terça-feira, 6 de julho de 2010

-BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural II

Igreja de S. Vicente




A igreja de S. Vicente é um dos mais emblemáticos monumentos da cidade de Bragança. Não tanto pela sua arquitectura (de raiz românica e reconstrução barroca), mas tão só pela talha do seu altar-mor – um monte de ouro – na expressão de José Cardoso Borges, na sua Descrição Topográfica de Bragança.
Emblemática também pelos acontecimentos históricos que lhe estão associados, dois deles merecendo especial destaque. O primeiro relaciona-se com Inês de Castro. É que, segundo a tradição, ela terá casado clandestinamente nesta igreja com o príncipe, futuro rei D. Pedro, sendo oficiante o deão da Guarda.
O segundo acontecimento respeita à época das invasões francesas. Com efeito, foi do patamar exterior lateral desta igreja que, ao entardecer do dia 11 de Junho de 1808, o general Jorge Gomes de Sepúlveda lançou o grito de revolta contra as tropas de Napoleão e se meteu a chefiar um movimento político-militar que rapidamente alastrou a toda a província de Trás-os-Montes e a todo o Norte de Portugal. Comemorando esta proclamação, lá está, na parede exterior da igreja um painel de azulejos alusivo à cena, inaugurado em 11.6.1929.
Para além disso, a igreja num dos espaços mais nobres da cidade. Por isso mesmo se chamava Principal ao largo que lhe está fronteiro. O Principal era então a praça mais importante da urbe, o elemento de ligação entre a cidade e a vila (entendendo-se esta como o núcleo urbano sito dentro das muralhas) e nela convergiam todos os arruamentos.
Não por acaso, adossado à mesma parede lateral e junto à porta principal do templo, foi construído um chafariz de granito. Sim, esta era uma infra-estrutura vital para a praça maior de Bragança, o espaço privilegiado para o desenrolar das actividades comerciais, lúdicas e políticas da terra, o local de encontro quotidiano dos cidadãos. Ali se realizavam as touradas e as mouriscas, as danças e as comédias, nas grandes festas reais.
Por outro lado, a igreja de S. Vicente constitui um notável monumento da história judaica de Bragança e por ela passa, obrigatoriamente, a Rota dos Judeus. Nela, mais do que em qualquer outra parte, se guardam as memórias da “gente da nação” de Bragança. Isto porque ela era o espaço religioso mais frequentado pelos cristãos-novos da terra e o local de eleição para enterrarem os seus mortos. Expliquemos a razão.
Antes de mais, sabem os leitores que, naquele tempo, as pessoas eram enterradas no interior das igrejas e os cristãos-novos não podiam fazer de outro modo, se bem que um dos preceitos da lei de Moisés seja o de que os mortos devem ser enterrados em terra virgem, ou seja, em sítio onde ninguém tivesse antes sido sepultado.
Era difícil, ou mesmo impossível, conseguir tal objectivo, na generalidade dos casos. Em S. Vicente, porém, nos anos de 1700 abriu-se uma janela de oportunidades nesse sentido. Recordam-se de termos dito que a igreja foi reconstruída e ampliada? Isso terá acontecido em finais do século XVII e as obras terão sido conduzidas pela Confraria de Santa Cruz, a qual era dominada por cristãos-novos. E estes é que pagariam as tais obras. E ter-se-á então estatuído um preço bem elevado por cada sepultura que naquela igreja se abrisse: 4800 réis, quase 10 vezes mais do que em Bragança se pagava pelos enterramentos em outras igrejas, nomeadamente na igreja matriz que até era de maior nobreza e dignidade, se é que tais palavras são adequadas.
A verdade é que, na igreja de S. Vicente apenas a gente da nação hebreia gostava de enterra os seus mortos, certamente porque nela havia sítios onde ninguém fora enterrado antes e isso resultou das obras de ampliação efectuadas.
E já que estamos falando de enterros, diga-se que aquela gente também se preocupava grandemente com a forma de amortalhar os seus defuntos. Veja-se, a tal respeito, a descrição feita da mortalha de uma jovem enterrada em S. Vicente no dia 7 de Março de 1747, feita pelo padre que presidiu ao funeral:

- Assistindo ele ao enterro de Luísa, solteira, irmã de Baltasar Gomes e de José Gomes, sobrinha de António Rodrigues Ferreira e Francisco Rodrigues Ferreira, cristãos-novos, moradores na rua dos Oleiros, freguesia de Santa Maria, observando ele testemunha a mortalha que a dita defunta levava, por ter lido os editais do Santo ofício, viu que a dita defunta levava uma camisa nova em folha, em pano de linho fino, com as mangas puxadas para fora, e ouviu dizer ao padre Bernardo Álvares e a Joana Maria Ferreira, mulher de Diogo Pinto, vizinhos da casa da dita defunta, que eles tinham visto que a dita defunta também levava uma anágua em folha e que todos os mais fatos que levava, assim touca de freira como os mais adornos, eram novos e muitas pessoas das que assistiram ao dito enterro fizeram observação e reparo no referido, em tal forma que António Lopes, tesoureiro da igreja de S. Vicente, aonde foi sepultada a dita defunta, veio falar com ele testemunha dizendo que se admirava muito que os párocos consentissem se enterrasse tal cristã-nova com aqueles hábitos novos sabendo que era proibido pelos editais do Santo Ofício e disse o tal tesoureiro que até o pano com que lhe cobriram a cara era novo em folha; e que ao dito enterro assistiu muita gente e muitos clérigos e que faziam o mesmo reparo, como era o padre Bernardino Álvares, o padre Manuel de Morais, o padre Inocêncio da Cunha, o padre sacristão da igreja de Santa Maria, o padre José Domingues e o padre António da Cunha. E que leu nos ditos editais por ter lido aos seus fregueses. E que o padre Manuel Rodrigues Ferreira, tio da defunta, irmão dos sobreditos…



Por finais do século XVII, a igreja de S. Vicente terá sofrido obras de remodelação / ampliação, metendo-se ao corpo da mesma o espaço ocupado por uma torre que foi demolida. Era, pois, um espaço de terra virgem, onde ninguém fora antes enterrado. E foi exactamente nesse espaço que a família do advogado mais distinto de Bragança, o dr. António Gabriel Pissarro comprou uma sepultura para enterrar o seu pai, Pedro Álvares Pissarro, cremos que falecido no ano de 1737.
Era então cura dessa igreja o padre Bento Rodrigues. E uma coisa que o intrigava era o facto de os cristãos-novos preferirem enterrar os seus mortos em S. Vicente, uma igreja de menos categoria e menos assistida, do ponto de vista religioso, e não nas igrejas de freguesia como eram as de S. João e Santa Maria. Além de que a sepultura ali custava 4 800 réis e nas igrejas de paróquia o preço era de 500 réis, quase 10 vezes mais!
Resolveu-se, pois, o padre Bento tirar a limpo essa história da terra virgem. Programou para isso acompanhar a abertura da cova para o Pedro Álvares que era tido como o “rabi” da sinagoga da cidade, o homem “que explicava a lei mosaica aos mais cristãos-novos” – no dizer de uma testemunha cristã-velha. André Borges foi quem tratou da compra e marcação do terreno, acompanhando o trabalho do coveiro que era um tal João Rodrigues Bugalho, cristão-novo também e muito amigo da família. E como a terra era dura e apareciam muitas pedras, o padre Bento mandou parar e que abrissem a cova noutro sítio. Argumentou o Borges que aquela era a vontade do defunto, que deixou em testamento a indicação do sítio onde o haviam de enterrar, que era o mesmo onde já fora enterrada a sua mulher.
Condescendeu o padre, mas com uma condição: assim sendo, haviam de aparecer ossos. Caso contrário, teriam de tapar aquela sepultura e abri-la em outro sítio da igreja.
Ficou o coveiro no trabalho e André Borges foi-se ao adro da igreja de S. João e ali andavam uns ossos pela terra, ao ar livre, sabe-se lá de quem seriam! E recolheu alguns e voltou a S. Vicente. Com água benta da pia, molhou-os e depois “os incodrigaram na terra” para dar o aspecto de que ali estiveram enterrados. Só que, entretanto, voltou a aparecer o padre Bento e, apanhando-os a fazer o trabalho, com os ossos a escorrer água… mandou-os tapar a cova e abrir outra, acaso ameaçando-os com a Inquisição.
Mas não desistiram e logo foram ter com o vigário geral, a autoridade de maior peso na terra, na esfera do eclesiástico, queixando-se que o cura de S. Vicente os não deixava cumprir a última vontade do defunto.
Despachou o vigário a seu favor a petição e, com o despacho na mão, voltaram eles ao seu trabalho. E foi a vez de o padre Bento ir ter com o seu superior e explicar-lhe a razão da sua atitude, que era a de impedir uma cerimónia judaica, que não era por respeito à vontade do defunto que abriam a cova naquele sítio, mas porque a lei de Moisés ordena que os defuntos devem ser enterrados em terra virgem.
Naturalmente que o vigário revogou o despacho anterior e ordenou que a sepultura de Pedro Álvares Pissarro fosse aberta em outra parte do templo.
Esta foi uma culpa que, anos depois, foi incluída no processo de António Gabriel Pissarro, pela acusação.
Outras histórias de enterramentos judaicos na igreja de S. Vicente poderíamos contar, justificando plenamente a sua inclusão na Rota dos Judeus pela cidade de Bragança.
Outro aspecto que, porventura, pode lançar outras luzes sobe a ligação deste templo à comuna marrana de Bragança é a história da Confraria de Santa Cruz que está por fazer. É que foi exactamente esta Confraria que financiou e dirigiu as obras de remodelação/ampliação da igreja e era nos seus cofres que entrava o dinheiro pago pelas sepulturas. Importaria ver quem eram os confrades e os mordomos que presidiam à sua direcção. Até que ponto seria uma Confraria de marranos, destinada exactamente a esconder cerimónias e ritos funerários marranos.
António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães




segunda-feira, 5 de julho de 2010

-Uma Família de Cristãos-Novos em Bragança

Filipe Pinheiro de Campos
Edição: 2007
3 vols.
Sinopse:
O presente conjunto de três volumes corresponde a uma aturada investigação de Filipe Pinheiro de Campos em torno de uma família de cristãos-novos estabelecidos em Bragança nos finais do século XV, consagrando um elevado número de casas com relevância na cidade e na região, assim como nas cidades de Lisboa e do Porto.
Com prefácio do Professor Doutor António de Sousa Lara, esta obra genealógica é de grande relevância histórica e social para o estudo do percurso dos cristãos-novos transmontanos e da sua inserção social e cultural na sociedade Portuguesa, abrange um grande número de personalidades e ramos familiares …

sexta-feira, 2 de julho de 2010

-VULTOS JUDAICOS BRAGANÇANOS

Francisco da Fonseca Henriques (Dr. Mirandela)






· Al Alimentação, qualidade do ar, higiene e descanso são alguns dos temas desta obra. Sua primeira edição é de 1721, mas o texto traz diversas recomendações surpreendentemente atuais para manter uma vida saudável. A obra teve apenas três reedições, todas no século XVIII, e ressurge agora com glossário. A linguagem foi atualizada pelos professores Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, Leônidas Querubim Avelino (UFMT), Sílvio de Almeida Toledo Neto e Heitor Megale (USP).
Sumário

Prefacio –
Dr. Cássio Ravaglia

O Primeiro Tratado de Nutrição em Língua Portuguesa –
Dr. Sérgio de Paula Santos

âncora medicinal

Ao Excelentíssimo Senhor
Excelentíssimo Senhor
Ao Leitor
Licenças do Santo Ofício
Antelóquio
Seção I – [do ar ambiente]
I. O que Seja Ar e que Poderes Tenha no Corpo Humano. II. Da Eleição do Ar
Seção II – [dos alimentos em comum].I. O que Seja Alimento, como se Coza no Estômago e Quais Sejam os Melhores Alimentos para as Pessoas que Têm Saúde.II. Da Quantidade de Alimento. III. Qual Seja mais Saudável, a Mesa que Consta de um só Alimento ou a que se Compõe de Muitos.
IV. Da Ordem com que se Hão de Usar os Alimentos
V. Quantas Vézes e em que Horas se Há de Comer Cada Dia
VI. Se o Almoço Há de Ser Maior que o Jantar, se o Jantar Maior que o Almoço
VII. Se os Alimentos do Jantar Devem Ser Diferentes dos do Almoço?
VIII. Se é Melhor Comer Assado ou Cozido?
IX. Do Alimento Próprio para Cada Idade e Temperamento
X. Do Alimento Próprio de Cada Témpo do Ano
Seção III – [dos alimentos em particular]. I. Do Pão de Trigo.II. Do Pão de Centeio, de Milho, de Cevada e Aveia. III. Dos Animais Quadrúpedes em Comum. IV. Das Carnes dos Quadrúpedes em Particular. V. Das Entranhas e Extremidades dos Animais Quadrúpedes.VI. Das Partes Líquidas dos Quadrúpedes que Servem de Alimento .VII. Dos Animais Voadores. VIII. Dos Ovos (Ova Gallinae).IX. Dos Peixes em Comum. X. Dos Peixes em Particular. XI. Dos Legumes. XII. Da Hortaliça Sativa e Esculenta. XIII. Das Raízes Sativas. XIV. Das Raízes que se não Semeiam e dos Cogumelos. XV. Dos Frutos Sativos. XVI. Dos Frutos das Árvores. XVII. Dos Frutos Lenhosos. XVIII. Dos Condimentos. XIX. Dos Aromas
Seção IV – da água, do vinho e de outras bebidas alimentares e medicamentosas que no presente século se frequentam.I. Da Água e suas Diferenças. II. De que Água se Há de Usar, em que Quantidade, em que Tempo e com que Ordem se Há de Beber.III. Se se Há de Beber Água Fria, se Quente, Crua, ou Fervida; e das Utilidades e Danos de Cada uma Delas.IV. Da Água Nevada, Sorvetes, Limonadas de Neve; e da Água Fria nos Poços e ao Sereno, e de Outras Bebidas.V. Do Vinho e suas Diferenças.VI. Qual Seja o Melhor Vinho; se Devem Usar Dele as Pessoas que Têm Saúde; em que Quantidade se Há de Beber e das Utilidades e Danos que Causa.VII. Se o Vinho se Há de Beber Puro, se Linfado.VIII. Propõem-se Algumas Advertências que se Devem Observar no Uso do Vinho.IX. Da Aguardente, do Espírito de Vinho, da Água-da-rainha-da-Hungria e do Arrobe de Vinho.X. Da Cerveja.XI. Do Chocolate.XII. Do Chá.XIII. Do Café.XIV. Do Licor a que Chamam Sidra.XV. Do Hidromel Vinoso e do Mulso

Seção V – do sono e vigília; do movimento e descanso; dos excretos e retentos e das paixões da alma
I. O que Seja Sono e que Utilidades e Danos Cause no Corpo Humano. II. Em que Tempo, Quantas Horas e com que Decúbito se Há de Dormir.III. Que Coisa Seja Vigília e Quais os seus Efeitos no Corpo Humano.IV. Do Movimento, ou Exerácio. Mostra-se o que Seja Exercício e as Utilidades que dele se Seguem.V. Do Descanso. Mostra-se o Muito que Ofende a Falta de Exercício.VI. Dos Excretos e Retentos.VII. Das Paixões da Alma
Glossário
Índice das Coisas que se Contêm neste Livro
Autor: Francisco da Fonseca Henriquez
Biografia: Francisco da Fonseca Henriquez:
Nasceu em Mirandela, em 6.10.1665 e faleceu em Lisboa, em 17.4.1731. Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra e foi médico de el rei D. João V Foi autor de vários tratados científicos que o Abade de Baçal menciona no Tomo VII das suas Memórias, p.p. 239/241. Enalteceu-o também Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V falando das águas de caldas, fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal dignos de particular memória em 1726: "o barro he de tal natureza que do muy fino, não só se fazem púcaros e quartos de boa forma, mas também figuras e brincos que servem de adorno e compostura de casas, no que se tem aprovado muyto o primor dos Artifícios, com utilidade sua".
Fontes: Ateliê Editorial e C.M.M.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

-Os braços do Santo Ofício


Pedro Henriques de Guevara

(nascido em Torre de Moncorvo, séc. XVII)

Era filho de Luís Vaz Henriques, de alcunha o Alto, rendeiro e morador em Torre de Moncorvo, e de Isabel da Pena, ambos cristãos-novos.
Teve quatro irmãos: Francisco Vaz Barbo, casado com Jerónima de Matos; Álvaro Cardoso de Oliveira, marido de Mécia de Pena; Gaspar Cardoso, casado com Josefa de Matos e que fazia viagens para Castela; e Félix Henriques, que embarcou para as Índias de Castela.
Os dados biográficos que se conhecem sobre Pedro Henriques são fruto, na sua maioria, de algumas diligências feitas pelo comissário do Santo Ofício em Macau, Manuel Fernandes, que as remeteu à mesa da Inquisição de Goa, em 1646.
Nesta documentação, Pedro Henriques é apresentado como um judeu público bastante rico e que fazia muitas viagens, provavelmente por motivos comerciais, bem como para escapar à perseguição inquisitorial que lhe era movida por vários tribunais. Assim, em Setembro de 1645, Pedro Henriques teria chegado a Macau, oriundo de Manila, tendo passado, nessa viagem, pela região do Camboja. Sabendo que um comissário da Inquisição de Manila ordenara, através do vigário de Macassar, a sua prisão em Macau, Pedro fugiu para Cochim, no navio do capitão Diogo do Amaral.
Segundo uma carta do padre frei Gaspar de Carvalho, escrita em Macassar, a 13 de Maio de 1645, Pedro Henriques já teria uma ordem de prisão no México, presumindo-se que o seu primeiro destino, quando se ausentou de Portugal, tenha sido a América Espanhola e, só mais tarde, o Oriente.
O arcediago e governador do bispado de Malaca, o padre Paulo da Costa, procedeu a algumas inquirições sobre Pedro Henriques, nas quais surgiu um testemunho de Gonçalo de Lima que narrou um episódio ocorrido na viagem que Pedro fez para Macau, dizendo que lhe tinha sido roubada uma escrivaninha quando se encontrava no reino do Camboja.
Segundo o que o Santo Ofício averiguou, Pedro Henriques teria fugido para o reino de Portugal num navio de João da Costa.
Pouco se sabe sobre o percurso deste mercador depois da sua fuga do Oriente. Em Janeiro de 1650, o Conselho Geral do Santo Ofício considerou que não existiam culpas suficientes contra ele para lhe ser instaurado um processo.
No ano de 1658, uma prima sua, Catarina Henriques, referiu, na sessão de genealogia do seu processo na Inquisição de Coimbra, que o seu primo residia em Lisboa.
Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade
Bibliografia
Fontes
ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. n.º 13643 (Pedro Henriques Guevara).
ANTT, Inquisição de Coimbra, proc. n.º 7575 (Catarina Henriques).

terça-feira, 29 de junho de 2010

-SABORES JUDAICOS


Sabores Judaicos — Trás-os-Montes
Graça Sá-Fernandes
Naomi Calvão
Colecção: Coração, Cabeça e Estômago / Sabores Exóticos
Assírio & Alvim -
Sinopse:
Na recolha de material sobre a tradição oral, ainda mantida pelos cripto-judeus, em Trás-os-Montes, deparámos com várias orações, práticas religiosas, alimentares e outras.
Estes costumes eram, e são, transmitidos essencialmente pelas mulheres.
Com perigo, até da própria vida, os cripto-judeus transmontanos tiveram que, ao longo do tempo, esconder, e mesmo evitar, todos os costumes e preceitos que os comprometiam.
São disso exemplo o abandono sucessivo da Circuncisão, da Festa das Cabanas, da Delegação Ritual, da Preparação do Vinho, do Uso dos Livros Sagrados e utensílios pertencentes ao culto.
Por outro lado, é muito interessante ver como, passados cinco séculos, persistiu a consciência religiosa em vários campos e como conseguiram, disfarçadamente, continuar com a prática do culto judaico, iludindo a vigilância inquisicional.
Podemos, ao longo deste livro, tomar contacto com alguns desses hábitos.
A alimentação foi, desde sempre, como em todas as comunidades judaicas, um dos traços mais fortes da sua tradição e simbologia características.
Usámos uma cronologia litúrgica para facilitar a leitura das receitas.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

-NA TERRA DO FERRO


O Ferrador que em Torre de Moncorvo tocava às Trindades com o malho na bigorna do tronco

Na praça do município, em Torre de Moncorvo, existe uma casa que tem insculpida no granito da ombreira da porta a data de 1709. Certamente que tal data corresponde ao ano da sua construção.Fazendo esquina da mesma praça com a antiga rua dos Mercadores, uma outra casa, que alberga no r/chão uma ourivesaria, terá sido construída na mesma época. Ambas foram reconstruídas ultimamente, mantendo a traça original. Aliás, nenhuma alteração de monta terão sofrido estas edificações nestes três séculos, tanto ao nível dos espaços habitacionais como nos espaços comerciais.

Mais difícil será tentar reconstruir as edificações que ali existiam antes daquela data e a ambiência do sítio. Apesar da dificuldade, propomos um exercício de imaginação, baseados nas informações colhidas em um processo da Inquisição, referente a Henrique Rodrigues, ferrador de profissão. É que, pelos anos de 1647, as duas casas seriam dele, conforme consta do inventário de seus bens, assim registados:- Disse que possui uma casa sobradada na praça da vila de Moncorvo (…) que parte com a mesma praça e da outra banda com casa de Francisco de Araújo, que comprou ao fisco e vale 25 mil réis.
Tem outra casa na mesma praça, na entrada da rua dos Mercadores, que é foreira ao licenciado João de Góis, que lhe paga mil réis cada ano, que parte com as sobreditas casas e com outras de Luís Correia, as quais valerão 16 mil réis cada ano.Este Luís Correia de Paiva foi exactamente um dos denunciantes de Henrique. Era também cristão-novo e confirmou que as casas eram contíguas e que havia um buraco na parede por onde espreitava o que os outros faziam e que os via fazer cerimónias judaicas, nomeadamente às sextas-feiras à tarde: varrer a casa, limpar as candeias, meter torcidas, vestir camisas lavadas… que os ouvia falar…
E disse estar lembrado de os ouvir comentar a morte de Manuel Henriques Pereira nas fogueiras da Inquisição, dizendo que morreu como mártir da religião judaica. E de ter ouvido a mulher do ferrador a dizer para este: - Agora que vem o nosso jejum da rainha Ester, é preciso comprar grãos. De outra vez que ouviu o ferrador dizer para a mulher: - Estes cães não mos querem deixar, já nos caíram na trinca, mas nem por isso hei-de deixar de fazer o meu ofício.
Efectivamente não eram só os “cães” dos cristãos-velhos, como os familiares da Inquisição Francisco Gouveia Pinto e Pedro saraiva de Vasconcelos, mas também os vizinhos “judeus” como o Luís Correia que contou ainda ter sido apanhado pela mulher do ferrador a espreitar, a qual veio para a janela a “gritar à d´el-rei que a ameaçava com Coimbra” .
Por outro lado, o senhorio de uma das casas, João de Góis, advogado, disse que a morada do ferrador tinha paredes-meias com a de Francisco Brandão. Certamente que era da outra banda, do lado da rua do Cano. E o curioso é que também nos aparece uma testemunha a dizer que havia um buraco entre as duas casas, por onde comunicavam.


Quanto ao facto de a casa ter sido comprada ao fisco, devemos concluir que ela pertencera antes a algum cristão-novo que foi preso pelo Santo Ofício e por isso lhe foi sequestrada para o fisco.Podemos então concluir que aquele conjunto de casas que por 1650 davam para a praça, sitas entre a rua do Cano e a rua dos Mercadores era todo ele habitado por cristãos-novos. E esta constatação é importante. Desde logo porque nos mostra que é necessário ter em conta a arqueologia judaica nos estudos de desenvolvimento urbano da vila de Torre de Moncorvo, como, aliás, na generalidade dos centros urbanos tradicionais de Trás-os-Montes, coisa completamente desprezada entre nós.
A existência de buracos e também de janelas e portas interiores de comunicação entre as moradias contíguas era um fenómeno característico dos blocos habitacionais dos cristãos-novos, sempre obrigados a esconder as suas coisas e o seu modo de viver, no seio da própria família e a estar sempre preparados para a fuga.
O processo não é esclarecedor sobre a localização do tronco e da oficina do ferrador. Esta, constituída pela forja, com o respectivo fole e pela bigorna, era certamente no interior da edificação. O tronco, construído com uns toros e uns casqueiros transversais, podia ser fora, ocupando um pedaço do terreiro. Será que, na reconstrução setecentista dos edifícios ficou um deles mais recuado, correspondendo exactamente ao espaço do tronco de ferrar? É uma possibilidade. E muito interessante de contar a quem hoje se senta no poial de granito ali existente. Aliás, das notícias que temos sobre troncos de ferrar em Torre de Moncorvo, verifica-se que todos eles se situavam em espaços nobres da vila: na esquina da rua das Flores e no “largo das bestas”, junto à muralha, ao início da rua Tomás Ribeiro.
Imagina-se assim o colorido que o tronco do ferrador acrescentava à praça do município: as sonoridades variadas de malhos e martelos batendo na bigorna ou nos cravos das ferraduras, o relinchar dos cavalos, o zurrar dos burros e o muar dos bois. E a gente que sempre se juntava neste tipo de oficinas, observando as artes de ferrar, ajudando a tocar o fole, examinando os animais, trazendo e levando novidades.
E aquele ferrador era um malandreco, podem crer. Gostava de brincar com coisas sérias. À tardinha, à hora das Trindades, punha-se a imitar o sino da torre da matriz, batendo com o malho na bigorna, 3 pancadas. Depois parava e de novo 3 pancadas, igualmente compassadas. E nova pausa e mais 3 pancadas.
E este foi um dos crimes que o levaram à prisão: o de ridicularizar o cerimonial cristão do tocar às Trindades:
Outra acusação respeitava à guarda do sábado. Assim, no dizer de Francisco Gouveia Pinto, cristão-velho, familiar do Santo Ofício, “viu ele testemunha trazerem-lhe, em dias de sábado, cavalgaduras para ferrar e ele não querer, dizendo que não tinha ferragem aparelhada”. E viu que normalmente “aos dias de sábado anda pela vila sem assistir ao banco. E aos domingos, antes da missa, ferra”. Esta acusação foi confirmada por outras testemunhas, nomeadamente por Luís Correia, dizendo que “aos domingos conserta a ferragem sem haver cavalgaduras à sua porta”.
O testemunho daquele familiar da Inquisição acrescenta ainda um pormenor interessante que nos permite saber que na loja do ferrador havia uma escada de acesso ao piso superior, de habitação. Com efeito, disse ele que ao sábado, a mulher do ferrador se punha “sentada na loja, no topo da escada e andava mais composta da cabeça e rosto, com tralha lavada”.
Eram denúncias bastantes e confirmadas por várias testemunhas e, por isso, Henrique Rodrigues e sua mulher, Susana Mendes foram presos e levados para Coimbra onde se juntaram mais acusações. Uma delas partiu de Brás do Canto, alcaide da prisão, segundo o qual o ferrador mandava e recebia recados, usando métodos e códigos, os mais diversos, como o de desenhar uma ferradura no nabo que era para fazer o caldo, “um sinal de uma ferradura e um bocado abocanhado e cravado com 6 cravos de pão”.
Seria por acaso que lhe deram por companheiro de prisão um tal Bernardo Gama, ferrador de Bragança? Ou para o incentivar a falar, pois que o outro tinha já admitido e confessado as suas culpas? A verdade é que também o Bernardo denunciou aos inquisidores estranhas formas de comunicação usadas por Henrique na prisão: bater nas paredes ou no soalho, a modos de linguagem telegráfica ou fazer com que da cozinha “lhe vieram 3 ovos e um deles era cru, vinham 12 os, que queria dizer que 12 pessoas tinham vindo presas”.
Curioso que do inventário das coisas do ferrador constavam “dois livros da Lusitânia, um livro de Comédias e outro livro que se intitulava os Conceitos Espirituais, que todos valiam 800 réis. E tem outro livro que trata da batalha naval e que vale 12 réis”.
Para além de ferrador, Henrique Rodrigues era também cobrador de rendas e de dívidas mal paradas ou de senhorios de fora da terra, como era o caso de mariana Mendes, de Murça, que lhe fizera procuração para lhas cobrar. E trazia ainda arrematadas por 75 500 réis as sisas das correntes da Torre de Moncorvo, ou seja, o imposto dos mesteres e o do real de água, imposto pago pela carne e pelo vinho que se comprava.
Decorreu o processo com a normalidade inquisitorial e Henrique Rodrigues acabou por confessar suas culpas e denunciar os que com ele haviam judaizado, incluindo os seus vizinhos Luís Correia de Paiva e Francisco Brandão, cujas casas comunicavam com a dele. E ditou para o processo algumas das orações que rezava. Vamos transcrever uma delas:

Sol de dia não me ferirá
Lua de noite não me empeçará
Que Adonay me guardará;
Guardar-me-á minha alma
Será minha defensão
Guardar-me-á ao meu deitar
Ao meu levantar
E ao meu entrar
E ao andar pela carreira.

FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8044, de Francisco Rodrigues.
Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade

quinta-feira, 24 de junho de 2010

-Rota dos judeus


Reportagem “Moncorvo, Zona Quente na Terra Fria”, de Fernando Assis Pacheco (texto) e Leonel Brito (fotos), publicada no jornal “República”, em Março de 1974 .

sábado, 19 de junho de 2010

JACOB DE CASTRO SARMENTO III

Árvores genealógicas :são auxiliares preciosos para se perceber o enredo do livro




















sexta-feira, 18 de junho de 2010

-JACOB DE CASTRO SARMENTO II


No auditório do centro cultural de Bragança, no decorrer da feira do livro, realaizou-se no domingo passado, 15 de Junho a apresentação do livro - Jacob de Castro Sarmento. A sessão foi presidida pelo sr. presidente da câmara municipal, engº Jorge Nunes que manifestou muito interesse em que se faça o estudo da importância que os judeus e os marranos tiveram na história da cidade de Bragança e em todo o distrito. Sobre o livro e o trabalho dos autores falou a drª Carla Vieira, da cátedra de estudos sefarditas da universidade de Lisboa.

Seguiu-se a intervenção de Fernanda Guimarães que realçou o papel dos marranos fugidos de Bragança na fundação da sinagoga e da comunidade judaica de Londres. Júlio Andrade referiu-se à urgência que há em desenvolver uma rota dos judeus em Trás-os-Montes. Na assistência destacava-se um grupo de pessoas idas expressamente do Porto e outro grupo de gente de Carção. Ficou a promessa de em breve haver uma edição inglesa do livro, a qual está a ser preparada

Prefácio
“Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou.”
Álvaro de Campos, Opiário
Na dedicatória da sua obra Matéria Médica, physico-historico-mechanica, dirigida a Marco António de Azevedo Coutinho, então secretário de Estado e enviado extraordinário e plenipotenciário à corte britânica, Jacob de Castro Sarmento ousou fazer uma sugestão a tão ilustre figura da corte portuguesa:
“[...] quisera eu humildemente propor a Vossa Excelência e à Real Academia de História que sem sair, a meu ver, da instituição dela, seria um grande brasão da nossa Nação Portuguesa, o deputar alguns dos sapientíssimos académicos para escreverem uma história de todos os sábios lusitanos que floresceram em todos os tempos passados, dando relação de seus escritos, assim dos que escreveram dentro dos domínios próprios, como dos que floresceram e escreveram entre os estranhos. Esta história, não faltando o material para compô-la, prognostica dois grandes benefícios a Nação Portuguesa: o primeiro consiste em que olhando as nações para a nossa história literária e vendo aos nossos ali juntos florescer em casa e fora dela, esse semblante com que agora, por falta desta noticia, nos olham como superiores se mudaria no de veneração para os nossos antepassados que os excederam a eles; o segundo consiste em que vendo nós mesmos na história dos sábios literários lusitanos tantos incentivos para sermos grandes entre as gentes quantos são os gloriosos exemplos de nossos predecessores, deixando o ócio que nos fez perder um pouco de vista à nossa antiga proeminência, nos aplicaremos com mais cuidado que Nação alguma para que a nossa diligência, em imitação da antiga, venha a produzir o material para uma nova historia literária [...]”
A obra foi publicada em 1735. Então, Castro Sarmento contava já com um currículo admirável: tinha escrito uma memória sobre a inoculação da varíola, um tratado dedicado às virtudes de certos tipos de águas minerais, três sermões sobre a celebração do Quipur, uma paráfrase ao Livro de Ester e um elogio fúnebre em memória do rabi David Nieto, da congregação de Londres, cidade onde se encontrava a viver desde os anos 20 do século XVIII. Sobretudo, era membro da Royal Society, tendo sido, assim, um dos primeiros judeus a integrá-la.
Portanto, bem vistas as coisas, Jacob de Castro Sarmento inseria-se já na categoria de que ele próprio fala na dita dedicatória, a dos “sábios lusitanos” que “floresceram e escreveram entre os estranhos”. E ainda estava apenas no início da sua carreira. Afinal, a Materia Medica abre um período de produção científica altamente profícua que apenas cessaria com a sua morte, com cerca de 70 anos de idade. A química, a física newtoniana, a cirurgia, a farmacologia e até a astronomia foram alvo do interesse de Castro Sarmento e áreas nas quais deixou a sua marca indelével.
Porém, séculos passados, este “sábio lusitano” da diáspora tem sido tratado com semelhante incúria a que foram sujeitos os outros “sábios” aos quais fez menção na dedicatória da Materia Medica. Peca por defeito a bibliografia portuguesa dedicada a Jacob de Castro Sarmento. Salvemos algumas excepções, nomeadamente os opúsculos escritos por Augusto Isaac d’Esaguy, ou o mais recente trabalho desenvolvido por José Pedro Sousa Dias relativo à introdução e uso da água de Inglaterra em Portugal. Fora isso, Sarmento surge apenas de uma forma pontual na historiografia nacional. É uma lacuna lamentável não existir uma única tese de mestrado ou doutoramento em Portugal dedicada à vida e obra de uma das figuras mais proeminentes da diáspora sefardita em Inglaterra e da ciência setecentista escrita em português (e se existe, deixo já aqui as minhas desculpas e as minhas esperanças numa maior divulgação de tal trabalho).
Por outro lado, esse olvido não deixa de ser uma infeliz ironia do destino.
Afinal, o percurso de Jacob de Castro Sarmento foi marcado por uma relação quase bipolar com a terra e a gente que o viu nascer. Sai de Portugal sob o encalço da Inquisição, ameaçado pelas prisões efectuadas no seio da sua família e da sua esfera de relações. Em Londres, é acolhido pela comunidade sefardita estabelecida na cidade, não sem gerar desconfianças e acusações que o perseguiriam durante toda a sua vida. Como membro da Royal Society, Castro Sarmento serve de intermediário entre esta instituição e a sua congénere portuguesa, a Academia Real de Lisboa. É frequentemente consultado pela embaixada portuguesa em Londres, quer nas suas funções de médico, quer de cientista. Torna-se, assim, próximo de Marco António de Azevedo Coutinho e do seu sucessor, Sebastião José de Carvalho e Melo. É com Sarmento que o futuro Marquês de Pombal se aconselha a respeito da reforma da Universidade de Coimbra. Também é por seu intermédio que chegam a Portugal as mais recentes inovações técnicas, como o microscópio ou o termómetro Fahrenheit. A sua permanente ligação a Portugal manifesta-se igualmente na sua obra. É o caso da Materia Medica, na qual Sarmento disserta sobre as propriedades das águas das Caldas da Rainha e as riquezas minerais do Brasil. Isto já para não falar no seu trabalho de introdução da água de Inglaterra em Portugal.
Em 1755, ao ter notícia do terramoto que abalara o seu país natal, Castro Sarmento escreveu a Diogo de Mendonça Corte Real, lamentando a calamidade e prontificando a sua ajuda “pois sabe muito bem, que uma grande parte do meu tempo e melhor da minha vida o tenha interessado no bem público e benefício da minha Pátria”. A resposta da pátria é que nem sempre foi a desejada. Sarmento planificou a tradução para português da obra de Francis Bacon. O financiamento não chegou. Sarmento empenhou-se na composição de um dicionário de português-inglês. A sua sorte foi a mesma. Sarmento propôs a criação de um jardim botânico à Universidade de Coimbra e à Academia Real de História. Nenhuma das instituições aceitou a proposta e a oferta de ajuda de Sarmento e de Hans Sloane, então presidente da Royal Society. A história natural não era uma prioridade. Em suma, Sarmento queria introduzir em Portugal a vanguarda da ciência europeia mas a sua pátria não partilhava as mesmas aspirações.
A pátria não valeu a Jacob de Castro Sarmento. E a religião também não. Baptizado como Henrique de Castro, viveu como católico até à sua chegada a Londres. Então, converteu-se ao judaísmo e ingressou na congregação de Londres, sob a protecção de David Nieto. A sua ligação à Bevis Marks começaria a esvanecer-se a partir da morte do rabi. Os laços romper-se-ia definitivamente em 1758, quando se casa com uma mulher cristã e escreve à congregação a comunicar as razões do seu afastamento. Jacob morre como anglicano.
Matt Goldish, autor de um interessante artigo sobre a adesão de Sarmento às teorias newtonianas (“Newtonian, Converso and Deist: the Lives of Jacob (Henrique) de Castro Sarmento”, Science in Context, vol. 10, n.º 4, Inverno 1997), refere que a adesão de Sarmento ao judaísmo não exprimiu um profundo sentimento religioso mas antes a conveniência de se encontrar ligado à comunidade sefardita de Londres e que, após a morte do seu patrono, o rabi Nieto, a sua vivência religiosa passou para um plano secundário. Como refere o autor, Sarmento ganhou então um “novo herói”, Isaac Newton, e a sua permeabilidade ao pensamento newtoniano deveu-se muito ao facto de não possuir uma ligação profunda a nenhuma confissão religiosa.
Afinal, Sarmento viveu toda a sua vida sob a sombra da perseguição religiosa: em Portugal pela Inquisição, em Londres, vítima da desconfiança de alguns membros da congregação. Olhando para trás, vemos como a opressão religiosa passou de geração para geração na sua família.
Apenas compreendemos o homem, compreendendo essa funesta herança. E é sobretudo a este nível que o presente estudo, levado a cabo por Maria Fernanda Guimarães e António Júlio de Andrade com afinco e dedicação, representa um contributo inestimável para o conhecimento não só da vida, como também do passado geracional de Jacob de Castro Sarmento.
Sigamos, assim, a história de uma família que acompanha a história de uma instituição, arquétipo da intolerância religiosa. Encontremo-nos com Francisco Rodrigues, tabelião de Bragança, um baptizado em pé, preso em 1531, nos primórdios do estabelecimento do Tribunal da Inquisição em Portugal, e perscrutemos as vidas dos seus descendentes até aos primos de Jacob de Castro Sarmento que, ao longo da primeira metade do século XVIII, vão povoando os cárceres do Santo Oficio. Mais de dois séculos de medo, de calabouços, de evasão.
É um cenário de cativeiro aquele que Jacob de Castro Sarmento deixa atrás de si quando embarca rumo a Inglaterra. O que encontra ao chegar às margens do Tamisa? Uma resposta a esta pergunta é igualmente delineada no presente estudo, abordando a constituição da comunidade sefardita de Londres e, sobretudo, da sua sinagoga, a Bevis Marks, com particular destaque para os bragantinos que encontraram nesta cidade a liberdade religiosa posta em xeque na sua terra natal.
Uma geração notável de sefarditas de origem portuguesa povoava a cidade de Londres no momento em Sarmento ali chega. Recordemos apenas alguns nomes. Issac de Sequeira Samuda, também médico formado em Coimbra, chega a Inglaterra aquando de Sarmento e foi igualmente membro da Royal Society, assistiu a embaixada portuguesa e recebeu o título de médico extraordinário do Príncipe Regente de Portugal. Benjamim Mendes da Costa, Solomon da Costa Athias e Joseph Salvador integraram o comité destinado ao envio de colonos judeus para a Carolina do Sul. Emanuel Mendes da Costa, originário de uma família com raízes portuguesas, foi bibliotecário da Royal Society, dedicou-se à História Natural, em particular nas áreas da conchologia e do estudo dos fósseis, onde deixou uma obra muito relevante. São apenas alguns nomes de judeus portugueses ou descendentes de famílias portuguesas que se notabilizaram em Londres, muito para lá da comunidade sefardita ali estabelecida.
Com uma tão marcante presença de portugueses na cidade que o acolheu, poderíamos supor que Jacob de Castro Sarmento se tenha sentido em casa em Londres. Mas, e as desconfianças entre os seus congéneres? E as acusações de conluio com o Santo Ofício português (acusação extraordinária, tendo em conta a perseguição inquisitorial de que a sua família foi alvo!)? E as rivalidades dos seus colegas de profissão? A determinado momento, talvez Jacob de Castro Sarmento se tenha sentido tão desamparado pelos seus quanto se sentiu a sua prima Mariana Santiago, obrigada a pedir esmola porta a porta das famílias cristãs-novas de Lisboa, recebendo em troca a denúncia em vez do pão. A sorte de um e de outro foi bem diferente. Os contextos em que viviam também o eram. Porém, a sombra da perseguição sempre acompanhou esta família. A presente obra demonstra-o habilmente.
Carla da Costa Vieira
(Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste»)
Lisboa, 22 de Março de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

-Isabel Lopes a estalajadeira

Não seria por acaso que a primeira grande feira criada em Trás-os-Montes foi a de Torre de Moncorvo, em 1319, pelo rei D. Dinis. Tinha a duração de um mês, começando 15 dias antes da Páscoa e os “feirantes” gozavam de muitas regalias. Significa isso que a terra se afirmava como um grande centro comercial e certamente ganhava importância a sua classe de mercadores. Judeus.
Sinal de que a terra já naquele tempo era muito movimentada e de vocação turística, foi este pedido feito em Cortes pelos procuradores de Moncorvo:
- Outrossim, Senhor, este lugar é muito movimentado e em que aportam muitos estrangeiros e requerem muitos mantimentos, assim de pão como cevada (…) vos pedimos por mercê (…) que lhes dês licença e ligar que o dito concelho possa fazer uma estalagem para pousar qualquer pessoa que vier.
Respondeu o rei D. Afonso V da seguinte forma:
- Praz-nos que o concelho faça quantas estalagens quiser e haja os proveitos. E assim outras quaisquer pessoas que as fazer quiserem e lhes sejam dados privilégios, em forma costumada.
Ignoramos se o concelho construiu a estalagem pedida. Mas sabemos que para um viajante que chegasse a Torre de Moncorvo, pelos anos de 1550, o melhor que havia para “pousar” era a estalagem de Isabel Lopes, uma mulher de origem hebreia.
E a fazer jus à estirpe da estalajadeira, diremos que ela funcionava um pouco como uma central de informações e práticas marranas. E até como um centro de cultura entre a comunidade cristã-nova. Foi ali que ouvimos, pela primeira vez em Trás-os-Montes, falar do massacre dos judeus de Lisboa em 1506, ou do corte de relações entre o rei de Inglaterra e o papa de Roma. Também ali ouvimos palavras estranhas como “tani” e “canarim” e várias histórias com sabor a lendas messiânicas que então povoavam o universo cultural dos cristãos-novos perseguidos pela Inquisição. Mas antes de falarmos destas coisas, vamos apresentar os donos da estalagem.
Isabel Lopes, a estalajadeira, nasceu em Torre de Moncorvo, por 1516. Seus pais foram judeus e tornaram-se cristãos em 1497, por força da lei promulgada pelo rei D. Manuel que apenas autorizava a permanência em Portugal aos judeus que recebessem o baptismo. Para além de Isabel, tiveram mais 2 filhas, ambas casadas numa aldeia do termo de Bragança e 3 filhos, que todos andariam por terras da Índia, sem deles haver notícias desde há anos.
Isabel casou por 1532, com Pêro Lopes e dele teve vários filhos e uma filha – Leonor Lopes – a qual casou com Gabriel Rodrigues, também cristão-novo, originário da Galiza.
Ficou viúva ao fim de 18 anos, voltando a casar, por 1552, com um tal João Rodrigues Trindade. Este veio de Miranda do Douro e era também viúvo. Sua primeira mulher chamou-se Isabel Gonçalves e deu-lhe 2 filhas e 4 filhos. Um deles, nascido por 1535, chamava-se Francisco Rodrigues Trindade.
À época em que fomos hospedar-nos na estalagem de Isabel Lopes, que foi pela Páscoa de 1553, Francisco era estudante em Coimbra e veio passar uma temporada (45 ou 50 dias) com o pai e a madrasta. E as relações entre ele e a madrasta foram de “muita amizade” – segundo ele – ou de “grandes pelejas” – na versão de Isabel.
O certo é que Francisco Trindade rumou depois a Lisboa e ali se fez “criado” de um dr. Monção que era padre, cura da igreja da Madalena. Supomos que este padre era também de origem hebreia e com ligações familiares a Miranda do Douro e a Carvajales, uma terra castelhana das proximidades. Acaso também o Francisco se queria fazer padre e andava aprendendo com o dr. Monção.
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_Por sua própria iniciativa ou aconselhado por seu amo, no dia 3 de Janeiro de 1555, Francisco apresentou-se na Inquisição de Lisboa a denunciar como judeus a sua madrasta – Isabel – e o genro desta – Gabriel – os quais foram mandados prender, dando entrada nas masmorras do mesmo tribunal em 2 de Abril de 1556.
Não vamos seguir os trâmites de seus processos, mas tão só olhar alguns pontos que mos ajudem a compreender o ambiente que se vivia na estalagem e a esperança na vinda do Messias que animava Isabel Lopes e, certamente, os outros marranos de Torre de Moncorvo. Vejamos então uma denúncia feita por Francisco Rodrigues Trindade, contando que, no decurso de uma conversa, Gabriel Rodrigues lhe disse:
- Que tudo o que o Papa fazia era burla, porque tudo fazia por dinheiro, e trouxe por exemplo o do rei de Inglaterra e a rainha Maria, os quais não podendo casar sem dispensa, mandaram ao papa por ela, que lha não quis conceder, sem muita cópia de dinheiro; e depois mandara o dito rei, sem se nomear mais do que o seu próprio nome e o de Maria, e que o papa concedeu logo, por pouco dinheiro, e que então dissera o rei ao povo que tudo era engano, que se não fazia nada em Roma senão por dinheiro.
Estranhar-se-á que em uma ignota estalagem de uma remota localidade trasmontana, um alfaiate produzisse comentários sobre os comportamentos de Henrique VII, rei de Inglaterra que então abandonava a religião católica e fundava a Igreja Anglicana?
Os inquisidores quiseram ter a certeza e por isso convocaram o denunciante para confirmar a denúncia, o que ele fez, “na casa do despacho”, em 6.6.1556, “estando presente o réu Gabriel Rodrigues”. Gabriel negou a acusação e disse que tudo era invenção e fruto do ódio, já que por diversas vezes “ele pelejou e andou às cutiladas” com o pai e o irmão de Francisco Rodrigues Trindade e de uma vez até ficou ferido num dedo e foi metido na prisão de Moncorvo.
Deixemos Gabriel e vejamos agora uma das confidências que Isabel terá feito ao seu enteado e este contou aos inquisidores:
- A dita Isabel sua madrasta disse que Cristo não era filho de Deus, senão que sendo casada Nossa Senhora com José, tinha um ferreiro seu vizinho; e sendo José fora de casa, o dito ferreiro o tinha em espia; e como o viu fora de casa, entrara dentro e tivera com ela acesso carnal. E vindo José de fora de casa, achara feito aquele mau pecado; e que Nossa Senhora lhe dissera então a verdade, como fizera aquele pecado e dormira o ferreiro com ela. E José lhe dissera que não houvesse medo, que ele não havia de a infamar, dizendo a dita madrasta que naquele tempo as mulheres que faziam adultério eram apedrejadas.
Era, sem dúvida a negação da virgindade de Maria e da natureza divina de Jesus, pedra basilar do Cristianismo. Mas vejamos uma outra denúncia feita pelo mesmo:
- Em outro dia, estando ambos sós, a dita sua madrasta lhe disse que a razão por que Jesus Cristo se chamava Rei dos Judeus era porque, vivendo Jesus com um profeta, uma noite o profeta tinha uma bacia grande cheia de água e tinha uma candeia acesa na bacia, ou pegada na bacia, e que o profeta se deitara a dormir e lhe disse que quando a candeia chegasse a certo sinal que o acordasse; e quando o lume da candeia chegou ao sinal, chegara-se Jesus à janela e vira os céus abertos e ouviu uma voz que lhe disse: - Pede o que quiseres. – E que Jesus Cristo dissera: - Senhor, não vos peço mais, senão que me faças rei de toda esta gente. – E sentindo isto, o profeta acordou e se levantou e que dali Jesus Cristo ficara Rei.
Os cristãos-novos portugueses e espanhóis, depois dos decretos de expulsão de ambos os países, sentiam-se como vivendo em cativeiro, o terceiro da sua história, em tudo igual ao do Egipto e ao da babilónia. Mas havia uma fé muito grande em que o fim deste cativeiro estava próximo e que o Messias estava a chegar e viria como um grande Rei, formaria um exército poderoso que derrotaria mouros e cristãos e fundaria o Reino Universal dos Judeus.
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Esta onda de messianismo era sobremodo intensa em terras do interior beirão e trasmontano, com especial incidência em Miranda do Douro e Trancoso. E entre as muitas crenças surgidas, divulgou-se mesmo a ideia de que o Messias era já nascido mas que estava prisioneiro em Roma. Vejam como a história foi colocada na boca da estalajadeira de Moncorvo pelo seu enteado:
- Estando ambos sós, lhe disse ela que estava uma casa em Roma, cerrada e que todos os papas que vinham lhe mandavam lançar uma fechadura e que dentro estava um homem (…) que era o Messias e que tinha um grilhão nos pés; e que estava um menino com uma serra serrando-lho; e que pronto os ferros fossem acabados de serrar, haviam os cristãos-novos de ser livres, e que se haviam de ir para a terra de onde primeiro vieram, que era Jerusalém e que lá haviam de ser grandes Senhores e que haviam de levar de cá por cavalos aos cristãos-velhos.
Claro que Francisco disse tê-la repreendido e que ela não aceitou a repreensão e ainda retorquiu: - Coitado de vós que haveis de ficar cá porque sois canarim - por chamar aos cristãos-velhos canarins.
Francisco também disse aos inquisidores que, quando se foi confessar ao dr. Monção lhe contou a cena “o qual lhe disse que isso era heresia” e devia denunciar Isabel no Santo Ofício. Ressalta ainda do testemunho de Francisco o facto de se apresentar, a ele e ao pai, como cristãos-velhos – o que não correspondia à verdade. Referiu também que a madrasta lhe quisera ensinar a fazer o “tani” (jejum dos judeus) e que falava “outras palavras em hebraico que ele não entendia e ela se espantava de ele não saber hebraico”, pois andava a estudar em Coimbra.
Voltando à casa de Roma e ao Messias agrilhoado, a história seria ainda composta por Isabel Lopes, em outra confidência, assim descrita por Francisco Trindade aos inquisidores:
- A dita sua madrasta lhe disse, estando ambos a sós, que um papa mandara abrir aquela casa onde estava o Messias e que mandara meter dentro um cristão e logo morrera; e que mandara meter um mouro e logo morrera; e que depois mandara meter um judeu para ver o que lá ia e que este vivera; e que o Messias que estava ali assentado lhe disse que entrasse e que lhe deitasse fora aquelas peçonhas, dizendo isto pelo mouro e pelo cristão; e que o judeu falara com o Messias e depois lhe disse que saísse para fora e tornasse a fechar as portas como estavam; e que o judeu dissera cá fora que faltava pouco para o menino acabar de serrar os ferros, dizendo ainda ela (a madrasta) que esperava de ver isto em seus dias e que assim contava.
Mais uma vez Francisco disse que não acreditava e que a madrasta lhe respondera “que ele era o maior canarim de todos e que o inferno estava cheio de parvos”, retorquindo ele: - Com os parvos eu quero ir.
Naturalmente que tudo isto foi negado por Isabel que, em sua defesa, invocou o testemunho de muita gente da Torre de Moncorvo, gente importante e cristã-velha. E contou muitas cenas de pancada que levou do marido, sempre por causa dos filhos deste e “que ela os botou pela porta fora muitas vezes e lhos não quis consentir em casa; e um dia teve tantas brigas sobre botar fora o dito licenciado seu enteado, que este Francisco Rodrigues deu uma grande bofetada nela e a ré tomou uma espada para o matar e remeteu a ele e o matava se ele não fugira pela porta fora; e ele licenciado fugiu e nunca mais tornou a casa e ficou inimigo capital dela (…) pelo que lhe não deve dar crédito ao tal licenciado Francisco Rodrigues”.
Em quem haviam de acreditar os inquisidores? Deviam mantê-la presa, submetê-la a tormento, obrigá-la a confessar-se culpada e a denunciar mais pessoas e pedir perdão de suas culpas? Nesta época os processos do Santo ofício não seriam ainda tão refinados e os instrumentos tão oleados como depois viria a acontecer. E Isabel Lopes foi libertada, depois de abjurar “de vehementi”, por suspeita de heresia.
FONTES – IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 3123, de Isabel Lopes e 16035, de Gabriel Rodrigues.
António Júlio Andrade