do Tamisa? Uma resposta a esta pergunta é igualmente delineada no presente estudo, abordando a constituição da comunidade sefardita de Londres e, sobretudo, da sua sinagoga, a Bevis Marks, com particular destaque para os bragantinos que encontraram nesta cidade a liberdade religiosa posta em xeque na sua terra natal.
Uma geração notável de sefarditas de origem portuguesa povoava a cidade de Londres no momento em Sarmento ali chega. Recordemos apenas alguns nomes. Issac de Sequeira Samuda, também médico formado em Coimbra, chega a Inglaterra aquando de Sarmento e foi igualmente membro da Royal Society, assistiu a embaixada portuguesa e recebeu o título de médico extraordinário do Príncipe Regente de Portugal. Benjamim Mendes da Costa, Solomon da Costa Athias e Joseph Salvador integraram o comité destinado ao envio de colonos judeus para a Carolina do Sul. Emanuel Mendes da Costa, originário de uma família com raízes portuguesas, foi bibliotecário da Royal Society, dedicou-se à História Natural, em particular nas áreas da conchologia e do estudo dos fósseis, onde deixou uma obra muito relevante. São apenas alguns nomes de judeus portugueses ou descendentes de famílias portuguesas que se notabilizaram em Londres, muito para lá da comunidade sefardita ali estabelecida.
Com uma tão marcante presença de portugueses na cidade que o acolheu, poderíamos supor que Jacob de Castro Sarmento se tenha sentido em casa em Londres. Mas, e as desconfianças entre os seus congéneres? E as acusações de conluio com o Santo Ofício português (acusação extraordinária, tendo em conta a perseguição inquisitorial de que a sua família foi alvo!)? E as rivalidades dos seus colegas de profissão? A determinado momento, talvez Jacob de Castro Sarmento se tenha sentido tão desamparado pelos seus quanto se sentiu a sua prima Mariana Santiago, obrigada a pedir esmola porta a porta das famílias cristãs-novas de Lisboa, recebendo em troca a denúncia em vez do pão. A sorte de um e de outro foi bem diferente. Os contextos em que viviam também o eram. Porém, a sombra da perseguição sempre acompanhou esta família. A presente obra demonstra-o habilmente.
Carla da Costa Vieira
(Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste»)
Lisboa, 22 de Março de 2010
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