sexta-feira, 9 de novembro de 2012

TORRE DE MONCORVO – TURISMO CULTURAL - ROTA DOS JUDEUS


O património de uma terra é constituído não apenas pelos monumentos de arqueologia e de arquitetura, mas também pelas artes tradicionais, culinária, costumes… e muito especialmente pelos homens, pelas gerações e gerações de homens e mulheres que       nela habitaram e deixaram em herança um outro património, ainda mais valioso – o património genético.
E quem, entre nós, poderá dizer que em suas veias não corre uma gota de sangue judeu? Parafraseando Jorge Luís Borges, diremos:
      Nada ou muy poco sé de mis mayores
    Portugueses, los marranos: vaga gente
    Que prosigue en mi carne, oscuramente
   Sus hábitos, rigores e temores.

Sem dúvida que a herança judaica e marrana é muito forte em Torre de Moncorvo. E nós não podemos desprezar esse património. Trata-se de um ato de respeito por nós próprios e de gratidão pelos nossos antepassados.
E é também um património cultural que devemos promover, com vista ao fomento do turismo. E foi também com esse objetivo que nós escrevemos este livro e nele incluímos uma espécie de Rota dos Judeus. Vamos percorrê-la:
1. A Casa da Sinagoga

. Até 1496 os judeus viviam em Torre de Moncorvo separados dos cristãos, num arruamento próprio a que chamavam judiaria e que em Torre de Moncorvo se situava nas traseiras da igreja da Misericórdia. E por esse espaço pagavam uma renda que os reis de Portugal concessionaram aos Senhores de Sampaio. Depois que a religião judaica foi proibida, as judiarias extintas e as sinagogas encerradas, aquele espaço tomou o nome de Rua Nova. Nessa rua ainda hoje existe uma casa daqueles tempos que a tradição popular sempre identificou como sendo a sinagoga dos judeus.
 2. A Casa da Inquisição
 
                                             
. Chamam-lhe a casa da inquisição por nela ficarem instalados os inquisidores e os comissários do santo ofício quando se deslocavam a Torre de Moncorvo em visitação, a inquirir testemunhas, fazer devassas e outras diligências. É Também conhecida por Casa dos Jesuítas pois que na fachada principal ostenta o emblema desta ordem religiosa, esculpido em pedra de granito. Porventura terá em tempos funcionado como colégio onde os frades daquela ordem e responsáveis pela reitoria da igreja matriz ensinavam gramática, filosofia e latim.
  3. A Casa dos Navarros
 
 
Ao findar do primeiro quartel do século XX, foi lançada, a partir do Porto, pelo capitão Barros Basto, a chamada Obra do Resgate, com o objetivo de promover o regresso dos marranos ao judaísmo. Tal movimento teve particular desenvolvimento na região de Trás-os-Montes e também na vila de Torre de Moncorvo. E seria no rés do chão da casa da família Navarro, ao Rossio, que a comunidade judaica se reunia em sinagoga, razão por que também lhe chamam,a sinagoga nova
4. A Casa da Pelicana 
 

É assim conhecida esta casa sita na rua do Prior do Crato, porque nela terá nascido Violante Gomes, a Pelicana, de alcunha, a qual foi mãe de D. António, o malogrado pretendente ao trono de Portugal. Acerca do assunto, escreveu Carvalho da Costa, em 1706, que “ainda de presente se apontam as casas em que nasceu e se conhecem pessoas que lhe são conjuntas em sangue”. A alcunha de Pelicana tê-la-á ganho pelo facto de usar um lenço na cabeça com a pintura daquela ave mítica para judeus e marranos
    5. A Igreja da Misericórdia
  
Vasco Pires do castelo, cristão-novo preso pela inquisição de Lisboa “foi o recebedor do dinheiro que se dava de esmola quando se fez a casa da misericórdia”, por meados do século XVI, conforme contou aos inquisidores. E o dr. André Nunes, advogado, igualmente prisioneiro da inquisição, terá sido um dos primeiros provedores daquela santa casa. E seria também o líder do movimento de apoio ao prior do Carto para Rei de Portugal, na área da comarca de Torre de Moncorvo, razões por que incluímos esta edificação na Rota dos Judeus, no traçado urbano da vila.
 6. A Rua dos Sapateiros
 
. Rua de S. Bartolomeu ou Rua dos Sapateiros? O mesmo arruamento aparece com os dois nomes. Seria o primeiro mais antigo e terá cedido lugar ao segundo, devido à concentração de sapateiros e curtidores de couros naquela rua? Facto é que, pelos anos de 600, a Rua dos Sapateiros era praticamente toda povoada por gente da nação. E Manuel Rodrigues Isidro teria a maior e mais opulenta casa da rua, recebida em dote de casamento, avaliada em 200 mil réis. Seria aquela mesma casa que dois séculos e meio depois, foi adquirida por D. Antónia Adelaide Ferreira, “o melhor solar de Moncorvo”, destruída por um incêndio em 1904?
 7. O Tríptico da Santa Parentela
 
. Manuel Rodrigues Isidro, um destacado mercador Portuense, era também um dos grandes importadores nacionais de arte da Flandres. Quando foi preso, tinha em armazém 18 ou 24 (ele não sabia ao certo) painéis de madeira importados de Bruxelas. Terá sido por seu intermédio que o famoso tríptico da santa parentela veio para a igreja matriz de Torre de Moncorvo? Não sabemos. Mas temos informação que o mercador Pero Henriques Julião, antes e 1618, “à sua custa, em um retábulo que se fez na igreja matriz de Torre de Moncorvo no altar de nossa senhora do Rosário, mandou fazer um painel do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo”. Por estas e outras muitas razões, pensamos que o dinheiro dos marranos foi de fundamental importância para a construção do grandioso templo e aquisição do seu mobiliário e por ele deve, naturalmente, passar a Rota dos Judeus
8. A Praça do Município
 
 

Espaço comercial por excelência, a praça do município apresentava-se em Torre de Moncorvo, como o espaço mais desejado por judeus e marranos para a realização de feira. O caso terá mesmo originado uma luta política entre o poder municipal e os mercadores judeus liderados por Juça Marcos, rendeiro do almoxarifado de Torre de Moncorvo, reivindicando estes que a feira se fizesse na praça e os vereadores dentro das muralhas da vila. Além de que, a generalidade das lojas comerciais em redor da praça pertenciam a mercadores da nação hebreia. E sabemos também onde eras as casas da doceira e do ferrador, por 1640, ambos daquela gente, em lugar estratégico da praça.
 9. Cobrideiras de Amêndoa
                                      
 
Da culinária judaica e marrana é farta a herança e variada, nomeadamente ao nível das iguarias. E muito em particular, a doçaria E nenhuma é mais típica e genuína do que as celebradas amêndoas cobertas de Torre de Moncorvo. E também temos fortes indícios de que os chamados canelões de Moncorvo, especialmente confecionados para os casamentos, serão outra especialidade herdada da doçaria judaica e marrana. E facto é também que hoje, nas pastelarias de Torre de Moncorvo continuam a fabricar-se bolos de amêndoa e farinha em tudo iguais aos fartéis que os descobridores portugueses ofereceram aos indígenas na chegada ao Brasil e eles aprenderam a fazer e também continuam com idêntica receita.
10. Chafariz de Horta.
 
 
Bordejando a vila de Torre de Moncorvo, pelo nascente, a Quinta do Montezinho e o Olival das Bolas constituíam, no século XVII, um complexo agrícola muito interessante. E o chafariz que se apresenta terá sido construído pela família de Manuel Rodrigues Pereira e para além de regar aquele mimoso pedaço de terra, alimentava um lagar de azeite, o primeiro de que há notícia nesta terra. E tudo era propriedade da industriosa gente da nação hebreia.
  11. O Lagar da Cera de Felgueiras
 
 
A Rota dos Judeus deverá prosseguir pelas aldeias do termo, que em várias existem marcas judaicas. Provado está também que os marranos dominavam a indústria moageira e de panificação no concelho de Torre de Moncorvo, sendo proprietários da maioria dos moinhos existentes na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho). O mesmo na indústria da tecelagem do linho e da seda, ou do fabrico do sabão. E o lagar da cera de Felgueiras é o testemunho vivo dessa gente que herdou dos almocreves marranos o conhecimento dos trilhos mercantis de Trás-os-Montes e das Beiras e os manteve transitáveis até aos nossos tempos.
Bem vindos a Torre de Moncorvo!
 
In  OS ISIDROS – A epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo. 

1 comentário:

  1. Moncorvo é tudo isso.. Riqueza, cultura e saudade. Minha querida vila de moncorvo, cada dia que passa te torna mais linda, e o teu cheiro perfuma cada recanto do mundo.


    ResponderEliminar