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| Trancoso -Leão de Judá |
No dia 31 de Maio de 1662, na
vila de Trancoso, o comissário local da Inquisição, Francisco Soares de
Albergaria procedeu à prisão de João Mendes da Costa e sua mulher Maria Soares.
Tratava-se de uma poderosa
família de cristãos-novos, que tinha o assento da Beira, ou seja a
responsabilidade pelo abastecimento de géneros às tropas estacionadas naquela
região do País.
E era também uma família ligada a
importantes dignitários do regime, assistentes em Madrid e com entrada na Corte
do rei Filipe. Referimo-nos ao dr. Miguel da Silveira, poeta famoso e professor
de príncipes e jovens da nobreza que faleceu em Nápoles, terra para onde foi,
na comitiva do duque de Medina, quando a Inquisição ali começou a prender uma
série de cristãos-novos portugueses que com eles frequentavam os mesmos
corredores do poder. E ao seu irmão, dr. Francisco da Silveira, médico de muita
aceitação nos mesmos círculos, o qual, quando a roda da fortuna virou, se meteu
em fuga para a França, fixando-se em Bordéus. Eram ambos tios maternos de Maria
Soares.
Por esta parte materna, Maria
Soares descendia de António Henriques Bueno da Mesquita, natural e morador em
Torre de Moncorvo, cuja mulher, Filipa Rodrigues, foi mandada prender pela Inquisição
de Coimbra em 1592.
E já antes dela outros familiares
tinham conhecido as cadeias da Inquisição. E depois dela também. E a odisseia
desta família seguiria também pelos cárceres da Inquisição de Castela. Foi o
caso de um neto de Filipa, tio-avô de Maria Soares, o dr. Filipe de Nagera,
médico de profissão que foi preso em Toledo em 1608 e saiu no auto-de-fé de 7
de Fevereiro de 1710, condenado a 5 anos de galés.
À data da prisão de Maria Soares,
o seu pai (Fernão da Silveira) era já falecido e a sua mãe (Branca Henriques)
estava já emigrada em Bordéus. Tinha fugido com o filho Rafael da Silveira, que
naquela cidade francesa se tornaria famoso e depois terá embarcado para a
Jamaica, com descendência ainda hoje em dia bem identificada.
De referir que Maria Soares
(como, aliás, as suas duas irmãs) foram presas na sequência das denúncias
feitas por seu irmão António Gomes da Silveira, encarcerado ano e meio antes.
Não sabemos a idade certa da
prisioneira. Andaria pelos 30 anos. Mas era já mãe de 8 filhos (6 rapazes e 2
raparigas), o mais velho dos quais tinha uns 12 anos e a mais nova 10 meses.
Imagina-se todo o drama daquela
mãe que muito justamente recearia não voltar a vê-los. Mas a sua coragem e
força interior era bem maior, como em seguida se verá. Por agora diga-se que o
calvário de Maria Soares nas masmorras de Coimbra se prolongou por mais de 2
anos, saindo condenada em confisco de bens, cárcere e hábito, no auto-de-fé de
26 de Outubro de 1664. Naturalmente confessou suas culpas, que não valia a pena
negar. E confessou que foi educada na religião judaica, desde pequena, por seus
pais. E que também ela tinha já começado a educar nessa mesma lei o seu filho
mais velho, Luís Henriques, de 12 anos de idade. De resto, o seu processo é um
autêntico inventário dos cristãos-novos de Trancoso, pois são dezenas e dezenas
as pessoas com quem ela disse ter judaizado.
Apesar dessa atitude, em tudo
colaborante com os inquisidores, Maria Soares foi submetida a tormento. Acaso
para “purgar” os seus pecados.
E agora, se bem que não
conheçamos todos os pormenores que rodearam a cena, vamos relatar um pouco do
acto da prisão e “leva” para Coimbra de Maria Soares e seu marido, o assentista
João Mendes da Costa, também ele de uma família cristã-nova bem poderosa na
região de Trancoso.
Terá sido ao domingo, em plena
missa, como geralmente acontecia, para maior triunfo da Inquisição e exemplo
mais claro para os fiéis cristãos, que a prisão se efectuou.
O comissário local do Santo Ofício
que dirigia as operações, logo lhe mandaria meter grilhões nos pés e sequestrar
os bens. E exigiu que lhe dessem para a mão 40 mil réis, em dinheiro vivo, que
era para se pagarem os ferros e as cordas com que os prendiam, os animais que
se haviam de alugar para o transporte de pessoas e bens até Coimbra, a
alimentação e hospedagem pelo caminho e os jornais aos homens que os prendiam e
levavam presos até à cadeia.
Se não tinham dinheiro…
vendiam-se em hasta pública os bens dos prisioneiros até perfazer aquela
quantia.
Para comandar a “leva dos presos”
o comissário encarregou o padre Caldeira, da ordem de S. Pedro, já muito
experimentado nestas andanças e precioso colaborador da Inquisição.
Como a leva era reduzida (para
além de Maria Soares e do marido, ia apenas outra rapariga, Clara de Almeida, sua
parente), o padre Caldeira requisitou apenas dois guardas da correição de
Trancoso e um almocreve (Francisco Pires) seu amigo e igualmente bem
experimentado e conhecedor dos caminhos e dos métodos utilizados na condução de
tal “gado”.
E como os presos, para além da
roupa que precisavam para vestir, tinham de levar a cama e a roupa necessária
para dormir, a panela, o prato, copo, faca, garfo… para comer e confeccionar as
refeições… alugou-se um jumento para carregar a trouxa de Maria Soares.
E para que a viagem se fizesse
com mais ligeireza, alugou-se também uma mula para a transportar a ela. Assim,
ela foi colocada sobre o dorso do animal, com as mãos amarradas com uma corda
que lhe passavam também em volta do corpo atada na albarda do animal. A rédea
da besta segurava-a o almocreve que, por sua vez, ia montado no seu poderoso
macho.
Pelo caminho havia o cuidado de
não deixar que os presos comunicassem entre si. E se comunicavam, havia de se
tomar cuidado em todas as palavras e gestos que trocavam e delas prestar
completa informação aos inquisidores, no acto da entrega.
De concreto, notou o almocreve
que, em uma volta do caminho, a viu fazer gestos para o marido e dizer-lhe que
tivesse coragem, que tudo havia de passar, que seriam apenas dois ou três anos
de cadeia que tinha de suportar, que cuidasse de si, que não se importasse dela
e que não tivesse cuidado com os filhos. E porque ele fosse o homem responsável
pelo fornecimento de géneros às tropas, ela o tratava por capitão e dizia:
- Força capitão…
Por sua vez, o marido dizia-lhe:
- Está feito. Se eu faltar (…) os meus filhos que vão à geração de
Filipe Lopes e a nenhuma outra.
Queria com isto dizer que, no
caso de ele morrer, a tutela de seus 8 filhos (todos menores de 12 anos)
deveria ser entregue a seu irmão Filipe. Para além disso, o marido recriminava
Maria, culpando seus familiares pela sua prisão, dizendo:
- Boa obra nos fez a vossa gente!...
E ela voltava, dizendo-lhe que
tivesse paciência, que se lembrasse dos filhos, que tudo se havia de resolver,
que eram apenas 2 ou 3 anos.
Pelo caminho havia estalagens que
já eram conhecidas e recomendadas para pernoitarem os presos do Santo Ofício.
Algumas tinham mesmo “apartamentos” especialmente preparados para o efeito, sem
janelas e com as portas especialmente reforçadas.
Uma dessas estalagens era em
Mortágua, à saída da vila. Nela pernoitaram a Maria Soares e o marido. E embora
em apartamentos distintos, eles conseguiram chegar à fala. E o padre Caldeira
tomou nota e contou depois aos inquisidores que Maria Soares dizia:
- Que tivesse ânimo nesta ocasião, pois tudo se resolveria em dois ou
três anos. Como bom capitão de guerra…
Muito corajosa esta mulher!
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Bibliografia e Fontes:
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº
493, de Filipa Rodrigues
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº
7825, de António Gomes Silveira
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº
4952, de Maria Soares
JULIO CARO BAROJA, Los judíos en la España Moderna y Contemporánea,
ediciones Arion, Madrid, 1961, tomo I, p. 392 e tomo II p. 197 - 206