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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 36

" De Villa Real que he junto desta comarqua ..."

Rodrigo Álvares. Não restam dúvidas de que judeus e sefarditas foram pioneiros nas artes tipográficas, não apenas em Portugal mas na Europa. E os irmãos Tartas, de Bragança, ocupam um lugar de relevo na galeria dos tipógrafos e livreiros da Europa. Em Portugal um dos primeiros tipógrafos chamou-se Rodrigo Álvares. Era um homem da nação hebreia, trasmontano, natural e morador em Vila Real. Na última década do século de Quatrocentos transferiu-se para o Porto e ali instalou uma das primeiras tipografias que houve em Portugal. A fazer fé no dr. João de Barros, seria até a primeira que existiu entre nós. Com efeito, aquele autor, no seu “Livro das Antiguidades e Cousas Notáveis de Entre Douro e Minho”, publicado em 1540, escreveu o seguinte:
- De Villa Real que he junto desta comarqua foi natural hum Rodrigo Alvares que depois viveo no Porto, e foi o primeiro que a este Reyno trouxe a Impressão, em tempo que valia hum breviário seis e sete mil reis e este os imprimio a dois cruzados.
De onde trouxe ele a sua tipografia é coisa que não sabemos, mas terá sido de Salamanca, pois à sua morte veio para ela a trabalhar um tal Juan Porres, de Salamanca. Da tipografia deste marrano trasmontano, chegaram até nós duas obras impressas:
- Constituições que fez ho Senhor don Diogo de Sousa bispo do Porto – editadas em 24 de Agosto de 1496, conforme o registo final: - Impressum in porto civitate. Rodericum Alvares artes impressorie magistrum.
- Evangelhos e Epistolas com suas exposições em romance. Também ao final se diz: - E foy a suso dicta obra emprimida e traladada em linguagem português em há mui nobre e sempre leal cidade do Porto por Rodrigalvares. Anno do Senhor Mil CCCCLXXXXII, xxv dias do mês de Outubro. E estas notas são interessantes porque foram as primeiras que nos ficaram mostrando “um mestre das artes impressoras” escrevendo o seu nome na própria obra.
António Júlio Andrade

Nota. Sobre o assunto pode ver um trabalho publicado no nº 233, de 2001-05-01, do jornal Terra Quente, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Cristãos-novos trasmontanos Pioneiros nas Artes Tipográficas.

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 35


 Freixo de Espada à Cinta
João de Castilho. Foi um dos mais celebrados arquitectos portugueses. O seu nome está ligado a várias das mais grandiosas e emblemáticas obras de arquitectura nacionais, como sejam: o mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, o convento de Cristo em Tomar, a sé de Viseu, a fortaleza de Marzagão em África… Menos conhecida é a sua ligação à gente da estirpe hebreia e a Trás-os-Montes. A terra de seu nascimento, porém, foi Santander, em Espanha, por 1490. Dois anos depois, foi promulgada a lei de expulsão dos judeus de Espanha e os seus pais tê-lo-ão trazido para Portugal e mais concretamente para a vila de Freixo de Espada à Cinta. Nesta terra viria a casar, com Maria Fernandes Quintanilha, filha de um outro fugido da inquisição espanhola chamado Garcia Fernandes que, por sua vez, tinha casado na família Varejão, porventura uma das mais ricas e poderosas do burgo. E estes Quintanilha – Varejão aparecem-nos ligados à fundação da Misericórdia de Freixo. E não seria por acaso que um grande “milagre” aconteceu exactamente na igreja da Misericórdia onde os pés de uma estátua de Cristo Crucificado entraram repentinamente a largar gotas de suor, em tempo de verão e de uma prolongada seca, logo se seguindo uma enorme chuvada, que encheu de alegria os lavradores. E de gratidão aos céus. E também na mesma igreja se conserva ainda hoje o retrato de António Francisco Varejão que, por esses tempos, foi missionário em terras do Oriente e o povo de Freixo elevou a “santo”.
Temos, pois, o arquitecto João de Castilho casado em Freixo de Espada à Cinta, na família dos Quintanilha – Varejão que certamente esteve na vanguarda do movimento para a construção da belíssima igreja da Misericórdia. E também da extraordinária igreja matriz, que tem a dignidade de uma sé episcopal e que os estudiosos da arte apelidam como os “Jerónimos de Trás-os-Montes”. E também as famílias promoveram a construção de belas casas, umas mais solarengas que outras, mas todas casando-se em harmoniosos arruamentos, em típico estilo manuelino, o estilo em que João de Castilho foi o expoente maior. E a minúscula e pobre terra adoptiva deste grande mestre de arquitectura, situada no mais recôndito dos lugares do reino, para além da fronteira duriense e para trás dos montes, tornou-se na mais emblemática das terras Manuelinas de Portugal. E torna-se hoje imperioso dar a conhecer e rentabilizar este património, fazer de Freixo de Espada á Cinta um ponto de partida (ou de chegada) para uma Rota do Manuelino. E torna-se igualmente imperioso fazer de Freixo de Espada à Cinta um ponto obrigatório de passagem numa Rota de Judeus e Marranos, promovendo-se o estudo da simbologia judaica que ornamenta portas, janelas e muros de casas, bem como a leitura e estudo dos processos que a inquisição moveu contra os Marranos de Freixo de Espada à Cinta. Estas duas Rotas de Turismo Cultural serão essenciais para o desenvolvimento da terra.
António Júlio Andrade
Nota – Sobre este assunto pode ver um conjunto de 4 textos publicados no jornal Terra Quente (nº 227, de 2001-03-01 e seguintes) de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Os Judeus e a Renascença Manuelina em Freixo de espada à Cinta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 34



Tomás da Fonseca. Terá nascido em Freixo de Espada à Cinta, cerca de 1521. Ainda pequeno seria levado para as Índias Ocidentais por seu pai, que foi um dos primeiros descobridores de minas na América espanhola. No México viveu Tomás cerca de 50 anos, sendo mineiro do ouro em Tlalpujahaua. Nunca casaria mas foi pai de 5 filhos naturais. Em 1596 foi preso pela inquisição do México, acusado de práticas de judaísmo. Saiu no célebre auto de fé celebrado em 25 de Março de 1601, condenado em cárcere e hábito perpétuo, 100 açoites pelas ruas da cidade e confisco de bens. Tinha 80 anos de idade.
No mesmo auto foi queimada a estátua de um outro sefardita natural de Freixo de Espada à Cinta, primo de Tomás da Fonseca, o qual havia morrido na cadeia, chamado Pelayo Álvares.
Conhecemos também um pouco da história de uma irmã deste, nascida e baptizada em Freixo de Espada à Cinta com o nome de Branca Rodrigues. Certamente com medo da inquisição portuguesa, fugiu para Ferrara, em Itália, ali tomando o nome judeu de Isaque Rodriga. Mudou-se depois para a cidade de Sevilha, em Espanha, onde passou a chamar-se Branca Lourenço. Naquela cidade portuária abriu uma pensão. E esta passou a ser a pensão de referência para os sefarditas Trasmontanos que demandavam Sevilha para se embarcar para terras de Marrocos e das Índias de Castela. Muitas vezes hospedava os migrantes de graça e até lhes arranjava merenda para a viagem. Temos conhecimento de dois que ali foram hóspedes gratuitos durante 3 meses. Bem merece esta valorosa mulher ser recordada com uma lápide em uma rua de Freixo de Espada à Cinta.
António Júlio Andrade


 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 33


Feliciano de Valência. Nasceu em Bragança, por 1561, sendo filho de Oliveira Nunes e Guiomar da Costa, originários de Benavente, Espanha. Concluídos os estudos preparatórios em Bragança, no Colégio da Companhia, transitou para a universidade de Salamanca, onde estudou Cânones e Leis, entre 1581 e 1584. Jurista, ligou-se a homens de negócio de Madrid e Sevilha, nomeadamente a Pedro Gomes Reinel e João Rodrigues Coutinho que tiveram o assento dos negros de África entre 1593 e 1603. E terá sido exactamente o negócio de escravos africanos que o levou para as Índias Ocidentais. Com efeito, ali o encontramos em 1593, a negociar no Peru e de passagem por Acapulco onde terá conhecido António Dias de Cáceres. No ano seguinte, porém, estava já em Espanha, na cidade de Cartagena, com um barco carregado de mercadorias a zarpar para o México, levando como feitor um Manuel Gil, da Guarda. No México entraria em contacto com a família de António Cárceres e muito em especial com Luís de Carvalhal, o Moço. E como ele se afirmava judeu ortodoxo. Porém, considerava que, embora só uma das 3 religiões monoteístas fosse verdadeira, as outras duas deviam ser respeitadas, pois se deviam a Deus. E contava que o rei D. João III tinha um grande amigo, cristão-novo, muito rico, que dispunha de 200 mil cruzados. E dizendo-lhe o rei que até simpatizava com a lei de Moisés mas que o melhor seria converter-se ele à lei de Cristo, que era a verdadeira, o outro lhe respondeu com esta parábola: um homem rico tinha 3 filhos e tinha só uma pedra preciosa para lhes dar. E para os contentar a todos, mandou fazer outras duas pedras falsas, que não se distinguiam da verdadeira. Juntou as três e disse aos filhos que tirassem cada um a sua, rogando a Deus que desse a verdadeira a quem fosse servido, pois só Ele sabia qual era. O mesmo se passa com as 3 religiões monoteístas, que nasceram por graça e inspiração divina. Esta parábola foi contada no tribunal da inquisição do México em Novembro de 1598 e a partir de então nada mais sabemos sobre este Trasmontano, Sefardita e Marrano que foi casado com Maria Fonseca.
António Júlio Andrade

sábado, 5 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 32


Foto de autor desconhecido

Jacob de Castro Sarmento. Nasceu em Bragança em 1691 e ali foi baptizado com o nome de Henrique de Castro Almeida. Andava pelos 6-7 anos quando os pais o levaram para o Alentejo, fixando residência em Mértola, depois de uma breve passagem pelo Alvito. Entrou para a universidade de Évora a estudar Artes, ao mesmo tempo que seu pai era levado para as masmorras da inquisição da mesma cidade, acusado de judaizar. Licenciado em Artes, transitou para a universidade de Coimbra onde concluiu o curso de Medicina, em 1717. Foi exercer a profissão para o Algarve e Alentejo, nomeadamente na cidade de Beja. Em 1720 a inquisição lançou ali uma vaga enorme de prisões e o dr. Henrique mudou-se para Lisboa. Casou logo de seguida com sua prima Isabel Inácia e no ano seguinte embarcaram Inglaterra, em fuga da inquisição. Efectivamente o seu nome constava de uma lista de 92 cristãos novos (advogados, médicos, grandes mercadores…) da região de Beja denunciados como judaizantes pelo seu colega, também médico, originário de Bragança, o famigerado dr. Francisco de Sá da Mesquita. Em Londres foi bem acolhido na comunidade judaica, nomeadamente pelo rabi David Neto. E logo se fez circuncidar, aderindo abertamente ao judaísmo. Mudou então o nome de Henrique para Jacob e o sobrenome Almeida para Sarmento. Teve iguais artes de se introduzir nas altas esferas da sociedade inglesa, através de Lady Montagu que acabara de chegar da Turquia onde seu marido cumprira a missão de embaixador. Davam-se então os primeiros passos na descoberta da vacina contra a varíola, processo que aquela dama seguia com interesse, pois que uma filha sua contraíra aquela doença e acabou por ser a primeira pessoa no mundo ocidental a experimentar o novo método da inoculação. Com todo o interesse o dr. Sarmento se meteu no estudo e investigação da vacina e logo naquele ano de 1721 publicou um trabalho sobre a matéria. Era o início de uma brilhante carreira que lhe dava o cargo de médico da “hebrá”, em substituição do dr. David Chaves e lhe abria as portas do aristocrático Royal College of Physicians, onde nenhum judeu fora até então admitido. Meteu-se entretanto a estudar e aperfeiçoar um novo remédio contra as febres, à base da quina, produto farmacêutico cuja patente registou com o nome de Água da Inglaterra, que ao longo da décadas lhe deu largos proventos financeiros e prestígio universal, pois que era largamente consumido na Inglaterra e exportado para outros países europeus. Em 1736 matriculou-se no famoso Marischal College of Aberdeen e ali alcançou o doutoramento, sendo o primeiro judeu a ser doutorado por uma universidade britânica. Fervoroso adepto das doutrinas de Newton e do experimentalismo de Francis Bacon, Jacob de Castro planificou a tradução e publicação das suas obras na língua portuguesa, o que não chegou a concretizar. Em 1746 faleceu sua mulher e depois de alguns anos de viuvez, casou de novo, com uma senhora inglesa, Mrs Elisabeth. Nessa altura abandonou o judaísmo e converteu-se à religião anglicana. Em boa verdade, há muito tempo que ele se vinha distanciando da lei de Moisés e o caso deste grande médico será bem um exemplo de como o diálogo entre a fé e a ciência não é fácil. Henrique Almeida foi um trasmontano que nasceu cristão-novo, que na diáspora se fez judeu-novo, com o nome de Jacob Sarmento e que acabou membro da igreja anglicana, certamente porque o ateísmo ainda não era tolerado em nenhuma sociedade da Europa e o deísmo era condenado por todas as religiões instituídas. Faleceu em 29 de Setembro de 1762, deixando uma vasta obra publicada. Destacamos alguns de seus livros:
- Dissertationes in novam, ac utilem methodum inoculationis, seu transplantationis variolarum.
- Materia medica physico-historico-mechanica, reino mineral…
- Do uso e abuso das minhas Águas de Inglaterra…
- Dissertation sur l´origine de la Maladie Vénérienne…
- Proposições para imprimir Obras Filosóphicas de Francisco Baconio…
- Teoria verdadeira das marés, conforme a filosofia do incomparável cavalheiro Isaac Newton.
- Sidero-hidrologia: ou discurso prático das Águas Medicinais Minerais Espadanas ou Chalybeadas…
António Júlio Andrade
Nota: Mais informações ver o livro - Jacob de Castro Sarmento – de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, editado por Nova Veja Lda em 2010.

 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 31

Chaves -  início do século XX
Francisco Rodrigues. Nasceria judeu e seria ainda criança quando, na Páscoa de 1497, foi levado à igreja de Chaves para ser baptizado e receber um nome cristão. Tal como os seus pais que passaram a chamar-se Garcia Gonçalves e Aldonça Gonçalves, ignorando-se os nomes judeus que todos tinham antes. Pouco depois a família deixou a vila de Chaves e fixou residência na cidade de Bragança, terra onde, por 1518, Francisco Rodrigues se casou com Isabel Lopes, que lhe deu 5 filhos e 4 filhas, a mais nova das quais parece ter nascido no dia em que Francisco foi preso, em nome da inquisição. Conseguiu fugir da cadeia de Bragança e internar-se em Espanha mas foi parar ás malhas da inquisição de Valladolid, que o remeteu que o remeteu preso a Portugal, correndo o seu processo perante o bispo do Porto D. frei Baltasar limpo, pois que o tribunal de Coimbra ainda não tinha entrado em funcionamento. Estranhamente, contra a fama justiceira daquele bispo e apesar das graves acusações que sobre ele pendiam, Francisco Rodrigues saiu condenado em penas ligeiras, abjurando em sala, sem comparecer em qualquer auto de fé. No entanto, ele seria um dos líderes da nação hebreia de Trás-os-Montes. E tinha-se destacado na luta contra a inquisição, pois foi na região de Bragança o escrivão e recebedor dos dinheiros da finta lançada entre eles para financiar a embaixada que tinham em Roma, negociando para que o papa não assinasse a bula de criação do santo ofício. Do ponto de vista da sua profissão, Francisco Rodrigues foi escrivão da câmara de Bragança, tabelião do ouvidor e do vigário do arcebispo de Braga e procurador no juízo da comarca. Eram funções de grande relevo e muito proveito, que exigiam um esmerada educação e instrução literária e em leis. Ignoramos onde foi adquirida, se terá frequentado alguma universidade (Salamanca, como o filho?), sabendo apenas que terá “estagiado” na Galiza, na casa fidalga de D. Fernão de Andrade. Dos filhos de Francisco Rodrigues, destacamos dois: Santiago Rodrigues, que casou e viveu em Bragança, em cuja descendência nasceria o célebre médico e cientista Jacob de Castro Sarmento. Outro foi o advogado Duarte Chaves que foi casar e viver em Miranda do Douro e acabou queimado nas fogueiras da inquisição de Lisboa, acesas no auto de fé de 24.10.1559.
António Júlio Andrade
Nota: Mais informações ver o livro - Jacob de Castro Sarmento – de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, editado por Nova Veja Lda em 2010.
 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 30

MURÇA. Foto wikipédia
André Lopes da Silva. Nasceu na vila de Murça, cerca do ano de 1660, sendo filho de Diogo Garcia e Catarina Lopes. Casou em Bragança, com Beatriz Henriques, filha de António Mendes Furtado e Isabel Henriques. Nesta cidade estabeleceram sua residência e geraram uns 12 filhos. André foi preso pela inquisição de Lisboa em Junho de 1725, saindo penitenciado em cárcere e hábito no auto da fé de 25.6.1728. Era, certamente um dos homens mais ricos de Bragança e, não obstante ser homem da nação hebreia, passeava-se pela cidade montado em luxuosa sege. E era em sua casa da cidade, sita na praça do Colégio da Companhia, comprada ao fisco por 640 mil réis, que se hospedavam visitas da maior nobreza como eram os marqueses de Távora. De resto ele morava ordinariamente em uma formosa quinta dos arredores da cidade, chamada Quinta de Palhares, na qual construíra ele uma capela da invocação de S. Miguel onde, aos domingos e dias santos, um capelão particularmente contratado, celebrava missa para ele e para a sua família. A capela era cabeça de um morgadio por ele instituído, a que a mesma quinta estava vinculada. Para se avaliar do valor da citada quinta, refira-se que, em média, a sua produção anual de vinho eram umas 14 pipas e o pão se media em mil e tantos alqueires, de 13.8 litros o alqueire, nela se alimentando ainda um rebanho de 200 cabeças. Outras propriedades agrícolas tinha ainda fora da quinta, e no lugar de Ferreira, termo de Bragança, na chamada Quinta das Comunhas, construiu, em parceria com seu irmão, uma destilaria de aguardente, a qual valia uns 500 mil réis. Podemos assim afirmar que André Lopes da Silva era um grande empresário agrícola e agro-industrial. Mas era também assentista, trazendo contratado o assento das tropas de Trás-os-Montes, ou seja o fornecimento de comida e pagamento de soldos aos militares, bem como a aveia, cevada e palha para os cavalos. E trazia também arrendadas as cobranças de rendas de comendas na casa dos Távora e do almoxarifado da casa de Bragança. Naturalmente que nestas relações comerciais havia muitas dívidas, activas e passivas. E ressalta igualmente a actividade prestamista que também desenvolvia, aparecendo-nos na relação de bens efectuada à data da sua prisão uma bandeja e um cordão de ouro pertencente ao alcaide Lázaro de Figueiredo Sarmento que os deixara em garantia de 80 moedas de ouro que André Silva lhe emprestara na ocasião de seu casamento. Na carreira profissional de André Lopes da Silva consta ainda a passagem pela alfândega da comarca de Bragança onde durante mais de 10 anos foi feitor e recebedor, competindo-lhe também a fiscalização de mercados e feiras sobre produtos que não tinham pago os respectivos impostos, falando-se concretamente de intervenções sobre mercadores em feiras de Santa Maria do Azinhoso (Mogadouro) ou de S. João de frieira (Terra de Lampaças). E ainda o cargo de Ajudante-Mor da comarca, competindo-lhe, nomeadamente a tarefa de recrutamento de soldados.
António Júlio Andrade

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 28


Terreiro do Paço
Gaspar Lopes Pereira, aliás, Gaspar Dias de Aguilar. Nasceu em Mogadouro por 1642. Era filho de Francisco Lopes Pereira e de Maria Dias, aliás, Maria del Angel. Aos 10 anos foi levado pelos pais para Castela, residindo em Madrid por algum tempo e dali passando a Granada onde fixaram residência definitiva. Não sabemos que estudos terá feito Gaspar mas ele aparece com um homem muito culto e inteligente e que inspirava confiança. Terá sido mesmo uma espécie de preceptor dos filhos de António Mogadouro, cuja casa, em Lisboa, frequentava. Isto porque ele se diz mercador, mas não mercador de loja, antes um homem de negócios, em constantes deslocações e viajando não apenas para Lisboa mas também para as bandas de Itália e França. Por isso mesmo, depois que o padre António Vieira saiu penitenciado da inquisição de Coimbra e se dirigiu para Roma onde, juntamente com outros vultos da ordem dos Jesuítas e mercadores marranos de Lisboa, na década de 1670, se lançaram numa verdadeira batalha diplomática para obter do papa de Roma um perdão para os cristãos-novos presos e a alteração dos estatutos da inquisição, Gaspar Lopes Pereira foi escolhido para servir de correio entre Lisboa e Porto. E costumando fazer esta viagem em 20 dias, daquela vez gastou 43 dias, chegando a Roma com as cartas de Lisboa em 10.10 de 1673. Tinha expirado o prazo que a Santa Sé havia concedido e assim se haviam gorado as negociações. Foi recebido com raiva e insultos pelo chefe da embaixada dos marranos em Roma, o padre jesuíta Francisco de Azevedo, que o acusava de ter atraiçoado os seus amigos, familiares e toda a gente da nação. Desculpou-se Gaspar dizendo que adoecera no caminho, mas não aceitou que o padre Azevedo remetesse contra ele e ambos se engalfinharam em luta. Regressou a Portugal onde o esperava, naturalmente, um ambiente de desconfiança por parte dos seus irmãos de raça. Para além disso, as inquisições de Castela e Portugal andariam há muito tempo a seguir o seu rasto, pois também elas tinham espiões por terras de França e de Itália. Efectivamente em 16.3.1675, em Lisboa foi recebida uma carta da inquisição de Valladolid dizendo que fora buscado em Espanha para ser preso, mas não foi encontrado e solicitando que o fizessem prender em Lisboa, por constar que ali residia. Juntamente enviavam 14 folhas cheias de acusações de judaísmo. Foi preso em  8 de Abril de 1675. Metido na cadeia, confessou que efectivamente fora levado para o judaísmo por um tio seu, Diogo Henriques do Vale e que fizera práticas judaicas. Acrescentou que estava arrependido e que já há bastante tempo abandonara a lei de Moisés. Por mesmo os da sua nação eram todos seus inimigos e as acusações que lhe faziam era ditadas por ódio e não por espírito de justiça cristã. Terá chegado à conclusão de que esta táctica de defesa não adiantava e, por isso, mudou de atitude. Passou a afirmar-se judeu e a dizer que na verdade só havia salvação na lei que Deus deu a Moisés”e que isso defenderá até onde o seu entendimento alcançar”. Teve debates teológicos com os inquisidores e qualificadores do santo ofício e quando estes lhe colocavam alguma questão bíblica mais complicada, ele respondia: - “Se na igreja católica há doutores e bispos e outros mestres que ensinavam a sua doutrina, também nós temos mestres e professores nas sinagogas, que sabem responder a todas as coisas da lei de Moisés”. A sentença só podia ser a condenação à morte, sendo queimado na fogueira do auto-de-fé celebrado no Terreiro do Paço em 10 de Abril de 1682.
António Júlio Andrade

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 27


Francisco Lopes Pereira. Ao findar do mês de Fevereiro de 1651, mais de 100 pessoas foram presas em Mogadouro e levadas para as masmorras da inquisição de Coimbra. Um dos prisioneiros chamava-se Francisco Lopes Pereira. Contava uns 34 anos de idade e era casado com Maria Dias, que lhe dera já dois filhos (Gaspar e Manuel) e lhe haveria de dar uma filha – Beatriz. A estadia na cadeia foi relativamente curta, já que saiu penitenciado no auto de fé realizado em 14 de Abril de 1652.
Regressado a Mogadouro, Francisco Lopes Pereira viu um primo seu e muito amigo ser assassinado por andar metido em ilícitos amores com uma mulher casada que tinha o marido em Castela. E um irmão e um cunhado desta foram os autores do assassínio. Francisco Lopes jurou vingar-se e logo se meteu a caminho de Lisboa onde procurou advogados e requereu justiça. Decorreu o processo, sendo os autores julgados e condenados à morte, embora à revelia, pois que, entretanto, se tinham voltado a abalar para Castela. Com a sentença na mão, Francisco fez erguer na praça de Mogadouro uma forca e ali pendurar dois bonecos de palha, simulando os assassinos, ao menos para que a memória do crime perdurasse. E por muito tempo ali ficou a forca e os enforcados.
Depois disso, Francisco pegou na mulher e nos filhos e foi-se também para Castela, assentando em Madrid, no estanco do tabaco. E logo no ano seguinte arrematou o monopólio da venda do mesmo produto na região de Granada, conseguindo amealhar boa fortuna. E chegado aos anos de 1660, Francisco Lopes conseguiu mesmo arrematar a cobrança dos “Milhones”, as rendas reais, na dita região.
E quando tudo parecia correr da melhor maneira, Francisco e Maria foram presos pela inquisição. Particularmente interessante para se escrever a história desta família de marranos de Mogadouro é o processo de Maria Dias, nomeadamente as suas “contraditas”, que, anos depois, foram copiadas e enviadas para a inquisição de Lisboa e juntas ao processo de seu filho Gaspar. E assim ficamos a saber que com a ascensão económica, a família procurou também a promoção social, começando pela adopção de novos sobrenomes. Assim, ela passou a chamar-se D. Maria del Angel e os filhos passaram a nomear-se Gaspar de Aguilar e Manuel de Aguilar, enquanto a filha, nascida já em Espanha se dizia Beatriz del Angel e casava com D. Pedro Maldonado de Medina. Da descendência de Francisco será o famoso Barão de Aguilar.
António J. Andrade
 
 
 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 26

TORRE DE MONCORVO
Manuel Rodrigues Isidro. Porventura nunca em Torre de Moncorvo se assistiu a uma tão intensa luta política como nos anos de 1600. As forças em presença podemos seguramente designá-las de “partido dos marranos” e “partido da inquisição”. A liderar o partido dos marranos encontrava-se Manuel Rodrigues Isidro. E a luta ganhou tal intensidade que incluiu processos judiciais, assassinatos políticos, arruaças sem conta e cenas de pancadaria. Uma dessas cenas desenrolou-se no dia 17 de Maio de 1599 na Rua dos Sapateiros, à porta de Manuel Rodrigues Isidro que dela saiu com o dedo de uma das mãos decepado e possivelmente ali perderia a vida se não fosse tão lesto a recolher-se em casa, com a preciosa ajuda dos familiares. Outro episódio desenrolou-se em Madrid onde um fidalgo cavaleiro Moncorvense da ordem de São Tiago e líder do tal “partido da inquisição” assassinou um cunhado de Manuel Isidro. E destes e doutros episódios resultou a prisão de uns 9 homens das famílias mais nobres de Torre de Moncorvo, incluindo o presidente e os vereadores da câmara, assim como um familiar da inquisição. Presos com “baraço e pregão”, que o mesmo é dizer que foram presos e passeados pelas ruas da vila com uma corda atada ao pescoço, acabando alguns desterrados para o Brasil e outros para o couto de Castro Marim. Claro que, pertencendo eles a famílias poderosas, tinham muitos amigos nas altas esferas do poder e juravam que a vingança haveria de ser terrível. E que melhor palco havia para executar a vingança do que o tribunal da inquisição? Não eram as suas escuras e húmidas masmorras bem mais difíceis de suportar do que quantos desterros havia?
No regresso de uma viagem por Madrid e Lisboa passando em Coimbra, a caminho de Torre de Moncorvo, no dia 1º de Dezembro de 1618, Manuel Rodrigues Isidro fo efectivamente preso pela inquisição, acusado de se ter declarado seguidor da crença judaica, segundo tinha declarado uma testemunha. Nada se provou e, passados 5 anos, foi posto em liberdade sem que lhe tivesse sido decretada qualquer punição e sem comparecer em qualquer auto de fé! E isto nos convence ainda mais que se tratou de uma prisão baseada em razões políticas e não religiosas. Devolvido à liberdade, não mais voltaria a Torre de Moncorvo e nem sequer se demorou em Portugal. Antes se meteu a caminho da Flandres e foi tomar residência na cidade de Amesterdão onde se fez circuncidar e abraçou abertamente a lei judaica tomando o nome hebreu de Isaac Baruch. Halévy informa que depois ele se passou à Alemanha fixando residência na cidade de Hamburgo e ali terá sido um dos 20 fundadores do primeiro banco que houve no mundo. O mesmo biógrafo alemão transcreve os dizeres da sua lápide sepulcral encontrada no cemitério judaico de Hamburgo, nos seguintes termos: - Sepoltura do benaventurado y honrado Ymanoel Baruch. Faleceu a 6 fra 18 de Nisan. Ano de 5402. Sua alma goze da goria. Ou seja: faleceu em 18.4.1642.
Voltemos atrás, ao tempo de sua prisão. Manuel tinha então 43 anos e estava casado com Alda Cardoso e eram pais de 3 filhos e 7 filhas. Era dono de muitos bens de raiz: 4 ou 5 casas e várias propriedades agrícolas em torre de Moncorvo, destacando-se uma formosa parcela de terreno atrás das casas conhecido por Olival das Bolas, com seu monumental chafariz de horta. Tinha também olivais por longes terras como era um na vila de Lamas de Orelhão, para lá de Mirandela. E era o dono da Quinta de Meireles (hoje uma freguesia do termo de Vila Flor) que trazia arrendada por uma dezena de lavradores que em cada ano lhe pagavam 315 alqueires de pão e trigo, 7 galinhas e 4 carneiros. E tinha tulhas em muitas terras de Trás-os-Montes pois ele era rendeiro da Comenda de Mascarenhas e trazia arrendadas as Terças de toda a comarca de Torre de Moncorvo que abrangia uns 26 concelhos de Trás-os-Montes e Alto Douro. Sim, que a sua profissão era a de rendeiro. Mas tinha também interesses no porto e em Madrid, trabalhando com os irmãos, especialmente com Vasco Pires Isidro, em uma rede familiar de negócios. Por isso mesmo que Markus Schreiber coloca estes dois irmãos entre os “banqueiros do rei” de Espanha.
 António Júlio Andrade

domingo, 2 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 25

Vila Flor- 1939
Francisco Vaz Eminente. Um dos mais antigos documentos de legislação aduaneira dá pelo nome de “Convénio de Eminente”. Foi promulgado em Espanha em 1680 e vigorou naquele e em outros países europeus que depois o seguiram, até finais do século seguinte. Respeitava este monumentos legislativo à cobrança dos impostos sobre certas mercadorias estrangeiras que entravam no país. Por detrás do nome, encontra-se o homem que o concebeu, um homem trasmontano, sefardita e marrano que foi grande em Espanha, ali desempenhando o cargo de “Contador de Honor dél Tribunal de Contaduria” – algo que, em termos actuais, em Portugal, podemos grosseiramente comparar a juiz do tribunal de contas. Eminente era a alcunha herdada da família, uma família que em Vila Flor seria isso mesmo: eminente. O nome era Francisco Vaz. Para além das suas actividades de rendeiro, “asientista” e “banqueiro” do rei de Espanha, sabemos que Francisco Vaz casou em Sevilha com Violante Ribeira, por 1653 e tendo ficado viúvo, casou de novo, em Madrid, com Josefa Salazar. Uma e outra pertenciam a ricas famílias de mercadores fugidos de Portugal por causa da inquisição. E em 1689, também o “Contador” Francisco Vaz Eminente foi preso pela inquisição de Madrid, com sequestro de seus bens, que eram imensos. Voltemos a Vila Flor para dizer que o primeiro que tomou a alcunha de Eminente foi também um Francisco Vaz (seu avô?), que ali nasceu por 1560 e ali faleceu antes de 1620. Foi casado com uma Isabel Pereira, a qual foi presa em 1638, contando já 84 anos de idade. Foi penitenciada em 1640 juntamente com duas filhas e uma nora, mulher do “Eminente Lopo Vaz” que também estagiou nas masmorras da inquisição de Coimbra entre 1620 e 1625.
António Júlio Andrade

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 24


Luís de Carvajal, o Moço. Um sobrinho de D. Luís de Carvajal y la Cueva, filho de sua irmã Francisca Nunes de Carvajal e de seu marido Francisco Rodrigues de Matos, recebeu o nome do tio. Por isso ficou conhecido por Luís de Carvajal, o Moço, enquanto aquele é apelidado de o Conquistador. Tal como a mãe, já viúva, e todos os seus irmãos e irmãs, embarcou com o tio na aventura colonizadora em terras mexicanas. E com o tio, a mãe e os irmãos foi preso pela Inquisição e saiu condenado em penas espirituais no auto de fé realizado na cidade do México em 25 de Fevereiro de 1590. Mas isso não o fez mais cristão, antes pelo contrário. Espírito brilhante e profundamente religioso, era tido como um farol da fé, irradiando a luz da sabedoria, razão por que foi apelidado de Lumbroso. Luís apresentava-se publicamente como judeu e criticava os seus familiares e amigos por terem um comportamento exterior católico e esconderem as suas convicções judaicas. E sempre procurava catequizá-los na lei de Moisés. Foi novamente preso e morreu afirmando o seu judaísmo no auto de fé celebrado em 8 de Dezembro de 1596. Por isso mesmo é considerado um dos mártires do judaísmo. O padre Contreras que o acompanhou até ao último momento, daria dele o seguinte e eloquente testemunho:
- Foi sempre tão bom judeu, conciliou o seu conhecimento, que era muito profundo e de grande sensibilidade, com a sua fé, o que fez dele um grande lutador e intransigente defensor da sua fé. Não tenho dúvidas de que, se tivesse vivido antes da encarnação de Cristo Redentor, ele teria sido um herói e o seu nome teria ficado célebre na Bíblia, como o nome daqueles que morreram em defesa da fé.
Na vila de Mogadouro, de onde era originário, que bem ficaria uma simples placa em sua recordação, nela se escrevendo o seguinte poema de Shumamith Chavaheveley:

El Lumbroso.

Naquela noite estava tão radiante,

Que mal se podia ver pela luz que emitia.

Agora na incandescente aurora,

Estou exposto diante do teu olhar

Sem esperança.

A fogueira está alta bastante,

Para que possa ver o meu anjo chorar.

Padre Contreras frágil e vulnerável

Murmura: - Porquê?

Ouçam as chamas crepitar,

Escutem os seus lamentos.

A minha carne arde no fogo.

Juntos testemunhamos

A sua transformação em cinzas.

Juntos vemo-las voar,

Tu e eu, como dançamos,

Cada vez mais perto as chamas,

Para a minha carne

Para a minha morte.

A sua velha alma sabe

Que eu não podia morrer.

Mas o espírito é jovem,

Ainda não pode ler os sinais do céu.

Preso ao meu rasto,

Protegido por mim,

Ficaste em oração

Para que a luz em que me tornei

Te ilumine.

O meu coração eleva-se,

Transportado nos seus sonhos.

Quatrocentos anos no abismo

Não podem apagar a marca.

As nossas memórias chamam,

Posso ainda abraçar,

Posso ainda entrar em ti,

Respirar a minha eternidade

Em tua alma pura.

 António Júlio Andrade

 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 23

André Nunes. Nasceu em Torre de Moncorvo por 1518. Estudou em Salamanca, tendo-se licenciado em cânones. Por mais de 40 anos foi o advogado de mais prestígio na comarca de Torre de Moncorvo onde trabalhou com muitos corregedores e com eles despachou causas por metade da província de Trás-os-Montes. E representou nos foros judiciais pessoas ou instituições tão importantes como o arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o conde de Sampaio ou o marquês de Távora. Homem público, concorreu à eleição para o cargo de provedor da misericórdia de Torre de Moncorvo e terá sido, na área da comarca, o “mandatário” de D. António, prior do Crato na sua “campanha” para a nomeação como Rei de Portugal. E isso lhe terá granjeado muitas inimizades e vinganças políticas por parte do regime saído da nomeação de Filipe II de Espanha para o trono de Portugal, regime que albergava todos os familiares da inquisição. De tal modo que, na sequência de informações recolhidas em torre de Moncorvo e Vila Flor pelo abade desta última terra e inquisidor de Évora (dr. Jerónimo de Sousa) e mandadas para Coimbra, a inquisição fez prender o dr. André Nunes, os irmãos, as filhas e os genros. E a mulher, apesar de morta e enterrada há anos, foi também alvo de um processo, para que a memória dela ficasse também assinalada com o ferrete de judia. Uma filha e um genro (Luís Álvares da Silva, médico) foram presos em Viana do castelo, terra para onde mudaram sua residência à época da “campanha” para a nomeação do rei de Portugal e à derrota do Prior do Crato. Curiosamente, por ali andou o escondido em conventos de frades e freiras, o malogrado pretendente, antes da sua fuga para o estrangeiro. E também curiosamente foi a um convento de Viana do Castelo se recolheu frei Bartolomeu dos Mártires que, nomeio daqueles acontecimentos políticos e por sua causa, renunciou ao cargo de arcebispo de Braga e o depositou nas mãos do novo rei. O outro genro de André Nunes era irmão do médico Luís Álvares e chamou-se Francisco Rodrigues da Silva. Era um jovem advogado mas já com nome feito. Acabou queimado nas fogueiras da inquisição. A atestar o carácter político desta perseguição inquisitorial, estes advogados, em nome da comunidade hebreia de Torre de Moncorvo, apresentaram uma longa e bem fundada exposição. E um dos argumentos era o seguinte: - Sempre o senhor arcebispo de Braga visitou esta terra, de 2 em 2 anos. A última visita foi o ano passado. Nessas visitas sempre procurou saber se havia “judeus” na terra e lançava excomunhão sobre as pessoas que tivessem conhecimento de alguma prática judaica e não a denunciassem. E ninguém se apresentou a fazer qualquer denúncia desse género. Como é possível que, um ano depois, venha o abade de Vila Flor e descubra e mande prender 36 pessoas em Torre de Moncorvo, sob a acusação de judaísmo? Das duas uma: ou as pessoas que agora juram o fazem com falsidade, ou andaram durante toda a vida a enganar os seus confessores e o reverendo arcebispo, o que equivale a perjúrio e consequente excomunhão da igreja católica... Nem com argumentos desta natureza os inquisidores se deixaram convencer… Na Casa da Memória de Torre de Moncorvo o dr. André Nunes bem merece figurar da galeria dos grandes advogados e homens de leis e o nome do dr. Francisco Rodrigues da Silva ser escrito em monumento a construir dedicado às vítimas da inquisição, juntamente com o de sua sogra, Leonor da Mesquita, cujos ossos foram desenterrados e levados de Torre de Moncorvo para Coimbra para serem queimados com a sua “estátua” nas fogueiras da inquisição.
António Júlio Andrade

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 22

Bragança -2010.A.F.F.M.
Manuel de Almeida Castro. Nasceu em Bragança por 1572, sendo filho de António Lopes de Castro e Leonor Almeida. Teve 5 irmãos e todos eles ganharam relevância, em termos de poder económico e prestígio social. Na aldeia de Izeda fixou residência o casal constituído por Manuel de Almeida e Filipa Henriques, esta originária de Torre de Moncorvo, de uma família extremamente rica e poderosa. Filipa e Manuel tiveram 4 filhos e 3 filhas, uma das quais se chamou Serafina de Almeida e foi casada com o contratador e banqueiro na corte de Madrid, Fernando Montesinos. Se bem que morasse em Izeda, Manuel possuía bens de raiz em várias outras aldeias dos arredores, como eram: umas casas e umas oliveiras em Lagoa de Morais, uma vinha em Pinela, um lameiro no Zoio, uma quinta em Aveleira, terras e lameiros em Santo Estêvão, tulhas em Calvelhe, Paradinha e Pombares. Estas tulhas serviam para recolha dos cereais provenientes das rendas que ele arrematava das comendas ou das igrejas. E isso o coloca na prestigiada classe dos rendeiros. Para se fazer uma ideia da capacidade agrícola deste homem, bastará referir que tinha uns 100 bois de serviço. No que respeita a indústrias, diremos que ele tinha dois moinhos, um no ribeiro do Azibo e outro no rio Sabor. Em 1618, Manuel de Almeida castro foi denunciado à inquisição de Coimbra, mas ele, entretanto, certamente desconfiado da prisão de dois amigos que o haveriam de denunciar, meteu-se a caminho de Castela. Pouco adiantou pois que, em 1619, foi preso pela inquisição de Toledo, saindo sentenciado em penas em penas espirituais, em 1 de Fevereiro de 1620. Regressou a Izeda e ali vivei mais 20 anos em sossego. Até que, em 18.1.a639, foi de novo preso, pela inquisição de Coimbra, com base em denúncias de judaísmo feitas na inquisição de Cuenca – Espanha e enviadas para Portugal. As denúncias partiram de uma sua antiga criada. Revelaram-se pouco consistentes, pelo que os inquisidores ordenaram a sua libertação meio ano depois.
António Júlio Andrade

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 21

Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo ...
António Gabriel Pissarro. Pelos anos de 1747, na cidade de Bragança impunha-se uma florescente e laboriosa geração de cristãos-novos. Do ponto de vista da economia, nunca como então crescera o fabrico e o comércio das sedas, com a Rua Direita transformada em um autêntico formigueiro de micro e, pequenas unidades industriais, extraordinariamente competitivas e geradoras de riqueza. No seio dessa comunidade, brilhou a estrela de António Gabriel Pissarro. A ponto de um seu contemporâneo ter proferido o seguinte testemunho:
- Acorriam a ele como filhos a pai!
Nascido em 1716, era filho de Pedro Álvares Pissarro e Luzia Nunes, que ambos conheceram as prisões do santo ofício, sendo ele acusado de ser dogmatista e rabi. Em Bragança fez António os estudos preparatórios no colégio dos Jesuítas, posto o que ingressou na universidade de Coimbra onde se licenciou em direito. Regressado a Bragança, abriu um escritório de advogado, assim iniciando uma brilhante carreira.
Na terra, havia mais de uma dúzia de advogados e padres formados em cânones, que nesses tempos existia uma ligação muito grande entre as varas judiciais eclesiásticas e civis. E uma grande parte desses profissionais juntou-se na promoção de um processo perante o juiz de fora da cidade, visando impedir o dr. António Pissarro de exercer a sua profissão nos tribunais da comarca, baseados em argumentos de natureza ética. Parece que o instigador dessa demanda e da campanha de contestação ao dr. Pissarro foi o padre/advogado António Carlos Vilas Boas que tinha sido seu colega na universidade de Coimbra e em Bragança conseguiu o estratégico emprego de notário do fisco e do santo ofício, por ele passando o registo de todas as penhoras e confiscos de bens aos processados pela inquisição. Se bem que perdessem o processo no juízo de Bragança, os inimigos de Pissarro recorreram para a Relação do Porto, onde voltaram a perder e foram condenados a pagar as custas. E a aura do nosso advogado mais cresceu, medrando em paralelo as invejas e os ódios recalcados. E fatal seria que acabasse preso pela inquisição, acusado não apenas de práticas judaicas mas ainda de ser, tal como o pai, entretanto falecido, o rabi da sinagoga que os “judeus” de Bragança faziam em casa de António Rodrigues Gabriel, seu parente.
Não vamos aqui falar do seu processo. Apenas diremos que foram dois longos anos de sofrimento. E uma nota interessante: em sua defesa, acorreu o comissário da inquisição de Bragança, padre Morais Antas, que fez uma informação para Coimbra falando das invejas do padre Vilas Boas e outros e que a acusação partia apenas do facto de o dr. Pissarro ser de origem hebreia e não de qualquer infracção às leis da igreja.
Finalmente, refira-se que na família deste ilustre advogado de Bragança viria a nascer, em 1831, em St. Tomas, uma das Antilhas, um dos maiores pintores do século XIX, aquele a quem Henry Matisse chamava o “Moisés da pintura contemporânea” e acerca de quem Paul Cézanne dizia:
- Todos descendemos de Pissarro!
Estamos falando, naturalmente, de Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo que faleceu em Paris em 1903.
António Júlio Andrade

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 20

Torre de Moncorvo .Foto A.F.F.M.
Manuel Fernandes de Miranda. Nasceu em Torre de Moncorvo e foi para França, fugido da inquisição, instalando-se em Bordéus por 1650. Anos depois, em 1657, ele e o irmão José de Medina aparecem taxados entre os mais ricos mercadores sefarditas da cidade, cada um com 3 000 L. Não desprezando qualquer ramo de comércio, os seus investimentos dirigiram-se principalmente para os transportes marítimos. E os seus barcos tanto iam para a pesca da baleia e do bacalhau nos mares da Gronelândia, como para o Brasil e as Índias. E aparecem também no tráfico negreiro, sendo conhecidos dois contratos assinados por Manuel Fernandes. Um deles, datado de 8.12.1696, refere-se à compra e transporte de 500 “peças” da praça de S. João Baptista, na Costa da Guiné para o Suriname. O outro, datado de 3.12.1697, respeita ao transporte de 101 escravos de Angola para o Suriname, em preço de 201 florins por cabeça. Juntamente com outros mercadores sefarditas de Bordéus participou na empresa que teve a seu cargo a abertura de um canal de navegação pelo rio Garona, entre Bordéus e Toulouse, permanecendo depois na exploração dos transportes fluviais. Especializou-se mesmo no transporte de passageiros e mercadorias que, vindos do Norte ou atravessando os Pirinéus, se dirigiam para as partes do Mediterrâneo, nomeadamente Marselha, Roma e Livorno. Este fluxo migratório e turístico ganhou particular intensidade e fez multiplicar os lucros de Manuel Fernandes pelos anos de 1665, quando apareceu, no Médio Oriente, o falso messias Sabbatai Tsevi. Em simultâneo, abriu uma casa comercial em Toulouse, dirigida por seus filhos José e Jerónimo de Miranda, casa que vendia para os retalhistas de toda a região do Languedoc de França. Para além de mercador de grosso trato e armador de barcos, Manuel Fernandes de Miranda afirmou-se como um dos grandes banqueiros de Bordéus. Aliás, esta praça em breve se revelaria demasiado pequena para as suas ambições, pelo que, ao início da década de 1670, se transferiu para a grande metrópole que então era a cidade de Amesterdão. Ironia da história: tornou-se no principal cobrador de indemnizações pagas pelo governo de França às vítimas do célebre “auto de fé” de Toulouse em que se contou o seu sobrinho Manuel Nunes de Miranda.
António Júlio Andrade

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 19


Bragança, antigo  Colégio dos Jesuítas
Francisco Furtado de Mendonça. Nasceu em Bragança em 22 de Outubro de 1707, no seio de uma família cristã-nova com muita história dos tribunais da inquisição. História que ele e seus irmãos e outros mais parentes continuaram. O seu percurso académico começou em Bragança, no Colégio dos Jesuítas, onde fez os estudos elementares, filosofia e latim. Rumou a Coimbra em cuja universidade veio a licenciar-se em medicina. Regressou a Bragança e ali exerceu a profissão, sendo considerado médico “dos de melhor fama na cidade e vizinhança”, pelo que foi nomeado para “o partido da câmara e das religiões de frades e freiras e dos mais particulares da cidade e arrabaldes”. Mas foi como poeta cómico, autor e ensaiador de peças teatrais, que ele mais se distinguiu. Tais peças eram representadas em casas particulares, mas sobretudo nos conventos de frades e freiras que então existiam em Bragança. Em Abril de 1747, quando já tinha vários livros publicados e o nome inscrito nos manuais de história da literatura portuguesa, foi preso pela inquisição de Coimbra onde permaneceu negativo por mais de um ano. Foi depois transferido para Lisboa e ali resolveu-se a confessar que efectivamente fizera cerimónias judaicas e seguira a lei de Moisés, mas que estava arrependido e pedia perdão. Saiu condenado em penas espirituais no auto de fé de 16.11.1749.
António Júlio Andrade

domingo, 4 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 18

Execução de condenados pela Inquisição,
no Terreiro do Paço, em Lisboa (séc. XVIII)
isaac de Castro. Foi outro dos membros da família Tartas, filho de Cristóvão Luís e Isabel da Paz. Jovem brilhante, com uma carreira universitária de mérito, tinha pouco mais de 20 anos quando foi enviado de Amesterdão para o Brasil Holandês, com as credenciais de rabi. Feito prisioneiro dos Portugueses, foi entregue ao tribunal da inquisição de Lisboa que o condenou à morte, sendo queimado na fogueira do auto de 3 de Janeiro de 1648. É considerado um dos grandes mártires do judaísmo e dos sefarditas. Rezam as crónicas que, com as chamas crepitando em redor, ele cantava o “Shemah” – Escuta Israel o Único deus – a profissão de fé judaica, espécie de Credo dos cristãos. O rabi Menasseh bem Israel sobre ele escreveu no seu livro “Mikveh Israel”, publicado em Amesterdão em 1650, o seguinte texto:
Isakk de Castro Tartas, meu conhecido, jovem inteligente,versado em literatura grega e latina, partiu para Pernambuco, não sei por que destino, e lá ficou prisioneiro dos Portugueses, como se estivesse cercado de lobos carnívoros.Enviaram-no a Lisboa onde foi tiranicamente encarcerado
e queimado vivo, na idade de 24 anos, não devido a alguma traição que cometesse, de vez que defendeu o lugar, como era obrigado a fazer, sob lei militar,como faz o nosso povo naquela província onde,devido a sua fidelidade, lhe são enfiadas as mais altas prisões.Mas quem podia imaginar que tal coisa acontecesse,porque ele se recusou a crer noutro deus senão naquele que criou o céu e a terra?!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 17


David Castro Tartas. Por 1620, sentindo-se perseguidos pela inquisição, Cristóvão Luís de Castro e sua mulher Isabel da Paz, abandonaram a casa em Bragança e meteram-se por Espanha fora, indo “pousar” em Tartas, uma localidade próxima de Bayonne, à entrada de França. Ali lhe nasceram vários filhos, posto o que seguiram para Amesterdão, cidade onde aderiram abertamente ao judaísmo. Cristóvão tomou o nome de Abraão e Isabel o de Sara. Ao filho mais velho deram o nome de David. E toda a família passou a ser conhecida pelo sobrenome Tartas, exactamente por ali terem vivido. Logo que chegou à idade de trabalhar, David Tartas empregou-se na tipografia do famoso rabi Menasseh bem Israel, o líder religioso indiscutível da nação sefardita de Amesterdão. Em 1660, David comprou a tipografia que, aliás, ele já vinha dirigindo. E nela passaram a trabalhar também o seu irmão Jacob e o cunhado Samuel Teixeira. E foi então que a tipografia ganhou o maior prestígio, ficando conhecidas as suas edições do “Pentateuco” e dos “Sermões que pregaram os Doctos Ingenios do KK do Talmud Torah”. Porém, a maior glória desta tipografia foi alcançada com outra iniciativa – a impressão da “Gazeta de Amesterdão” entre 1675 e 1690, o primeiro jornal de negócios do mundo, onde se davam sobretudo informações sobre a chegada e partida de navios e cargas transportadas, do Brasil, das Antilhas, da Índia, de Espanha…
António Júlio Andrade

 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 16


Francisco Lopes Capadócia. Nasceu em Vila Real, por 1600.Era ainda pequeno quando ficou órfão de mãe e o pai o levou para Espanha, fixando-se em Medina de Rio Seco. Pelos 16 anos, Francisco foi enviado para Lisboa, certamente a estagiar em alguma casa comercial de algum parente ou sócio de negócios do pai. Por 1620 regressou a Espanha, dirigindo-se para Madrid, onde tinha outros parentes bem colocados nos negócios e com a categoria de rendeiros. Aliás, foi exactamente a trabalhar na cobrança das rendas que em Madrid se empregou. Por 1630, regressou a Portugal e foi casar em Portalegre, com Beatriz Mendes, envolvendo-se então nos arrendamentos do Priorado do Crato. Deve ter feito bons investimentos pois regressou a Madrid com bastante capital que utilizou emprestando a juros a particulares, nomeadamente membros da nobreza em dificuldades financeiras. Meteu-se também nos arrendamentos da Coroa, como fosse o fornecimento de géneros às tropas estacionadas em Ceuta e Tanger, no Norte de África. Enquanto isso, tinham-lhe nascido 2 filhos e 1 filha. Esta, de nome Joana, casou com Luís Fernandes, o Pato, também de Vila Real, membros de uma poderosa família de marranos, estabelecido em Madrid, também contratador de rendas. Em 1653 começou o calvário para Francisco Lopes, ao ser preso pela inquisição de Valladolid. Saiu reconciliado em 1655 mas, seguindo-se a prisão de seu filho Domingos e depois a da filha Joana, acabou denunciado por eles e foi novamente preso. Acabou por falecer na cadeia em Fevereiro de 1665.
António Júlio Andrade