domingo, 12 de maio de 2013
Descendem de judeus expulsos de Portugal no século XV. O Parlamento abriu-lhes a porta
Tornar-se português vai passar a ser também uma forma de
reparação da História. Uma história de espoliação com mais de 500 anos, mas que
Luciano Mordekhai Lopes e Yehonatan Elazar de Mota não esquecem, como também
não é esquecida por outros que são, como eles, descendentes dos judeus expulsos
de Portugal a partir do final do século XV.
Em Abril, por iniciativa do PS e do CDS, o Parlamento
português aprovou, por unanimidade, uma alteração à Lei da Nacionalidade com
vista a garantir que estes descendentes tenham direito a tornar-se portugueses
sem necessitarem, para tal, de requisitos exigidos a outros candidatos
(obrigação de residência no país há pelo menos seis anos e terem conhecimento
suficiente da língua portuguesa). Terão, contudo, de fazer prova da
"tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com
base em requisitos objectivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente
apelidos, idioma familiar e descendência".
Entre os judeus existem duas grandes comunidades que se
distinguem pela sua origem e ritos de cultos: os ashkenazis, que têm raízes na
Europa Central; e os sefarditas, que descendem dos judeus (espanhóis e
portugueses) que chegaram à Península Ibérica muito antes de existir Portugal e
que foram daqui expulsos a partir do final do século XV. Em Portugal, a ordem
de expulsão foi dada em 1496 por D. Manuel I: ou se convertiam ao cristianismo
ou tinham dez meses para abandonar o país.Quantas pessoas foram afectadas por
este edital é algo que não é possível saber, por não existirem dados seguros
sobre o número de judeus que então viviam em Portugal, afirmam ao PÚBLICO os
historiadores José Tavim e Florbela Frade. Sabe-se, isso sim, que o seu número
aumentara substancialmente com a chegada dos judeus expulsos de Espanha em 1492
por ordem dos reis católicos e que encontraram um porto de abrigo em Portugal,
mas apenas por quatro anos, já que também eles se encontravam abrangidos pelo
édito de D. Manuel I.Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de
Lisboa, prevê que não vá ser tarefa fácil "comprovar a descendência
sefardita portuguesa após séculos de dispersão e, muitas vezes, de mudança de
nome devido às conversões forçadas". Mas Luciano Lopes e Yehonatan Elazar
não têm dúvidas quanto às suas raízes e confirmaram ao PÚBLICO que, na
sequência da alteração aprovada pelo Parlamento, irão requerer a nacionalidade
portuguesa."Por uma questão de justiça, porque se trata simplesmente de
devolver algo que muitas pessoas perderam sem que essa fosse a sua
vontade", explica por email Luciano Lopes, um rabi de 39 anos, nascido em
São Paulo, no Brasil, residente na Florida, e que conheceu Portugal em jovem e
voltou várias vezes depois.Ele foi, aliás, um dos peões determinantes para a
mudança da lei. Durante 13 anos tentou em vão obter informações sobre a
possibilidade de obter a nacionalidade junto de cônsules portugueses em
Vancôver, Paris, Telavive e São Paulo. Em 2010, depois de ter formado, com
outros descendentes, uma comissão de "judeus sefarditas portugueses no
estrangeiro", iniciou contactos com deputados do CDS e do PS, levando-os a
interessar-se pelo desejo que expressaram - o de recuperarem a nacionalidade
que fora retirada à força aos seus antepassados.
"Talvez o próximo lugar seja Portugal. Veremos,
pá!" A frase escrita em português é já uma ponte e é com ela que Yehonatan
Elazar termina a resposta em inglês que enviou ao PÚBLICO via Facebook.
Yehonatan, 32 anos, saxofonista de jazz e rabi, nasceu em Miami e descende dos judeus
que viviam há séculos no espaço que se tornou Portugal e daqueles que aqui
chegaram expulsos de Espanha. É o que conta a partir de Santo Domingo, na República
Dominicana, onde dirige um centro de estudos religiosos (Beth Midrash).
"Seguimos o ritual judaico português, facto que nos orgulha", relata,
acrescentando que "muitos dos fiéis desejam agora obter a nacionalidade
espanhola ou portuguesa".
Em Espanha, a possibilidade de conceder a nacionalidade a
descendentes dos judeus expulsos foi aprovada em 2006 desde que se comprovem
existir, em relação ao candidato, "circunstâncias excepcionais". Os
pedidos são apreciados pelo Governo e, até 2012, foram aprovados 779, tendo
sido considerado a seu favor o facto de não terem perdido voluntariamente a
nacionalidade e de terem mantido "a língua e cultura espanhola ao longo
dos séculos".
Sinais de pertença
No caso dos descendentes dos judeus portugueses, Luciano
Lopes, que tem com a mulher uma pequena empresa do ramo alimentar, lembra, por
exemplo, que uma das tradições que se mantêm "é a do uso de palavras ou
frases em português nos serviços religiosos na sinagoga, mesmo por quem não
fale o idioma, e a preservação dos sobrenomes".
José Tavim refere que foram os judeus em fuga de Portugal
que estiveram na origem, "a partir do século XVII, das comunidades ditas
portuguesas de Amesterdão, Hamburgo e Londres e hispano-portuguesas de cidades
do Sul da França como Saint-Jean-de-Luz, Bayonne, Bordéus, onde o português foi
falado como em Portugal".
"É significativo que estes judeus, quando se fixaram em
Antuérpia, Amesterdão, Hamburgo e Londres, tenham adoptado como designativo
para a sua comunidade "Nação Portuguesa" e que existam comunidades
chamadas Portugal ou Portugali em Monastir [Tunísia] ou Salónica
[Grécia]", frisa Florbela Frade.
"Um gesto simbólico"
Quando soube da decisão do Parlamento português, houve
várias perguntas que assaltaram Yehonatan Elazar. Questões como esta: "Por
que é que Portugal nos quer conceder a nacionalidade agora, cinco séculos
depois de nos ter confiscado os nossos bens e de nos ter forçado à
conversão?" Conta que a mãe, Modesta Lara, vê este gesto como um pedido de
desculpa pelo passado, o que a alegra, embora considere que os dirigentes
portugueses actuais não são responsáveis pelo mal feito aos seus antepassados.
Seja como for, acrescenta, "ela diz que não lhe será possível abandonar a
sua vida nos EUA para começar agora outra em Portugal". Quanto a
Yehonatan, irá requerer a nacionalidade portuguesa "por causa do
significado histórico" que tem para ele.
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Aplausos para esta medida legislativa. Agora é preciso que os municípios e as regiões se empenhem na oferta de razões que levem os "novos portugueses" a procurar a terra de seus ascendentes. Falo, em concreto dos descendentes dos "marranos" de Tras-os-Montes que fugiram da inquisição para se tornarem lá fora "judeus novos". J. Andrade
ResponderEliminarNão são novos nem velhos, são simplesmente Portugueses, como eu e a minha familia
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