
Luís de Carvajal, o Moço. Um sobrinho de D. Luís de Carvajal y la
Cueva, filho de sua irmã Francisca Nunes de Carvajal e de seu marido Francisco
Rodrigues de Matos, recebeu o nome do tio. Por isso ficou conhecido por Luís de
Carvajal, o Moço, enquanto aquele é apelidado de o Conquistador. Tal como a
mãe, já viúva, e todos os seus irmãos e irmãs, embarcou com o tio na aventura
colonizadora em terras mexicanas. E com o tio, a mãe e os irmãos foi preso pela
Inquisição e saiu condenado em penas espirituais no auto de fé realizado na
cidade do México em 25 de Fevereiro de 1590. Mas isso não o fez mais cristão,
antes pelo contrário. Espírito brilhante e profundamente religioso, era tido
como um farol da fé, irradiando a luz da sabedoria, razão por que foi apelidado
de Lumbroso. Luís apresentava-se publicamente como judeu e criticava os seus
familiares e amigos por terem um comportamento exterior católico e esconderem
as suas convicções judaicas. E sempre procurava catequizá-los na lei de Moisés.
Foi novamente preso e morreu afirmando o seu judaísmo no auto de fé celebrado
em 8 de Dezembro de 1596. Por isso mesmo é considerado um dos mártires do
judaísmo. O padre Contreras que o acompanhou até ao último momento, daria dele
o seguinte e eloquente testemunho:
- Foi sempre tão bom judeu, conciliou o seu conhecimento, que era muito
profundo e de grande sensibilidade, com a sua fé, o que fez dele um grande
lutador e intransigente defensor da sua fé. Não tenho dúvidas de que, se
tivesse vivido antes da encarnação de Cristo Redentor, ele teria sido um herói
e o seu nome teria ficado célebre na Bíblia, como o nome daqueles que morreram
em defesa da fé.
Na vila de Mogadouro, de onde era
originário, que bem ficaria uma simples placa em sua recordação, nela se
escrevendo o seguinte poema de Shumamith Chavaheveley:
El Lumbroso.
Naquela noite estava tão radiante,
Que mal se podia ver pela luz que emitia.
Agora na incandescente aurora,
Estou exposto diante do teu olhar
Sem esperança.
A fogueira está alta bastante,
Para que possa ver o meu anjo chorar.
Padre Contreras frágil e vulnerável
Murmura: - Porquê?
Ouçam as chamas crepitar,
Escutem os seus lamentos.
A minha carne arde no fogo.
Juntos testemunhamos
A sua transformação em cinzas.
Juntos vemo-las voar,
Tu e eu, como dançamos,
Cada vez mais perto as chamas,
Para a minha carne
Para a minha morte.
A sua velha alma sabe
Que eu não podia morrer.
Mas o espírito é jovem,
Ainda não pode ler os sinais do céu.
Preso ao meu rasto,
Protegido por mim,
Ficaste em oração
Para que a luz em que me tornei
Te ilumine.
O meu coração eleva-se,
Transportado nos seus sonhos.
Quatrocentos anos no abismo
Não podem apagar a marca.
As nossas memórias chamam,
Posso ainda abraçar,
Posso ainda entrar em ti,
Respirar a minha eternidade
Em tua alma pura.
António Júlio Andrade